BREAKING NEWS: TE AMO - 5 - IVAR

Um conto erótico de Escritor Sincero
Categoria: Gay
Contém 2674 palavras
Data: 23/01/2026 02:22:45

Curte uma história fofa e romântica? Confere aí:

***

BRUNO ASSIS

A redação da TV Mundo parecia um campo de batalha naquele dia. Era dia de reunião de pauta da equipe vespertina, a que produzia o Jornal da TV Mundo, o carro-chefe da emissora. Cada um queria emplacar sua história, cada um queria ser visto. Eu, ainda novato naquele ringue de egos, me sentei ao fundo. Sabrina, do meu lado, rabiscava no bloco de notas e, sem olhar para mim, deixou escapar uma anotação que quase soava como conselho de sobrevivência: "Nunca interrompa Alessandra. Nunca."

Miguel entrou alguns minutos depois. Impecável no terno escuro, com aquela confiança natural que parecia não se abalar por nada. Mas eu já começava a perceber os sinais que os outros não notavam: os olhos denunciavam o cansaço das madrugadas em campo, a rigidez dos ombros, o maxilar sempre à beira do aperto.

Quando Alessandra anunciou que ele passaria a apresentar algumas edições do Jornal da Noite, substituindo ninguém menos que Ulisses Teixeira, a sala se dividiu. Parte da equipe aplaudiu, genuína. Outra parte trocou olhares enviesados, sorrisos falsos que escondiam veneno.

Foi nesse clima que ouvi Kris Paiva cochichar para o colega ao lado:

— Que incrível, agora temos até âncora de minorias.

A frase me atravessou como uma lâmina. Não era elogio, era ofensa disfarçada de piada. Senti o ar rarefeito, pesado, quase sólido. Miguel, sereno, fingiu não ouvir. Mas eu vi. Eu vi o maxilar dele travar.

Alessandra cortou o clima como uma faca afiada:

— Estamos apostando em competência, Kris. A pauta segue.

Meu sangue ferveu. Eu queria responder, queria gritar, mas antes que eu me levantasse, Roberto, outro repórter, falou em voz alta:

— Bonito ver a TV Mundo apostando na diversidade. Porém, não vejo ninguém aqui mais competente que o Miguel para assumir esse lugar. Ele não usa o ChatXBT para fazer os textos. — E disse isso colocando a mão no ombro dele, como se selasse um pacto. — Parabéns, meu amigo. Vai ser um prazer dividir a tela contigo.

A reunião continuou, mas eu já não estava mais ali. Só conseguia olhar para Miguel, que escrevia no caderno como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia. Ele estava engolindo aquilo.

Mais tarde, no corredor, tomei coragem:

— Miguel, sobre o que o Kris falou... eu... eu não sabia o que fazer.

Ele fechou a pasta, levantou os olhos e disse, calmo demais para o peso do que carregava:

— Não tinha nada pra fazer, Bruno. Isso acontece sempre.

— Mas não é certo. — Minha voz saiu baixa, quase infantil. — Eu devia ter dito alguma coisa.

Miguel respirou fundo e se apoiou na parede, como se sustentasse mais do que o corpo.

— Você ainda não entende. Se eu rebato, sou o negro barraqueiro. Se eu fico quieto, sou o que "aguenta tudo". Não tem saída. Então eu escolho seguir em frente.

Abaixei a cabeça, engolindo em seco.

— Eu só... não quero te deixar sozinho nisso.

Ele sorriu de canto, mas era um sorriso cansado.

— Às vezes, Bruno, não é questão de querer. É questão de sobreviver.

O silêncio que veio depois pesou mais do que qualquer manchete. Eu queria abraçá-lo, dizer algo, qualquer coisa. Mas não fiz. Só fiquei parado, observando enquanto ele se afastava pelo corredor, carregando consigo uma solidão que eu não sabia como aliviar.

Naquela noite, deitado na cama, percebi que a redação não era feita só de pautas e câmeras. Era feita de cicatrizes. E eu... eu já tinha falhado em proteger a única pessoa que mais me inspirava.

***

Desde a reunião de pauta, eu quase não via mais o Miguel. Segundo o Júnior, ele ia passar a semana toda treinando para apresentar o Jornal da TV Mundo no fim de semana. Além disso, precisava se adaptar à rotina do telejornal — ou seja, quando eu estava saindo da redação, ele estava entrando. Que saco. Era como se a gente vivesse em fusos horários diferentes.

Naquela manhã, antes de sair para mais um dia de trabalho, caminhei até a porta do quarto da minha mãe. Minha mão encostou na maçaneta. Por um instante, pensei em abrir, ver se estava tudo bem. Mas desisti. O medo de encontrar ela no meio de um surto, o medo dela me ver e começar a gritar... me paralisou. Deixei a mão escorregar da maçaneta e segui pelo corredor.

Aquela era a realidade que eu conhecia: eu e minha irmã, Raquel, trancando armários, gavetas, qualquer coisa que pudesse ser usada como arma ou veneno. Uma vida de fechaduras e chaves escondidas. Era triste, mas era a única vida que eu sabia viver.

Peguei meu caminho até o ponto de ônibus. No trajeto, algumas pessoas me reconheceram. Eu sempre parava, sorria, trocava umas palavras. Não achava que fosse famoso — longe disso —, mas acho que minha cara já começava a ser associada às matérias que eu fazia. E, de certa forma, aquilo me dava forças.

De Laranjeiras até o Jardim Botânico era quase uma hora dentro do transporte público. Não tinha carro, e depender de aplicativo todo dia era inviável. Mas, no fundo, eu gostava daquela rotina. O ônibus me mostrava coisas que eu jamais veria de outra forma.

Foi dentro dele que tive a ideia de sugerir para a Sabrina uma pauta sobre o sucateamento do transporte público. Eu via todo dia: ar-condicionado quebrado, gente espremida, atrasos. Ela comprou a ideia na hora e montou uma pauta com a prefeitura, o sindicato dos rodoviários e, claro, os próprios passageiros.

Outra vez, conheci um ambulante que fazia rap para vender bala. O cara transformava o sufoco do cotidiano em rima, e aquilo me pareceu mais jornalismo do que muito dado oficial que a gente recebia. Fiz a matéria, e foi um dos meus trabalhos favoritos.

Pouco a pouco, entre uma linha de ônibus e outra, eu sentia que estava me localizando dentro daquele universo chamado jornalismo. Não era só chegar, gravar e ir embora. Era aprender a olhar.

E, no meio disso tudo, eu só pensava em quando voltaria a cruzar com o Miguel de verdade — sem relógio correndo, sem pautas nos engolindo.

***

MIGUEL TORRES

Sinto falta do Amarildo. Quem diria? Até das piadas pervertidas e comentários inapropriados eu tenho saudade. O silêncio sem ele parece estranho. Mas o que realmente me preocupa é o Bruno. Será que eles estão se dando bem? O Amarildo diz que sim, mas eu conheço o desgraçado — ele fala o que convém, nunca o que realmente é.

Enquanto isso, cá estou eu, atolado em uma rotina que parece não ter fim. Aprendendo toda a sistemática do jornal, que vai muito além de sentar na bancada e ler notícia. Tem patrocinador para agradar, linha editorial para respeitar, política interna para entender. E, para completar, o RH decidiu oficializar a mudança: de repórter para apresentador. Alessandra fez questão de me tranquilizar, dizendo que vou continuar fazendo matérias externas, mas que, aos sábados, a responsabilidade de apresentar o Jornal da TV Mundo será minha.

A semana tem sido puxada demais. Aulas extras na fonoaudióloga, revisão de textos, novas responsabilidades. Uma das "relíquias" de se trabalhar aqui, como dizem os veteranos. E em uma quinta-feira fria, depois de revisar todo o jornal, segui para o estúdio para acompanhar a apresentação do Wilson Lonney, o titular do jornal.

Assim que me viu, Wilson disparou, com aquele humor ácido que só ele tem:

— Então, é você que quer me derrubar?

Soltei um riso nervoso, me aproximando para abraçá-lo.

— Eu, jamais. Você sabe que foi mais que um professor. — respondi com sinceridade. — A Alessandra pediu para eu acompanhar a rotina do jornal. Alguma dica?

Ele arqueou a sobrancelha, fingindo mistério, e soltou:

— Sempre tenha um plano C.

— Plano C? — repeti, confuso.

— Sim. Geralmente o teleprompter dá problema. Quando isso acontece, recorro ao tablet. Mas, para garantir, sempre deixo todas as laudas do jornal impresso em cima da bancada. — explicou com a naturalidade de quem já sobreviveu a todas as catástrofes possíveis no ar.

Wilson seguiu para a bancada. E, naquele instante, eu me peguei observando cada detalhe como se fosse a primeira vez.

A bancada era imponente, de linhas modernas, mas sóbria, com o logo JN — Jornal da TV Mundo — estampado em letras grandes e iluminadas ao fundo. Atrás do cenário, o que mais impressionava era a redação em movimento. Telões exibindo mapas e manchetes, jornalistas correndo de um lado para o outro, cada um preso ao seu fone de ouvido, ajustando a edição de última hora, falando ao telefone, conferindo imagens. Era como observar um organismo vivo, pulsando para colocar as notícias no ar em tempo real.

Wilson, já acomodado, ajeitou os papéis na bancada. Um homem na faixa dos cinquenta e cinco anos, cabelos grisalhos impecavelmente penteados para trás, olhar sério, postura rígida — a imagem perfeita de credibilidade. Sua presença preenchia o estúdio de um jeito que me fez pensar: sou eu que vou sentar aí no fim de semana.

Senti um frio na espinha. Um misto de honra e pavor. Eu não podia demonstrar, mas, por dentro, meu corpo gritava: se eu errar aqui, o Brasil inteiro vai assistir.

***

BRUNO ASSIS

Lá estava eu, ajeitando meu colete e checando as baterias das câmeras, quando a redação explodiu — uma daquelas "bombas" de pauta que fazem todo mundo correr feito barata tonta. Alguém da produção trouxe a informação: o rapper Ivar ia se apresentar voluntariamente na Cidade da Polícia. A Sabrina derrubou todas as minhas pautas do dia na minha mesa com a eficiência de quem limpa a cozinha depois da festa.

— Vai pro almoxarifado. Rápido. — foi tudo o que ela falou, já digitando a ordem no grupo.

Corri até o almoxarifado, agarrei os equipamentos e saí com o Amarildo no carro. Ele já dirigia com aquele ar de quem conhece a cidade inteira, rádio Mundo no volume baixo, meia piada pronta na ponta da língua.

— Vocês moleques aprontam cada coisa. — Resmugou o cinegrafista, que pediu para eu ler a pauta no tablet.

— O rapper Ravi Nascimento da Silva, também conhecido como Ivar, teve prisão preventiva expedida ontem à noite, e ele vai se apresentar na Cidade da Polícia hoje — li em voz alta. — Disseram que na operação para apreender um adolescente na casa do cara, rolou confusão. O menor fugiu, eles tentaram e... pedras nos agentes. Um policial ficou ferido.

Silêncio no carro. A notícia parecia quente demais pra ficar só no papel. Eu sentia o coração martelar por causa da adrenalina e do medo de fazer besteira na primeira grande cobertura solo.

— Pior, que a minha filha adora esse cara. Onde esse mundo vai parar? — murmurou Amarildo, meio como comentário, meio como desabafo.

Ele me explicou o básico pelo caminho: a Cidade da Polícia é um complexo enorme — várias delegacias especializadas, o CORE lá dentro — inaugurado em 2013, tudo muito grande e organizado. Eu nunca tinha pisado ali; pra mim, parecia cenário de documentário, não de plantão ao vivo.

— Já te aviso logo, novato — disse Amarildo enquanto a viatura no trânsito nos lembrava que o tempo é inimigo. — Não deixa ninguém te pisar. Vai ser um por cima do outro, às vezes dá até briga. Mas a gente precisa de uma entrevista com o Ivar. Te colocaram na prova de fogo, viu?

— Entendi. — respirei fundo. — Vou fazer de tudo pra pegar essa fala.

Na chegada, o cenário era tenso: várias equipes alinhadas como cães de guarda, microfones estendidos, celulares filmando de ponta a ponta. Logo percebi a figura do artista antes mesmo de ouvir o nome: casaco verde fechado até o peito, cabelo pintado de roxo que brilhava sob a luz mortiça da manhã, postura contida mas desafiante. Ele estava escoltado por agentes — dois de cada lado — e o semblante era de quem sabe que estava no centro de um furacão.

Os repórteres começaram a se empurrar, cada um buscando uma fresta para se aproximar; a adrenalina transformou o grupo todo numa massa de cotovelos e microfones. Gritei meu nome, agitei o microfone, tentei abrir caminho com jeitinho e com a insistência de quem sabe que oportunidade não espera.

De repente, uma brecha. Um repórter tropeçou no cabo, alguém reclamou com a produção, e eu me enfiei — por um segundo eu estava frente a frente com o Ivar. O cheiro de café misturado com fumaça de escape e perfume barato formava o ar ao nosso redor. Mantive o contato visual; se eu vacilasse, a fala escaparia por entre dedos alheios.

— Ivar — comecei, voz firme, impulsionada pelo medo e pela vontade de acertar — a polícia afirma que você e seus amigos atacaram os agentes com pedras, impedindo a prisão do adolescente foragido. O que realmente aconteceu naquele dia? Por que você decidiu intervir no cumprimento de um mandado judicial?

Ele me olhou por um instante que parecia durar uma eternidade, os olhos tão pintados quanto o cabelo, e respondeu com calma calculada:

— Bem, quem vai dizer realmente o que fiz ou não são as provas. Estou aqui de coração limpo, preparado para cada contra-ataque.

A resposta soou como um escudo e, ao mesmo tempo, como um convite pra guerra de versões. Enquanto a coletiva improvisada se desenrolava, eu sabia que aquela fala — curta, direta e cheia de subtexto — ia ditar a linha da minha matéria. Agarrei o áudio, filmei o rosto, e senti, pela primeira vez naquele plantão, que estava mesmo no meio do jornalismo que eu sempre quis: sujo, urgente e absolutamente real.

Consegui. O Ivar respondeu à minha pergunta. Um segundo antes, achei que ia perder a chance, mas não — saiu uma fala, curta, mas saiu. Claro que a confusão não terminou ali. Os outros repórteres avançaram em sequência, cada um tentando arrancar sua frase exclusiva, e, para minha surpresa, o cantor resolveu responder a todos, como se fizesse questão de provocar ainda mais os agentes que o escoltavam.

Depois de algumas respostas, ele foi puxado para dentro da delegacia. Eu, tentando acompanhar a movimentação, acabei me desequilibrando. Não estava em um ponto muito favorável, o empurra-empurra estava pesado, e... caí para trás.

Mas não toquei o chão. Alguém me segurou firme pelos ombros.

— Olha só, quem é vivo sempre aparece. — disse uma voz que eu conhecia.

Levantei os olhos e reconheci o sorriso.

— Eduardo...

— Esse é o meu nome. — Ele me ajudou a ficar de pé, ainda firme. — Estava esperando a sua ligação.

Engoli em seco. Aquele assunto.

— Desculpa, eu ia ligar, mas sabe como é... correria do dia a dia. — soltei, tentando disfarçar.

Ele arqueou a sobrancelha, já me desmascarando.

— Isso é pura mentira, né?

— Talvez. — respondi, tentando escapar com meu melhor sorriso.

— Sua sorte que é charmoso. — comentou, ainda sorrindo, antes de se afastar. — Bem, não esquece de me ligar. — E sumiu para dentro da delegacia.

Fiquei alguns segundos parado, como se estivesse voltando à realidade.

— Tempo bom pra paquerar. — a voz do Amarildo me puxou de volta.

Revirei os olhos, mas ri.

— Que paquera, rapaz. Eu sou um homem sério.

— Ah, sei... — ele debochou.

— Ei, temos que enviar a entrevista com o Ivar agora pra redação.

— Já enviei, senhor. — respondeu ele, com um ar de quem estava sempre dois passos à frente.

O resto da tarde foi marcado pela espera. Montei todo o texto, organizei a matéria e enviei pela internet. Amarildo, nostálgico, começou a contar como era antigamente: carregavam fitas pesadas, dependiam de cabos, transmissões falhas, atrasos de horas. Agora, bastava um toque na tela. Quase parecia fácil demais.

Fiz duas opções de passagens, deixei tudo pronto e seguimos ali, aguardando a saída do artista. Mas o dia se alongou. O Ivar permaneceu dentro, prestando depoimento, sem previsão de sair. A produção me enviava informações a conta-gotas pelo celular.

— Eu estou morrendo de fome. — reclamei, entedidado. Olhei para o lado e vi os outros repórteres na mesma situação.

— Vai se acostumando, meu chapa. — disse Amarildo, sem tirar os olhos do celular.

No fim da tarde, outro repórter chegou para assumir minha posição. Recebi a ordem de voltar para a redação. Uma segunda equipe também apareceu, caso a noite se estendesse demais. Amarildo soltou aquele suspiro de alívio típico de quem já viu isso acontecer centenas de vezes.

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