Arthur ajeitou os óculos de aros grossos no nariz. Não era um tique nervoso; era um ajuste focal. Seus olhos, de um castanho quase cirúrgico, varriam o ambiente não como um predador buscando uma presa ferida, mas como um físico analisando um sistema termodinâmico instável. Ele não via pessoas; via vetores de desejo, equações de carência e probabilidades de acasalamento flutuando como poeira cósmica sobre as taças de cristal.
Ele não era bonito no sentido clássico. Era magro, com aquela postura de quem passa mais tempo curvado sobre um microscópio eletrônico do que sobre um supino na academia. Mas havia algo em sua quietude — uma certeza absoluta, quase arrogante, de quem entende as regras que governam a matéria — que criava um campo gravitacional próprio.
Seu alvo estava no bar. Helena. Ele não sabia o nome dela ainda, mas a chamaria de "A Variável Independente". Alta, vestida num seda vermelho-sangue que desafiava a gravidade e a decência, ela segurava um Martini como se fosse o cetro de um império entediado. Homens tentavam orbitá-la, satélites patéticos sendo repelidos por sua força centrífuga de desdém.
Arthur caminhou até ela. Não hesitou. A hesitação é um desperdício de energia cinética. Ele parou exatamente ao lado dela, invadindo sua zona de conforto em precisos quinze centímetros, o suficiente para disparar um alerta na amígdala cerebral dela, mas não o suficiente para causar fuga.
Ela virou o rosto, os olhos verdes fuzilando-o com a expectativa de mais uma cantada medíocre.
— Se você vier me perguntar se doeu quando eu caí do céu, eu juro que enfio essa azeitona na sua traqueia — ela disse, a voz rouca e perigosa, com aquele sotaque paulistano arrastado que misturava desprezo e sensualidade.
Arthur sorriu. Não um sorriso de desculpa, mas o sorriso de quem acabou de resolver uma equação diferencial complexa de cabeça.
— A gravidade é uma força fraca, querida. Caindo de qualquer altura suborbital, a resistência do ar teria transformado você em plasma muito antes do impacto. — Ele sinalizou para o barman sem desviar os olhos dela. — Água com gás. Limão siciliano. E para a dama, um \*Neurotoxina\*.
Helena ergueu uma sobrancelha, o tédio momentaneamente substituído por confusão.
— Neurotoxina?
— É como eu chamo o álcool. Etanol. Uma molécula simples, C2H5OH, mas incrivelmente eficiente em inibir o córtex pré-frontal, a parte do seu cérebro que está desesperadamente tentando manter essa fachada de intocável. — Ele se virou de frente para ela, apoiando o cotovelo no balcão. O cheiro dele era limpo, ozônio e algo metálico, intrigante. — Você não quer que eu te elogie. Elogios são dados subjetivos, irrelevantes. Você quer que eu explique por que, estatisticamente, você está prestes a sair daqui comigo.
Helena soltou uma risada curta, incrédula.
— Você é louco ou apenas suicida? Olha para você. Olha para mim. A biologia evolutiva dita que eu deveria estar procurando o macho alfa com a mandíbula quadrada e o Porsche na garagem, não o bolsista do CNPq.
— Biologia evolutiva de \*pleistoceno\* — Arthur corrigiu, o tom suave, quase didático, como se explicasse a uma aluna brilhante, porém teimosa. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância para cinco centímetros. — Na selva urbana moderna, a sobrevivência não depende de força bruta. Depende de adaptabilidade e processamento de informação. E, geneticamente falando, seu corpo sabe disso.
Ele baixou a voz, sussurrando perto do ouvido dela, enviando arrepios que desceram pela espinha dela como uma corrente elétrica de baixa voltagem.
— Suas pupilas dilataram três milímetros desde que eu comecei a falar. Isso não é irritação. É uma resposta do sistema nervoso autônomo. Dopamina e norepinefrina estão inundando suas sinapses agora. Você está curiosa. O macho alfa ali no canto... — ele apontou discretamente para um gigante de terno Armani — ...ele só pode oferecer atrito mecânico. Eu? Eu posso oferecer uma otimização sensorial completa.
Helena sentiu a boca secar. O ar condicionado do bar parecia insuficiente de repente. A arrogância dele era tão densa que era quase palpável, como a umidade de São Paulo antes da chuva.
— "Otimização sensorial"? Você fala como um manual de instruções de um vibrador — ela provocou, mas a voz saiu menos firme do que pretendia.
— E o que é um orgasmo, Helena? — Ele usou o nome dela, que leu no cartão Nubank deixado sobre o balcão, com uma familiaridade chocante. — É apenas uma descarga elétrica sincronizada. Uma convulsão mioclônica glorificada. A maioria dos homens tenta chegar lá por tentativa e erro, como macacos batendo em um teclado. Eu conheço a frequência de ressonância de cada nervo do seu corpo.
Ele estendeu a mão e, com a ponta do dedo indicador, traçou uma linha imaginária do lóbulo da orelha dela até a clavícula, sem tocar na pele. O calor do dedo dele pairava sobre ela, enlouquecedor.
— A pele humana é um semicondutor fascinante. Se eu te tocar agora, a diferença de potencial elétrico entre nós vai criar uma faísca visível. Você sente essa tensão superficial? É a física quântica implorando para colapsarmos essa função de onda. Existem infinitos universos onde você me dá um tapa e vai embora. Mas neste universo, neste \*agora\*, a probabilidade de você querer saber se minha língua é tão hábil quanto meu vocabulário está se aproximando de 100%.
Helena respirou fundo, o peito subindo e descendo visivelmente sob o decote generoso. A lógica dele era absurda, mas a entrega era hipnótica. Ele não estava pedindo; estava \*constatando\*. Como um professor da USP que sabe que sua tese é irrefutável.
— Você é um nerd arrogante — ela sussurrou, mas não se afastou. — E se eu disser não? Para provar que sua estatística está errada?
Arthur riu, um som baixo e gutural que vibrou no peito dela.
— O Princípio da Incerteza de Heisenberg diz que não podemos saber a posição e a velocidade de uma partícula simultaneamente. Mas você não é uma partícula, Helena. Você é um sistema macroscópico complexo regido por hormônios e desejo reprimido. Negar isso seria violar a Segunda Lei da Termodinâmica. A entropia sempre aumenta. A desordem, o calor, a mistura de fluidos... é o destino inevitável do universo. Por que lutar contra a física?
Ele finalmente a tocou. Sua mão segurou a nuca dela, os dedos longos e finos exercendo uma pressão calculada em pontos de tensão que ela nem sabia que tinha. O toque foi possessivo, clínico e incrivelmente erótico.
— Vamos sair daqui. Tenho uma tese sobre a viscosidade de fluidos não-newtonianos em superfícies biológicas que precisa de verificação experimental. E você, minha querida variável, é o único laboratório que me interessa esta noite.
Helena mordeu o lábio inferior, as pernas tremendo levemente sob o vestido de seda. A inteligência dele, afiada e predatória, tinha hackeado suas defesas primitivas. O calor de janeiro em São Paulo parecia sufocante agora, mas não era o clima — era ele.
— Se sua tese for chata... — ela começou, a voz falhando.
— Eu nunca publico resultados inconclusivos — Arthur cortou, puxando-a para si até que os quadris se encontrassem. — A ciência exige rigor. E eu sou \*muito\* rigoroso.
Ele jogou uma nota de duzentos reais no balcão, calculando mentalmente a gorjeta exata de 15% para otimizar o serviço futuro, e a guiou para a saída. A mente de Helena girava, tentando processar como o "bolsista" tinha acabado de sequestrar sua vontade com aulas de física. Mas enquanto ele a conduzia pela cintura, a única coisa que ela conseguia pensar era na promessa daquela "frequência de ressonância" e em como ela estava desesperada para ser o objeto de estudo dele.
O Uber Black chegou em menos de três minutos. Arthur abriu a porta para ela com uma cortesia antiquada que contrastava com a promessa obscena em seus olhos. O apartamento dele ficava na Vila Madalena, ele disse. Perto da USP. Claro que ficava.
Enquanto o carro cortava a Avenida Faria Lima iluminada, a mão dele descansava no joelho dela, o polegar desenhando círculos preguiçosos que enviavam ondas de calor direto para o centro dela.
— Você sabe qual é a diferença entre a teoria e a prática, Helena? — ele perguntou, a voz baixa, quase um ronronar.
— Me ilumina — ela provocou, virando-se para ele, os olhos verdes brilhando com desafio e rendição.
— Na teoria, não há diferença entre teoria e prática. Mas na prática... — ele deslizou a mão alguns centímetros acima, por baixo da barra do vestido, os dedos roçando a pele quente da coxa dela — ...a prática é sempre mais molhada, mais quente e infinitamente mais caótica.
Helena ofegou, as pernas se abrindo involuntariamente. O motorista mantinha os olhos fixos na estrada, profissional. Arthur sorriu, aquele sorriso de quem já sabia o resultado do experimento antes mesmo de começar.
[Fim do Ato I]