Ao final da tarde quando as quadras do complexo esportivo começaram a esvaziar, só sobravam dois times ainda vivos nos refletores de mercúrio: as futeboleiras do campus, já cansadas, e o elenco de vôlei feminino, comandado por Nicoli e suas 6 guerreiras de elasticidade inverossímil. Naquele fim de treino, o suor era regra, a pele brilhava como casca de laranja depois de banho, e os tênis escorregavam não de medo, mas de adrenalina acumulada. Cada ponto era jogado como se a reitora estivesse na plateia, cronômetro de ouro na mão, esperando o erro para punir com corte de bolsa.
Nicoli era o motor. Tinha corpo de nadador olímpico, ombros largos e duros, braços secos, abdômen de tanquinho zerado — mas faltava, mesmo de perto, qualquer coisa que denunciasse o gênero além das pernas depiladas. Seios eram rumores, invisíveis na camiseta colada; quadril, só o suficiente para prender short apertado. De costas, confundia geral com jogador da equipe masculina; de frente, era só a cara de menina levada, meio russa, meio ucraniana, com cabelo cortado rente na nuca e olhos de floco de gelo, quase transparentes.
Quando a capitã do outro time berrou “Set point, porra!”, Nicoli olhou o placar digital (22x23), ajeitou a faixa preta da cabeça, e deu o saque mais desumano do semestre. A bola bateu como tiro de canhão, cruzou diagonal, e acertou a linha com precisão que arrancou suspiro até da professora substituta. Não era só potência: tinha um veneno ali, uma elegância de cobra, que fazia o saque de Nicoli parecer ataque pessoal. O placar virou, as meninas explodiram em berros de vitória, e Nicoli jogou os braços pro alto, recebendo o abraço coletivo de suadeira.
— Caralho, Nicks! De onde saiu esse braço hoje? — gemeu a Camila, líbero, pulando nas costas dela.
— Tô dormindo proteína agora, Cami. Dizem que faz crescer — rebateu Nicoli, fingindo orgulho.
— Se crescer mais, te trocam pro time dos caras — zombou Thais, a levantadora, que já trazia água para as outras.
O grupo inteiro orbitava Nicoli, cada uma tentando roubar um pouco daquele magnetismo estranho. No refeitório, diziam que ela nunca sorria; no treino, era só risada de hiena, voz rouca, sempre pilotando a zoeira. Mas ninguém ali conseguia fingir que não adorava cada segundo daquilo.
A última rodada do treino era tradição: dez minutos de “jogo livre”, onde tudo valia, inclusive regras próprias inventadas na hora. O que valia ali era sujar a quadra, se jogar no chão, tentar bloquear com a cara, fazer lance impossível só pra sair na filmagem do time. Nicoli abusava: mergulhava em todo saque, dava peixinho na quadra dura, erguia bola de manchete com a mão aberta e, de vez em quando, fingia erro só pra ver a reação da galera.
Quando o cronômetro apitou, foi Nicoli quem puxou o grito de guerra:
— Um, dois, três, Vollycats!
As meninas repetiram, ainda ofegantes, antes de tombarem no chão, imitando sardinha depois de festa.
Camila foi a primeira a se recompor. Sentou ao lado de Nicoli, tirou a faixa da testa e ficou olhando de perto o suor escorrendo na têmpora dela.
— Sabia que tu é a garota mais rápida do campus? Eu marquei o relógio hoje. Teve saque teu que fez curva no ar — disse, encarando Nicoli.
— Mentira. É o vento da quadra, fica rodando — respondeu, mas gostou do elogio.
— Não, sério. Teu braço é igual do Kobe. Se você quisesse, já tava em time de liga, nem perdia tempo aqui — insistiu Camila.
— Liga não paga nada, Cami. Aqui eu ganho lanche da cantina e aula de graça — devolveu Nicoli, piscando. Mas Camila ficou olhando, só olhando, o sorriso abrindo devagar.
— Um dia tu ainda vai ser famosa, Nicks. Ou vai virar lenda urbana, tipo o Fantasma da Quadra.
Nicoli soltou uma risada seca, depois ficou em silêncio. Olhou pro teto, depois pro teto da própria cabeça. Não sabia se gostava de ser assunto, mas também não sabia ser outra coisa além de tópico de conversa.
A turma levantou, foi indo pro vestiário em blocos, cada uma reclamando da própria dor, do músculo que ia travar na manhã seguinte, da unha quebrada, da agenda lotada de trabalhos.
No caminho para o vestiário, Thais cutucou Nicoli:
— Tu é uma inspiração, sabia? Todo mundo aqui só joga por tua causa.
Nicoli queria rir, mas ficou muda. Deixou o elogio pairar, junto com o cheiro de suor que impregnava o corredor.
Lá na frente, Camila já organizava a bagunça no vestiário: jogava toalha pra cima, dividia shampoo, botava música alta no celular (sertanejo universitário, para desespero das puristas da MPB).
Nicoli ficou por último, pegando o que restou de água na garrafinha, sentando sozinha na arquibancada da quadra. Olhou os dedos inchados, as marcas roxas no antebraço, e sorriu. Era um sorriso privado, de quem não tinha que provar mais nada a ninguém.
De longe, via as outras se trocar, fazer piada, filmar dancinha pro story do time. Uma parte dela queria ir logo, fugir do drama coletivo; outra parte queria ficar ali, sentir o cheiro da quadra, deixar o suor secar como medalha invisível.
Só levantou quando ouviu Camila gritar:
— Vem logo, Nicks! Vão fechar o vestiário!
Nicoli jogou a faixa no lixo, pegou a mochila e foi, sem pressa. Sabia que cada segundo daquele ritual era parte de um jogo maior — e que, mesmo sem perceber, todas ali já estavam jogando com ela há muito tempo.
Na porta do vestiário, parou e respirou fundo. O mundo lá dentro era outro: diferente do mundo dos meninos, diferente do mundo da rua. Ali, era só entre elas. E, por enquanto, estava tudo perfeito.
***
O vestiário era território de liberdade brutal: nada de filtro, nada de limite, só vozes altas, risadas estourando como bombinha de festival, e o festival de corpos suados tirando roupa como se o pudor tivesse ficado na porta. O azulejo azul calcinha refletia a luz fluorescente, e o vapor quente da ducha coletiva condensava em nuvens grossas no teto, embaciando até a claridade dos espelhos.
As meninas invadiram, já desabotoando tops e shorts no caminho, sem cerimônia. Camila, a líbero, foi a primeira a ficar pelada, pendurando o uniforme no gancho e indo direto pra ducha — o corpo dela era uma cicatriz ambulante, cheia de marcas roxas, joelhos descascados. Thais veio atrás, já tirando o sutiã (um modelo esportivo, cinza e sem graça), e brincando de acertar a calcinha na cabeça da Bia, que fingiu indignação mas logo se juntou à palhaçada.
No canto do vestiário, duas meninas novas (Renata e Luiza, nomes de gente que só aparece em lista de chamada) se trocavam em silêncio, mas não tiravam o olho da movimentação das veteranas. Era uma curiosidade mal disfarçada, quase devoção, de quem sabia que ainda faltava muito pra fazer parte do núcleo duro do time.
Nicoli entrou por último, jogando a mochila no chão e tirando a camiseta com um puxão só. Por baixo, o peito quase plano ficava ainda mais invisível sem o top, só um vestígio de músculo, pele limpa e branca, com uma linha de suor desenhando o abdômen de um lado ao outro. Ela tirou o short e ficou só de calcinha preta, um modelo masculino que não deixava dúvida sobre o desprezo dela por lingerie feminina. Caminhou até o espelho, passou água no rosto e ficou ali, de braços cruzados, só observando as outras.
— Gostou do espetáculo, Nicks? — gritou Camila, já ensaboando o cabelo e fazendo pose de modelo de xampu.
— Se eu gostasse, já tinha invadido a ducha, né? — rebateu Nicoli, mas ficou olhando mesmo assim.
— Pega leve, Cami. Não é todo dia que tu encontra uma deusa dessas no vestiário — provocou Thais, estalando o elástico da calcinha e jogando um sorriso na direção de Nicoli.
Bia, a novata, ficou vermelha só de ouvir. Mas não tirou os olhos de Nicoli, pelo contrário: ficou encarando de baixo pra cima, admirando a definição do abdômen, os ombros secos, o jeito quase alienígena de tão diferente do padrão do time.
O flerte ali era uma segunda pele, um código secreto. Ninguém falava disso abertamente, mas todo mundo sabia: metade das meninas do vôlei era ou já tinha sido “curiosa”, e a outra metade só esperava a hora de experimentar. Nicoli era uma alvo de desejo máximo, a lenda urbana, o nome que circulava em conversa de bar depois dos treinos (“Aposto que ela nunca pegou ninguém”, “Dizem que ela só gosta de menina hétero”, “Se você der em cima, ela finge que não entendeu”). Mas nenhuma das versões era real — Nicoli só não gostava de papo furado.
Depois do banho, Camila enrolou a toalha na cintura e sentou do lado de Nicoli no banco do vestiário, colando o corpo suado no dela.
— Tu vai na festa da Atlética hoje? — perguntou, fingindo que era assunto de última hora.
— Tô pensando. Tem prova amanhã, mas talvez eu apareça — respondeu Nicoli, sem tirar o olho do celular.
— Podia ficar na minha casa depois. Só pra não voltar tarde. Minha mãe não liga, ela adora tu — sugeriu Camila, os olhos brilhando.
Thais ouviu, riu, e jogou uma camiseta em cima das duas.
— Leva ela pra casa, Cami! Mas toma cuidado: dizem que quem dorme com a Nicoli acorda gostando de mulher pra sempre — gritou, e as outras gargalharam.
Até Renata e Luiza, as calouras, riram. Mas ficaram olhando, como se quisessem ver se era verdade.
Nicoli fingiu que não ouviu, mas sorriu de canto. Gostava da atenção, mesmo que nunca admitisse. Tinha aprendido cedo que o próprio corpo era instrumento de poder — não precisava de maquiagem, de decote, de qualquer outro clichê. Só o jeito de andar, o sorriso de ironia, a ausência total de medo já faziam dela um bicho irresistível.
Depois do banho, a rotina era vestir roupa de treino (camiseta de time, short largo, tênis sem meia), passar desodorante coletivo, e ficar sentada no banco, esperando o resto se arrumar. Camila ficou ali, do lado, passando creme na perna e puxando assunto sobre o jogo.
— Tu já pensou em jogar profissional? — perguntou.
— Não. Nunca quis depender de esporte pra ganhar vida — respondeu Nicoli.
— Tu podia, sabia? Já vi menina muito pior que tu jogando na Europa — insistiu Camila.
— Prefiro ser lenda aqui do que ninguém lá fora — respondeu, secando o cabelo na camiseta.
Camila sorriu, e ficou olhando um tempão, como se quisesse decorar cada detalhe do rosto de Nicoli.
No fundo do vestiário, Bia hesitava entre ir embora ou tentar puxar assunto. No último segundo, criou coragem:
— Nicks, tu tem Insta? — perguntou, nervosa.
Nicoli olhou de volta, e o olhar era tão direto que Bia quase se arrependeu de perguntar.
— Tenho, mas é fechado. Nada interessante.
Bia ficou vermelha, mas não desistiu.
— Eu posso te seguir?
— Pode, mas tem que me prometer que não vai me stalkear. É regra — respondeu Nicoli, já pegando o celular da mão da Bia e digitando o próprio user.
Elas trocaram contato, e Bia ficou olhando a foto de perfil da Nicoli, hipnotizada. Era uma imagem dela pulando na quadra, o corpo inteiro no ar, sorriso aberto, e o nome “nicks.ice” em letras minúsculas.
A turma foi saindo, uma a uma, até só restarem Nicoli e Camila sentadas no banco. O vestiário foi ficando silencioso, só o barulho dos chuveiros pingando, o eco de alguma conversa perdida no corredor.
Camila virou para Nicoli, bem perto do rosto:
— Sabe que tu podia me beijar agora e ninguém ia nunca saber?
Nicoli ficou uns segundos pensando. Depois deu um sorriso torto, e respondeu:
— Acho que prefiro quando tem platéia.
Camila riu, jogou a cabeça pra trás, e encostou a testa na de Nicoli. Ficaram assim, sem se beijar, mas também sem precisar.
Por um instante, parecia que o mundo inteiro era só aquele vestiário, aquele cheiro de suor e desinfetante, aquele silêncio de domingo depois do treino.
E era. Pelo menos até o próximo jogo.
***
Quando Camila finalmente se foi, fingindo que tinha esquecido a própria toalha só para ganhar mais um minuto no vestiário, Nicoli ficou sozinha, sentada no banco frio, enrolando o short na mão como quem não quer sair dali tão cedo. O silêncio era gostoso, embalado pelo gotejar lento dos chuveiros e pelo barulho abafado das máquinas de lavar na área de serviço. O celular vibrava de vez em quando, notificações do grupo da Atlética explodindo memes e áudios de vozes estouradas, mas Nicoli ignorou — precisava de mais dez minutos sem estímulo pra processar a maratona do dia.
A porta abriu devagar, sem pressa, e Alice entrou. Não era do vôlei; nunca seria, pelo corpo franzino e pelo jeito de andar como se pedisse desculpa para o chão a cada passo. Alice estudava filosofia, usava calça jeans de cintura alta e camiseta de banda velha, e nunca tirava o casaco, nem nos piores dias de calor. No rosto, óculos de aro grosso e sardas de gente que não nasceu para esporte de contato. Ela carregava uma sacola de supermercado e uma mochila cheia de chaveiros de anime, e olhava para os próprios tênis Vans como se eles tivessem a resposta para todos os mistérios do universo.
Nicoli percebeu a presença de Alice pelo cheiro de perfume barato super adocidado e o cheiro de desinfetante — um cheiro que nunca parecia sair direito da pele da menina, talvez porque ela mesma nunca saísse daquele ginásio, sempre de plantão voluntário para os campeonatos, sempre organizando tabela, preenchendo planilha, controlando a lista de presença dos treinos.
— Oi — disse Alice, a voz mal saindo da garganta.
— Oi, Al. Veio recolher cadáver ou esqueceu alguém de castigo no banheiro? — provocou Nicoli, esperando o sorriso de canto que sempre vinha na sequência.
Alice sorriu, mas era um sorriso tímido, quase um pedido de desculpa pelo próprio sorriso.
— Só vim conferir se não esqueceram nada. Tem prova de ética amanhã, mas minha cabeça só pensa em vôlei. E, tipo, não jogo nem ping-pong — disse, meio rindo, meio querendo sumir.
Nicoli gostava disso: a honestidade total, sem filtro de atleta. Era o oposto do resto das meninas, que só sabiam provocar, rir alto, competir em tudo. Com Alice, era sempre jogo limpo.
— Tu devia tentar jogar um dia. Acho que leva jeito pra líbero — brincou Nicoli, já imaginando Alice sendo atropelada na quadra.
— Eu sou péssima em coordenação. Minha única habilidade é ficar invisível na sala. Aliás, vim te perguntar uma coisa, se não for incômodo… — Alice hesitou, mordendo o lábio até quase sangrar.
— Manda. Não prometo responder, mas ouço tudo — disse Nicoli, esticando as pernas no banco.
Alice sentou na outra ponta, deixando três bancos de distância — etiqueta de gente que teme o próprio desejo.
— Hoje vai ter sarau na República da Humana. Aí… tipo, eu queria saber se tu não quer ir comigo. Só se tu quiser, claro. Se não quiser, tudo bem também. Mas, se quiser, ia ser massa. — Ela despejou as frases como quem cospe um chiclete que ficou amargo demais pra engolir.
Nicoli ficou surpresa. Não porque nunca tivesse sido chamada pra sair, mas porque nunca tinha vindo convite tão delicado, tão na contramão do flerte escancarado da Atlética.
— Eu nunca fui num sarau — admitiu, sincera.
— É de boa. O povo lê poesia, às vezes canta, às vezes só bebe e fala bobagem. Se tu quiser, eu te busco aqui, oito e meia? — Alice parecia estar pronta pra correr se a resposta fosse não.
Nicoli olhou para o relógio, depois para a cara de quem nunca matou uma mosca na vida.
— Fechou. Mas só vou se tu prometer não rir se eu gaguejar na poesia — respondeu, e sentiu um frio estranho na barriga, o tipo de frio que não vinha nem nos jogos decisivos.
Alice abriu um sorriso gigante, o rosto clareando de repente.
— Eu nunca rio, só fico com vergonha junto. Melhor companhia pra humilhação mútua — ela disse, e se levantou, ajeitando os óculos no rosto.
Ficaram um tempo em silêncio, até que Alice fez menção de sair, mas parou na porta, olhando de volta para Nicoli.
— Se tu quiser, posso trazer um livro pra tu ler antes, pra não chegar perdida… — ofereceu, a voz ainda mais baixa.
— Quero sim. Pode ser qualquer coisa, desde que não seja Nietzsche. Esse eu prometo que nunca vou ler — respondeu Nicoli, rindo.
Alice piscou, fingindo indignação:
— Tem coisa melhor que Nietzsche. Depois eu te mostro.
Saiu, deixando atrás de si um vácuo gostoso, de expectativa.
Nicoli ficou ali, olhando para o teto de azulejo, os pés balançando no ar, o suor já quase seco no corpo. Sentiu uma vontade idiota de checar se o desodorante tinha vencido, depois ficou tentando adivinhar se deveria ir pro sarau de tênis ou arriscar um sapato de verdade. Riu sozinha, porque nunca se importou com roupa, mas agora parecia que tudo tinha mudado em cinco minutos de conversa.
Ficou ali um tempo, deixando a cabeça girar. Pensou na Camila, no beijo nunca dado, nas meninas do time que juravam que ela já tinha pegado metade da faculdade — mas a verdade era que nunca tinha beijado ninguém. Nem homem, nem mulher, nem um selinho bêbado na calourada. Sempre teve medo de errar o timing, de fazer papel de trouxa, de perder o respeito das outras.
Agora, com um convite simples, o mundo parecia mais aberto, mais leve. Sentiu a adrenalina de novo, só que não era pra treinar, não era pra ganhar set: era só pra não fazer feio no sarau.
Olhou para o próprio reflexo no espelho, viu o rosto lavado, o cabelo ainda molhado, e tentou imaginar como seria ser beijada por alguém. Sorriu de canto, como se já soubesse a resposta.
Por fim, vestiu a roupa devagar, pegou a mochila, e saiu andando, pronta pra se jogar no desconhecido.
Nem percebeu que estava andando mais rápido do que o normal, ansiosa pra ver o que vinha depois.
***
Nicoli já tinha terminado de se arrumar, mas ficou zanzando pelo vestiário só pra matar tempo — talvez esperando o cérebro aceitar que em poucas horas estaria numa mesa de república, ouvindo poesia e talvez, só talvez, beijando alguém pela primeira vez. O silêncio agora era total, só a luz fria do teto, o cheiro de desinfetante, e o som da própria respiração. A maioria das meninas já tinha ido embora, mas a porta ainda rangia de vez em quando, como se o lugar não quisesse aceitar a solidão.
Quando a maçaneta girou, Nicoli achou que fosse a zeladora ou alguma atleta da ginástica. Mas o que entrou era outro tipo de animal: Eduarda, de salto alto (na quadra? sério?), calça preta de vinil, jaqueta metalizada aberta sobre um top neon, os cabelos agora descoloridos num loiro quase azul, maquiagem pesada para aquela hora da tarde. Atrás dela, Mariane — com o olhar de quem estava pronta pra arrastar alguém pelos cabelos se precisasse. E, a reboque, vieram Becky e Melly.
Só que elas não eram as Receca e Melissa da aula de humanas.
As duas pareciam ter saído de um Instagram de influencer pornô. Becky, que antes era quase invisível, agora tinha cabelo platinado e bronzeado de mentira, o rosto brilhando de gloss e iluminador, unhas de acrigel rosa neon. Vestia minissaia jeans rasgada e cropped branco, sem sutiã, os mamilos duros quase furando o tecido. Melly estava pior: a pele dourada, maquiagem tão forte que parecia máscara de carnaval, vestido de lycra preta grudando em cada músculo do corpo, boca carnuda feita pra posar pra foto.
As quatro entraram como se tivessem ensaiado, cada uma andando no ritmo da outra. Eduarda foi na frente, olhos fixos em Nicoli; as outras se espalharam pelo vestiário, fechando portas, encostando nos bancos, bloqueando qualquer rota de fuga. Nicoli ficou em pé, mochila nas costas, tentando não demonstrar surpresa.
— Opa — disse, erguendo a mão num cumprimento irônico. — Vai rolar mutirão do BBB aqui?
Eduarda sorriu, mas era um sorriso de predador. Parou a dois passos de Nicoli, olhou de cima a baixo, como quem avalia carne fresca no açougue.
— Gostei da piada. Mas não viemos pra isso. Só queríamos trocar uma ideia — falou, cruzando os braços.
— Eu tenho treino, se for rápido pode falar — respondeu Nicoli, tentando parecer indiferente.
Becky e Melly se aproximaram dos lados, a poucos metros, mas não diziam nada. Ficavam só olhando, como gatinhas de pet shop treinadas pra caçar.
Mariane pegou uma garrafinha de água, sentou no banco e ficou assistindo a cena, os olhos nunca deixando Nicoli.
Eduarda deu um passo à frente, voz baixa:
— Lembra da última vez que a gente trocou ideia? Você tava explicando pros caras da Atlética que lugar de mulher era onde ela quisesse, não só na quadra.
— Lembro. E continuo achando isso, se quer saber — respondeu Nicoli, os punhos já cerrados.
Eduarda se inclinou, quase encostando o rosto no de Nicoli.
— Pois é. Agora quero te mostrar o que acontece quando mulher vai onde quer. — O tom era ameaça, mas também convite.
Becky foi a primeira a falar:
— Ai, Nicks, tu ficou mais gostosa ainda! — disse, voz duas oitavas acima do normal, rindo e jogando cabelo pra trás.
Melly, grudada na parede, olhava Nicoli com um olhar bizarro, entre tesão e inveja.
— De verdade, nem parece a mesma garota. Se tu quiser, eu te ensino a fazer sobrancelha assim — falou, apontando para as próprias.
Nicoli olhou para as duas, depois para Mariane, que só sorriu, dentes brancos e perfeitos.
— Cês tão diferentes. Tomaram fermento? — Nicoli forçou uma piada, mas o ambiente estava pesado.
Eduarda respondeu por todas:
— A gente só evoluiu. Decidiu que não dava mais pra ser figurante em história de macho branco. Agora somos protagonistas. — Olhou para Nicoli, olhos fixos. — E você devia ser a primeira a entender isso.
O grupo foi se fechando, círculo apertando devagar. Nicoli sentiu o corpo ficar tenso, mas não demonstrou. Não era de correr, nem de baixar o olhar.
Becky se aproximou, tocou o braço de Nicoli, e ficou alisando o bíceps como se testasse a qualidade do músculo.
— Cê tem o corpo perfeito, Nicks. Se tu quisesse, dava pra ganhar mil seguidores por semana só mostrando o tanquinho — falou, bem devagar.
Melly foi atrás, encostando os dedos na nuca de Nicoli, massageando sem pedir licença.
— E esse cabelo, menina… é curtinho, dá vontade de ficar passando a mão — sussurrou, depois soltou uma risada fina.
Nicoli deu um passo para trás, esbarrando na bancada, mas não desviou. Eduarda chegou mais perto ainda, agora quase colada.
— Sabe o que eu acho? Que tu tem medo de ser igual a nós. De gostar mesmo do teu corpo. De mostrar pro mundo que mulher pode tudo — disse, voz de desafio.
— Acho que vocês tão exagerando. Nunca precisei de audiência pra gostar de mim — respondeu Nicoli, encarando de volta.
Melly de repente pegou a mão de Nicoli, segurou forte, e começou a passar os dedos pelas falanges, olhando cada unha como se fosse arte.
— Não é exagero. É só… liberdade. Antes eu era mó travada, agora eu quero tudo. Quero sentir tudo, quero experimentar tudo. — A fala dela era confusa, rápida, como se tivesse tomado energético demais.
Mariane olhou para Eduarda, que assentiu com a cabeça. As duas vieram de vez, colando em Nicoli. Os quatro corpos femininos cercaram Nicoli, cada uma tocando, empurrando, ou só olhando com fome.
Eduarda se aproximou do ouvido de Nicoli, sussurrou:
— A gente vai te mostrar o mundo novo. E, se tu gostar, nunca mais vai querer outra coisa.
Nicoli sentiu o corpo responder, apesar do medo.
— Não sou igual a vocês, nunca fui. — A voz saiu trêmula, primeiro sinal de dúvida.
— Ninguém nasce igual, Nicks. Mas todo mundo nasce pronto pra mudar — respondeu Eduarda, depois virou o rosto e lambeu, devagar, a borda da orelha de Nicoli.
Becky e Melly já estavam passando as mãos pelo tórax de Nicoli, sentindo os músculos, apertando os mamilos por cima do top, rindo baixo.
— Ai, sério, se tu quiser, eu faço tua make hoje. Tu ia bombar no insta — disse Becky, agora falando de tão perto que o hálito doce batia na pele da outra.
Por um segundo, Nicoli ficou paralisada. Não era só o assédio: era o jeito hipnótico que as quatro tinham de se mexer, como se fossem um organismo só, cada uma completando o movimento da outra. Era bonito, no fundo, mas também assustador.
Eduarda virou o rosto para Nicoli, olhar afiado:
— Vai fugir ou vai aceitar o convite?
Nicoli hesitou. O mundo parecia mais pequeno agora, só o vestiário e o cheiro forte de perfume doce, e o desejo esquisito de não ser sempre a mesma.
***
A tensão durou menos de um segundo. Nicoli percebeu o perigo antes mesmo das outras se mexerem: os quatro corpos se aproximando juntos, como uma emboscada, a energia elétrica no ar. Era ataque coordenado — alguém tinha planejado aquilo, ensaiado os movimentos. Só que ninguém ali sabia lutar como ela.
Melly foi a primeira a tentar agarrar o braço de Nicoli, mas não teve chance: Nicoli girou o punho, travou a mão da garota e torceu, fazendo a unha rosa-choque quebrar no próprio dedo.
— Ai, caralho! — gritou Melly, largando na hora, mas Becky já vinha por trás, tentando imobilizar Nicoli pelo pescoço.
Nicoli se abaixou, deu um golpe de judô com o quadril e jogou Becky no chão, a bimbo quicando na cerâmica com barulho de osso e silicone batendo ao mesmo tempo.
Mariane e Eduarda atacaram juntas. Mariane tentou chave de braço, mas Nicoli era mais rápida: girou, empurrou com o cotovelo, e ouviu o estalo quando o nariz da Mariane bateu no metal do armário.
O sangue escorreu na hora, pintando a boca da Mariane de vermelho vivo. Ela recuou, mão no rosto, xingando alto:
— Porra, animal! Quebrou meu nariz!
Eduarda ficou sozinha no ataque, mas não perdeu a pose. Avançou com o salto alto, mirando chutar Nicoli na barriga. Só que Nicoli agarrou o pé da rival no ar, girou o corpo e desequilibrou Eduarda, que caiu de bunda, rasgando o vinil da calça na lateral.
Silêncio.
Nicoli recuou, respiração ofegante. Nenhuma arranhão, só adrenalina e raiva por baixo da pele. As quatro predadoras agora eram quatro vítimas, jogadas no chão como bonecas de loja de liquidação.
Melly ficou de joelhos, chorando. Olhou para o dedo, a unha recém-quebrada sangrando, e entrou em choro:
— Minha unha, isso dói muito! Cê sabe quanto custa uma manicure dessas? — berrava, tentando colar a ponta quebrada de volta com cuspe.
Becky sentou de pernas abertas, encarando Nicoli com olhos arregalados, misto de terror e tesão.
— Ai, Nicks, tu é bruta demais! Nunca que eu ia ganhar de ti — gemeu, massageando o bumbum, mas já sorrindo, como se tivesse amado o golpe.
Mariane cuspiu sangue no chão, olhou pra mão tingida de vermelho, depois pra Eduarda:
— Tua ideia genial, viu, chefona? — disse, voz anasalada, o rosto inchando visivelmente.
Eduarda ficou alguns segundos no chão, sem se mexer. Depois levantou, sacudindo o cabelo, recompondo a pose. A calça rasgada mostrava a coxa bronzeada, mas ela nem tentou disfarçar.
— Isso foi melhor do que eu esperava — disse, limpando a poeira do top. — Tu é mesmo tudo isso, Nicks. Parabéns.
Nicoli não relaxou. Ficou de costas pro armário, esperando a próxima investida.
— Vocês são doidas. Vieram pra cima achando que ia ser fácil? — perguntou, a voz tremendo mais de raiva que de medo.
Eduarda riu, sem abrir os dentes:
— Ninguém disse que ia ser fácil. Mas também ninguém disse que você tinha escolha.
O grupo ficou parado uns segundos, cada uma tentando entender o que vinha depois.
Melly levantou, limpou o rosto borrado de rímel, e ficou só choramingando baixo, tipo criança que caiu do balanço. Becky foi até a amiga, abraçou, e ficou dando tapinhas nas costas.
Mariane recostou no banco, pressionando o nariz com uma toalha de papel, o sangue manchando a ponta dos dedos.
Eduarda, agora de pé, caminhou até Nicoli, os olhos nunca deixando o alvo. Parou a dois metros de distância, falou baixo:
— Sabe por que eu trouxe a tropa aqui hoje?
Nicoli não respondeu.
— Porque eu sei que você é diferente. Não é só a força, nem o jeito de andar. É a fome. Tu tem medo de sentir as coisas, Nicks, mas por dentro tu morre de vontade. Igualzinho a nós — disse, a voz subindo de tom só no final.
Nicoli bufou:
— Cês tão viajando. Eu não quero ser que nem vocês.
— Todo mundo fala isso antes. Depois ninguém consegue mais parar — respondeu Eduarda, agora mais suave, quase consolando.
A tensão virou silêncio de guerra. Mariane jogou a toalha ensanguentada no chão, suspirou fundo, e foi até a pia lavar o rosto. Becky e Melly ficaram encostadas no canto, lambendo as próprias feridas.
Eduarda se aproximou mais, agora bem devagar, sem pressa. Ficou a menos de um metro de Nicoli, os olhos quase do mesmo nível.
— Quer saber? — disse, voz de desafio. — Eu vou deixar tu ir embora hoje. Nem vou te impedir de sair desse vestiário. Mas só porque eu sei que amanhã, depois ou no fim da semana… tu volta. Vai lembrar disso aqui cada vez que acordar. Vai sonhar com a gente, com o gosto do medo, do desejo, da raiva. E um dia, quando tu cansar de fingir que é melhor que nós, tu vai pedir pra entrar no grupo.
Nicoli sentiu o rosto ficar quente. Não sabia se era de vergonha, de raiva, ou de algum outro sentimento idiota que nunca tinha sentido antes.
Eduarda recuou, sorriu largo, e girou nos próprios saltos, como se desfilasse numa passarela.
— Fica de boa, Nicks. Ninguém vai te obrigar hoje. Mas a porta tá sempre aberta, viu?
Com isso, Eduarda pegou Becky e Melly pelo braço, puxou as duas pra fora do vestiário, sem olhar pra trás. Mariane ficou mais uns segundos, olhando Nicoli com um misto de respeito e ódio, depois foi atrás, nariz ainda sangrando.
Quando a porta bateu, Nicoli ficou sozinha, o coração martelando no peito.
O chão estava manchado de sangue, de esmalte rosa, e de alguma coisa que ela não sabia nomear.
Ficou ali, olhando a bagunça, tentando convencer a si mesma que aquilo era só mais um treino perdido.
Mas, no fundo, sabia: não tinha ganhado nada.
E que o jogo ainda estava só começando.
****
A paz não durou nem dois minutos. Nicoli estava recolhendo os próprios cacos — e varrendo do chão o sangue e o esmalte — quando sentiu a movimentação do corredor. Não era o passo da faxineira, nem o tropeço tímido das calouras do atletismo. Era o som de salto batendo forte, seguido de risadinhas abafadas e um cheiro enjoativo de perfume adocicado. Antes que desse tempo de correr, as quatro invadiram de novo: Eduarda, Mariane com o nariz já estancado por lenço, e as duas bimbos, agora de cara lavada mas com olhar ainda mais faminto.
Não tinha mais conversa. Dessa vez, Mariane foi direto nas pernas de Nicoli, derrubando com uma rasteira perfeita. Becky e Melly se jogaram por cima, cada uma pegando um braço e segurando como se tivessem treinado MMA a vida toda. Nicoli tentou rolar, mas Mariane sentou nas coxas dela, os dois joelhos travando a atleta no chão. Eduarda ficou só olhando, braços cruzados, esperando a luta acabar. Mas Nicoli não desistiu fácil: girou, empurrou, tentou morder o pulso de Becky. Melly levou uma cabeçada de raspão, mas nem piscou; só apertou mais forte, rindo com dentes brilhantes.
— Agora sim, né, querida? — disse Eduarda, ajoelhando ao lado da presa.
— Solta, porra! — Nicoli cuspiu, mas a voz estava trêmula de verdade, sem teatro.
Eduarda fez um gesto, e Mariane tirou da mochila um rolo de silver tape. Em segundos, enrolaram os punhos de Nicoli nas costas, depois amarraram os tornozelos, fazendo um laço tão apertado que dava pra sentir a pele da outra queimar.
— Não acredito que cês tão fazendo isso — disse Nicoli, voz de desespero real agora.
— Ninguém acredita, até acontecer — respondeu Becky, voz de criança orgulhosa de maldade nova.
Eduarda ficou de pé, tirou o salto e apoiou a plataforma gigante no meio das costas de Nicoli, pressionando até a outra se arquear de dor.
— Vira ela — ordenou.
Mariane e Melly puxaram Nicoli, rolando a atleta de costas pro teto, depois de barriga pra cima, e abriram as pernas dela com força. A calcinha preta rasgou com o puxão, expondo o sexo nu e úmido, o púbis lisinho, o abdômen ainda tremendo de raiva.
Eduarda pegou da bolsa um frasco de líquido vermelho. Chacoalhou, abriu a tampa, e sem aviso, despejou o conteúdo direto na buceta de Nicoli. O líquido era denso, melado, escorrendo devagar entre os lábios até molhar o chão.
— Isso aqui é arte, amor — disse Eduarda, lambendo a ponta do dedo e esfregando no próprio clitóris, só pra provocar.
Nicoli sentiu primeiro o frio, depois o calor: a pele queimava, depois gelava, depois parecia que uma descarga elétrica subia das coxas até o topo da cabeça. Tentou gritar, mas a voz sumiu. O corpo reagiu antes da mente, as pernas ficaram bambas, o peito arfando sozinho.
Eduarda, agora de volta ao salto, posicionou o pé no meio da vulva de Nicoli e pressionou devagar, primeiro de leve, depois com força crescente. O salto afundava entre os lábios, esmagando o clitóris sob a sola dura do sapato. Nicoli se contorcia, mas não conseguia mover as mãos, só balançar o corpo em espasmos.
— Olha como ela geme bonito — comentou Becky, puxando o cabelo de Nicoli pra trás.
Melly segurou o queixo da presa, forçando a boca aberta.
— Tu vai gozar igualzinha uma cadela, fica vendo — sussurrou Melly, os olhos brilhando de tesão e inveja.
Eduarda alternava pressão e massagem, usando a plataforma como se fosse extensão da própria mão. A cada nova passada, o líquido vermelho se misturava ao suor e ao gozo de Nicoli, fazendo um lamaçal que grudava na sola do salto.
Mariane ficou só olhando, limpando o sangue do nariz e segurando as pernas de Nicoli abertas, sem piedade. De vez em quando, apertava a coxa da rival, deixando marcas roxas de pura força.
— Sempre quis te pegar desse jeito, Nicks. Agora ninguém vai te segurar — disse, voz arrastada, meio bêbada de prazer.
Nicoli tentou lutar, tentou fingir que não sentia nada, mas o corpo gritava. Cada vez que Eduarda pressionava o salto no meio da buceta, uma onda de choque subia pela espinha. Não era só dor — era um prazer ridículo, desesperador, que não fazia sentido nenhum pra quem sempre viveu de controle.
— Pede pra parar, vai — provocou Eduarda, rodando a ponta do salto no clitóris, bem devagar.
— Fodam-se vocês! — Nicoli tentou, mas saiu gemido, não insulto.
Becky e Melly começaram a rir juntas, um coro de bimbo em êxtase.
— Ela tá quase virando, Duda. Mais um pouco, e não tem volta — disse Becky, puxando a cabeça de Nicoli para o lado.
— Vai, goza logo, vai ser lindo! — Melly berrava, pulando de empolgação.
Eduarda aumentou o ritmo, agora pressionando mais fundo, fazendo o salto afundar até bater nos ossos da pélvis. O som era úmido, obsceno, cada estocada um estalo abafado pela carne.
Nicoli sentiu as pernas perderem força, o corpo todo entrando em transe. O gozo veio com violência, fazendo a atleta arquear as costas, gemer alto, e molhar tudo embaixo de si. O líquido vermelho espirrou, misturado ao próprio orgasmo, espirrando na calça de Mariane e nas mãos de Becky.
Por um segundo, silêncio total.
Depois, Eduarda retirou o salto, lambuzado, e limpou na boca de Nicoli.
— Gostoso, né? — perguntou, lambendo os lábios em desafio.
Nicoli não respondeu. Só respirava, cada vez mais rápido, o corpo ainda tremendo da descarga.
Becky ficou babando de tesão, o short encharcado. Melly olhava pra própria unha quebrada, mas sorria, feliz da vida por participar do massacre. Mariane estava de joelhos, rindo e limpando o sangue da calça.
Eduarda se abaixou, colou o rosto no de Nicoli, e falou baixinho:
— Amanhã tu acorda diferente. Vai sonhar com a gente, com o gosto do salto, com o cheiro do suco. E quando tu menos esperar, vai pedir pra ser nossa.
Nicoli sentiu as palavras grudarem na pele, como tatuagem feita com agulha suja. Quis chorar, mas não tinha lágrima.
As quatro largaram a presa no chão, os corpos ainda ofegantes, a sala girando em volta. Ficaram um tempo ali, sentindo o cheiro de sexo, de sangue, de perfume barato. Quando saíram, deixaram Nicoli caída, nua, suada e derrotada no vestiário.
Ela ficou olhando pro teto, tentando entender em que parte da vida tinha perdido a linha.
E, no fundo, já sabia: nunca tinha ganhado nada.
E agora, talvez, nem quisesse mais lutar.
***
Nicoli estava ainda zonza no chão, a cabeça girando e o corpo tomado pelo formigamento do “suco” que Eduarda tinha despejado nela. Mal percebeu que Becky e Melly tinham ficado para trás, esperando as outras irem embora para completar a humilhação em silêncio.
As duas agora estavam de pé, lado a lado, tirando as roupas com a solenidade de um ritual de passagem. Primeiro as blusas: Melly arrancou o vestido preto com um puxão só, e Becky fez questão de levantar devagar o cropped, expondo os seios fartos e firmes, agora realçados por um bronzeado artificial de spray e adesivos em forma de coração nos mamilos. As duas riam baixo, trocando olhares cúmplices enquanto tiravam a minissaia, o short, até ficarem só de calcinha fio dental — e nem isso durou muito. Melly tirou a própria calcinha e jogou na cara de Nicoli, que se encolheu no chão mas não conseguiu evitar o cheiro doce e químico grudando nas narinas.
Só então Nicoli viu: os corpos das duas tinham mudado completamente. As coxas e as barrigas exibiam tatuagens novinhas, desenhos de borboleta, corações partidos, frases em inglês garranchadas bem acima da linha do púbis (“USE ME”, “BAD GIRL”, “OWNED BY DUDA”). Nos seios de Becky, um piercing atravessando cada mamilo, com pedrinhas brilhantes na ponta; Melly ostentava argolas grandes, como se a própria pele tivesse sido transformada em bijuteria.
Elas se abaixaram juntas, uma de cada lado de Nicoli, os dedos gelados tocando a pele quente da atleta. Becky foi logo subindo pelo abdômen, explorando cada músculo com a palma da mão. Melly preferiu o pescoço, mordendo de leve, deixando marcas roxas. Quando chegaram nos seios, cada uma abocanhou um mamilo, as línguas brincando ao redor do topo quase infantil de Nicoli, que nunca teve peito de verdade — mas agora sentia cada estímulo como se fosse corrente elétrica.
— Olha como ela fica linda arrepiada — sussurrou Becky, alternando mordidas suaves com chupões de deixar hematoma.
— Ai, Nicks, tua pele é tão macia! — Melly falou, babando no mamilo enquanto apertava o outro seio com a mão cheia de glitter das unhas postiças.
Nicoli tentou resistir, virou o rosto para o lado, mas não tinha mais pra onde fugir. O corpo inteiro vibrava, as pernas abertas, a buceta pulsando com a lembrança do salto alto e do líquido vermelho. O cérebro mandava recuar, mas o resto do corpo só queria mais.
Becky e Melly trocaram de lado, cada uma tentando fazer melhor que a outra. Becky chupava o mamilo até deixar duro, depois mordia a pontinha e lambia ao redor, os olhos nunca saindo do rosto de Nicoli. Melly pressionava os seios de Nicoli juntos, enfiando o rosto entre eles e rindo de prazer.
— Tu vai gozar só com o peito, aposto — disse Melly, e Becky respondeu com um “vai nada, eu ganho fácil”.
Elas se revezavam, cada vez mais vorazes, como se o corpo de Nicoli fosse sobremesa rara.
Enquanto isso, as mãos das duas não paravam. Becky desceu a mão até a virilha de Nicoli, massageando o clitóris ainda sensível do abuso anterior, espalhando o gozo e o suco que sobrava. Melly fazia carinho no rosto da presa, alisando o cabelo curtinho e murmurando “calma, linda, deixa vir”.
— Não… não… — Nicoli tentou dizer, mas a voz era só um sussurro.
Becky pressionou o dedo no meio da buceta de Nicoli, rodou devagar, e depois enfiou de uma vez.
— Tá tão molhada que parece que tava esperando por isso — provocou, e Melly riu, mordendo o ombro de Nicoli.
A atleta sentiu os músculos travarem, o orgasmo vindo como uma onda que não dava pra segurar. O corpo estremeceu, as pernas chutaram no ar, e o gozo escorreu pra fora, molhando o chão e a mão de Becky.
Melly não perdeu tempo: lambeu os dedos de Becky, depois enfiou a língua entre as coxas de Nicoli, chupando o clitóris sem piedade.
— Ela é perfeita, Becky. Vai virar nossa boneca — Melly falou, a boca suja de gozo.
Nicoli perdeu o controle. Gozou de novo, mais forte que antes, agora gritando mesmo, os olhos cheios de lágrimas.
As duas bimbos continuaram até Nicoli não aguentar mais, revezando boca, dedo, e até esfregando as bucetas contra a coxa musculosa da presa. A cada novo orgasmo, elas comemoravam como vitória em campeonato, rindo, batendo palma, xingando de “safada”, “cadela”, “putinha da Duda”.
Quando finalmente pararam, Nicoli estava mole, o corpo inteiro melado de saliva, gozo e suor, os mamilos inchados, a pele toda marcada de mordida e unha.
Becky deitou ao lado dela, abraçando pela cintura. Melly fez o mesmo do outro lado, encostando a cabeça no ombro de Nicoli.
— A gente pode dormir juntinhas? — perguntou Becky, voz de criança.
Melly respondeu:
— Quero ficar agarradinha com ela, tipo namorado e namorada.
E as duas se enroscaram no corpo de Nicoli, agora incapaz de se mexer ou protestar.
O sono veio rápido, mas o efeito do suco ficou — o corpo de Nicoli nunca tinha sentido nada igual, e o cérebro já não sabia mais o que era vontade própria.
Por baixo da vergonha, um desejo novo crescia, silencioso.
E, pela primeira vez, ela sonhou em acordar igual a elas.
***
Alice chegou ao bar da República dez minutos antes da hora combinada. Sentou no gradil enferrujado do jardim, o livro de poesia apertado contra o peito e a mochila pendurada no ombro. Estava de jeans e casaco leve, cabelo preso num coque torto, e os óculos embaçados pelo contraste entre o frio da noite e o calor humano que escapava da porta do bar. Em volta, grupos de universitários riam alto, gente fumando, casais se pegando no banco de trás. Alice nem tentou entrar — preferia esperar lá fora, olhando pro portão, imaginando como seria a chegada de Nicoli.
Cada farol de carro que subia a rua fazia o coração dela bater mais rápido. Talvez viesse a pé, talvez de bike, talvez nem lembrasse do sarau. No início, Alice brincava de adivinhar a cor da roupa, o corte do cabelo, a pose que Nicoli faria ao vê-la esperando. Depois de vinte minutos, só conseguia imaginar mil motivos pra ela não aparecer. A cada minuto, o frio aumentava.
Quando o relógio bateu vinte para nove, Alice digitou uma mensagem — “Cheguei, tô aqui na frente, sem pressa :)” — mas apagou antes de enviar. Ficou olhando o visor do celular, esperando um milagre de última hora. Nada.
A noite passou mais devagar do que devia. Gente entrou, gente saiu, a música subiu e desceu, e Alice ficou ali, imóvel, segurando o livro como se fosse escudo. Olhava de vez em quando para dentro do bar, via os outros se divertindo, mas não tinha coragem de pedir uma mesa sozinha. Cada vez que um grupo passava, ela desviava o olhar, fingindo ler.
Quase uma hora depois do combinado, Alice decidiu levantar, mas ficou um tempo parada no portão, olhando a rua vazia e o céu turvo. Sentia vergonha de ter acreditado tanto, mas uma voz interna dizia pra não desistir. Talvez Nicoli tivesse tido um imprevisto, talvez estivesse no caminho, talvez não soubesse como dizer não.
No fundo, Alice sabia: gente como ela sempre esperava até o fim, mesmo sabendo que ninguém viria.
Então sentou de novo, ajeitou o casaco, e ficou olhando a esquina.
Só mais cinco minutos, pensou. Sempre só mais cinco minutos.
***
O vestiário agora era outra coisa: um templo profano iluminado por led branco, cheiro de couro sintético misturado com perfume barato e suor antigo. No chão, Nicoli estava amarrada em decúbito dorsal, pernas abertas, o sexo ardendo e a pele toda sensível ao mínimo sopro de vento. Becky e Melly, sentadas de pernas abertas, não paravam de se tocar, babando na visão da ex-atleta desmoronada. Mas o grande show ainda não tinha começado.
Eduarda tirou a roupa devagar, como se fizesse striptease para plateia invisível. A cada peça de vinil arrancada, ela desfilava pelo corredor do vestiário, expondo o corpo magro, coberto de tatuagens e cicatrizes. Os seios pequenos saltavam da jaqueta, os mamilos cravejados de piercings. Entre as pernas, nada — só o vazio aguardando o instrumento do sacrifício. Mariane ajudou, lambendo as tatuagens do abdômen de Eduarda, depois ajoelhou para chupar os mamilos, a língua girando em círculos preguiçosos.
Do armário, Eduarda puxou o cintaralho: era grosso, silicone preto com espinhos pequenos e uma ventosa enorme na base. Não era brinquedo de sex shop comum — parecia mais arma de guerra. Eduarda lambuzou o dildo com o próprio gozo, esfregando a glande sintética na própria buceta até ficar escorrendo. Depois empurrou o dildo entre as coxas de Mariane, que gemeu de prazer, tremendo de antecipação. Quando o brinquedo estava ensopado dos dois lados, Eduarda encaixou o arnês na cintura, prendendo as tiras com firmeza de especialista. O objeto agora pulsava, sujo de desejo, pronto pra atacar.
Nicoli tentou se erguer, mas as amarras impediam qualquer fuga. A cabeça ainda girava, o “suco” queimando o esôfago e fazendo tudo parecer sonho ruim. Quando Eduarda se aproximou, Nicoli fechou as pernas com toda força que restava. Eduarda não se abalou: deu um tapa seco na parte interna da coxa da presa, fazendo a pele estalar e Nicoli gritar.
— Relaxa, amor. Prometo que vai ser rápido — disse Eduarda, a voz fria.
— Não, por favor… — Nicoli implorou, o orgulho evaporando na hora.
Mariane se abaixou, segurou o rosto de Nicoli com uma mão, e com a outra abriu um frasco de vidro âmbar, enchendo o ambiente com cheiro ácido de álcool e canela.
— Bebe, porra. É pra tua própria sorte — ordenou Mariane, derramando o líquido na boca de Nicoli, que tentou cuspir mas acabou engolindo metade.
Em segundos, a cabeça ficou leve, a língua dormente, o corpo inteiro latejando de tesão e medo. O “suco” era como fogo, e o fogo virou fome. Nicoli sentiu a buceta inchar, o clitóris pulsando de forma quase dolorosa. Cada célula do corpo só queria gozar, nada mais.
— Agora sim — disse Eduarda, abrindo as pernas de Nicoli com uma só mão.
— Não… — Nicoli tentou, mas a palavra sumiu na garganta. Só restava gemido.
O dildo encostou devagar na vulva, escorregando entre os lábios, espalhando o líquido e pressionando até o hímen. Eduarda olhou nos olhos de Nicoli, sem piedade, e empurrou de uma vez. O som foi seco, um estalo abafado pelo choro da atleta. A dor veio forte, mas logo foi substituída por uma onda de prazer tão absurda que Nicoli sentiu vontade de gozar só de existir.
— Ai, porra, tá rasgando! — Nicoli tentou se mexer, mas as amarras não davam trégua.
— Quebrando recorde até na cama, hein? — Becky provocou, rindo alto.
Eduarda metia devagar, mas cada estocada era mais funda, mais brutal, o pau de silicone raspando as paredes da buceta, espalhando sangue e gozo juntos. Quando bateu fundo, Nicoli arqueou as costas, o corpo inteiro trêmulo. Gozou pela primeira vez em silêncio, só o som dos dentes batendo.
Melly, sentada aos pés de Nicoli, agarrou os pés da atleta e começou a chupar os dedos, um a um, a língua deslizando entre as falanges como se cada unha fosse doce.
— Ai, ai, eu quero chupar tudo nela — Melly gemia, os olhos brilhando.
Becky se ajoelhou atrás de Eduarda, e, sem aviso, afundou a boca no cu da dominadora. A língua de Becky girava em círculos, penetrando devagar, e Eduarda gemia baixinho, mas não perdia o ritmo da estocada.
Mariane, por sua vez, sentou no rosto de Nicoli. Apertou as bochechas da presa com as coxas, enfiando a buceta na boca semi-aberta da atleta. O cheiro era forte, gosto de metal e suor, mas Nicoli estava tão insana de tesão que não conseguiu resistir: começou a lamber a carne de Mariane, primeiro de leve, depois com força, sugando o clitóris até a outra gozar em cima do nariz dela.
A cena era um pandemônio de prazer e humilhação. Melly nunca largava o pé de Nicoli, mordendo, lambendo, chupando. Becky alternava entre chupar o cu de Eduarda e beijar a base do dildo, sugando até engasgar. Mariane esfregava a buceta no rosto de Nicoli, que agora gemia e gozava sem parar, cada nova estocada fazendo a atleta perder mais o juízo.
Eduarda acelerou o ritmo, agora socando o dildo com força, os quadris batendo na bunda de Nicoli com um barulho molhado. Os músculos da atleta reagiam com espasmos involuntários, cada vez mais forte. O corpo, antes invencível, agora era só carne tremendo de desejo.
Quando sentiu que Nicoli ia desmaiar de prazer, Eduarda parou, puxou o dildo devagar, e ficou lambendo o sangue e gozo da ponta, olhando nos olhos da presa.
— Tu é foda, Nicks. Vai ser a melhor de todas — disse, lambendo os lábios sujos.
Nicoli só respirava, incapaz de falar, a boca ocupada por Mariane, a cabeça explodindo de tesão e culpa.
Mariane levantou, as pernas tremendo, depois olhou para Becky e Melly.
— Agora é a vez de vocês — falou, a voz rouca.
Becky montou no peito de Nicoli, encaixando a buceta na boca da atleta, que mesmo desacordada de prazer, começou a lamber na mesma hora. Melly, não querendo ficar de fora, deitou por cima, esfregando a buceta na coxa de Nicoli, gemendo alto a cada movimento.
Eduarda ficou de lado, assistindo o massacre, dedo dentro da própria buceta, gozando em silêncio só de ver o estrago feito.
A suruba seguiu até ninguém aguentar mais. Nicoli gozou tantas vezes que perdeu a conta, as pernas formigando, os mamilos doendo de tanto serem sugados. Becky e Melly se revezavam, cada uma tentando gozar mais forte, mais alto. Mariane se deitou do lado, acariciando a cabeça de Nicoli como se fosse bicho de estimação.
Quando o último orgasmo passou, o vestiário ficou em silêncio, só o som do ar-condicionado e da respiração ofegante.
Eduarda foi até Nicoli, beijou a testa dela, e sussurrou:
— Bem-vinda ao time, Nicks. Agora é tua vez de destruir o mundo.
Nicoli, exausta, sentiu o calor da frase percorrer a espinha.
Sabia que nunca mais seria a mesma.
E, pela primeira vez, não sentiu medo disso.
***
Na mente de Nicoli, tudo era barulho e flash. De um lado, ela se via na quadra de vôlei, camisa da Atlética colada no peito, suando e vibrando a cada ponto. Do outro, era só o rosto da mãe, as mensagens de incentivo (“orgulho de você, filha”), as promessas de diploma, a esperança de ser exemplo de vitória. No meio disso tudo, uma terceira Nicoli — a que ninguém nunca via — sonhava em namorar, dar a mão no shopping, postar foto com a palavra “LOVE” e não perder o respeito dos outros.
Mas agora tudo era só onda de prazer, batendo na cabeça até afogar qualquer outro pensamento. O gozo vinha em camadas, um tsunami de desejo misturado com vergonha, e cada vez que ela tentava pensar na vida antiga, a correnteza puxava de volta pro agora, pro corpo, pra necessidade absurda de ser tocada, possuída, domada.
O “suco” queimava a mente, arrancando as lembranças como quem arranca página de diário. O cheiro da quadra? Sumiu. O som da mãe? Sumiu. O gosto do futuro? Apagado por saliva, por sangue, por gozo escorrendo entre as pernas.
Só sobrava o cheiro do vestiário, o gosto de buceta, o calor da mão de Eduarda apertando o pescoço, o choro de prazer batendo no céu da boca.
— Entrega, Nicky. Entrega pra sempre. — A voz de Eduarda era onipresente, se infiltrando entre um orgasmo e outro, empurrando Nicoli pra um abismo sem volta.
Nicoli tentou lutar, tentou juntar as lembranças igual quebra-cabeça. Mas cada vez que juntava duas peças, Eduarda enfiava a voz entre elas, colando tudo com tesão.
O corpo ficou em segundo plano. Agora era só a mente, latejando entre passado e futuro. A cada vez que o pau de silicone batia fundo, um pedaço da Nicoli antiga se soltava. Primeiro o medo. Depois o orgulho. Por último, o nome.
— Nicky. — Eduarda repetia, como mantra, como senha, como senha de WiFi pra uma vida nova.
Nicky.
O mundo girou, caiu, se remontou em cores berrantes e luz de led. Nicky se viu no espelho do vestiário: cabelo bagunçado, pescoço marcado de chupão, a boca melada de saliva e o olho brilhando, como quem goza só de existir. O peito agora era só peito, não mais símbolo de luta. A perna era só perna, não mais trampolim pra medalha. O cérebro, derretido, rodava só o mantra da dona: Nicky. Nicky. Nicky.
Ela sentiu o orgasmo começar de novo, mas agora era diferente. Não era gozo de vergonha. Era gozo de orgulho. Gozo de ser, gozo de poder, gozo de nunca mais precisar fingir que era forte.
Ela gozou chorando, gozou tremendo, gozou rindo de si mesma. E no fundo da mente, ouviu Eduarda falando:
— Tu nasceu pra isso, Nicky. Agora é só crescer.
Nicky abriu os olhos no mundo novo, a cabeça limpa de medo, o corpo leve. O passado era um borrão, uma piada de mau gosto. O futuro era só desejo, só prazer, só vontade de repetir tudo até ficar perfeita.
Ela virou pro lado e viu Becky, Melly, Mariane, todas iguais mas diferentes, todas felizes, todas livres. E viu Eduarda — dona, rainha, mãe, mestra — sorrindo de orgulho.
Nicky sorriu de volta, com a boca aberta, esperando o próximo comando.
Ela estava pronta pra tudo.
E sabia que, dessa vez, não ia mais perder nada.
***
Quando o ponteiro do relógio deu a segunda volta completa, Alice olhou para o céu debaixo do poste amarelo, tentando não chorar de frustração. O bar estava quase vazio, a música tinha mudado de pop para MPB triste, e nem os garçons fingiam mais que ela existia na calçada.
O livro de poesia já estava relido inteiro, a lombada suja de suor da mão nervosa. Alice olhou o celular de novo, mas a tela só devolveu o reflexo do próprio rosto: olheira marcada, sardas saltando, a boca pequena tremendo de raiva.
Ela quis se convencer de que tudo bem, que não era culpa de ninguém, que Nicoli devia ter algum motivo muito sério pra não aparecer. Pensou em mandar mensagem, mas sabia que o texto nunca ia sair sem parecer humilhação.
No fim, levantou devagar, sacudiu a poeira do casaco, e ficou uns segundos parada na esquina, olhando para o bar como quem se despede de uma casa que nunca morou de verdade. O céu estava carregado de nuvens, ameaçando chuva, e o vento cortava o rosto como agulha de costura.
Alice cruzou a rua sem olhar para os lados, os passos curtos e a cabeça baixa. Sentiu vontade de correr, mas não viu sentido. Melhor seguir devagar, pra demorar mais a chegar no apartamento vazio.
No caminho de casa, pensou em tudo que podia ter sido — os filmes, as conversas, até um beijo rápido, ou só um abraço de oi. Pensou também que nunca mais ia esperar ninguém por mais de cinco minutos. Que da próxima vez, nem marcava encontro.
Quando dobrou a última esquina, nem olhou para trás. Desapareceu na noite, igual a todo mundo que se acostuma a perder.
Só restou, no gradil enferrujado do bar, um livro esquecido.
Ninguém nunca devolveu.
***
Já era quase de dia. O apartamento de motel parecia uma zona de guerra pós-orgasmo: lençol grudado de sêmen, taças de espumante no chão, embalagens de cigarro, restos de pizza fria, glitter espalhado até no teto de gesso. A luz era azulada, vinda de um abajur em forma de flamingo, e o cheiro no ar era mistura de desodorante Axe, perfume Avon e gozo velho. No centro da cama redonda, Nicky — ou o que tinha sobrado de Nicoli — estava largada, nua, a pele toda pintada de spray bronzeador (um desastre: listras alaranjadas, joelho manchado, um círculo branco em volta do umbigo). O cabelo, que era castanho escuro, agora estava metade descolorido, metade queimado; Becky e Melly tinham tentado platinar, mas só conseguiram deixar o topo amarelo ovo, com mechas desiguais caindo no olho.
A boca de Nicky estava borrada de batom rosa neon, a linha do maxilar cheia de saliva, e a expressão era de gente que não dorme há três dias. Os olhos abriam e fechavam devagar, como se o cérebro estivesse carregando sistema operacional novo. Na coxa esquerda, uma tatuagem feita a caneta Bic: “TOY4U”, com um coração no lugar do O.
Em volta da cama, Becky e Melly brincavam de “montar a Nicky perfeita”, mas erravam o tempo todo. Passaram maquiagem demais, colaram cílios postiços tortos, fizeram contorno de nariz tão grosso que parecia maquiagem de teatro infantil. A cada erro, as duas riam, caíam em cima da Nicky e lambiam a pele dela pra tirar a maquiagem errada. O rímel escorria na bochecha, e Melly rabiscava com lápis preto “SO CUTE” na testa da amiga só pra ver a reação.
Nicky não ligava pra nada disso. Só queria agradar, só queria ser bonita, só queria ser a melhor boneca da festa.
O corpo dela era uma calamidade: as coxas marcadas de chupão, os seios cobertos de saliva e glitter, a buceta inchada, com restos de porra escorrendo até o lençol. Cada movimento do quadril pingava uma gota, e o cheiro era tão forte que Melly de vez em quando lambia por reflexo, rindo de nojo e prazer ao mesmo tempo.
Na cabeceira, Eduarda reinava soberana, de calcinha minúscula, os seios livres, tatuagem de dragão rodando até a virilha. Ela acendia um cigarro, soprava a fumaça no rosto de Nicky, e fazia carinho no cabelo destruído da bimbo.
— Tu tá linda, Nicky. Faria sucesso até na Marcha das Vadias — elogiou, jogando cinza de cigarro em cima do bronzeador barato.
Nicky sorriu, mas a voz demorou uns segundos pra sair:
— Ai, Duda, cê acha mesmo? — perguntou, virando o rosto pra receber mais carinho.
— Acho. Mas amanhã a gente faz um retoque no bronze, e eu mesma arrumo teu cabelo. Prometo — respondeu Eduarda, puxando a bimbo pra perto e dando um beijo melado na boca dela.
Becky e Melly ficaram lambendo a orelha da Nicky, vez ou outra mordendo o lóbulo, fazendo barulho de criança faminta.
— Amiga, cê tá muito gostosa! — Becky elogiou, apertando o peito da Nicky até o mamilo pular.
— É, se tu for no bar assim, metade da faculdade vai pedir teu insta — Melly completou, já tirando selfie das três com o celular lambuzado de álcool gel.
O gangbang não tinha fim: depois de cada rodada, Nicky limpava a boca no lençol, ria alto, e já procurava o próximo pau ou buceta pra chupar. Melly gostava de assistir, batendo punheta na própria buceta enquanto filmava tudo no celular. Becky se masturbava com o vibrador de coelhinho, mas sempre enfiava o brinquedo na boca da Nicky pra ela “testar” antes.
Nicky fazia tudo sem reclamar. Cada vez que sentia o pau do Blade gozar na boca, sentia orgulho. Quando lambia a buceta da Desiriel e ouvia ela gemer, sentia orgulho. Quando Eduarda mandava ela deitar de quatro e metia o dildo na bunda dela, Nicky gemia tão alto que os vizinhos deviam ouvir — e sentia orgulho de ser a mais puta de todas.
Quando a festa acabou, Nicky ficou deitada no chão do motel, olhando pro teto, o corpo todo melado, a cabeça rodando. O mundo era mais simples agora: não tinha futuro, não tinha sonho, não tinha frustração. Só tinha o agora, o gozo, o prazer de servir.
O cabelo podia estar uma bosta, o bronze podia estar torto, o corpo podia estar todo marcado de roxo. Mas Nicky não precisava ser campeã de nada, nunca mais. Era só ser gostosa, e pronta pra qualquer comando.
Ela olhou pra Eduarda, que fumava cigarro deitada de pernas abertas, e sentiu vontade de chorar de alegria.
Era isso que queria pra sempre.
Era isso que era.
Nicky riu, bateu palma, e pediu:
— Faz mais, dona. Me deixa mais burra, me deixa mais tua.
Eduarda olhou, abriu sorriso, e respondeu:
— Vou deixar, boneca. Vou deixar sim.
E naquela madrugada, no motel mais cafona da cidade, o culto de Eduarda ganhou a bimbo perfeita.
Uma lenda nova nasceu.
E, no espelho da sala, o reflexo não era mais de Nicoli.
Era só Nicky, feliz, vazia, pronta pra ser preenchida outra vez.