30. O começo
Descobri o fim de Edson, assim do nada, Hélio contou que ele havia acabado com a própria vida no ônibus que o levaria embora daqui, foi só colocar o pé fora daqui e ele fez o que fez, meus outro meio irmãos me culpam por isso, eu nem ligo para o que eles pensam, mas agora estava explicado essa distância. Joel não quis que ninguém me contasse na época, tinha medo de eu me sentir responsável como meu me senti por muito tempo em relação a Fernando. Como agora Rafa se sente culpado por João e Samuel terem acabado e Samuel estar sem ter para onde ir, mas aí ele lembrava de quando telefonou para o amigo triste quando o sogro morreu, “morre quem tem que morrer”, Rafael estava dividido entre a fidelidade a quem Samuel foi e a repugnância a quem Samuel se tornou.
João estava se mudando, passou em um concurso interno, iria mudar para longe, quis conversar conosco, recebemos ele para um almoço, lamentou seus erros recentes, disse que iria seguir rezando por nós, lembrar de cada momento bom, perguntou se éramos amigos ainda, Joel disse que éramos uma espécie de família, que se desentende às vezes, Bosco e ele se emocionaram e nós todos também.
Mostramos que no quarto cinza havia um monte de colchões para espalhar pelo quarto e na casa toda, espalhamos animaizinhos nas paredes, pardas, leões, coelhos, dinossauros, unicórnios, levantes, tatus e cachorros, todos com jeitinho de filhotes, um bercinho para o garoto que Laura estava para trazer ao mundo, era um quarto para ser usado. Tião nos proibiu de comprar bonecas para as meninas, “não tem mais espaço em casa, elas nem sabem quantas tem, nem nós.” Perguntei a João se ele aceitaria recomeçar com Samuel, ele disse que sim, um menos… o Samuel do começo, sem essa radicalização política, ele disse que por um lado foi bom assim, não iria para promoção alguma se Samuel não o tivesse afastado de nós, tudo tem seu lado bom.
Laura estava muito rancorosa com o marido, eles se instalaram aquimemmcasa quando ela estava na trigésima sétima semana, ele alegava que não ia saber levar ela ao hospital, ela estava com umas complicaçõezinhas no fim da gestação, e com dez dias, ela sente as dores de expulsão, ele se organiza todo apesar do nervosismo, mala no carro, me pede para dirigir e desmaia no banco da frente, Hélio a leva para o hospital, Lygia a acompanha no parto, eu acompanho meu irmão na emergência, pressão altíssima, risco de AVE, quando ele estabiliza eu o levo em uma cadeira de rodas para ver a esposa com meu sobrinho no colo, eu e Luana seríamos os padrinhos, descubro que Junior nunca foi opção para o nome, nós que iríamos dar um nome para ele. Ali no colo de meu irmão, aquela coisa miúda e linda precisava de um nome, pensei na minha mãe, na mãe dele e na mãe de Laura, e para honrar e homenagear as três: Mário.
Mario e a mãe levariam alguns dias no hospital, meu irmão ficaria vinte e quatro horas, quando todos tiveram alta, passaram outros quinze dias em nossa casa. Tivemos uma certeza com o amor que Mário nos fez sentir: Filhos - jamais.
Aquele começo de vida no fim da quarentena era maravilhoso.
Samuel queria que um de nós fosse vistoriar o quitinete antes de nos devolver, fui com Sebastião. Estava tudo ok, ele disse como trocar a senha da porta e eu anotei, mas disse que não trocaria ainda, ele estava ainda desempregado, tirei do bolso uns trocados e coloquei o endereço de João junto, eu disse que era muito fácil amar alguém, mas muito raro encontrar o amor de alguém. Ele me olhou por mais algum tempo, falei como foi o nascimento de Mário, do modo que tive de perder Rodrigo, que eu nem imaginava que pudesse desprezar os irmãos com os quais cresci e amar tanto esse outro que é quase um amigo recente, que medo eu tenho de que ele tenha algo agora que descobrimos essa hipertensão, o tanto que sinto falta de abraçar meu irmão, de saber se ele está bem e se eu posso ajudar com algo.
Samuel chorou muito e primeiro foi Tião que o odiava a abraçar ele, depois eu bagunça os cabelos dele, ele pediu perdão, não conseguia falar, precisou de um tempo para acalmar, me perguntou tou se Rafinha estava bem, se eu sabia se… “Ele sofre demais com sua ausência, muito, Tiago fala muito de você para Hélio, Hélio escuta sem falar nada, sabemos que você tem tudo algumas dificuldades, que tem se esforçado muito, mas sozinho é difícil né?”, “Lygia e Tiago não podem, mas tem me ajudado, sozinho meu não estou, mas eu sinto falta de meu companheiro, eu era o irmão de Rafael, não você, eu sei que João me perdoa se ele me perdoar primeiro, mas…”, “Sam, ninguém te substituiu, esse tipo de coisa a gente aumenta nunca diminui.”
Como eu falei para ele “esquecer” os óculos em casa, ele e seus dois graus de miopia não perceberam para onde eu o levava até ser tarde demais, Joel o cumprimentou com um aperto de mão na diretoria do cursinho, quando Hélio o ouviu pedir perdão lhe deu dois murros, um embaixo do olho e outro entre o pescoço e o ombro, “Levanta, seu mrda, meu marido vai querer abraçar você.”, então eu entreguei os óculos a ele, como Rafael ficou feliz, quis mostrar seus avanços nos simulados, o que estava lendo, mostrar a casa, contar sobre seu casamento, não parava de abraçar Samuel e olhar para o marido, Hélio fingia estar irritado, jantamos um peixe grelhado e legumes ao forno, arroz branco, vinho branco, depois ficamos conversando merda e Samuel pediu para ligar para João de nossa casa. Mas não aconteceu a reconciliação, Hélio falou para ele encher a cara e se jogar na piscina se não morresse podia dormir no quarto de hóspedes.
Até eu bebi, choramos todas as músicas de corno e chifre, vomitei claro, vomitei na pia da cozinha, Murilo que foi o único a não beber quase que me bate de raiva por isso, mas me levou para o banho e aos poucos foi despachando cada um dos bêbados (todos), Samuel no quarto de hóspedes. Quando amanhece o dia, Hélio vai ao nosso quarto e pede para eu concordar com ele quando ele fosse pedir um favor a Murilo, eu concordo se ele me disser o que é, não conta, mas diz que vai fazer Murilo surtar em segurança, não digo sim ou não, mas ele vê que concordei e sai do meu quarto meio vitorioso.
Domingo também é dia de levantar da cama e eu me arrastou até a cozinha, Joel começa a fazer o café, pede para eu pegar a frigideira e os ovos, deixo claro que não vou fritar nenhum ovo, Daniel chega para me salvar dessa tragédia, Murilo pega um melão para cortar e descascar e as coisas vão acontecendo enquanto ponho a mesa, quando Rafael chega e vai abraçar Murilo e pergunta o que faltava fazer, só o capuccino na máquina de café expresso quando eu terminasse o café da manhã, Rafinha prepara as cápsulas e liga a máquina pondo água e deixando tudo pronto para quando eu quisesse dar o comando, grito chamando Hélio, e esse vem só de cuecas e puxando Sam pelado pela pica, estava nervoso, os dois, ao olhar para Rafa, eram os três que estavam nervosos, mas de formas diferentes.
Hélio disse que depois que o marido dormiu foi até a lavanderia e ligou para João, ele estava bem, encontrou uma moça e estavam saindo, disse que queria não continuar, mas começar novamente, ela sabia de sua sexualidade e ambos eram bissexuais, não havia mais espaço para Samuel, quando desligou Rafa estava chegando à lavanderia e ambos conversaram, acabou que voltaram para o quarto e viram a luz do quarto de hóspedes ligada, Samuel não pregava o olho, contaram sobre o telefonema e treparam, quando amanheceu, Hélio foi dar uma volta pela casa (a ida ao meu quarto) e resolveu que merecia Samuel, afinal de contas ele foi o mais ofendido, Rafa o que mais sofreu, mas se podiam superar isso, todos nós poderíamos, disse que sabia que Rafa adorou dar para dois e ele adorou foder Sam e o marido, “Afetiva e sexualmente meu ponto alto foi a três, eu, Mateus e Joel, período perfeito, e acho que talvez você tenha vivido algo semelhante, Murilo, e eu senti isso novamente acordando entre esses dois, e Rafa ama esse seboso quatro olhos, não do jeito como eu quero, mas ama, temos tempo, pessoas erram e embora esse entregador de farmácia seja inteligente e lindo, é incompleto, insuficiente em si mesmo e erra. Talvez meus pais, que morreram quando tinham de morrer, concordassem comigo que estou certo em ajudar nós três.” Samuel baixou a cabeça e olhou para trás quando Hélio falou em seus pais, mas o meu amigo o puxou pelo cacete no fim de seu discurso e lhe mandou sentar na cabeceira da mesa, lugar de visita que vai responder perguntas.
O silêncio no café da manhã foi quebrado por Daniel, “Fizeram trenzinho? Se foi essa porra dessa coisa de filme pornô, levante, se vista e vá embora. Odeio essa porra dessa posição.”, Samuel sorriu num canto de boca, cabeça baixa e disse que não, Rafa com as pernas abertas barriga pra cima, ele por cima, e Hélio o comendo por trás o conduzindo pelo cabelo para beijar Rafa, ou ouvir uns insultos ao pé do ouvido. Hélio levantou a mão e Daniel bateu nela, conversamos, o retorno de Sam era fato, “Eu quero pedir o emprego de Samuel de volta, e conversei com Mateus, ele concorda comigo”, entendi, era uma piada, a empresa de eventos havia voltado havia dois meses e era isso, uma piada, Murilo disse que sim, mas era minha responsabilidade. Samuel estava eufórico e dizia que não, que não podia e não era o certo, houve um debate acalorado, claro, morri de raiva de Hélio, Joel ria ao meu lado, falava baixinho para eu assinar um documento em branco - filhos da puta.
A tarde liguei para meu tio, indisponível, fazia umas semanas que tio Galvão não atendia o telefone, mas dessa vez respondeu no segundo toque, disse que estavam viajando, depois ligavam, desligou, só isso. Aquele domingo foi diferente, senti inveja de Rafael entre dois machos que lhe tratavam como ele merecia, não queria alguém que substituísse Joel, que complementasse Joel, talvez fosse só um instinto de boiola ainda dentro de mim, uma febre de quenga ou qualquer coisa assim.
Terça eu estava na oficina de carros quando Tião vai me chamar, diz que tem um cliente insuportável no escritório exigindo falar com “o gerente dessa merda”, eu nem sei o que estava fazendo antes, mas eu quase corria na rua, estava disposto a quebrar o pescoço desse ex vivente, eu estava disposto a matar quem insultou meus funcionários, “QUEM VOCÊ PENSA QUE É?”, gritei eu antes mesmo de abrir a porta, e quando abri ele se escondia atrás de uma folha de papel sulfato, “Seu tio Caio, eu acho!”, eu levei uns dez segundos para entender que cai numa brincadeira de meu tio, que ele estava ali, em carne e osso, e quando ele me abraçou eu lembrei dele indo me ver nas vésperas de meu aniversário de dezoito anos, a camisa Polo que realçadas aqueles braços que agora me enlaçavam e eu me senti seguro com meu queixo tocando seu pescoço, “Meu garotão tá crescido, tá com um corpão de macho.”, “Joel…”, tio Caio disse que pediu para Tiago ir buscar ele de moto, dizer que um cliente me atacou no escritório e me deu um chute nas costas, eu disse que ele ia chegar aqui enlouquecido, “Assim como você chegou, passei muito tempo longe de vocês dois, acham que não ia causar emoção alguma. Que loucura da porra!
Ele quis ver minhas notas no sistema da faculdade, me elogiou, a menor era um oito ponto oito, quis ver os balanços da oficina de motos, ele chorava a madeira e cravo, do perfume dele, havia fumado esses dias, fiquei orgulhoso por ele falar que estava inseguro sobre nosso reencontro, não quis falar nada pessoal até Joel chegar, entre vinte e trinta minutos Joel chega, abre a porta com tanta força que quebra a maçaneta, ele quando me vê tomando café com tio Caio o chama imediatamente de desgraçado e vai abraçar meu tio, Tiago por sei lá qual motivo ficou segurando a porta, então ninguém viu os dois se beijando, ele nem acreditou que Caio estava mesmo ali e eu ainda não tinha tirado um beijo de sua boca. “Pra casa, Caio, tirar essa poeira de avião, vocês vão ficar lá em casa até a gente mandar fazer uma faxina no teu apartamento novamente.” A gente foi lá pra casa, Caio foi dirigindo, disse que nunca quis passar pela burocracia de ter licença para dirigir em Moçambique, país maravilhoso, mas sempre se sentia deslocado, faltando uma coisa embaixo dos pés, uma insegurança em estar longe de casa.
Chegamos em casa e assim que ele estaciona eu o beijo, mal desafivelado o cinto de segurança e minha língua tinha urgência de encontrar a dele, descemos na garagem e as roupas iam sendo deixadas pelo caminho, na varanda Joel m mando ajoelhar e chupar le e Caio, e foi o mais longe que deu pra chegar de minha cama, em segundos Joel também chupava Caio conosco, e depois ele se deitou e eu coloquei meu cu na cabeça de sua pica, desci lento, Joel pegou um oleozinho apropriadamente escondido na varanda, tirou a rola de Caio de dentro de mim e chupou ela antes de besuntar bem e meu cu também, sentei novamente naquele cinquentão sem barba que havia dois dias que não cuidava do rosto, a pele dele arranhava a minha, “Mateus, deixa eu sentir o cu de Joel também, também tô com saudade dele”, ele falou isso e me puxou para me chupar, disse que gostava do amargor da minha porra, Joel encostou a testa em minhas costas e gemeu baixinho.
Fizemos uma dupla penetração, Caio colocou Joel e eu de quatro e alternou entre foder um e dedar o outro entre nós dois, a gente se beijava sorrindo, olhava pra trás sorrindo, depois Joel veio foder minha boca e beijar Caio. Caio se deita no chão e se masturbando goza em si mesmo, pede para a gente gozar sobre ele, depois a ordem é que eu o limpe e dê a porra dele para Joel, ele se divert vendo a felicidade com a qual obedecemos o que ele pede. Caio estava em nossa casa, por enquanto.
Joel do seu lado esquerdo e eu no direito, cabeça em seu ombro, sujos, felizes, quebramos um vaso e a terra sugava tudo, tudo bem, isso era raro. “Renato deve tá dormindo aí dentro. Galvão não veio e nem vem, nunca mais, o dinheiro muda as pessoas é mentira, vocês não mudaram, acho que não mudei, quando você chegou Mateus, Galvão e eu estávamos numa crise, ele não suportava eu ser louco por Joel, Joel nunca deu o menor motivo para qualquer desconforto, ao contrário, então… depois você, eu vim pedir desculpas a vocês, eu…”, falamos um pouco sobre sempre ter sido muito bem tratados, paparicado e cobertos de atenção por tio Galvão, não havia motivo para isso, eu pergunto se ele e Renato estavam juntos, “Meu melhor amigo, sabe você e Murilo? Pronto, assim. Eu…”, “Antes de você falar, tio, tio uma merda, antes de você falar, Caio, eu queria te pedir uma coisa, fica aqui conosco, depois a gente pensa no que vai acontecer, eu te amo e amo Mateus, e ele e você me amam e se amam e foi o melhor sexo de minha vida, nada te impede, nada nos impede, e eu não estou em mim quando vejo meu marido beijando você, as duas pessoas que eu amo, que eu mais sinto tesão. Caio…”, “Deixa eu falar?”
Caio falou que a quarentena foi um horror de brigas e discussões com Galvão, Renato se isolou do casal e estava em permanente contato com ambos, mas aí veio o negócio, a tentativa de retorno ao Brasil, Galvão disse que não ia voltar nem a passeio, e muitos aborrecimentos depois, dois milhões de reais em bitcoins e um adeus, Renato já estava trabalhando em um hospital e ambos estavam vivendo em um apartamento de um quarto só, mas como relacionamento não estava acontecendo, Caio disse que quando ouviu Renato falar que nós dois éramos quem ele precisava gargalhou alto. Muito novos, eu sou num novinho, “Você merece, meu amigo, deixa o futuro no futuro”, foi a orientação de Renato, todo esse tempo foi o tempo que ele precisava para tomar coragem de vir nos ver. Pedir para ser parte de um triângulo com Joel e comigo. Joel o beijou, eu me meti no meio do beijo.
Caio é meu outro marido, meu homem também. Joel e eu estamos felizes.
Caio pede para a gente se vestir antes de entrar em casa, nem a pau, entramos assim mesmo, copiando Hélio, também por saber que não havia ninguém em casa, exceto Renato. Levou uns dias para eu retirar o tio antes do nome de Caio, fomos direto para o banheiro, ele parecia um menino, estava empolgado, chupava o mamilo de Joel o tempo todo, entrava com seus dedos em minha bunda em minha boca, sorria, beijava, Joel abriu a boca dele e cuspiu dentro, pronto, avacalhou, beijos sábados, eu pedi tapa, ajoelhei e Joel nunca havia feito comigo mas entendeu, Caio não acreditou, protestou contra e fez junto, os dois mijaram em mim, não foi nada de mais, e nunca se repetiu, eu me senti marcado, posse de ambos, tomaram banho juntos e depois deram banho em mim, dormimos na santa felicidade.