Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 12 — O Que Somos Quando Ninguém Está Por Perto...

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 4862 palavras
Data: 20/01/2026 18:57:49

Subi as escadas ainda com o eco do que tinha acontecido minutos antes reverberando no corpo. Cada degrau parecia alongar o tempo, como se a casa inteira respirasse num ritmo diferente do meu. Quando cheguei diante da porta do quarto do Arthur, hesitei por um segundo. Respirei fundo e bati de leve, duas vezes.

— Entra — a voz dele veio abafada, mas reconhecível, firme e ao mesmo tempo relaxada.

Empurrei a porta com cuidado.

O quarto do Arthur me atingiu antes mesmo que eu desse dois passos para dentro. Estava limpo de um jeito quase exagerado, organizado sem parecer rígido. O cheiro… tinha algo de sabonete misturado com perfume masculino, fresco, confortável. A cama estava arrumada, as janelas parcialmente abertas deixando a luz da tarde entrar em faixas claras pelo chão.

— Nossa… — deixei escapar, quase sem perceber. — Que quarto limpo. Cheiroso. Bonito.

Sorri sozinho, balançando a cabeça.

— Isso aqui não combina nada com a fama que você tenta sustentar.

Do banheiro, ouvi a risada dele, leve, seguida do som da água sendo desligada.

— Ber, é você?

Levei a mão instintivamente à frente do rosto, como se estivesse falando numa chamada de vídeo, cobrindo uma câmera invisível.

— Sou eu sim.

— Vem aqui rapidinho? — ele pediu, a voz mais próxima agora. — Me ajuda numa coisa… por causa da perna.

Caminhei até a porta do banheiro e bati de leve na madeira.

— Posso entrar?

— Deve.

Empurrei a porta devagar — e por um segundo, o mundo pareceu perder o eixo.

Arthur estava de pé, de frente para mim. O corpo ainda úmido, gotas escorrendo lentamente pelo peito claro, delineando o abdômen definido sem esforço, como se aquele corpo tivesse sido desenhado sem intenção de exibição, mas pronto para ela. A toalha branca estava amarrada baixa na cintura, revelando coxas fortes, musculosas, de uma simetria que prendia o olhar sem pedir permissão.

O cabelo molhado, caía desordenado sobre a testa. Os olhos — claros, atentos — me encontraram imediatamente. E ele sorriu. Aquele sorriso fácil, aberto, quase inocente, que sempre me desmontava mais do que qualquer gesto calculado.

— Desculpa… — ele disse, rindo de leve. — É que eu não posso apoiar o pé no chão agora.

— Claro. Tudo bem. Não tem problema nenhum — respondi rápido demais, talvez, tentando parecer mais normal do que me sentia.

Dei um passo à frente.

— Como que eu te ajudo?

Antes que eu pudesse completar a frase, Arthur avançou meio desajeitado e me puxou para perto num movimento rápido, quase automático, envolvendo meu pescoço num abraço breve, mas firme.

— Que bom que você veio.

O cabelo molhado dele roçou no meu rosto, e quando ele balançou a cabeça, a água respingou no meu ombro, na gola da minha camisa.

— Ei — reclamei, rindo baixo. — Você me molhou.

— Tudo bem — ele respondeu, com aquele sorriso de canto. — Acho que não tem problema você se molhar um pouco.

Engoli em seco.

— Se apoia em mim — falei, tentando manter a voz firme. — Eu te ajudo.

Ele passou o braço pelo meu ombro, e quando senti o peso dele se transferir para mim, me curvei levemente, instintivamente envolvendo a cintura dele para dar mais sustentação.

— Opa… cuidado — Arthur disse, rindo.

— Relaxa — respondi. — A gente aguenta.

Com cuidado, tirei Arthur do banheiro e o conduzi até a cama. O corpo dele estava quente contra o meu, e cada passo parecia exigir um esforço consciente para não pensar demais em onde minhas mãos estavam apoiadas. Coloquei-o sentado devagar sobre o colchão.

Peguei a bota ortopédica encostada perto da cama e outra toalha limpa.

— Vou te secar primeiro — avisei. — Depois a gente coloca isso aqui.

— Obrigado — ele disse, sincero. — Assim fica bem mais fácil pra mim.

Passei a toalha pelos ombros dele, pelo peito, com movimentos cuidadosos, respeitosos — pelo menos era o que eu tentava me convencer. Arthur observava tudo em silêncio, os olhos atentos, tranquilos, quase divertidos.

Ele puxou a própria roupa para perto e, num gesto casual, tomou a toalha da minha mão para secar o cabelo.

— Tô me virando melhor sozinho, né? — comentou, enquanto esfregava os fios ainda úmidos.

— Ah, você tem que se virar — respondi, sorrindo.

Ele apoiou as duas mãos na cama e fez força para se levantar, o corpo tensionando por um segundo. Instintivamente, estendi a mão.

— A muleta…

Ele fez um sinal com a cabeça, e eu a alcancei rapidamente.

— Não é melhor você se apoiar em mim? — sugeri.

Arthur me olhou, avaliando, e sorriu de novo.

— Acho que sim.

Apoiando-se em mim, ele deu dois passos curtos e parou em frente ao guarda-roupa.

— Me ajuda até ali? — pediu. — Esqueci de pegar uma coisa.

— Faz o seguinte — falei. — Eu pego. O que você quer?

— Abre aquela gaveta ali — ele apontou com o queixo. — Pega uma cueca pra mim, por favor.

— Branca? — provoquei.

Ele riu.

— É. Branca é a sua favorita, né?

— Você sabe que é — respondi. — Então branca vai ficar bom pra você.

Abri a gaveta, mexendo nas peças organizadas.

— Box ou slip?

— O que você gosta? — ele devolveu, arqueando uma sobrancelha.

Peguei uma box, não muito comprida, e joguei na direção dele.

— Essa.

Arthur segurou a peça e, depois de um segundo de silêncio calculado, levantou os olhos para mim.

— Você me ajuda a vestir?

— Você já tá abusando da minha boa vontade — respondi, rindo baixo.

Mesmo assim, me ajoelhei à frente dele. Passei uma das pernas dele pela abertura da cueca, depois a outra, com cuidado extra por causa da bota. Minhas mãos subiram devagar pelo tecido.

— Abre a toalha pra eu terminar de colocar.

Arthur afastou as mãos, ergueu um pouco o corpo. Dali, de joelhos, minha visão foi tomada pelas coxas dele — fortes, bem delineadas, a pele clara contrastando com o tecido branco subindo lentamente.

Subi a cueca com cuidado. Quando terminei, ergui o olhar — e encontrei os olhos dele fixos em mim.

Arthur estendeu a mão e tocou meu rosto, os dedos passando devagar pela minha bochecha, num gesto inesperadamente delicado.

Foi nesse instante que a porta do quarto foi batida três vezes.

— Arthur?

Nós dois nos assustamos. Sentei rápido demais ao lado dele, o coração disparado.

— Oi — Arthur respondeu, tentando manter a voz normal. — Pode falar, pai.

— Já tô indo, tá? — a voz de Juan veio do corredor. — Hoje devo chegar mais tarde do trabalho. Mas o Arthuro ficou de chegar às sete, né? Qualquer coisa, é só ligar.

— Tudo bem, pai. Sem problema — Arthur respondeu. — O Bernardo vai estar comigo. Se eu precisar de ajuda, ele me ajuda.

— Tá bom, filho. Até mais tarde. Te amo.

— Também te amo.

O silêncio voltou a ocupar o quarto.

E nada ali parecia exatamente igual ao que era antes.

— Que susto… — falei, soltando o ar devagar. — Eu tinha esquecido que seu pai ainda estava em casa.

Arthur riu baixo, aquele riso leve que sempre vinha acompanhado de um sorriso tranquilo, quase despreocupado.

— Ele veio almoçar aqui hoje — explicou. — Resolveu umas coisas mais cedo e acabou ficando um pouco mais.

— Entendi — respondi, ainda sentindo o coração desacelerar aos poucos.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Pelo contrário. Tinha algo de suspenso nele, como se os dois soubéssemos que aquela interrupção tinha apenas adiado — não evitado — o que estava se construindo ali desde que eu entrara naquele quarto.

— Você quer pegar mais alguma peça de roupa? — perguntei, tentando soar casual.

Arthur inclinou levemente a cabeça, avaliando o próprio corpo como se nunca tivesse pensado nisso antes.

— Não… não — respondeu. — Assim eu tô confortável.

Ele me olhou direto nos olhos.

— Tá bom pra você?

Dei de ombros, meio sem jeito.

— Não é… quer dizer, tá. Você que tem que ficar confortável.

Arthur se aproximou em minha direção. A proximidade mudou o ar do quarto. A voz dele baixou, ganhou um tom mais lento, quase sussurrado.

— Tenho certeza que você também tem que ficar confortável.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele se moveu num impulso surpreendente. Pegou a muleta, quase pulou até a porta do quarto, trancou com um estalo seco — rápido demais para alguém com a perna imobilizada — e voltou na mesma velocidade.

Não houve aviso.

Arthur segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou.

Não foi um beijo apressado. Foi lento, quente, molhado na medida exata. Um beijo que começava suave, exploratório, e se aprofundava aos poucos, como se estivesse testando até onde podia ir. Os lábios dele tinham gosto de suave, de água morna, de algo íntimo demais para ser ignorado.

Quando se afastou, ainda com o rosto a poucos centímetros do meu, ele sorriu.

— Agora eu tô mais confortável.

— E você vai me manter aqui em cativeiro? — brinquei, tentando recuperar o fôlego. — Trancado no quarto?

Arthur riu, encostando a testa na minha por um segundo.

— Por que não? — respondeu. — Tem pau e água.

— Atuações ótimas — retruquei, sorrindo.

— Você já almoçou? — ele perguntou, mudando o tom com naturalidade.

— Não… ainda não.

— Então não tem mais conversa — interrompeu. — Você me ajuda a descer, e a gente pede alguma coisa ou prepara algo.

— Tá bom — respondi, rindo.

Ele destrancou a porta e começou a andar com cuidado, apoiado nas muletas. Observei por um segundo e falei:

— Segura essas muletas com uma mão só.

Antes que ele entendesse completamente o que eu ia fazer, me curvei e o peguei no colo.

— Ei! — Arthur exclamou, surpreso, rindo alto. — Você é doido?

— Fica quieto — respondi, firme, mas sorrindo. — Confia.

Desci as escadas com cuidado, sentindo o peso dele contra mim, a perna com a bota ortopédica ajustada de um jeito que me obrigava a segurá-lo com mais firmeza. Arthur apoiou um braço no meu ombro.

— Caramba… — ele comentou, divertido. — Você tá forte, hein?

— Carregando você assim, eu sou obrigado a estar.

— Vou lembrar disso — ele disse, piscando.

Quando cheguei ao primeiro andar, coloquei Arthur no chão com cuidado.

— Da próxima vez — ele falou, me olhando de baixo para cima — vai ser você no meu colo.

— Tá bom — respondi, rindo. — Eu sento no seu colo com todo prazer.

Arthur fez uma expressão lenta, sedutora, inclinando levemente a cabeça.

— Com prazer… ou com vontade ?

— Para com isso — falei, rindo, empurrando de leve o ombro dele.

Sentamos no sofá. Peguei meu celular, vi algumas mensagens, ignorei.

— Vamos pedir alguma coisa pra comer.

— Pela minha conta — Arthur disse. — Pega meu celular aí.

Entreguei o aparelho.

— Vou pedir algo mais saudável — ele comentou. — O que acha?

— Beleza. Pede o que você achar melhor.

— Acho que uns pokes vão cair bem — decidiu. — A gente come e passa a tarde aqui, conversando tranquilo.

— Fechado.

Enquanto ele fazia o pedido, me inclinei mais perto. Próximo o suficiente para sentir o calor do corpo dele, para perceber a respiração calma, para notar aquele sorriso tranquilo que parecia nunca ir embora.

— Então… — falei baixo. — Acho que a gente tem muita coisa pra falar, né?

Arthur travou a tela do celular e virou o rosto pra mim.

— Tem sim.

Ele respirou fundo.

— Mas eu queria começar falando. Você pode me escutar um pouco?

Olhei para ele com atenção, de verdade.

— Tô todo ouvido — eu disse, aproximando-me mais no sofá. — Todo aqui pra te escutar.

Com cuidado, puxei as pernas do Arthur e as acomodei sobre a minha. O gesto foi natural, quase automático, como se nossos corpos já soubessem onde queriam estar. Ele não recuou. Pelo contrário. Relaxou ali, deixando o peso se acomodar, deixando a proximidade acontecer.

Levantei o olhar devagar até encontrar o dele. Os olhos claros estavam atentos, mas havia algo novo ali — uma hesitação suave, um brilho diferente, quase tímido.

Arthur respirou fundo.

— Então, Ber… talvez pra você não seja tão confuso tudo o que tá acontecendo — começou. — Você sempre foi muito decidido. Sempre soube quem era.

Ele desviou o olhar por um instante, passando a mão pelo próprio cabelo ainda levemente úmido.

— Mas pra mim… — continuou — além de tudo isso ser novo, é… inesperado.

Não consegui evitar um sorriso curto.

Arthur percebeu na hora.

— O quê? — perguntou. — Do que você tá rindo?

Inclinei um pouco a cabeça.

— É a primeira vez que eu te vejo assim — respondi. — Tímido. Desviando o olhar.

Ele riu, meio sem graça.

— Não é fácil falar disso.

— Eu sei — falei, mais baixo. — Continua.

Arthur assentiu, respirou outra vez.

— Voltando… o que eu quero dizer é que tudo isso é muito novo pra mim. E eu gostaria muito do seu apoio.

Levei a mão até o rosto dele sem pensar. O polegar tocou a bochecha com cuidado, como se estivesse testando o terreno. Inclinei-me e deixei um beijo leve ali, quase um carinho.

Depois, segurei a mão dele.

— Você tem todo o meu apoio. Você sabe disso.

Ele apertou meus dedos de leve.

— Eu sei… — disse. — Mas eu preciso ser honesto com você.

Fiquei em silêncio, atento.

— Eu não tenho tanta experiência assim. Na verdade… — ele sorriu de canto — eu nunca tive experiência com homens.

Levantei uma sobrancelha, mas não disse nada.

— Eu percebi que… você vai ter que me guiar — ele continuou. — Na nossa…

— Na primeira vez que aconteceu alguma coisa entre a gente? — interrompi, com suavidade.

Arthur riu.

— É… isso.

— Bom — falei, sorrindo. — Beijar você sabe. E muito bem, por sinal. Um beijo inesquecível.

Ele deu uma risada mais solta agora.

— Para, Ber… deixa eu concluir.

— Desculpa. Continua. Tô escutando.

Arthur se ajeitou um pouco mais perto.

— Como eu disse… eu sei beijar. Sei tocar. Mas eu não sei como tratar outro homem dentro de uma… — ele hesitou — relação.

A palavra ficou suspensa entre nós.

— Relação? — repeti.

Ele virou o rosto pra mim.

— É… não sei se é uma relação. Ou se não é.

— Posso falar uma coisa? — perguntei.

— Pode.

Inclinei-me e dei um selinho rápido nele.

— Arthur… eu sei que pra você tudo isso é novo. Eu sou assumido desde os dezoito. O que também não faz tanto tempo assim. — sorri de leve. — E eu também não me considero a pessoa mais experiente do mundo.

Segurei o rosto dele entre as mãos.

— No tempo que você precisar, pra mim tá tudo bem. Hoje, o que existe entre a gente é amizade. E eu nunca quero perder isso. Nunca.

Arthur me olhava com atenção absoluta.

— Assim como eu não quero perder a amizade do seu irmão. Isso, pra mim, não tem preço.

Fiz uma pausa.

— Antes de pensar em nomear qualquer coisa… a gente precisa entender que eu não quero que isso acabe só porque a gente se beijou, se desejou ou seja lá o que vier a acontecer.

Arthur assentiu devagar.

— Eu concordo com você. Mas a gente também precisa… chegar a uma conclusão, em algum momento.

Ele segurou minha mão com mais força.

— Me dá a palavra?

— Toda.

Arthur respirou fundo.

— É aqui que eu queria chegar. As coisas entre a gente vêm numa crescente. E eu tô gostando dessa crescente. Muito.

O olhar dele ficou mais intenso.

— Mas eu também não sei exatamente qual é a minha orientação sexual depois que eu fiquei com você.

Sorri de leve.

— No mínimo, você é bissexual.

Ele riu.

— Talvez. Mas foi só com você.

— E você acha que se for só comigo isso te torna hétero? — provoquei. — Só se você for um hétero muito enrustido. O que aconteceu entre a gente não foi broderagem.

Arthur balançou a cabeça, rindo.

— Não… tá longe disso. Muito longe.

Ele ficou sério por um instante.

— Eu não tenho problema nenhum se isso evoluir. Se em algum momento precisar assumir. Principalmente assumir você.

A mão dele apertou a minha.

— Eu tô gostando de tudo. E gosto que você respeita meu tempo.

Senti o peito aquecer.

— Eu respeito — respondi. — E fico aqui. Do seu lado. Sem pressa.

Mantive as mãos nas pernas do Arthur, sentindo o peso dele ali, confortável, presente. Olhei nos olhos claros dele por alguns segundos antes de falar, como se estivesse organizando cada palavra para não ferir nada do que já existia entre nós.

— Então, Arthur… eu acho que tá claro dentro disso tudo — comecei — que eu, um homem gay, tô de fato me permitindo viver algo com o meu melhor amigo. Alguém que era hétero… ou que pelo menos acreditava ser, até poucos dias atrás.

Ele não desviou o olhar. Pelo contrário, parecia ainda mais atento.

— E eu sempre vou respeitar isso em você — continuei. — O seu tempo, as suas dúvidas, os seus medos. Pra mim, isso nunca foi um problema.

Arthur respirou fundo.

— Mas eu também acho — falei — que nós dois somos novos nisso, cada um à sua maneira. Eu saí de um relacionamento há um ano só. Ainda tô reorganizando muita coisa dentro de mim.

— Eu nunca namorei — ele disse, quase automático.

Levantei uma sobrancelha.

— Não namorou, mas já se relacionou com várias mulheres. Eu lembro disso.

Ele sorriu de canto.

— Isso sempre.

Assenti devagar.

— Então… a única coisa que eu realmente não quero — falei com calma — é que a gente se machuque. Que isso vire algo confuso a ponto de destruir o que a gente sempre teve.

Aproximei-me um pouco mais.

— O que eu te proponho é simples. A gente faz o que tem vontade. Sem pressão. Sem rótulo agora. E se, em algum momento, você se sentir confortável pra assumir qualquer coisa — pra quem quer que seja — eu vou estar do seu lado. Sempre.

Arthur riu baixo.

— Eu sei. E eu gosto disso em você.

Ele passou a mão pela minha.

— E, sinceramente, Ber… eu não tenho muito mais o que dizer. Até porque, como você mesmo falou, você tá solteiro há um ano, acabou de passar num concurso… relacionamento não é exatamente sua prioridade agora.

— Exato — confirmei. — Meu foco é me estruturar, morar sozinho, organizar minha vida. Minha vida ainda é meio caótica.

Sorri.

— Olha quanto tempo demorou pra eu estar aqui de novo com você. Agora imagina se eu não consigo corresponder a expectativas… e isso acaba com a nossa amizade.

Arthur ficou sério.

— Eu concordo com você — disse. — Mas eu também preciso ser honesto. Eu quero que isso evolua. Eu quero que você seja o primeiro cara com quem eu realmente fique.

Senti o peso daquilo.

— Isso eu já tinha entendido — respondi. — Mas deixa eu te perguntar uma coisa.

Ele abriu a boca para responder, mas se adiantou:

— Eu te amo, você é meu melhor amigo.

Fiquei em silêncio por um segundo.

— Arthur… — comecei, com cuidado. — Amor é uma palavra grande abrange diversas coisas. A gente ainda tá entendendo o que sente além da nossa grande amizade.

Ele assentiu.

— Tá. Então deixa eu falar de outra forma. Eu sinto desejo. E isso não é de agora.

A mão dele apertou a minha.

— Sempre existiu alguma coisa. Eu achava que era só amizade… mas quando eu te vi de novo, eu entendi que não era só isso.

— E quando você sente desejo… como você me vê? — perguntei, quase provocando.

Arthur sorriu, malicioso, e se aproximou do meu ouvido.

— De formas que eu nunca pensei sentir vontade de ver outro homem. De quatro rebolando, como no dia da chamada de vídeo.

Afastei-me um pouco, rindo, tentando quebrar a tensão.

— Meu Deus, Arthur… não precisa ser tão direto. Seu safado.

Ele riu também.

— Mas é verdade. Eu te desejo. E de muitas formas.

Balancei a cabeça, ainda sorrindo.

— Acho que ficou claro o que você quer — falei. — E também ficou claro que você gosta de conduzir.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Talvez — respondeu. — Mas isso não quer dizer que eu não queira aprender outras coisas.

— Todo mundo aprende — falei. — Não existe regra fixa. Desejo não vem com manual.

Arthur me olhou com curiosidade.

— Então a gente vai assim? Sem cobrança?

— Sem cobrança — confirmei. — Se em algum momento a gente sentir que isso muda… a gente conversa. Se evoluir, evolui. Se ficar onde tá, também tá tudo bem.

Ele respirou fundo.

— Só tem uma coisa… — disse. — Eu sou ciumento.

Sorri de canto.

— Então é melhor a gente conversar muito bem sobre isso.

Antes que ele respondesse, a campainha tocou.

O som cortou o clima como um choque elétrico.

Arthur me olhou e riu.

— Parece que o mundo insiste em lembrar que a gente ainda precisa comer.

Levantei devagar.

— Realidade chamando.

Ele assentiu.

— Mas a conversa… não acabou.

— Nem de longe — respondi.

— O almoço já tá pago. Pedi pelo aplicativo enquanto a gente conversava.

Olhei pra ele e sorri.

— Então hoje eu só trabalho pouco — brinquei.

Recebi o entregador, agradeci, desejei bom trabalho. Voltei com as sacolas ainda quentes nas mãos e, antes de sentar, perguntei:

— Onde ficam os talheres?

— Na segunda gaveta da cozinha, à esquerda — ele respondeu, apontando sem levantar.

Peguei os talheres, alguns guardanapos. Levei tudo para a mesa de centro e coloquei as embalagens abertas ali, de forma despretensiosa. Era uma comida simples, informal, perfeita para continuar aquela conversa sem cerimônia.

Arthur se aproximou do sofá e pegou seu Poke enquanto me entregava o meu. Quando nossas mãos se tocaram por um segundo a mais do que o necessário, ele falou:

— Ber…

Levantei o olhar.

— Oi. Pode falar.

Ele não respondeu de imediato. Apenas ficou ali, parado, me observando. O olhar dele percorreu meu rosto com calma, como se estivesse gravando cada detalhe: a barba por fazer, a boca, o jeito que eu sustentava o olhar sem desviar.

— Nada — ele disse, enfim. — Eu só tava te observando.

Senti o canto da boca subir sozinho.

— Tudo bem — respondi, rindo baixo.

Sentamos lado a lado no sofá. Começamos a comer, trocando comentários leves sobre a comida, pequenas risadas, o silêncio confortável de quem não precisa preencher tudo o tempo inteiro.

Depois de algumas garfadas, fui eu quem retomou:

— Então, Arthur… continuando a nossa conversa… desse jeito que a gente tá falando, vivendo… isso é de boa pra você?

Ele mastigou devagar, pensativo.

— Eu acredito que enquanto eu tô me descobrindo, pode ser algo muito tranquilo dessa forma — respondeu. — Mas, como eu te disse, eu costumo evoluir sentimentos.

Inclinei levemente o corpo em direção a ele.

— Ué… se você evolui, mas nunca chega num namoro…?

Ele sorriu de canto.

— É porque nunca deu certo. E, sendo bem sincero, eu também nunca gostei de alguém a ponto de amar essa pessoa.

Assenti, com cuidado.

— É… mas amor também tem muitas formas. A gente sempre se amou como amigo.

Ele riu.

— Mas a gente também não se relaciona com inimigo, né?

Soltei uma risada sincera.

— Concordo com você.

Continuamos comendo. Quando terminamos, empurramos os pratos vazios para o centro da mesa e ficamos ali, sentados próximos demais para ser casual, distantes demais para ser entrega total.

Respirei fundo.

— Sabe… — comecei — eu nunca imaginaria que algo com você fosse acontecer em algum momento da nossa vida. Porque, pra mim, a nossa amizade sempre foi algo muito sagrado. E, como eu disse… meu único medo em qualquer situação é perder isso.

Ele me escutava com atenção.

— Se você virar pra mim e disser: “Ber, vamos nos envolver, mas eu não quero me assumir”, tudo bem. Mas eu, como seu amigo, sempre vou te incentivar a se assumir, a se sentir bem, a viver de verdade.

Arthur abaixou o olhar por um instante.

— Esse ainda é um problema que eu preciso resolver.

— É… assumir não é fácil. Nem todo mundo tem a família que eu tenho.

Ele suspirou.

— Eu não sei como… meu pai… iria reagir.

Fiquei pensativo.

— Isso é algo que você vai precisar decidir daqui pra frente.

Quando falei “daqui pra frente”, minha mente dispersou por um segundo. A lembrança do beijo que toquei com Arthuro dias atrás, veio a imagem inteira: o jeito que ele me puxou, o calor, a entrega contida. Balancei a cabeça levemente, voltando pro presente.

— Mas… vamos pensar no agora — falei. — Vamos viver o agora. Hoje a gente tá curtindo isso. É um momento. E momentos também merecem ser vividos.

Arthur me olhava com atenção total.

— Se daqui pra frente você conhecer alguém e quiser viver isso também, tá tudo bem. E isso vale pra mim. Mas, no momento em que qualquer um de nós sentir que saiu do “agora” e entrou em algo mais sério… a gente conversa. Imediatamente.

Ele assentiu.

— Por mim tá tudo bem. Você já me conhece, eu te conheço. Eu só não quero fazer nada escondido… pra sempre.

— E eu não quero que você se esconda — respondi. — Mas também acho que isso não precisa ser exposto agora. Vamos viver isso só nós dois.

— Só nós dois — ele repetiu.

— E se alguém souber, a gente conversa. Desde que esteja bom pra você. Desde que você se sinta à vontade de dizer que tá se relacionando com outro homem.

Arthur sorriu, seguro.

— Esse outro homem sendo você… pra mim não tem problema nenhum.

Me aproximei devagar e dei um selinho nele, leve, demorado o suficiente pra dizer tudo sem dizer nada.

— Fico feliz que a gente consiga conversar assim — falei. — E chegar num resultado.

Afastei-me um pouco e completei:

— Mas mudando de assunto… como você se vê daqui pra frente?

Arthur pensou.

— Hoje eu me enxergo como um homem que gosta tanto de homem quanto de mulher. Uma coisa não exclui a outra. E, sendo bem honesto… o único homem que eu quis de verdade foi você.

Meu olhar se suavizou.

— Querer ou não é consequência — respondi. — Mas não se feche pro mundo. Só entende que é um caminho sem volta.

Ele sorriu.

— É um caminho que eu não quero voltar.

Arthur então passou os dois braços pelo meu pescoço e me puxou pra perto. Senti o corpo dele colar no meu, o cheiro, o calor.

— Eu me sinto mais aliviado depois dessa conversa — disse, com a voz baixa.

— Eu também.

Sorri.

— Assim a gente pode aproveitar o resto da tarde, né?

Levantei o olhar, deixando ele mais demorado, mais intencional. Arthur percebeu na hora.

— E como você pensa em aproveitar toda essa tarde?

Eu não respondi de imediato.

Em vez disso, me inclinei para frente, recolhi com calma os talheres e as embalagens que ainda restavam sobre a mesa de centro e empurrei tudo um pouco mais para longe, abrindo espaço entre nós. O gesto foi simples, quase banal, mas carregado de intenção.

Voltei a olhar para ele.

— Acho que a gente vai aproveitar… só nós dois.

Arthur não desviou o olhar. Pelo contrário. Ele se ajeitou levemente no sofá e, num movimento lento, seguro, pegou minha mão e colocou sobre a coxa dele. A pele quente, o contato direto, sem pressa.

— E eu acho — ele completou, a voz mais baixa — que a gente pode aproveitar do jeito que a gente nunca aproveitou antes.

Aquilo foi suficiente.

Me inclinei sobre ele, sentindo o corpo dele ceder sob o meu peso. Beijei sua boca sem urgência, mas com firmeza, encaixando meu corpo ao dele, deitando completamente sobre ele no sofá. Arthur correspondeu no mesmo ritmo, as mãos firmes nas minhas costas, como se estivesse me segurando ali, presente, real.

— Tira a camisa — ele murmurou entre um beijo e outro. — Pra você ficar mais confortável... Você tá de jeans.

Sorri contra a boca dele.

— Tudo bem… é que a gente tá na sala.

Ele fez uma expressão divertida.

— Hm… é verdade.

Afastei-me um pouco, ainda próximo demais para chamar de distância.

— Eu queria tomar um banho — falei. — Só pra ficar um pouco mais confortável.

Arthur não pensou duas vezes.

— Então vamos lá pro meu quarto.

Arqueei a sobrancelha, brincando:

— Já quer que eu te carregue no colo de novo, né?

Ele riu, daquele jeito leve que sempre me desmontava.

— Pode ser. Não vejo problema nenhum.

Levantei-me do sofá e, com cuidado, segurei Arthur com firmeza. Ele estava só de cueca, o corpo leve nos meus braços, as muletas apoiadas contra o encosto do sofá. Ajustei o peso, e ele passou um braço pelo meu pescoço, aproximando o rosto do meu.

Subimos a escada assim. Conversando baixo, rindo, trocando beijos curtos pelo caminho. O silêncio da casa parecia cúmplice.

Quando entramos no quarto, coloquei Arthur com cuidado sobre a cama. Ele se ajeitou entre os lençóis e me olhou com um sorriso lento, cheio de intenção.

— Tranca a porta — pediu. — A gente precisa ficar mais à vontade.

— Tudo bem.

Fui até a porta, tranquei, e quando virei de volta, Arthur ainda me observava. Aquilo me fez respirar fundo.

Sem pressa, tirei a camisa, deixando-a cair sobre a cadeira. Depois, desabotoei a calça jeans e a deixei escorregar pelas pernas, ficando apenas de cueca preta. O contraste da pele bronzeada com o tecido escuro era evidente, e o olhar de Arthur mudou completamente.

Ele me percorreu de cima a baixo, sem disfarçar.

— Você tá muito bronzeado — comentou, com um meio sorriso. — Eu sou completamente apaixonado por isso… fico doido pra ir à praia também.

Dei um passo em direção a ele.

— A gente pode resolver isso em algum momento.

Ele riu baixo.

— Eu espero que sim.

Passei a mão pelo cabelo, meio distraído.

— Eu preciso mesmo tomar um banho. Vim da rua… não tô me sentindo cem por cento confortável.

Arthur apontou com o queixo para o banheiro.

— Tem toalha, roupa… o que você quiser. Pode pegar tudo lá.

Inclinei a cabeça, sorrindo de forma provocativa.

— Acho que não vou precisar de roupa nenhuma.

Ele soltou uma risada sincera, daquelas que vêm junto com o brilho no olhar.

— Você não existe, Bernardo.

Sorri de volta.

E, naquele quarto fechado, com a tarde ainda inteira pela frente, ficou claro que nada ali era pressa. Era escolha. Era vontade. Era só o começo.

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Ôoo meu Deus! Que saudade estava desse conto rsrsrs. Amo como você esclarece as coisas com quem você se relaciona. Gosto do Arthur, mas ñ posso me apegar...sla o que vai acontecer né? Vou aproveitar pra me apaixonar por cada macho que aparecer nesse conto rsrsrs! Pensou no arthuro brevemente pq safadinho? Olha lá emh? Tu é apaixonte mesmo, olha só como esses irmãos são caidinhos por você, não só eles.

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