Mesmo com um detalhado planejamento, algumas vezes as coisas não saem como esperamos. E isso pode acontecer por diversos motivos, os quais, não temos controle. O problema reside quando um plano tem um resultado não esperado e tem como causa, algo que teríamos o DEVER de controlar. Entretanto, essa "obrigação" entra em conflito quando o que queremos controlar é o DESEJO.
Principais Personagens:
Blanche Leblanc (https://postimg.cc/zVRMQk7J)
Hamdi Moreau (https://postimg.cc/WDSfZYpL)
Hans Von Welfen (https://postimg.cc/TL477yWP)
Charles Deschamps (https://postimg.cc/4mbvn7Np)
ParisA escuridão no quarto era tanta que era impossível enxergar a própria mão, mesmo que a colocasse a poucos centímetros de seus olhos como estava fazendo. Mas não era a cegueira completa que perturbava a paz da mulher estendida sobre o colchão macio.
Aquela escuridão parecia ter peso e a esmagava de encontro ao colchão como se quisesse extirpar de seu peito a culpa que a afligia. Uma culpa que provocava uma dor tão intensa que a paralisava e ficava ainda pior quando sua mente fugia do desespero em que se encontrava e revivia os momentos de prazer que tivera menos de duas horas antes.
Um prazer que não devia sentir. Um sentimento que ia contra tudo o que planejara para a sua vida há pouco mais de três anos. Ela jurou que lutaria contra o inimigo e dedicaria sua vida a puni-lo pelo mal que fizeram a ela. Jurou mais. Jurou que faria isso a qualquer custo e não deixaria que nenhuma barreira ficasse entre ela e seu objetivo final.
O preço pago foi muito caro. Vezes sem conta ela entregara seu corpo ao desejo de homens que na verdade ela queria ver mortos e tinha que se conter para não os matar ela mesma. Sua determinação era tão forte que ela conseguia transformar os gemidos de prazer que eles emitiam, ou o tremor de seus corpos quando gozavam no interior de sua buceta em algo diferente. Os gemidos eram da dor que ela infligiria a eles e o tremor nada mais que o estertor da morte.
Esse era o seu desejo. O desejo de morte para todos eles, mas não uma morte suave. Tinha que ser uma morte horrível, sempre precedida por humilhações e dores insuportáveis. Essa foi a forma que ela encontrou para poder suportar o contato daqueles seres que ela odiava.
Sentir o pau deles invadindo a buceta que ela, habilmente, tinha deixado lubrificada com um creme sem que eles notassem porque não conseguia se excitar de forma espontânea, lhe dava a mesma sensação de um punhal rasgando suas carnes e a ferindo de morte.
O pior vinha depois, quando voltava para sua casa e gastava horas dentro de uma banheira tentando arrancar de seu corpo, não só o cheiro deles, mas a lembrança de que eles a tinham tocado, tinham beijado sua boca, sugado seus seios e ela retribuindo cada um desses carinhos, chupando seus paus, abrindo suas pernas para ser penetrada e fingindo prazer com gemidos falsos. Depois, ia se deitar com a frustração de saber que água nenhuma ia tirar de suas lembranças o que ela tinha feito.
Mas, daquela vez, tinha sido diferente. Mesmo tendo uma missão a cumprir, se deixou levar pela excitação. Pela primeira vez, colocou o desejo acima do dever e sentiu esse anseio tomar conta de seu corpo antes do homem manifestar qualquer interesse e, quando ele não tomou a iniciativa, ela usou toda a sua capacidade de seduzir para levá-lo para a cama e se entregar a ele como se fosse a última foda de sua vida.
Cada minuto, cada gesto, seu e de Hans, naquela noite, desfilavam em sua mente, mostravam cada cena e depois recomeçava, como se em seu cérebro existisse um botão de repetir exibição que no momento estava ligado.
...
A missão de Blanche naquela noite era se aproveitar do fato de fazer parte da alta sociedade francesa e ter sido convidada para uma recepção na casa do General Carl Oberg, comandante da Gestapo na França, se aproximar dele e descobrir quando se daria a transferência de um prisioneiro importante para Berlim.
Todo o serviço de informação da França tinha sido mobilizado no intuito de conseguir essa informação, pois era crucial que o homem não chegasse ao seu destino. As informações que ele detinha eram tão importantes que a ordem era de que, no caso da impossibilidade de resgatá-lo, sacrificar a sua vida para manter o segredo de que ele era conhecedor.
Entretanto, ela não estava sozinha nessa empreitada. Hamdi, também estaria presente e elas haviam sido avisadas de que, a informação que precisavam encontrar, estava em uma pasta no escritório da casa onde estaria ocorrendo a recepção.
Blanche se viu atravessando o jardim iluminado por archotes. Parou na porta de entrada, entregou o pomposo convite que carregava em sua mão direita e que dava acesso àquela casa ao recepcionista e entrou. O vestido longo, de seda escura, deslizava pelo piso de mármore enquanto seu perfume discreto misturava-se ao aroma de charutos e conhaque que dominava o ar. Ela, apesar de manter o queixo erguido e a expressão serena, como se estivesse absolutamente à vontade entre os oficiais nazistas reunidos na recepção, procurava manter-se discreta e não chamar a atenção para ela.
No caminho para o interior da casa, trocou um olhar cúmplice e silencioso com Hamdi que já estava presente na festa. O salão principal vibrava com conversas tensas e risadas duras. Medalhas brilhavam nos uniformes impecáveis, e o som de taças tilintando ecoava sob o lustre monumental. Blanche observava tudo com um olhar treinado: cada guarda na porta, cada oficial embriagado demais, cada sombra que poderia ser útil aos seus propósitos.
Ao ser apresentada a outros oficiais, ela sorri com elegância calculada. Demonstra novamente, admiração pela grandiosidade da residência, que ela já conhecia por ter participado de outras recepções no mesmo local, mas sua atenção real está além das paredes do salão, no escritório isolado em um canto da casa, no mesmo andar da recepção, onde sabia estar a pasta com as informações que precisava.
Enquanto conversa com um vaidoso coronel que não parava de se gabar de suas campanhas, ela nota o movimento dos criados e o ritmo dos passos da patrulha. Cada detalhe é registrado silenciosamente. Ela aguarda o momento certo. Ela imagina que Hamdi está fazendo o mesmo e espera somente o sinal que haviam combinado para que o plano seja executado.
E o plano era simples, Hamdi iria entrar no escritório enquanto a comparsa seria responsável por vigiar essa incursão e impedir que outra pessoa flagrasse a comparsa enquanto estivesse lá dentro. Mas, apesar de simples, nem tudo saiu como o planejado.
Não deu certo porque, de repente, aconteceu algo que quebrou a determinação de Blanche que se viu arrebatada pela presença de Hans, o homem que ela conhecera alguns meses antes e que, embora sendo alemão, a deixou impressionada com o seu cavalheirismo, educação e uma demonstração de estar mais preocupado com as consequências daquela guerra do que em vencê-la, sendo o primeiro deles a dar a impressão, à mulher, de que já sabia que não havia como os Alemães se saírem vencedores.
Dentre todos os alemães que conheceu durante a guerra, Hans foi um dos poucos que não era militar e tampouco um industrial importante que se dedicava a causa nazista. Ele era um cientista que se viu forçado a trabalhar para o governo alemão e, embora não revelasse a ninguém esse detalhe e muito menos que projeto era esse, na primeira conversa ela ficou com a impressão de que ele era muito mais importante do que fazia parecer.
Nascido em uma família nobre da orgulhosa Prússia, Hans Von Welfen cresceu fadado a seguir os passos de seus antepassados e se tornar um militar de alta patente. Para desgosto de todos, ele tomou um carinho diferente e se dedicou apenas aos estudos e só não foi forçado a usar uma farda por um simples fato, ele era brilhante. Tão brilhante que, depois de arrebatar prêmios e mais prêmios em feiras de ciências na Alemanha e fora dela, se tornou correspondente de Robert Oppenheimer, um americano filho de emigrante alemão que se radicou nos Estados Unidos e liderou o Projeto Manhattan que fabricou as Bombas Atômicas usadas no Japão. Com o início da Segunda Guerra, ele foi convocado pelos alemães e trabalhou no desenvolvimento as bombas V2, uma criação de Wernher Von Braun.
Com seus trinta e sete anos, Hans era um homem conhecido por todos, não apenas na Alemanha, mas em todo o mundo e admirado pelas mulheres por sua beleza. Com um metro e oitenta e cinco de altura, cabelos loiros e bem aparados, barba raspada e feições suaves e harmoniosas que normalmente caem bem em mulheres, mas que agia de uma forma a valorizar seu aspecto másculo e os olhos que hipnotizavam a todos que o encaravam e que sempre comentavam depois que nunca tinham visto olhos como o deles que brilhavam na mais pura cor violeta, só comparada à ametista.
E foi com esses olhos que ele se aproximou de Blanche e a convidou para dançar, fazendo com que sua força de vontade se esvaísse e, naquele momento, estava em seus braços naquele ambiente luxuoso, onde a orquestra dava um show em sua exibição, mas a perfeição dos músicos não se comparava à sensação do hálito quente do homem em seu ouvido e de sua voz rouca denunciando o desejo que o dominava. Ele cantava junto com o cantor da orquestra e o poder daquelas palavras entrando em seu ouvido e bombardeando seu cérebro era devastador.
Ela não se incomodou nem um pouco quando a mão dele desceu por suas costas explorando a pele nua e quente que o decote ousado deixava exposto até chegar próximo à sua bunda. Em vez de reclamar, ou então, dirigir a ele um simples olhar de censura que seria o suficiente para que ele parasse, pois sabia que estava diante de um perfeito cavalheiro, sua reação foi oposta. Levou a mão esquerda que apoiava no ombro até nuca dele e passou a unha de leve, provocando nele um arrepio.
A reação foi imediata. Um erro cometido na letra da música que cantava e uma pressão mais forte em suas costas fazendo com que seus corpos ficassem colados. Algo impensável no final do ano de 1943 em plena Paris ocupada, principalmente sendo ela francesas e seu par, apesar de cientista, um oficial alemão.
Mas isso agora não importava. Seu quadril tinha vida própria e se moveu em direção ao corpo do homem se espremendo em um exercício cujo único objetivo era o de sentir a dureza do pau dele ao encontro de sua xoxota, cujo mel provocado pela excitação que sentia já tinha ensopado sua calcinha.
Hans olhou nos seus olhos e tentou sorrir, porém, o nervosismo que sentia era tanto que o seu sorriso mais pareceu uma careta e Blanche soube que estava no controle.
“Mas ... no controle do que?” – Em pensamento, se perguntou confusa.
Controle era algo que, naquele momento, ela não tinha. Se aquele homem a deitasse no piso frio daquela pista de dança, arrancasse suas vestes e cobrisse seu corpo com o dele, penetrando com seu pênis duro e rijo sua buceta sedenta, ela não faria nada para evitar.
Não é que não faria nada. Ela não teria forças para evitar.
Junto com essa constatação, veio outra. Hans jamais faria isso, Ele era um homem gentil e sensato e, naquela situação, ela tinha dúvidas se ele sequer a levaria para algum local onde ambos pudessem dar vazão ao desejo que os consumia.
E justo quando a orquestra inicia uma música mais alta, abafando conversas e passos, Blanche, mesmo absorta com sua situação com Hans, percebe o sinal combinado entre ela e Hamdi e o brilho no olhar da outra muda sutilmente. Hamdi se despede de seu acompanhante com mais um sorriso impecável e desliza para a escada lateral, esse era o caminho que dava acesso aos lavabos e ao escritório, como se simplesmente desejasse um instante de ar fresco, porém, a cada passo, se aproximava do escritório e dos documentos que eram o verdadeiro motivo de sua presença naquela recepção.
Entretanto, a visão de Hamdi entrando no escritório e sendo seguida, minutos depois, por um oficial alemão, a trouxe de volta para a realidade. Ela pediu desculpas para Hans, dizendo que precisava retocar a maquiagem e se afastou dele, indo em direção ao escritório.
Quando Hamdi finalmente entra no escritório, o silêncio do cômodo a envolve. Apenas a chama trêmula de uma luminária sobre a escrivaninha ilumina o ambiente. Ela se move com precisão: examina a mesa de despacho a procura da pasta, mas um estalo no corredor interrompe seus movimentos.
Antes que consiga se recompor, a porta se abre com força. Um oficial nazista entra com uma expressão desconfiada e a mão pousada sobre a pistola no coldre.
— Fräulein? — a voz dele corta o ar. — Quem é você? O que você está fazendo aqui? Este escritório é restrito!
Por um único segundo o coração dela dispara. Mas seu rosto continua impassível, como se nada estivesse fora do lugar. Ela se vira com elegância estudada, ajeitando suavemente a luva, e responde com um sorriso quase tímido:
— Oh, Hauptmann (Capitão), que susto o senhor me deu. Vim apenas procurar um lugar tranquilo. O salão está tão barulhento … — Ela ri, leve, convincente. — Fui informada de que havia uma varanda neste canto da casa, mas acho que tomei a porta errada. Nunca fui boa com casas tão grandes.
O oficial estreita os olhos, confuso. Ela continua antes que ele possa questioná-la:
— Se quiser verificar, pode ver que não toquei em nada. A decoração é magnífica, mas … — Ela simula um pequeno rubor — ... eu não deveria estar aqui, eu sei. Peço desculpas pela indiscrição.
O tom dela é perfeito: um toque de fragilidade, um pouco de charme e nenhuma ameaça aparente. O tipo de erro que uma convidada distraída poderia cometer.
O oficial relaxa os músculos alguns centímetros não muito, mas o suficiente. Ele se aproxima para conduzi-la de volta ao corredor, ainda desconfiado, mas não pronto para apontar uma arma. E, enquanto ela caminha ao lado dele, com passos lentos e dóceis, sua mente trabalha em outra direção: calcular quanto tempo ainda terá antes que percebam que aquele “erro inocente” não foi tão inocente assim.
O oficial ainda a escolta pelo corredor quando uma segunda figura surge na penumbra. Uma mulher de postura impecável, vestida de forma elegante, alguém que ele reconhece imediatamente. Blanche.
— Hauptmann Keller? — ela pergunta com autoridade suave, aproximando-se. — Estava justamente à sua procura.
Hamdi contém o impulso de demonstrar surpresa. Era a aliada, posicionada ali exatamente para esse tipo de eventualidade. Na verdade, a missão de Blanche era evitar aquele tipo de eventualidade e isso a deixou intrigada.
O oficial se apruma, visivelmente aliviado por ver alguém que ele conhecia.
— Encontrei esta convidada no escritório. Disse que se perdeu.
Blanche lançou à “convidada” um olhar rápido, avaliando a situação com precisão cirúrgica — e então sorriu, como se tudo fizesse parte de um protocolo perfeitamente rotineiro.
— Ah, sim, claro. A culpa é minha — ela diz com naturalidade. — Fui eu quem sugeriu que ela procurasse pela varanda oeste. Talvez eu tenha descrito mal o caminho. Esta casa é um labirinto.
O oficial vacila.
— Então … ela está com a senhora?
— Sim, Hauptmann. Está sob minha responsabilidade esta noite. — Blanche coloca uma mão leve no braço da outra, gesto de total familiaridade. — Eu a convidei para uma conversa mais discreta, longe do barulho. Espero que não tenha causado transtorno.
Há uma suave, calculada inflexão no tom. O suficiente para insinuar que qualquer suspeita dele seria inapropriada, talvez até embaraçosa para alguém de sua patente.
O oficial endireita o uniforme, pigarreia.
— Claro … se é assim … perdoem-me, senhoras. Eu estava apenas cumprindo meu dever.
Blanche inclina a cabeça num agradecimento impecável.
— E o fez muito bem. Agora, se nos der licença.
Ela conduz Hamdi alguns passos adiante até que o oficial esteja a uma certa distância. Só então diminui o ritmo, mantendo o sorriso no rosto enquanto a ouve murmurar, sem mover os lábios:
— Você quase estragou tudo. Sua atividade era impedir que eu fosse interrompida enquanto procurava pelo documento. O que aconteceu?
Blanche não podia dizer pra ela que “se perdeu” da missão pois estava entretida com Hans. Isso seria devastador para Hamdi que confiava muito nela. Então, apenas respondeu que as coisas aconteceram muito rápido e que ela não teve tempo de reagir. Mesmo assim, um novo plano veio a sua mente e ela disse para Hamdi que ainda poderiam cumprir a missão. Ela diz para a comparsa que iria tentar uma outra abordagem.
Hamdi respira fundo, recompõe a postura e concorda com um aceno de cabeça voltando a sussurrar:
— Então, vamos terminar o trabalho. E eu vou para o plano “B”.
Blanche, mais aliviada, exibe um sorriso impecável enquanto observa o oficial se afastar alguns passos. Então, como se tivesse acabado de lembrar de algo importante, ela chama:
— Hauptmann Keller… um instante, por favor.
Ele se vira, rígido, aguardando.
— Esqueci um detalhe. Já que encontrou a senhorita no escritório, pode me acompanhar até lá? Não quero que fique nenhum … mal-entendido. — O tom dela é delicado, mas deixa pouco espaço para recusa.
O oficial, desejoso de demonstrar zelo e disciplina, concorda prontamente.
— Naturalmente. Vou acompanhá-la.
Hamdi faz menção de segui-los, mas a aliada lhe dirige um olhar rápido — um aviso silencioso para ficar afastada e não chamar mais atenção.
Com passos seguros, ela retorna ao escritório ao lado do oficial, fingindo calma absoluta. Assim que cruzam a porta, ela observa o ambiente com uma tranquilidade quase estudada, como se apenas verificasse a integridade de um cômodo sob sua supervisão.
— Vê, Hauptmann? — ela diz, explorando o espaço com o olhar. — Nada fora do lugar. A pobre convidada provavelmente confundiu este escritório com a sala que dá acesso à varanda. Acontece sempre com quem não está habituado a residências … mais antigas.
Keller se aproxima da escrivaninha, passando os dedos pela madeira, avaliando.
— De fato não parece haver sinais de interferência. Mesmo assim, essa pasta não deveria ter ficado em cima da mesa. O General não vai ficar contente de ver. Vou guardá-la no cofre. Aguarde um momento.
O semblante de Blanche muda, enquanto o capitão abre o cofre e guarda a pasta. Ela percebe que não será mais possível conseguir a informação e empalidece. Tudo por culpa dela. Se ela não tivesse se deixado levar pelo desejo por Hans e tivesse se preocupado somente com o seu dever, aquilo não teria acontecido. Mesmo com esse sentimento ruim, ela teve que manter o personagem para não causar mais transtornos. Voltando a interpretar, ela diz:
— Fico aliviada — ela continua inclinando levemente a cabeça. — Seria muito embaraçoso para mim se algo tivesse acontecido sob minha vigilância. Agradeço por ter sido tão diligente.
Ele relaxa. O clima muda.
— Apenas faço meu trabalho — diz ele, com um leve orgulho.
Ela sorri — um sorriso que parece elogiar, mas que, por dentro, é apenas cálculo.
— E é exatamente por isso que confio plenamente no senhor.
O oficial, satisfeito, dá um último olhar ao cômodo.
— Vamos retornar à recepção. Se precisar de mim, estarei por perto.
— Claro, Hauptmann. Agradeço novamente.
Eles saem e a porta se fecha. No salão principal, Blanche consegue ver a comparsa conversando animadamente com o General Oberg. Elas trocam apenas um olhar e Hamdi percebe, por aquele olhar, que a tentativa de Blanche de conseguir as informações não deu resultado.
Contudo, com o olhar tranquilizador que Hamdi lhe retribui, ela percebe que a outra ainda está empenhada em conseguir o sucesso da missão. Aquele olhar que diz: “estou no controle e vou conseguir”. Sem ter mais como ajudá-la, ainda com raciocínio turvo em um misto de frustração e expectativa, ela vai à procura de Hans e quando se aproxima dele e, aproveitando que os saltos altos a deixavam quase com a mesma estatura do alemão, falou ao seu ouvido:
– Por favor, Hans. Me leve embora daqui. Depressa, senão eu vou desmaiar.
– Você está se sentindo mal? – Disse ele assustado após recuar o rosto para poder olhar no dela.
“Meu Deus! Homens!” – Pensou ela e depois falou com sua voz rouca.
– Estou sim. Muito mal. Tão mal que, se você não me levar para a cama agora, acho que vou ter um enfarto.
“Pronto. Falei. Que se foda o que ele vai pensar de mim”. – Voltou a pensar ela, agora na expectativa da reação que ele teria.
Preocupado, Hans segurou em seus braços e a conduziu em direção à saída. Quando o motorista dele se aproximou e fez o odioso cumprimento nazista, estendendo o braço e falando em voz marcial:
– “Heil Hitler”!
Hans respondeu ao cumprimento com evidente falta de vontade enquanto Blanche se votava para ele e dizia:
– Querido. Você se importaria em dispensar seu motorista? Eu fico com vergonha por estar nesse estado.
Não se sabe por qual motivo, Hans notou que não havia nada de débil na voz de Blanche. Talvez o ar frio por causa da aproximação do inverno tivesse lhe deixado mais atento. Mas era nítido que o jeito de falar daquela mulher não tinha nada que indicasse que ela não estivesse perfeitamente bem de saúde. Então, pela primeira vez, mesmo depois de ter sua autodeterminação de agir como um cavalheiro bombardeada com as atitudes dela, ele percebeu que ela desejava o mesmo que ele.
Mesmo assim, ele continuou agindo como um gentleman, porém, quando ele diminuiu a velocidade do carro indicando que ia entrar em uma rua a direita e ela protestou, ficou claro para o pobre alemão que aquela era a sua noite de glória.
Ela sabia que, virando naquela rua, Hans a levaria até sua casa enquanto, indo reto, ele estaria se dirigindo ao Hotel Ritz, onde se hospedava e que era a direção que ela sonhava que ele tomasse. Então ela, em um tom de quase desespero, lhe avisou:
– Se você está tentando me levar para minha casa, saiba que vou saltar desse carro em movimento e você se tornará o responsável por minha morte.
Hans diminuiu ainda mais a velocidade e olhou para ela que, sem resistir ao ver a expressão que ele tinha em seu rosto, sorriu e disparou:
– Isso se eu não te matar antes.
Diz o ditado que para um bom entendedor meia palavra basta. O que o ditado não diz é que, quando não se lida com um bom entendedor, existem palavras e mais palavras. Aliás, existe todo um dicionário de palavras inteiras e completas para se chegar ao objetivo. Para ela, bastaram apenas essas sete para Hans entender que, se não entendesse a urgência que Blanche sentia em ser fodida por ele, ele iria ficar em uma situação difícil. Poderia até não morrer, mas que teria problemas, não restavam dúvidas.
Não que Hans estivesse temendo por sua vida. O que acontecia era que ele a desejava tanto quanto ela estava demonstrando querer a ele e isso ficou provado na velocidade que imprimiu no carro para chegar logo ao hotel, mal dando tempo para que ela dobrasse o pescoço para ficar com a cabeça repousada nos ombros deles e, quando lá chegaram, ele sequer se deu ao trabalho de desligar o carro, apenas dizendo para o funcionário que ficava na portaria:
– Estacione o carro em algum lugar seguro e depois entregue a chave na portaria.
Enquanto ele se dirigia à recepção para pegar sua chave, Blanche se dirigiu à escadaria e ele só a alcançou quando ela já tinha atingido o primeiro piso e aguardava por ele por não saber que direção seguir. Ele segurou nos cotovelos dela e a levou em direção ao próximo lance de escada que elevaria ao segundo piso.
O primeiro beijo aconteceu na metade da escada e o segundo no corredor ainda faltando alguns metros para atingir a porta do apartamento dele. Esse durou mais e foi impossível para ele não usar a mão que apertava as costas dela e a enfiar pelo decote até alcançar a lateral de seus seios, percebendo que ela não usava sutiã ao sentir a dureza do bico do seio dela em contato com a palma de sua mão.
O clima que envolveu os dois amantes foi tão intenso que eles se esqueceram de onde estavam e só não se livraram de suas roupas ali mesmo e transaram porque um hóspede retardatário surgiu no corredor e ao notar a atitude do casal tossiu forte fazendo com que ambos se desgrudassem e corressem em direção ao apartamento. Ele se condenando por sua indiscrição e Blanche rindo da situação.
O vestido de dela e a túnica dele ficaram jogados no corredor que ia da porta de entrada até o quarto. Os sapatos no final do corredor em frente da porta que dava acesso ao banheiro. A calça e cueca dele ao lado da cama, junto com a calcinha dela e, quando ela foi jogada na cama, ainda estava usando a cinta liga e a meia de seda, o que não impediu que ele, deitando-se sobre ela, posicionasse seu pau na entrada da buceta dela e soltasse o peso de seu corpo conquistando uma penetração intensa e profunda, aos sons dos gritinhos que ela emitia ao sentir sua xoxota sendo invadida e aceitando aquela invasão com um prazer que ela não conseguia descrever.
Não houve preliminares porque não eram necessárias. O tempo que passaram juntos desde que Hans foi ao encontro de Blanche quando ela chegou naquela festa e os olhares e toques discretos que trocaram depois já tinha sido suficiente para deixar a bucetinha dela escorrendo e totalmente lubrificada enquanto o pau dele parecia que ia se quebrar de tão duro.
O tempo de posse também foi curto. Não precisou de cinco minutos para que Hans, aos gritos, despejasse sua porra no fundo daquela buceta quente e macia que parecia mastigar seu pau. Um grito tão alto que todos no hotel devem ter ouvido. Todos menos Blanche que, mesmo estando no epicentro daquela explosão de prazeres, não ouvia nada por estar totalmente dominada pelo êxtase que sentia. Se o homem gozou em menos de cinco minutos, a mulher começou a gozar menos de um minuto depois de sentir o pau duro dele invadindo sua xoxota e só parou de gozar depois que ele, já sem forças, deixou o peso de seu corpo cair sobre o dela.
Quanto tempo seria preciso para que o casal recuperasse a capacidade de respirar normalmente?
O mundo pode ter uma resposta para isso. Mas aquele casal com seus corpos trêmulos sobre aquela cama não conhecia nenhuma. Também não se importavam se seria um ou trinta minutos. O que importava para eles é que, assim que recuperassem a consciência, perceberiam que estavam prontos para começar tudo de novo.
Os movimentos de Hans começaram lentos e foram se intensificando com Blanche, já mais calma depois do seu primeiro orgasmo, agindo para fazer com que ele se sentisse mais estimulado, com carinhos nos lugares certos e palavras ditas da forma correta. Nisso ela era boa e quase levou o homem a um enfarto quando, ao sentir que ele intensificava os movimentos dentro dela e começava a respirar mais rápido, disse em um tom de voz que era mais uma ordem do que um pedido:
– Não. Dentro, não. Eu quero seu leitinho. Me dá seu leitinho na minha boca. Eu quero sentir seu gosto.
Uma ordem para ser obedecida sem um segundo de vacilo. Foi assim que Hans entendeu o pedido dela e se esforçou para segurar o primeiro jato enquanto, com a rapidez exigida, retirou seu pau de dentro da buceta dela e o levou em direção ao seu rostinho que, com a boquinha aberta e a língua para fora, aguardava aquela descarga do líquido da vida.
Sem dar tempo de recuperação para o amante, a jovem mulher não deu folga ao seu pau. Depois de engolir sua porra, ela o deixou limpou com sua boca ávida e depois continuou com ele na boca sugando com força enquanto fazia carinhos gentis no saco dele, já provocando o efeito que ela esperava. Extasiado, Hans comentou:
– Vai com calma, minha querida. Eu já gozei duas vezes.
Com a voz embargada pelo prazer que acabara de sentir, Blanche respondeu com uma voz meiga:
– Nos últimos meses eu tenho sido obrigada a gozar sozinha pensando em você ou ficar na vontade. Então, não reclame, por favor. Deixe-me matar essa minha vontade.
Não que o pau de Hans tenha ficado completamente duro ao ouvir aquilo, porém, aquela declaração foi estímulo suficiente para que ele, pelo menos, desse sinal de vida e ela se contentou com isso, pois segurou o membro, procurando mantê-lo apontado para cima, montou sobre o homem e foi descendo o corpo até conseguir engolir todo o mastro com sua buceta faminta.
Dessa vez, considerando o fato de ele já ter gozado duas vezes, ela se aproveitou e gozou duas antes que ele gozasse a terceira e depois de um banho, provando que ainda não estava satisfeita, exigiu que ele chupasse a sua buceta e gozou mais uma enquanto elogiava a técnica dele que a deixava louca com sua língua deslizando por toda a sua buceta ou com os lábios sequiosos dele prendendo o seu grelinho inchado e quando sentia que ela estava preste a gozar, abandonava seu grelinho e ia descendo a língua, passava pela abertura de sua xoxota e continuava seu caminho até chegar ao seu cuzinho onde forçava a entrada a levando à loucura.
Se dependesse da vontade de Blanche, ela continuaria estimulando Hans para conseguir foder mais vezes. Porém, ela sabia que tinha que voltar para sua casa antes que amanhecesse. Seu marido, Charles, tinha dito que retornaria ainda aquela noite para casa e ela não queria chegar depois dele. Hans entendeu os argumentos dela e foi levá-la em casa, não sem antes tomarem um banho juntos. Quando ele tentou foder o cuzinho dela, ela olhou para ele e falou com carinho:
– Vou adorar dar meu cu para você. Mas não hoje. Hoje não temos mais tempo e isso é uma coisa que eu quero fazer com calma.
Com uma promessa como aquela, e já tendo gozado tantas vezes, o homem não teve outra saída senão a de aceitar a sugestão dela. Foder aquela bundinha perfeita em uma promessa de um novo encontro e, com a recompensa de ser com mais tempo, era algo que nenhum homem no mundo recusaria.
Chegando em casa e vendo que o marido ainda não tinha chegado, Blanche tomou mais um banho, pois para ela, o perfume de Hans ainda podia ser percebido em seu corpo. Quando ela se deitou, ficou relembrando do que aconteceu e foi nesse momento que começou a se sentir culpada.
Nesse estado de espírito, fingiu estar dormindo quando ouviu o barulho que Charles fez ao entrar em casa. Ainda de olhos fechados, ela soube tudo o que ele fazia antes de se deitar ao lado dela. Mas ficou surpresa quando ele, ignorando que ela simulava dormir, sabendo que era fingimento, perguntou:
– E então, querida. Foi tudo bem na recepção? Conseguiu fazer os contatos que você precisava e que eram importantes para os seus negócios?
Sem se virar, ela respondeu:
– Eu consegui conversar com vários oficiais alemães e a Hamdi, que chegou antes de mim, também. Provavelmente vamos conseguir alguma coisa.
– Isso é bom. Fico contente. – Diante da ausência de outro comentário da esposa, ele insistiu: – E você?
– O que tem eu?
– Como foi sua noite? Conseguiu aproveitar um pouco da recepção? – Perguntou o marido com paciência.
– Foi normal. – Disse ela também calma.
– Pois não parece. Você está estranha.
– Estranha como?
– Estranha. Você estava fingindo dormir e isso fica parecendo que você não quer conversar comigo.
Embora Charles tenha tomado muito cuidado ao emitir esse comentário tentando fazer com que ele soasse totalmente casual, não foi suficiente para evitar que sua esposa se entregasse ao desespero que a culpa lhe impunha e começasse a chorar. Imediatamente, ele se sentou na cama, acendeu a luz do abajur e a puxou para que ela também se sentasse na cama e olhasse para ele. Nessa posição, eles ficaram se encarando sem dizer nada e a mulher sabia o que aquilo significava.
Essa era a atitude que Charles adotava todas as vezes que interrogava Blanche. Ele nunca fazia perguntas e apenas a encarava dando a entender que ela poderia começar a falar quando se sentisse pronta para isso. Enxugando os olhos, ela falou:
– Charles, você sabe como isso é difícil para mim. Você conhece a minha história. Conversar e dançar com oficiais alemães, parecer alegre e feliz em estar com eles, me causa ânsia e hoje eu tive que fazer tudo isso e muito mais.
Charles sorriu e falou:
– E qual o problema? Nós já conversamos a esse respeito e decidimos que temos que encarar isso como necessário para atingir nossos objetivos. Somos apenas “soldados” que lutam com as armas que temos para sobreviver e sair dessa situação ruim. – Blanche não conseguia parar de chorar e ele cobrou dela: – Se me lembro bem, o acordo que temos é de nunca falar sobre isso.
Controlando o choro, ela confessou:
– Não é isso! Você não entende! Eu fui para a cama com um deles. Eu não precisava transar com ele. Fui porque quis. Eu senti tesão, eu senti prazer, perdoe-me, mas eu te traí.
Dizendo isso, ela se deitou de bruços sobre a cama com o rosto afundado no travesseiro enquanto Charles, apenas observando o corpo de sua esposa, trêmulo e se balançando no embalo dos soluços de seu pranto.
Mas o pranto de Blanche não continha apenas o remorso de ter traído o seu marido. Ele também era um lamento por ela ter quebrado a promessa que fizera quando resolveu lutar contra os alemães. E, por sua culpa, a missão, talvez, não teve sucesso.
Para ela, era como se estivesse traindo a sua mãe e o seu irmão que jurou vingar. Era falhar com o compromisso que fizera em destruir Kurt. Era falhar com o seu povo que estava morrendo nas mãos dos nazistas.
Era o pranto de quem se sente fracassada e a pessoa mais inútil desse mundo.
