Eu nunca pensei que uma simples viagem em família para a Europa fosse virar minha vida de ponta cabeça. Olha, sei que toda história de adolescente começa assim—“ah, aquele verão mudou tudo”—mas eu juro que, no meu caso, não tem exagero. Vou contar tudo, do jeito que aconteceu, sem floreio, sem censura. Você vai achar que estou mentindo, mas até hoje eu olho pra trás e não acredito em metade do que vivi. Ou fiz.
Me chamo Lucas Henrique Bastos, e esse relato não é exatamente um diário, mas uma confissão de tudo que mudou (e tudo que eu descobri) aos dezoito anos, na primavera de Madri. Não escrevo pra me gabar nem pra pedir desculpa. Escrevo porque, depois de tudo que aconteceu, só colocando em palavras pra tentar entender. E porque prometi pra mim mesmo que, dessa vez, não ia esconder nada.
Minha família não é dessas de novela, nem de comercial de margarina, mas sempre fomos unidos. Meus pais—Lígia e Ricardo—me criaram em Belo Horizonte, num apartamento confortável, vida de classe média típica. Ricardo é servidor público federal, daqueles conservadores de carteirinha. Alto, grisalho, sempre achei que parecia mais velho do que realmente é. Da infância à adolescência, minha imagem dele nunca mudou muito: sério, protetor, meio distante. Mas nunca faltou nada. Quer dizer, quase nada.
Minha mãe é outro departamento. Lígia Martins Bastos: loira de salão, estatura média, corpo definido (de academia e bisturi, eu descobri depois), seios siliconados que ela nunca fez questão de esconder. Professora universitária de Letras, sempre elegante, sempre no salto. Adorada pelos alunos, invejada pelas colegas, desejada—isso eu só percebi mais tarde—por quase todo homem que conhecia. Inclusive alguns amigos meus. Inclusive, claro, o filho dela. Sim, eu. É estranho admitir? Demais. Mas se estou mesmo escrevendo sem filtros, tem que começar por aí.
Desde muito cedo, eu sabia que minha mãe era bonita de um jeito que não era só “mãe bonita”. Não era só orgulho filial, era desejo disfarçado de admiração, mesmo antes de eu saber o nome disso. Aos doze anos, ficava hipnotizado vendo ela se maquiar de toalha na cabeça, enrolada no roupão felpudo, as pernas à mostra. Aos quinze, já ajudava a estender a roupa na varanda só pra pegar as calcinhas dela, cheirar escondido, imaginar como era ver minha mãe pelada. Às vezes ela saía do banho e passava pelo corredor, só de sutiã e calcinha, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Pra ela, era. Pra mim, era tortura.
Teve um verão, quando viajei pra casa da minha avó e esqueci o carregador do celular. Voltei dois dias depois, de surpresa, e peguei Lígia deitada na cama, totalmente nua, folheando um livro de poesia erótica (ela dizia que era pra dar aula, mas sei não). Fiquei paralisado na porta, vendo a bunda dela, os seios lindos, o mamilo rosado que eu nunca tinha visto direito. Ela percebeu, riu, e em vez de se cobrir, disse: “Lucas, filho, já ouviu falar em bater antes de entrar?” Eu bati. Muito, depois daquele dia.
O mais louco é que nunca falei pra ninguém. Nem pros amigos mais próximos, nem pro meu terapeuta, nem pro papel, até agora. Sempre fui o certinho do grupo, estudioso, esportista, primeiro a chegar e último a sair da aula. Meus amigos me zoavam de “escoteiro”. Na real, eu era só tímido, quieto, e totalmente obcecado pelas mulheres da minha própria casa.
A viagem pra Espanha foi ideia da minha tia Sônia. Ela e minha mãe eram gêmeas de temperamento, mas não de aparência: Sônia é morena, alta, cabelos pretos longos, gerente das academias da família. Ela casou cedo com o Gilmar, ex-personal trainer, agora dono de uma franquia de crossfit. Gilmar era daqueles sujeitos expansivos, sempre de bom humor, camiseta justa marcando os músculos e a barriga que começou a crescer depois dos quarenta. Eles tinham um filho, Rafael, que na época já morava fora.
Minha outra tia, Clarissa, era a caçula do trio Martins. Quando se divorciou, voltou pra BH com as filhas: as gêmeas Laila e Bruna. Eu sabia pouco sobre o ex-marido dela, só que era um canalha e nunca mais apareceu. Clarissa era morena clara, cabelo curtinho, corpo enxuto, trabalhava como advogada de causas impossíveis, defensora dos fracos e oprimidos. Vivia estressada, mas nunca perdeu o humor ácido.
Laila e Bruna, minhas primas, são parte essencial dessa história. Gêmeas não idênticas fisicamente, e com personalidades opostas em tudo. Laila é a clássica “problemática” de filme americano: bonita, ousada, viciada em selfie e provocação, fã de pole dance, tatuagens novas a cada mês. Bruna, por outro lado, era quieta, quase invisível, estudante exemplar, fã de yoga e livros de mistério. Ambas tinham dezoito anos, mas Laila parecia mais velha (e fazia questão de mostrar isso), enquanto Bruna parecia ainda uma criança de rosto angelical.
Fui apaixonado pelas duas, em segredo, desde a primeira infância. Com Laila, era fogo e competição: vivíamos nos provocando, ela dizia que ia me pegar de jeito um dia, eu ria e fingia não ligar. Com Bruna, era ternura e desejo de proteger, vontade de abraçar forte e nunca soltar. Só que à medida que o corpo delas foi mudando, e os biquínis foram diminuindo, minha cabeça virou um inferno. O que eu sentia não cabia nas categorias normais. Ninguém nunca falou sobre isso na família—nem brincando, nem bêbado. Eu achava que era só comigo.
Pouco antes da viagem, rolou uma reunião pra acertar os detalhes. Laila apareceu com uma camiseta cropped minúscula e um short jeans rasgado, mostrando a barriga tanquinho e a tatuagem nova (uma frase indecente em latim). Sentou no sofá, pernas abertas, sem a menor cerimônia, deixando a calcinha preta à mostra. Ricardo fingiu não ver, mas eu vi o olhar dele desviando, e juro que, por um segundo, até ele ficou sem graça. Bruna sentou ao lado, toda encolhida, as coxas juntas, o cabelo castanho caindo sobre o rosto. Me cumprimentou com um beijo no rosto, cheiro de lavanda, sorrisinho tímido. Aquilo ficou grudado em mim por dias.
Lígia coordenava tudo, como sempre. Ela organizava roteiros, hotéis, passagens, horários. A viagem era pra celebrar a formatura das gêmeas e também minha aprovação no vestibular de Educação Física. O plano: dez dias em Madri, com passeios diurnos em família e noites livres para os adultos. Gilmar fez piada de que só não ia perder o treino na academia do hotel. Laila disse que só ia dormir depois de conhecer todos os bares da Espanha. Lígia riu alto, dizendo que “meninas decentes não voltam depois da meia-noite”—mas olhando pra Laila como quem já perdeu a guerra.
Na véspera do embarque, fiquei acordado até tarde imaginando como seria a viagem. Tentei me masturbar pra aliviar a ansiedade, mas em vez de fantasias aleatórias, só conseguia pensar na minha mãe trocando de roupa no quarto, ou em Laila dançando no pole, ou Bruna de pijama, ajoelhada na cama lendo Agatha Christie. Gozei rápido, mas a vergonha veio mais rápido ainda. Dormi com a sensação de que estava levando um segredo sujo na mala, junto com as cuecas novas.
No aeroporto, o clima era de festa. Todo mundo com roupa de viagem, mochila nas costas, sacolas de duty free. Ricardo discutia com a atendente da companhia aérea porque nosso grupo ia ficar em fileiras diferentes. Clarissa brigava com Laila porque ela apareceu no embarque com uma garrafa de gin na mochila (que, segundo ela, era presente pra amiga espanhola). Gilmar distribuía barrinhas de proteína pra quem aceitasse. Bruna lia em pé, tentando não ser arrastada pelo caos.
Foi na fila da imigração que senti pela primeira vez que essa viagem não seria como as outras. Estávamos todos juntos, em pé, esperando a vez. Lígia encostou no balcão e me chamou pra tirar uma selfie. Cheguei perto dela, senti o perfume de flor de laranjeira, o decote generoso do vestido revelando metade dos seios. Ela sorriu pra câmera, puxou minha cabeça pra mais perto, e por um segundo roçou os lábios na minha orelha. “Relaxa, filho, você vai adorar Madri. Dizem que lá todo mundo é mais livre.” O jeito que ela falou “livre” me deu um arrepio que subiu da nuca até a virilha.
O voo foi longo. Dormi pouco, com a cabeça rodando entre tesão, ansiedade e medo do que viria. No desembarque, Laila desabafou: “Nunca fui tão mal olhada por velhinhos quanto nessa viagem.” Eu reparei: do piloto ao segurança do aeroporto, todos devoravam minha família com os olhos. Até a mulher do taxi olhou pro grupo e disse, em espanhol arrastado, que éramos “a família mais bonita de toda Espanha”.
O apartamento alugado era enorme, dois andares, janelas para a Gran Vía. Logo de cara, Gilmar e Sônia escolheram a suíte principal, e Clarissa ficou com o quarto das meninas. Ricardo e Lígia pegaram outro quarto, e eu fiquei no sofá-cama da sala, isolado mas de frente para tudo. Primeira noite, não dormi nada: ouvi Laila rindo alto com a mãe na varanda, Gilmar e Sônia transando sem vergonha nenhuma (parede fina, bicho), e meus pais conversando baixinho na cozinha, como faziam nas noites mais íntimas. Fiquei ali, deitado, ouvindo tudo, pensando em tudo, imaginando coisas que só podiam dar errado.
Na segunda noite, decidi que não ia mais fingir que era santo. Espiei pela porta do quarto das meninas e vi Bruna de baby-doll rosa, ajoelhada na frente da mala, dobrando as roupas com calma. Laila estava deitada na cama, de top e calcinha, mexendo no celular com as pernas pra cima. Trocavam poucas palavras, mas o jeito que uma olhava pra outra era de cumplicidade absoluta. Me perguntei se elas sabiam dos meus pensamentos. Me perguntei se elas também pensavam em mim.
No café da manhã, Lígia apareceu de pijama curto e camiseta branca, sem sutiã. Sentou ao meu lado, cruzou as pernas, e pegou minha mão pra mostrar a lista de passeios. A mão dela era macia, quente, as unhas pintadas de vermelho. Fiquei hipnotizado, e ela percebeu. “Tá distraído, Lucas? Não tá curtindo a viagem?” Balancei a cabeça, sem saber o que dizer. “É só sono, mãe.” Ela sorriu, colocou a mão no meu rosto, e piscou: “Filho, a vida passa rápido. Aproveita tudo.”
Depois do café, Ricardo saiu para resolver umas coisas no centro, e eu fiquei sozinho com Lígia. Ela lavava a louça, cantarolando uma música antiga. Fui ajudar, mas derrubei um copo na pia. Ela riu, enxugou as mãos e me abraçou de lado. “Você cresceu tanto,” sussurrou, apertando meu ombro. O seio dela encostou no meu braço, e por reflexo me afastei. Ela segurou firme. “Relaxa, Lucas.” Naquele momento, tive vontade de virar e beijar sua boca. Mas só consegui travar, como sempre.
Se você chegou até aqui e está achando tudo doentio, pode parar de ler. Mas se chegou e está curioso, parabéns: você é igual a mim. O que vem a seguir é só o começo da história. Meu nome é Lucas, e eu sou—não só, mas também—filho da minha mãe. E das minhas fantasias.
O resto eu conto depois. Palavra de escoteiro.