Conspiração 4.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 4823 palavras
Data: 24/01/2026 16:09:12

Acordei antes do chamado do carcereiro. Não porque dormi bem, isso já tinha deixado de ser uma possibilidade, mas porque meu corpo parecia ter entendido, antes da minha cabeça, que aquele dia seria diferente.

O estrado de arame fino da cama rangeu quando me sentei. Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer, o peso de uma decisão que já não cabia mais dentro de mim. Não era resignação. Era cálculo. Frio, duro, necessário.

Quando o carcereiro apareceu no corredor com meu café da manhã, aquele pão insosso, sem sabor, e o café fraco e morno, pedi para falar com o delegado.

Ele arqueou a sobrancelha, surpreso, mas não debochado. Ainda existia ali um resquício de respeito. Meu nome ainda significava alguma coisa naquele meio.

— Vou ver o que dá pra fazer. — Ele disse, antes de se afastar.

O delegado não era meu amigo. Nunca foi. Mas era do mesmo tipo que eu tinha tentado ser: avesso a corrupção, intolerante com malandragem, mais temido do que querido. A gente se cruzou algumas vezes no passado, sempre em lados diferentes da mesa, mas falando a mesma língua.

Quando ele apareceu, ficou alguns segundos me observando, em silêncio.

— O que você quer, Ricardo?

— Falar com minha família. Todos juntos. Meus pais, minha esposa e o Bruno. Pode me ajudar?

Ele estreitou os olhos.

— Isso tá com cara de despedida.

— Tá com cara de decisão. — Corrigi. — Depois disso, eu preciso falar com o senhor também. Mas com meu advogado presente.

O delegado respirou fundo. Pensou. Talvez estivesse pesando o regulamento contra a gentileza. Existia um código antigo e silencioso entre homens que já vestiram a mesma farda.

— Vou ceder uma sala maior. — Ele disse, por fim. — Uma vez só.

Agradeci com um aceno curto. Nada de sentimentalismo. Ele entenderia.

A sala era simples, mas espaçosa. Mesa comprida e poucas cadeiras. Impessoal demais para uma conversa que eu já sabia que ia doer.

Quando meus pais entraram, o impacto foi imediato. Minha mãe foi a primeira a me abraçar. Gentil como sempre para alguém tentando ser forte. Meu pai ficou logo atrás, sério, mandíbula travada, os olhos vermelhos sem pedir permissão.

Mariana entrou atrás deles. O olhar cansado, o rosto tenso, como se estivesse vivendo em suspensão desde a noite do crime. Bruno veio com ela, alguns passos atrás, postura contida, mãos nos bolsos, o sorriso fácil completamente ausente.

Esperei todos se sentarem.

— Eu pedi essa conversa porque tomei uma decisão. — Comecei, direto. — Vou mudar meu depoimento. Vou me declarar culpado.

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

— Não! — Minha mãe disse de imediato. — Não, Ricardo. Você não é culpado.

— Filho, isso é loucura. — Meu pai completou, a voz firme demais para quem estava prestes a perder o controle. — Você vai carregar um crime que não é seu?

Mariana balançava a cabeça, os olhos marejados.

— Você não pode fazer isso… — Ela murmurou. — Isso é injusto. É errado. Talvez a gente possa…

Ela foi interrompida pela mão do Bruno em seu ombro. Um gesto que eu interpretei como apoio, como uma ajuda para que o sentimentalismo parasse e eu pudesse terminar de falar.

Respirei fundo. Era exatamente por todos eles que eu precisava falar. Antes que alguém tentasse me salvar de uma decisão que já estava tomada.

— Não posso fingir que a realidade não existe, me iludir com uma suposta absolvição. — Respondi. — Tudo está contra mim. As imagens, os horários, a faca, o histórico com a vítima. Não existe inocência heróica quando o sistema já decidiu quem você é.

Meu pai bateu a mão na mesa.

— E você vai simplesmente aceitar?

— Eu vou escolher. — Expliquei. — Escolher a estratégia que me dá a melhor chance, o resultado menos pior. Que me mantém fora da cadeia por décadas. Sou réu primário. Ex-policial. Defendi minha esposa, minha própria vida, numa legítima defesa que passou do limite.

Me acalmei antes de prosseguir.

— É isso que eu tenho. É isso que dá para alegar.

Mariana levou a mão à boca, chorando em silêncio.

— Eu não consigo aceitar isso… — Disse ela. — Você não… jamais seria capaz… — Havia muita tristeza e uma culpa inexplicável em suas palavras.

— Eu sei. — Respondi, mais baixo. — Mas não é sobre aceitar. É sobre sobreviver. Passar por isso da melhor forma possível, no menor tempo.

Foi então que Bruno falou.

— Ele está certo.

Todos se viraram para ele.

— A gente tentou tudo. — Ele continuou, sério, sem a teatralidade de sempre. — Imagens, testemunhas, versões alternativas. Nada se sustenta. O caso já está fechado antes mesmo do julgamento.

Meu pai olhou para ele como se quisesse atravessá-lo com os olhos.

— Você devia ter feito mais.

— Ele fez. — Interrompi, firme. — Mais do que qualquer um. O Bruno entende a situação porque, assim como eu, conhece o que vem pela frente. Ele sabe que eu estou com a corda no pescoço.

Bruno assentiu, em silêncio.

— Isso não significa que eu ache justo. — Ele disse. — Que não vou continuar tentando ajudar o Ricardo.

Ele pausou por alguns segundos, organizando os pensamentos.

— Eu sei como esse jogo funciona. Ricardo também sabe. E, do jeito que está, essa é a única jogada que não termina com ele apodrecendo em uma cela por vinte anos.

Minha mãe voltou a me abraçar, como se quisesse me puxar de volta para algum tempo em que tudo ainda fazia sentido.

— Você sempre foi teimoso… — Ela sussurrou. — Sempre achou que podia carregar o mundo nas costas.

Talvez tivesse sido esse o meu maior erro.

— Eu só estou tentando carregar… o peso que eu consigo. — Respondi.

A conversa não terminou, ela apenas morreu no silêncio. Não havia consenso. Ou alternativa fácil e justa. Mas havia um entendimento silencioso de que aquela decisão já tinha sido tomada antes mesmo de ser dita em voz alta. E, assim que eles saíssem daquela sala, o próximo passo seria irrevogável. O jogo tinha mudado. E desde que tudo começou, eu não estava apenas reagindo. Eu estava jogando ativamente.

Ninguém parecia disposto a se levantar primeiro. O ar da sala estava pesado, denso, como se cada respiração precisasse de autorização.

Minha mãe foi a primeira a se mexer. Veio devagar, como se eu pudesse desaparecer se ela piscasse por um segundo a mais. Segurando meu rosto entre as mãos, do jeito que fazia quando eu era criança, quando um joelho ralado parecia o fim do mundo, ela disse:

— Seja forte, meu filho. Seja mais forte do que você sempre foi.

— Eu aprendi com você, mãe. — Respondi, tentando sorrir.

Ela me abraçou outra vez, forte demais para ser apenas um gesto de carinho. Meu pai se aproximou logo depois. Não me abraçou de imediato. Ficou alguns segundos me olhando, como se quisesse gravar cada detalhe.

— Você não é culpado. — Disse, baixo. — Nunca foi. E isso ninguém tira de você.

Assenti. Aquilo era o máximo de emoção que ele permitia a si mesmo.

Mariana estava perto da porta. Quietamente distante. Quando nossos olhares se cruzaram, foi como se o chão tivesse cedido um pouco sob meus pés.

— Fica firme. — Pedi, aproximando-me dela. — Por mim. Pelo que a gente construiu. Se precisar, pede ajuda. Meus pais, o Bruno… você não vai estar sozinha.

Ela segurou minhas mãos com força, como se tivesse medo de soltá-las.

— Eu vou estar aqui. — Ela disse, com os olhos marejados. — Todos os dias. Eu prometo.

Bruno se aproximou por último. Não havia piada, não havia encenação. Apenas cansaço e algo que eu não consegui decifrar de imediato.

— Obrigado. — Falei. — Por tudo. Pelo que você tentou fazer. Pelo que ainda vai fazer.

Ele balançou a cabeça, sério.

— Você faria o mesmo por mim.

— Faria, irmão. — Confirmei.

Eles já estavam quase saindo quando aconteceu: Mariana parou na porta. Hesitou. Então se virou de repente e voltou quase correndo. Me puxou pelo colarinho da camisa e me beijou com urgência, com desespero, como se aquele fosse o último ponto de contato possível entre dois mundos prestes a se separar.

Não foi delicado. Foi intenso. Necessário. Um beijo que dizia tudo o que não cabia em palavras.

Quando ela se afastou, estava chorando.

— Volta pra mim. — Ela implorou. — Do jeito que der.

Assenti, sem conseguir responder e ela saiu. Meus pais seguiram logo atrás. Bruno foi o último a cruzar a porta, lançando um último olhar na minha direção antes de fechá-la.

O silêncio durou apenas alguns segundos e a porta se abriu novamente. Era o meu advogado. Ele entrou com passos firmes, pasta debaixo do braço, expressão profissional demais para aquele cenário emocional ainda quente.

— Está pronto? — Ele perguntou, direto.

Endireitei os ombros e respirei fundo.

— Estou.

E, naquele momento, tive certeza de uma coisa: o que viesse a seguir não seria mais sobre justiça. Seria sobre resistência.

O advogado fechou a porta atrás de si com cuidado, como se quisesse conter o que ainda ecoava ali dentro. Colocou a pasta sobre a mesa, abriu com método, tirou alguns papéis, mas não os consultou de imediato.

— Antes de tudo. — Ele começou. — Preciso que você entenda uma coisa muito claramente.

Ele me encarou por cima dos óculos.

— A partir do momento em que você mudar o depoimento, não haverá mais volta. Não é um ajuste. É uma reinterpretação completa dos fatos. É uma confissão.

— Eu sei. — Concordei.

— Não. — Ele me corrigiu, mais sério. — Você acha que sabe. O que vamos fazer aqui não é dizer que você mentiu antes. É dizer que você não conseguiu narrar os fatos corretamente por estar em estado de choque. Isso é essencial.

Ele se aproximou um pouco mais da mesa.

— A tese é a seguinte: você chega em casa, encontra um homem que já perseguiu sua esposa, dentro da sua residência. Um ambiente que, juridicamente, é o último reduto de segurança do cidadão. Houve invasão. Houve ameaça concreta. Havia histórico, e o estado não conseguiu proteger a santidade do seu lar.

Ele fez uma pausa curta.

— Você tentou intervir. Houve confronto físico. Você entrou em estado de pânico. Não houve premeditação. Não houve intenção de matar. Houve excesso.

Meu estômago revirou.

— Excesso… ok! — Repeti.

— Excesso em legítima defesa. — Ele completou. — Isso muda tudo. Você não agiu para matar. Você agiu para cessar uma agressão que não parava. Você pediu proteção, recorreu aos órgãos competentes, tentou uma medida protetiva, nada foi capaz de pará-lo. A faca não foi uma escolha racional. Foi o que estava ao alcance.

Ele abriu um dos papéis.

— Réu primário. Bons antecedentes. Ex-policial. Histórico da vítima como perseguidor. Isso nos permite trabalhar com homicídio privilegiado, redução de pena e, dependendo da interpretação do juiz, até regime inicial aberto ou semiaberto.

Levantei os olhos.

— E se eu insistir que não fiz nada disso?

O advogado suspirou.

— A promotoria não vai te agradecer pela honestidade. Vai usar isso para te esmagar. As provas técnicas já contam uma história. O que estamos fazendo é encaixar você na história que já foi escrita, da forma menos destrutiva possível.

ele ficou alguns segundos em silêncio, então falou mais baixo:

— Você não está assumindo culpa moral. Está assumindo responsabilidade jurídica. São coisas diferentes.

Eu fechei os olhos por um instante.

— Certo.

— Quando entrarmos na sala. — o advogado continuou. — Você vai responder apenas o que lhe perguntarem. Sem drama, sem excessos. Não explique demais. Mantenha a emoção contida. Nada de discursos. Você estava em choque. Você tem lapsos. Você lembra de flashes.

Assenti de novo.

— Se perguntarem por que você pegou a faca…

— Eu digo que foi instinto. — Completei a fala dele.

— Exato. — Ele fez um gesto curto. — Instinto de sobrevivência. De proteção da família. Repita isso quantas vezes for necessário.

Ele fechou a pasta.

— Vamos. Eles já estão nos esperando.

Apenas atravessamos o corredor. A sala de depoimentos estava cheia demais para o que eu gostaria. O delegado sentado no centro, expressão neutra. Dois investigadores ao lado, atentos, canetas em mãos. Gravador ligado. Câmeras. Um escrivão pronto para documentar. Tudo funcionando.

Meu advogado se sentou ao meu lado.

— Vamos registrar uma retificação de depoimento. — Ele anunciou. — Meu cliente deseja complementar e esclarecer pontos anteriores, considerando seu estado emocional no momento da primeira oitiva.

O delegado assentiu.

— Fique à vontade. Nos conte exatamente do que você se lembra, Ricardo.

Respirei fundo. Uma… duas… três vezes.

— Na noite do ocorrido… — Comecei, sentindo a garganta secar. — Eu cheguei em casa e encontrei um homem que já havia perseguido minha esposa e eu, dentro da minha residência.

Um dos investigadores levantou os olhos.

— O senhor reconheceu a vítima imediatamente?

— Sim.

— O que o senhor sentiu?

Hesitei. O advogado tocou levemente meu braço.

— Surpresa. Depois medo. — Respondi. — Medo real. Ele já tinha nos ameaçado antes. Nada tinha funcionado para afastá-lo.

— Houve confronto?

— Houve. — Minha voz saiu mais baixa. — Eu tentei fazê-lo sair. Ele avançou. Eu entrei em pânico. Do corredor, fomos parar na cozinha…

— E a faca?

— Estava lá. Ao alcance da minha mão. Eu não pensei. Só… agi.

O delegado cruzou os dedos sobre a mesa.

— O senhor pretendia matá-lo?

Levantei o olhar devagar. Senti a garganta apertar antes da resposta.

— Não. — Balancei a cabeça. — Nunca foi essa a intenção. Eu só queria que ele parasse. Mas ele parecia fora de si. Selvagem, apenas avançando.

O investigador anotou algo. O silêncio me obrigou a continuar.

— Quando eu cheguei em casa, eu não vi um homem qualquer. — Acrescentei, mesmo contra a orientação do advogado sobre discursos. — Eu vi alguém que já tinha nos ameaçado antes. Que já tinha perseguido minha esposa. Que já tinha aparecido onde não devia. Mas ali… dentro da minha casa… eu não consegui pensar direito.

Respirei fundo, sentindo o peso de cada palavra.

— Eu tentei afastá-lo. Tentei fazer ele sair. Mas ele não recuou. Avançou. Eu entrei em pânico. Foi tudo muito rápido. Não houve planejamento. Não houve escolha consciente. Foi instinto.

O delegado manteve o olhar fixo em mim.

— Instinto? — Perguntou.

— De proteger. — Respondi. — Minha esposa. Minha casa. A mim mesmo.

Hesitei por um segundo, depois completei:

— Eu não continuei porque queria matar. Eu continuei porque, naquele momento, eu realmente acreditei que, se parasse, ele não pararia.

O silêncio se alongou mais uma vez. O delegado então cruzou os dedos sobre a mesa, e fez uma anotação lenta, cuidadosa.

— Fica registrado… — Ele disse, por fim. — O depoimento será anexado aos autos.

O gravador foi desligado. E, naquele instante, eu soube: a versão oficial da minha história tinha sido reescrita. Não porque era a verdade. Mas porque era a única forma de continuar existindo dentro dela.

Para a minha surpresa, Moraes, o delegado, sorriu para mim, satisfeito. Foi dele a iniciativa de encerrar o depoimento. Meu advogado apenas concordou, cutucando meu braço para que eu permanecesse quieto.

Após a leitura do documento contendo minha confissão, assinei com a mão trêmula, após a instrução do meu advogado.

Fui conduzido de volta à cela sem algemas, um detalhe pequeno, quase simbólico. O advogado caminhava ao meu lado e, antes de se afastar, lançou um olhar rápido, satisfeito, quase imperceptível. Ele não disse nada. Não precisava. Aquele olhar dizia tudo: você fez a escolha certa.

A porta se fechou atrás de mim com o mesmo som metálico de sempre. O mesmo espaço. A mesma solidão. Mas algo tinha mudado. Não era alívio. Era outra coisa. Um peso diferente, mais organizado. Mais frio.

Sentei no banco de concreto e apoiei os cotovelos nos joelhos, encarando o chão manchado. A estratégia estava definida. A versão oficial, construída. Mas a minha cabeça… essa não obedecia a roteiro nenhum.

E, como sempre acontecia quando eu ficava sozinho, o passado voltou. Voltou exatamente de onde tinha parado.

{…}

Sete anos atrás:

O banheiro ainda estava tomado pelo vapor quente. A porta fechada. O silêncio estranho que se seguiu à invasão daqueles dois. Eu ainda sentia o calor do corpo da Mariana encostado ao meu, mas agora havia algo entre nós. Invisível. Incômodo.

Ela respirava normalmente. Não parecia constrangida. Não parecia apressada. E aquilo me confundia mais do que qualquer palavra.

Tentei organizar os pensamentos, mas tudo vinha junto. A imagem dela exposta. O olhar curioso da Lívia. A naturalidade excessiva. As marcas que eu tinha visto mais cedo. Coxas. Nádegas. Pequenos sinais que, isolados, não significavam nada, mas que se empilhavam na minha cabeça como peças de um quebra-cabeça mal resolvido.

Eu não queria acusar. Não queria bancar o paranoico. Mas também não conseguia simplesmente ignorar.

— Mari… — Chamei, a voz mais baixa do que pretendia.

Ela virou o rosto para mim, tranquila demais.

— O quê?

Hesitei. Aquilo tudo era novo, confuso. Não era ciúme puro. Era algo mais amargo. Um misto de dúvida, decepção… e um começo de raiva que se deixada sem controle, iria me consumir.

— Tudo isso… os dois… — Comecei, mas parei. — Você não achou estranho?

Ela franziu a testa, como se realmente não entendesse do que eu estava falando.

— Estranho como?

Respirei fundo. Era pela falta de atitude de Mariana que tudo se embolava. Porque, no fundo, eu não sabia exatamente o que estava me incomodando. Só sabia que estava.

— Você não tentou se cobrir. — Eu disse, meio irritado. — Não pareceu… incomodada.

Ela me observou por alguns segundos, avaliando, medindo palavras.

— Foi só uma situação constrangedora. — Ela respondeu, num tom calmo. — Nada demais. Eles entraram sem querer.

“Nada demais”. As palavras ficaram ecoando na minha cabeça. Talvez fosse só aquilo mesmo. Talvez fosse coisa da minha cabeça. Talvez eu estivesse cansado demais, trabalhando demais, vendo problema onde não existia.

Era o segundo dia de festa na chácara e ainda estávamos no início da tarde. Um dia bonito demais para o estado em que eu estava.

Sol alto, risadas espalhadas pelo terreno, música baixa misturada ao som de copos e conversas cruzadas. Um daqueles dias que deveriam ser leves. Mas eu não estava ali por inteiro. Estava à margem.

Fiquei mais afastado, sentado numa das mesas de madeira perto do gramado, observando à distância. Mariana, Bruno e Lívia pareciam ter formado um pequeno universo próprio. Riam fácil, se tocavam sem perceber, circulavam juntos de um grupo para outro como se fossem uma unidade inseparável.

Mariana estava linda, radiante. Um vestido leve florido, comportado até. Cabelo solto, sem maquiagem, de chinelos, as unhas sempre bem feitas…

De tempos em tempos, alguém se aproximava de mim. Um primo distante perguntando sobre trabalho. Um amigo da família comentando o clima. Uma conversa qualquer, rasa, automática. Eu respondia no piloto automático, assentindo, sorrindo quando esperavam que eu sorrisse. Mas meus olhos sempre voltavam para eles. Sempre.

Não por ciúme explícito. Ainda não. Era algo mais sutil. Um deslocamento. Como se eu estivesse assistindo a uma cena da qual deveria fazer parte, mas não fazia. Era um mero coadjuvante no filme estrelado pelos três.

O pai do Bruno se sentou ao meu lado em algum momento. Não anunciou a presença. Apenas chegou. Ficamos alguns minutos em silêncio, olhando o movimento da festa. Ele estendeu uma cerveja na minha direção e eu aceitei. Bebemos em silêncio.

— Você ainda é muito novo pra viver só de trabalho. — Ele disse, de repente, sem me olhar. — Dizem que a vida é aquilo que acontece enquanto a gente está ocupado fazendo planos.

Aquilo me pegou desprevenido. Virei o rosto na direção dele, tentando entender onde queria chegar.

Ele continuou, calmo, quase casual:

— Seu casamento é recente. Sua esposa é jovem, cheia de energia, sonhos… — Ele fez uma pausa curta. — Não fique perdendo tempo, Ricardo.

Ele deu mais um gole na cerveja.

— Quando você percebe, duas décadas já passaram. E você vira só uma lembrança confortável na vida de alguém que seguiu em frente.

As palavras ficaram suspensas entre nós. Não como acusação. Como aviso.

Ele acrescentou:

— O Bruno, por exemplo, sabe que existe o momento do lazer, da descontração, de esquecer os problemas e focar no que realmente importa: família.

Ele se levantou logo em seguida, me deu uma piscadela discreta, dessas que dizem mais do que qualquer conselho explícito, e caminhou em direção a outro grupo de parentes animados, como se não tivesse acabado de plantar uma inquietação inteira dentro de mim.

Fiquei ali, parado. Quando pensei em me levantar, em ir até eles, em me enfiar no meio daquela conversa que já parecia antiga demais sem mim… foi tarde.

Os três se levantaram juntos. Vi quando caminharam em direção ao carro do Bruno. Nenhum deles olhou para trás. Mariana não me procurou com os olhos. Não houve aceno, aviso, explicação. Apenas entraram no carro. Portas fechadas. Motor ligado. E então saíram. Me deixando ali, abandonado, como se eu não fosse nada além de um conhecido qualquer.

Fiquei observando o carro desaparecer pela estrada de terra, com aquela sensação incômoda de quem foi deixado para trás. Não só fisicamente, mas emocionalmente.

Foi então que algo começou a mudar dentro de mim. Não uma certeza. Não uma acusação. Mas aquela dúvida persistente, silenciosa, que não faz barulho… só não vai mais embora.

No começo, tentei não dar importância. Disse a mim mesmo que era só uma volta rápida. Que já já eles estariam de volta. Que foram comprar mais bebida, buscar alguém ou alguma coisa. Que eu estava exagerando, deixando a cabeça criar coisas onde não havia nada.

Mas o tempo começou a se arrastar. Olhei para o relógio no pulso pela terceira vez em poucos minutos. Quinze minutos tinham passado. Depois vinte. Meia hora. A festa seguia ao redor — risadas, música, copos sendo enchidos — mas tudo soava distante, abafado, como se eu estivesse atrás de um vidro blindado.

Uma hora se passou. Peguei o celular e liguei para a Mariana. Chamou. Chamou de novo. Nada. Guardei o aparelho no bolso e caminhei até o quarto pensativo. Não era paranoia, eu repetia para mim mesmo. Era só conferir.

O celular dela estava lá. Sobre a cômoda, ao lado da bolsa. Tela apagada. Silencioso. Intocado. Senti um frio subir pela nuca.

Quase sem pensar, liguei para o Bruno. Ouvi o som de chamada no quarto ao lado. Girei a maçaneta devagar. O celular dele tocava ali dentro. O som ecoou no quarto vazio de um jeito que me apertou o peito. Dois celulares. Dois quartos. Nenhum deles com os donos.

Voltei para a área externa tentando parecer normal, mas agora o relógio parecia zombar de mim. Uma hora e meia. Duas horas. O céu escureceu de vez, as luzes da chácara foram acesas, e a festa ficou mais solta, mais barulhenta.

E eles… nada.

Três horas e o carro surgiu na estrada de terra. Meu estômago afundou. Não foi alívio. Foi antecipação.

Eles desceram rindo alto demais. Como se não tivessem sumido. Como se nada precisasse ser explicado.

Mariana vinha apoiada na Lívia, tropeçando um pouco, gargalhando de algo que só elas pareciam entender. Bruno vinha logo atrás, claramente bêbado, com o braço jogado sobre os ombros das duas. Em segundos, já estavam de volta à festa. Copos cheios outra vez. Música. Dança.

Mariana não me procurou. Não explicou. Não justificou. Pensei em ir até ela naquele instante. A discussão já se formava na garganta. Mas bastou olhar ao redor — os olhares curiosos, a atenção difusa — para saber que qualquer palavra ali viraria espetáculo.

Engoli tudo, observando de longe enquanto os três bebiam ainda mais. Mariana dançava com a Lívia e o Bruno sem qualquer pudor, rindo, girando, alheia a todo o resto. Não era só álcool. Era abandono total, indiferença e descaso.

Foi quando algo dentro de mim cedeu. “Chega!” Disse para mim mesmo em pensamento. Fui até ela sem hesitação. Segurei seu braço com cuidado, mas sem dar margem para negociação.

— Vamos para o quarto.

Ela tentou rir, dizer alguma coisa que eu não consegui entender direito. Estava bêbada demais para compreender o peso daquele momento. Não discuti. Apenas a conduzi para dentro.

No quarto, o cheiro de álcool era forte. Mariana mal conseguia ficar em pé. Liguei o chuveiro, tirei sua roupa e a ajudei mecanicamente. Sem desejo, sem ternura, só tensão.

E então eu vi. Novas marcas. Mais vermelhas. Mais recentes. Uma delas era inconfundível: o desenho de uma mão espalmada na nádega direita, ainda viva na pele. Na parte interna das coxas, havia hematomas arroxeados, que não estavam ali antes.

Fiquei parado por um segundo longo demais. Não disse nada. Ajudei-a a tomar um banho rápido, frio. A vesti e depois a coloquei na cama. Mariana apagou quase imediatamente, respirando pesado, como se nada tivesse acontecido.

Sentei na beira da cama. O silêncio era ensurdecedor. As dúvidas já não vinham soltas. Começavam a se conectar. E não era só confusão. Era a certeza incômoda de que eu não estava mais disposto a fingir.

Deixei Mariana apagada na cama, atravessada entre os lençois, respirando pesado, alheia a qualquer coisa ao redor. Fiquei alguns segundos parado à porta, olhando para ela, como se esperasse que acordasse e dissesse algo que colocasse ordem naquele caos. Nada veio.

Saí do quarto com a cabeça em turbilhão. Desconfiança, dúvida, muita raiva. Tudo misturado, girando rápido demais.

Ao passar pela cozinha, meus olhos bateram no maço de cigarros largado sobre a mesa. Num gesto automático, peguei um cigarro antes mesmo de pensar no que estava fazendo. Eu tinha largado aquilo quando deixei a polícia, como se abandonar o vício fosse parte do preço por tentar ser alguém melhor. Mesmo assim, ali estava eu, quebrando a promessa sem o menor esforço.

Risquei o isqueiro. A primeira tragada veio funda, quase desesperada. A nicotina queimou o peito, mas levou junto um pouco daquela ansiedade sufocante. Não resolveu, só abriu espaço para respirar.

Atravessei a casa sem rumo e me refugiei na parte de trás, na lavanderia que dava vista para o pomar. O cheiro da terra, das árvores frutíferas contrastava com a bagunça dentro de mim. Traguei de novo. E de novo. Como se cada puxada pudesse organizar meus pensamentos.

Não funcionou. Apaguei o cigarro pela metade e, sem pensar muito, segui pelo caminho de terra, entrando no pomar. Precisava andar. Precisava colocar distância entre mim e aquela cama, aquelas marcas, aquela mulher que eu amava e odiava naquele momento, àquelas perguntas que não paravam de gritar na minha cabeça.

Caminhei entre as árvores tentando montar e organizar pistas que não faziam sentido. Cada lembrança puxava outra. Cada imagem gerava uma suspeita nova. O estômago embrulhado, o maxilar travado.

Foi quando ouvi vozes. Baixas demais para serem casuais. Próximas o suficiente para não serem imaginação.

Parei na hora. Instintivamente, me aproximei com cuidado e me escondi atrás de uma jaboticabeira antiga, de tronco grosso, daquelas que parecem ter visto décadas demais para se importar com segredos humanos. Prendi a respiração, sentindo o coração acelerar, o sangue pulsando nos ouvidos.

E então eu ouvi claramente:

— A putinha chupa uma buceta como ninguém. Nem parece que foi a primeira vez.

“A putinha? Quem?” A pergunta ecoou na minha cabeça antes mesmo de eu conseguir respirar direito. Um nome começou a se formar, indesejado e insistente.

Voltei a escutar:

— É claro que não foi a primeira vez. Aquela ali adora uma boa safadeza. Fode com dois, três, quatro, se deixar. E ama uma briga de aranhas. É puta no sentido literal da palavra. Não no sentido pejorativo. Ela gosta mesmo da coisa.

As vozes vinham baixas, quase sussurradas. Eu não conseguia identificar quem falava. Só o conteúdo. E aquilo era o suficiente para meu estômago se revirar.

— Mas você não acha que a gente foi longe demais? Saindo daquele jeito?

“Só três pessoas saíram hoje”. Meu coração começou a bater mais forte. “Será que é isso mesmo que eu estou ouvindo?”

A raiva subiu quente, corrosiva. Quis avançar, sair do esconderijo, gritar. Mas algo me manteve ali. Eu precisava ouvir mais. Precisava ter certeza. Precisava de nomes.

— Minha xoxota chega a pulsar de tesão só de pensar que ela prometeu que logo ele vai se juntar a nós.

“Ela quem, porra? Esse ele, sou eu? Mariana prometeu aquilo?” Sem nomes, sem rostos, minha cabeça fazia o trabalho mais cruel possível: preenchia as lacunas sozinha.

— Tomar no cu, hein. Eu aqui e você falando de outro macho? Fala sério. Ajoelha e mama, putinha. Quero gozar bem gostoso nessa boquinha.

— Tá com ciúmes, é? Logo você, que come a mulher dele desde que virou homem. E ainda juntou os dois. Você é um sádico.

Plaft! O som seco de um tapa cortou o ar. Não houve reclamação. Pelo contrário.

— Bate que eu gamo ainda mais, seu puto. Mas bate forte, corninho safado. Bate… e depois me fode até eu cansar. Quando ele se juntar a nós, vou sentar muito naquele corno também.

“Caralho. Que gente doente. Esquisita”. A hipocrisia do meu próprio pensamento me atingiu logo em seguida. “Se quem está ali é um corninho safado… eu sou o quê? O corno cego? O corno manso? O corno covarde?”

— Eles são perfeitos um para o outro. Ele é um tapado, encostado, que não sabe apreciar o que tem em casa. Quer o quê? Que eu o obrigue a foder a própria esposa? Que eu pegue na piroca dele e enfie na buceta dela? Se ele não dá conta, se não quer… melhor eu do que qualquer um avulso da rua.

Continua…

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Comentários

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Sensacional, muito bom o conto, teremos continuação logo? Espero que sim, caso tenha e possa me informe ok aosoriorj1950@gmail.com. obrigado meu amigo Lukinha abraço

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Mesmo não tendo nomes, acho que fica bem claro de quem estão falando. Confesso que esse episódio me deixou bem ansiosa para saber o que vem pela frente.

⭐⭐⭐

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Conto está cada vez melhor o prot sabe da traição e já vem acontecendo antes do casamento e são lembranças de 7 anos atrás , essa trama é bem engendrada da para pensar que é tudo trama do prot mas vamos ver capítulos a frente

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Agora fiquei encucado... Se isso foi há sete anos... Como estão juntos? Baita curiosidade...

Parabéns, Lukinha! Que conto!

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