O sol das duas da tarde batia sem dó na minha nuca enquanto eu voltava da escola. A mochila pesava nas costas, a camiseta do uniforme grudando no corpo. Eu andava chutando pedrinhas, a cabeça longe, revivendo flashes do que tinha acontecido com o Rodrigo no carro, na cachoeira, no quarto... eu vivia num estado constante de excitação e paranoia.
Dobrei a esquina da praça, onde as árvores faziam uma sombra rala, e ouvi meu nome.
— Ô, Igor! Espera aí, rapaz!
Gelei. Conhecia aquela voz. Era o João.
João era amigo do meu pai de longa data. Dono da mercearia "Ponto Certo", onde a gente comprava fiado desde sempre. Ele estava encostado na porta de aço de uma loja fechada, limpando o suor da testa com um pano encardido.
João era um homem grande. Um negro alto, devia ter quase um e noventa, mas o tempo e o desleixo tinham transformado os músculos de antigamente em uma massa pesada. Ele era gordo agora, com uma barriga proeminente que estufava a camisa polo velha, mas os braços ainda eram grossos, pesados. Ele tinha aquele cheiro de mercadoria estocada misturado com suor azedo.
— Bença, João — falei, parando, tentando parecer natural. — Tudo bom?
— Tudo na paz, meu filho. E teu pai? Tá melhor da coluna? — Ele sorriu, um sorriso largo que mostrava os dentes amarelados pelo cigarro. Parecia a conversa mais normal do mundo.
— Tá sim, tá tomando os remédios.
— E a escola? Estudando muito pra virar doutor? — Ele deu um passo na minha direção, saindo da sombra e invadindo meu espaço pessoal. A sombra dele projetada no chão me cobriu inteiro.
— É... tentando, né.
Eu fiz menção de continuar andando, ajeitando a mochila, mas a mão dele, pesada e grossa, pousou no meu ombro. Não apertou, mas o peso estava lá. Uma âncora.
— Espera um tiquinho. Tenho um negócio pra te mostrar aqui. Uma coisa... curiosa.
Meu estômago deu um nó. O tom de voz dele tinha mudado. A cordialidade de "amigo do pai" sumiu, dando lugar a algo viscoso, arrastado.
Ele tirou o celular do bolso da calça larga. Um aparelho com a tela meio trincada. Ele desbloqueou com dificuldade, os dedos grossos batendo na tela, e abriu a galeria.
— Fui pescar lá pros lados do Lageado sábado passado... conhece lá, né? — Ele me olhou por cima dos óculos de leitura pendurados na ponta do nariz. O olhar dele era úmido, malicioso.
— Conheço... todo mundo conhece — gaguejei.
— Pois é. Eu tava lá quieto, no meio do mato, quando ouvi uma barulheira na água. Achei que era capivara. Mas não era bicho não. Ou era?
Ele virou a tela para mim e deu play.
No começo, por causa do reflexo do sol, eu não vi nada. Só o verde das árvores e o brilho da água. Apertei os olhos. O vídeo tinha sido filmado de longe, meio tremido, escondido entre as folhagens. Havia zoom.
Então, a imagem focou.
O ar saiu dos meus pulmões como se eu tivesse levado um soco.
Eram dois corpos na água. Um moreno, forte, segurando o outro. E o outro... o outro era um borrão branco. Um branco que brilhava no sol.
Eu peguei o celular da mão dele, sem pedir. Minhas mãos tremiam tanto que eu quase derrubei o aparelho. Aproximei o vídeo do rosto.
Era inconfundível.
Era eu. Eu, nu, agarrado no pescoço do Rodrigo. A imagem pegava o momento exato em que eu jogava a cabeça para trás, a boca aberta num gemido mudo, enquanto o Rodrigo me estocava contra a pedra. Dava para ver meu rosto. Dava para ver o rosto dele. Dava para ver tudo.
A vergonha veio quente, subindo pelo pescoço, queimando minhas orelhas. O mundo girou. Eu senti náusea.
— Bonito o vídeo, né? — A voz do João veio de cima, perto demais. — O filhinho santo do compadre... dando a bunda pro primo igual uma cadela no cio.
Eu tentei devolver o celular, mas ele não pegou. Ele deixou eu segurar, deixou eu ver meu segredo, minha vida, na mão dele.
— Seu pai ia ter um treco se visse isso, não ia? O coração do veio já não é bom... Imagina na cidade inteira. No grupo do futebol... na igreja da tua mãe.
— João, pelo amor de Deus... — Minha voz saiu um fiapo, estrangulada pelo choro que queria vir. — Apaga isso. Por favor.
Ele riu. Uma risada seca, sem humor. Ele pegou o celular da minha mão com brutalidade e guardou no bolso.
— Apagar? É uma relíquia, menino. E relíquia custa caro.
Ele deu um passo à frente, me encurralando contra o muro de uma casa. O corpo dele, grande e flácido, bloqueou minha visão da rua. Eu me senti minúsculo. Me senti aquele garoto frágil que eu era antes do Rodrigo me tocar, só que agora eu estava sujo.
— O que você quer? Eu tenho... eu tenho uma mesada, eu posso te dar... — tentei negociar, desesperado.
João balançou a cabeça, estalando a língua no céu da boca.
— Dinheiro de menino não me interessa, Igor. O que me interessa é o que você tem de sobra aí. — Ele olhou para a minha virilha, depois para o meu rosto, lambendo os lábios. — Se o Rodrigo, que é chato pra caralho, gosta tanto... deve ser bom mesmo.
O horror me paralisou. A insinuação caiu sobre mim como chumbo derretido.
— Passa lá na mercearia hoje, depois das seis. A gente abaixa a porta e... conversa. A gente acerta as coisas pra esse vídeo sumir.
Ele apertou meu ombro de novo, dessa vez com força, cravando os dedos na minha clavícula, machucando.
— Se não for, amanhã cedo esse vídeo tá no zap do teu pai. E não adianta contar pro teu priminho valente não. Se ele vier pra cima de mim, eu solto o vídeo antes dele chegar na porta. Entendeu?
— Entendi... — sussurrei, as lágrimas quentes escorrendo por baixo dos óculos.
— Bom menino.
Ele me soltou, deu dois tapinhas na minha bochecha — um gesto humilhante, paternal e nojento — e se afastou, andando com aquele gingado pesado em direção ao centro.
Fiquei ali, encostado no muro quente, vendo ele ir embora. Minhas pernas pareciam gelatina. O medo era uma criatura viva dentro do meu peito.
Se eu contasse pro Rodrigo, ele matava o João. Eu tinha certeza disso. Rodrigo era explosivo, era possessivo. Se ele visse aquele vídeo, se soubesse o que o João propôs... ia dar tragédia. Polícia, cadeia, escândalo. A vida da nossa família acabaria de qualquer jeito.
Mas ir lá... ir na mercearia, sozinho, com aquele homem enorme, sujo, que me viu crescer...
Olhei para as minhas mãos brancas, ainda tremendo. Eu estava num beco sem saída. E o relógio já marcava duas e meia. O tempo estava correndo contra mim.