O relógio digital do micro-ondas marcava 09:58 da manhã de sábado. A casa estava mergulhada num silêncio cirúrgico, quebrado apenas pelo zumbido da geladeira e pela respiração pesada de três pessoas que esperavam o fim do mundo.
Não havíamos chamado a polícia. Rocha tinha sido claro: chamar a PM local seria avisar o inimigo. A nossa defesa teria que ser um ataque suicida.
Vanessa estava sentada na poltrona principal da sala. Ela não vestia pijama nem roupas de ginástica. Usava um *blazer* estruturado preto sobre a pele nua — sem sutiã, sem camisa — e uma calça de alfaiataria. Maquiagem impecável, batom vermelho sangue. Era a armadura dela, sexual e corporativa ao mesmo tempo. Kelly estava no corredor, fora de vista, mas perto o suficiente para ouvir. Eu estava de pé, encostado no aparador, com a pasta de couro marrom sobre a mesa de centro. A arma estava nas minhas costas, no cós da calça, fria contra minha pele suada.
Às 10:00 em ponto, a buzina tocou. Seca. Autoritária.
Caminhei até a porta e abri. Marco entrou no meu jardim com a arrogância de quem possui a escritura do bairro, vestindo uma polo apertada demais e correntes de ouro. Ele parou na soleira, sorrindo. O dente de ouro no canino esquerdo brilhou.
"Pontualidade. Gosto disso," ele disse, entrando sem ser convidado, o cheiro de colônia barata e tabaco invadindo minha sala. Seus olhos varreram o ambiente, parando no decote profundo do blazer da Vanessa com um brilho de cobiça nojenta. "Bela recepção. Cadê a mercadoria?"
"A mercadoria fica," Vanessa disse. A voz dela era gelo puro. "O que temos pra você está naquela pasta."
Marco olhou para a pasta, depois para mim. O sorriso diminuiu. "Cinquenta mil? Em espécie? Espero que sim."
"Não é dinheiro," falei, dando um passo à frente. "É o seu futuro."
Ele franziu a testa, a mão descendo para a cintura. "Tá de brincadeira comigo, playboy?"
"Abre a pasta," ordenei.
Ele abriu. Vi o momento exato em que a arrogância morreu. As fotos da vigilância no depósito. A cópia dos registros bancários da mãe dele. E, por fim, a foto do filho, Pedro, saindo do Colégio Santa Cruz.
"Onde você conseguiu isso?" A voz dele saiu num rosnado baixo.
"O e-mail para a Corregedoria da Federal e para sua ex-mulher já está agendado," Vanessa disse, levantando-se devagar. O blazer se abriu levemente, revelando a curva do seio, mas ela não se importou. Era uma demonstração de poder, não de submissão. "Se você tocar num fio de cabelo de qualquer pessoa nesta casa, seu esquema cai na segunda. E na terça, sua ex some com o Pedro."
Marco estava vermelho, as veias do pescoço pulsando. "Você tá blefando, vadia."
"Quer pagar pra ver?" Vanessa desafiou, caminhando até ele, invadindo o espaço pessoal do homem que poderia matá-la com um soco. "Eu acabei de descobrir que meu marido comeu essa garota e eu a trouxe pra dentro da minha casa. Você acha que eu tenho medo de você? Eu não tenho mais nada a perder, Marco. Eu sou mais perigosa que você porque eu já estou quebrada."
O silêncio na sala foi absoluto. Marco fez a conta. O risco era alto demais. O lucro de oito mil reais não valia a liberdade e o filho.
"Cancelem o envio," ele disse, a voz rouca de ódio.
"A dívida está quitada," eu disse. "Suma."
Marco amassou a foto do filho. Olhou para Vanessa com um misto de ódio e tesão reprimido. "Fiquem com a puta," ele cuspiu no chão. "Ela é problema de vocês."
Quando a porta bateu e a Hilux arrancou, Vanessa desabou. Eu a segurei antes que ela caísse. Ela tremia violentamente, o blazer aberto revelando os seios arfantes, a pele suada fria.
Kelly saiu do corredor, chorando, e se jogou aos nossos pés. "Obrigada... obrigada..."
Mas não houve abraço terno de família feliz. A adrenalina de quase morte, misturada com dias de confinamento e voyeurismo reprimido, explodiu de uma forma diferente.
Vanessa se soltou de mim e olhou para Kelly. Havia uma ferocidade no olhar dela.
"Você viu o que eu fiz por você?" Vanessa perguntou, a voz trêmula.
"Vi," Kelly sussurrou, olhando para cima com adoração.
"Então me paga," Vanessa disse. Não era sobre dinheiro. "Me paga agora. Me faz sentir alguma coisa que não seja medo."
Vanessa agarrou os cabelos de Kelly e a puxou para cima, beijando-a. Não foi um beijo suave. Foi um choque de dentes, línguas e desespero. Kelly gemeu, surpresa, mas correspondeu imediatamente, as mãos subindo para agarrar os seios nus da minha esposa sob o blazer.
Eu tranquei a porta e me virei. A cena era surreal. Minha esposa, a executiva perfeita, estava prensando a ex-prostituta contra a parede da sala, beijando o pescoço dela com mordidas que deixariam marcas.
"Júlio," Vanessa chamou, sem parar de beijar Kelly. "Vem cá. Agora."
Não fui para o quarto. A sala, palco da nossa quase execução, seria o altar. Empurrei as duas para o sofá de couro. Vanessa tirou o blazer e a calça em segundos, ficando completamente nua, a pele branca brilhando de suor. Kelly, ainda vestindo a camiseta larga que eu emprestei, foi despida por mãos impacientes.
Fiquei olhando as duas nuas, entrelaçadas no sofá. Os hematomas de Kelly contrastavam violentamente com a pele perfeita de Vanessa. Era uma pintura de dor e prazer.
"Fode a gente," Vanessa ordenou, abrindo as pernas e puxando Kelly para cima dela. "Eu quero sentir você dentro de mim enquanto eu sinto ela."
Kelly se posicionou de quatro sobre Vanessa, as duas bocas se encontrando. Eu me aproximei por trás de Kelly. A visão era obscena e magnífica. Minha esposa deitada, olhando para mim através das pernas abertas da amante, os dedos de Vanessa já trabalhando no clitóris da Kelly.
Entrei em Kelly devagar. Ela estava apertada, seca de medo, mas molhada de excitação. Ela gritou — um som agudo que misturava alívio e dor — quando eu a preenchi. Vanessa assistiu a penetração com olhos vidrados, as mãos subindo para apertar os seios pequenos da garota.
"Isso..." Vanessa gemia, vendo seu marido foder a mulher que quase destruiu nosso casamento. "Fode ela, Júlio. Marca ela. Ela é nossa agora."
Comecei a bombear, o ritmo ditado pela adrenalina residual. O cheiro de sexo começou a impregnar a sala, misturando-se ao cheiro caro do perfume da Vanessa e ao suor ácido do medo que tinha acabado de sair.
Kelly gemia o nome da Vanessa, não o meu. "Van... Van..."
Vanessa puxou o rosto de Kelly para baixo e a beijou enquanto eu estocava. Eu via a língua da minha esposa invadindo a boca da garota no mesmo ritmo que meu pau invadia o corpo dela. Era uma conexão triangular perfeita e doentia. Eu fodia Kelly, mas quem gemia de prazer vicário era Vanessa.
"Troca," Vanessa pediu, ofegante, empurrando Kelly para o lado.
Kelly caiu no sofá, o peito subindo e descendo, o sêmen escorrendo da coxa. Vanessa tomou o lugar dela, ficando de quatro, oferecendo-se com uma vulgaridade que eu nunca tinha visto nela em cinco anos de casamento.
"No cu," ela disse. "Eu quero no cu. Quero que doa. Quero saber que estou viva."
Não hesitei. Cuspi na mão, passei na entrada dela e empurrei. Vanessa gritou, enterrando o rosto na almofada, mas empurrou a bunda contra mim, pedindo mais força.
Kelly se arrastou pelo sofá e se posicionou embaixo do rosto da Vanessa. Enquanto eu fodia minha esposa analmente com uma violência que beirava a agressão, Kelly oferecia a boca para Vanessa.
Vi minha esposa chupar a língua da amante enquanto era sodomizada pelo marido. Os gemidos das duas se misturavam numa cacofonia de prazer sujo. Vanessa chorava enquanto gozava, as lágrimas se misturando com a saliva.
"Eu te amo, Júlio," ela gritou, o corpo convulsionando em volta do meu pau. "Eu te odeio e te amo. Nunca mais me deixa passar medo."
Gozei dentro dela, um orgasmo doloroso que drenou até a última gota de energia do meu corpo. Caí sobre as costas dela, ofegante, o coração parecendo que ia explodir.
Ficamos ali, amontoados no sofá de couro pegajoso, um emaranhado de membros, suor e fluidos. O silêncio voltou à casa, mas agora não era o silêncio da morte. Era o silêncio pesado da exaustão pós-guerra.
Kelly foi a primeira a falar, a voz pequena, a mão acariciando o braço da Vanessa.
"E agora?"
Vanessa se virou, ainda nua, o rosto inchado e marcado, mas com uma calma assustadora nos olhos. Ela olhou para a porta onde Marco tinha saído, depois para mim, e por fim para Kelly.
"Agora," Vanessa disse, passando a mão no rosto machucado da garota com uma posse definitiva, "agora a gente toma banho. A gente janta. E a gente nunca mais pede desculpa por quem a gente é."
Ela se levantou, caminhando nua pela sala com a dignidade de uma rainha que acabou de vencer uma batalha sangrenta. Eu olhei para Kelly. Ela sorriu, um sorriso cúmplice e perigoso.
A dívida estava paga. Mas a conta do que tínhamos nos tornado... essa a gente ainda ia parcelar pelo resto da vida.
***
>> Próximo é o último capítulo!