Incredulidade tomava conta de minha cabeça enquanto ouvia as loucuras que Eric relatava a todos nós. Sempre que desacreditava, entretanto, Gabriel confirmava toda aquela história, parecendo remover totalmente o solo de ceticismo sob o qual meus pés se sustentavam. Estava assustado e muito atento, ouvindo os suspiros de meus demais colegas todos muito surpresos escutando o garoto que falava de forma técnica e indiferente.
O pior, tudo aquilo parecia agora fazer sentido… Era estranho que nós, jovens despidos naquele ambiente selvagem, tivéssemos nos salvado de tal acidente enquanto os dois homens armados e paramentados até então não fizessem qualquer aparição. Eric deu um jeito de não permitir que algo assim ocorresse. Meus sentimentos estavam confusos. Sentia alívio, é claro, mas meu estômago também se revirava dada a brutalidade e frieza do ato descrito em detalhes por ele.
Olhei para o garoto de novo. Eu devia ter visto aquilo antes e me senti um idiota por não ter percebido com tantas pistas. Seus olhos eram sem brilho como sempre se apresentavam anteriormente. Muito diferentes dos meus, de Guilherme, Carol e Andressa. Agora eu me lembrava de tudo que ocorreu durante o sequestro, como fiquei trêmulo, com o coração na boca e não conseguia sequer reunir coragem para proteger Carolina sentada logo ao meu lado. Teria Eric experienciado algo, ao menos, perto disso? Parecia que não. O que isso significava? O que tal ato fazia dele?
Não! Era sobrevivência. Foi necessário. Repeti em minha cabeça. Eric nos salvou, ou, ao menos, tentou nos salvar. Quando Andressa comunicou isso a ele, entretanto, o rapaz de olhar sério deu de ombros com indiferença. Quando Edward tentou confortá-lo, não demonstrou precisar de algo assim. Não sentia culpa? Percebi assustado. Sua consciência era tão limpa quanto sempre fora. Lembrei de como, todas as noites em que ficamos naquele local, Eric era sempre o primeiro a dormir, fazendo-o com tanta facilidade que era difícil acreditar. Céus, ele podia ao menos fingir que se importava, que fez o que fez por um motivo nobre. Isso certamente o ajudaria em sua causa. Ele sempre foi de uma sinceridade visceral, mesmo quando nos ocultava informações tão importantes quanto aquelas. Era impossível não me perguntar sobre o que mais aquele garoto era capaz de fazer.
— Cara, porque não nos contou sobre isso antes? Teríamos entendido. — Guilherme questionou impaciente. Tentava disfarçar estar chocado, mas era nítido o quão vã era sua performance.
Eric desviou da questão. Disse que não julgava aquilo como importante, que não o perguntamos a respeito anteriormente ou nos preocupamos com a possibilidade dos dois terroristas estarem vivos na ilha. Lancei-lhe um olhar de desconfiança. Para mim era óbvio sua real motivação. Temia nosso julgamento, que tivéssemos dificuldade em contribuir com um possível assassino de sangue frio. Que droga, Eric! Você nunca confiou em nós desde o princípio? Tudo o que vivenciamos esse tempo todo não passara de manipulação?
Já estava ficando enojado de ouvir suas explicações. Até quando descrevia os dois assassinatos que cometeu, era cheio de termos técnicos, número e cálculos ininteligíveis. Era tão indiferente como era possível. Quis acreditar que tentava se distanciar do que fizera como mecanismo de defesa e não por ser genuinamente distante como realmente parecia ser.
Sim, Eric estava certo sobre tudo. Achamos seu maldito lago, sobrevivemos por sua causa e realmente dá para fazer sabão com as malditas conchas do mar! Ele era um idiota ainda assim. Como alguém tão inteligente não conseguia ler o ambiente a sua volta e notar o quão decepcionados estávamos ainda assim por suas mentiras?
Isso não importa. Estava grato por seu gesto, mesmo que ele sequer tivesse qualquer boa intenção com ele. “Maluquices do Eric, como sempre” Repeti em minha cabeça. Foi a mesma coisa que disse a Carolina lá no avião enquanto, a algumas poltronas atrás, Eric planejara todas aquelas coisas. Fui inocente se pensei, por um momento, que ele tinha mudado.
— Cara, eu sempre te achei meio estranho, mas subiu no meu conceito se realmente mandou aqueles dois vermes pro fundo do mar. — Andressa comentou quando o silêncio se formou. Algumas cabeças assentiram com ela, incluindo a de Thais e Adrien. Olhei para Carol. Ela ainda estava chocada.
— Andressa! — Carol chamou a atenção dela e suspirou. Sua empatia era algo fora desse mundo. — Eric, eu sei que você não faria algo assim se não fosse necessário. Mas ainda assim, foi muito imprudente. Por favor, não se arrisque assim de novo. — Disse-lhe com um olhar triste.
— Ok… — Eric respondeu parecendo surpreso. Não deixei que os ciúmes me consumissem diante de tal situação, ficando muito chocado e maravilhado para tal com o quão cuidadosa Carol era com aqueles perto dela.
— E por favor, chega de segredos. — Exigiu Carol. Eric assentiu com a cabeça. Se era apenas uma promessa vazia, eu desconfiava, embora não tivesse como saber suas verdadeiras intenções com certeza.
— Talvez não tenha como colocar em palavras bonitas toda essa situação, mas também admiro sua coragem, Eric. Você nos salvou e isso é inegável. — Edward disse de forma apaziguadora. Assenti também.
— Sinceramente, não sei se acredito nessa história toda ainda. — Thais mencionou pensativa.
— É verdade! — Gabriel disse. — Quantas vezes vou ter que repetir até que acreditem em mim? — Ele prosseguiu.
— Sei lá Gabriel. Você não está muito certo da cabeça desde o acidente. Já são o que? Quatro noites que não consegue dormir direito? — Thais prosseguiu em negação. Era certo que Gabriel sempre foi um pouco ansioso, mas seu relato era confiável. A reação me parecia perfeitamente normal para quem presenciou 2 assassinatos daquela forma. O contraste entre ele e Eric era quase palpável.
— Taywan também viu. Se não acreditam, perguntem a ela quando nos reencontrarmos de novo. — Eric falou.
— Espera, vocês encontraram Taywan? Onde ela está? — Adrien perguntou surpreso.
— Com Marcos. — Eric respondeu indiferente. Notei que Edward e Gabriel estremeceram. — Ele está reunindo pessoas para seu grupo. Deduzo que está atrás de você. — Complementou lançando um olhar frio sobre o presidente. Aquilo era diferente… Percebi certa passivo-agressividade. De acordo com a história de Eric e Taywan, Marcos não devia ter a melhor das intenções. Entendi na hora o que Eric queria mencionando-o daquela forma. Queria provocar medo… Nos fazer pensar que era perigoso ficar perto do presidente.
Edward sorriu. Não aparentava estar assustado ainda assim.
— Bem, parece que vocês tem bastantes novidades para contar pra gente. — Comentou com divertimento. — Mas antes, acho melhor decidirmos o que faremos a partir de agora. — Você é o lider do seu grupo então, não é, Eric? — Questionou. Quando o garoto abriu a boca para responder, prontamente o interrompemos.
— Não é! — Guilherme e eu respondemos em uníssono. Eric nos olhou com o rabo de olho.
— Como pode ver, não temos liderança definida. — Eric se justificou. Aquilo me desarmou por um segundo. Era bem diferente do que ele falou para Taywan lá na floresta. Naquele momento, estava tentando impressioná-la? Não. Não era de seu feitio algo assim. Eric só podia estar tentando ganhar nossa simpatia. Seu comportamento estava estranho, mais que o normal. Seria por causa de Edward?
O presidente riu de novo.
— Você é inacreditável, Eric. — Falou Edward com divertimento e estendeu os braços de forma convidativa. — Amigos, fiquem à vontade. A “Comuna do Eric” é bem vinda conosco. Aqui, nos estruturamos meio que como uma República. Decidimos tudo em conjunto por meio do voto democrático para ninguém ficar insatisfeito. — Explicou. Achei bem apropriado, chegando até a me perguntar porque não iniciamos um sistema de votação mais bem organizado assim antes ao invés de deixar Eric seguir nos manipulando para fazer todas as suas vontades. Sorri involuntariamente.
— Imagino que, na “República de Edward”, você deve ser o líder. — Eric falou com certo desdém. O sorriso de Edward sumiu lentamente.
— Porra, porque vocês meninos são assim? — Andressa entrou na discussão. — Quem se importa com quem é lider de que nesse lugar? Edward é o presidente do grêmio estudantil, afinal. — Falou impacientemente.
Eric a mostrou um meio sorriso. Notei, forçosamente.
— Tem razão. — Disse o garoto, parecendo se recompor. Agora era tarde. Já mostrara suficientemente de si para que eu ignorasse. Estava inseguro… Era evidente. Percebi, não fora tão bem sucedido na troca verbal contra o presidente quanto esperava. Eric podia ser bom de manipulação, mas jamais conseguiria a simpatia automática a sua figura que Edward possuía, ainda mais agora que recentemente desmascarado em mais uma de suas inverdades. Só podia concluir: Ele temia perder o controle. Via Edward como ameaça. — Isso é uma rede de pesca? — Questionou mudando de assunto subitamente. Os olhos de Eric voltaram ao ibex que nos encarava um a um deitado no chão ofegante. Não se movia, talvez por cansaço ou talvez por ser inútil agora que preso ao emaranhado de cipós.
— Sim Eric. Há peixes naquele lago, se é o que você verdadeiramente deseja saber. Estamos tendo sucesso com a pesca. — Edward lhe disse sem muitas animosidades. Incrível. Pensei surpreso. O presidente conseguia ler aquele moleque ainda mais rápido que eu. O olfato bem apurado para questionamentos óbvios com segundas intenções lhe garantia qualquer vantagem em discussões.
— Presumi que sim… — Eric disse pensativo. Seus olhos eram desconfiados, bem como cada palavra parecia calculada, excessivamente cuidadosa. Céus, o que ele queria dizer com aquilo? Estava tentando inferir que Edward só nos ofereceu a caça de volta de bom grado pois não lhe era necessária? Ele realmente era baixo a ponto de utilizar de tais artifícios para tentar minar a credibilidade do presidente? — É bom esclarecer as coisas. — Comentou em seguida, mudando o tom completamente. — Parece que aqui vocês têm maior disponibilidade de alimentos. Podemos trocar comida por tecnologia entre nossos grupos. — Sugeriu, notando que a tática anterior não surtiu efeito.
— Tecnologia? — Edward repetiu hesitante.
— Ei, como assim trocar entre grupos? — Os interrompi cansado de testemunhar Eric conduzindo seus joguinhos. — Já que há peixes naquele lago, podemos muito bem nos juntar e ficar por aqui. — Ressaltei o que me parecia realmente a melhor alternativa possível. Céus, Eric era mesmo tão desconfiado a ponto de não visualizar aquilo? De acordo com ele, Marcos era hostil e tinha mais o que? Umas 10 pessoas ao seu lado? Era certamente melhor construir nossa força nos números também. Eric me olhou com o rabo de olho. Pelo que percebi, Edward não desaprovava aquela ideia.
Notei, do outro lado, as pessoas me olharam quando chamei atenção para mim, desviando o rosto de imediato logo em seguida. Encolhi os ombros. Pensava ter sido tão convincente quanto aqueles dois quando falei.
— Já temos alguma infraestrutura lá no rio. Se a gente se mudar para cá, abandonaremos tudo o que construímos. — Eric contra argumentou enquanto levava uma das mãos a sua saia de folhas. De lá, puxou algo. Aquela coisa tinha bolsos? Notei surpreso.
— É verdade! A casa na árvore está lá. — Guilherme disse frustrado. Olhei para ele espantado. Cara, quem liga pra algo assim em uma situação como essa? Me questionei indignado com meu amigo.
Entretanto, antes que pudesse dizer mais algo. Eric lançou um objeto pequeno para Edward. Ele o pegou no ar.
— Isso é… Sabonete? — O presidente questionou espantado. Do lado dele, nossos colegas suspiraram de surpresa.
— Sim. — Eric falou com um meio sorriso.
— Dá muito bem para fazer sabonete aqui também, Eric. — Interrompi seu monólogo antes que se iniciasse. Olhei para Guilherme. — E também dá para construir outra casa na árvore aqui, cara. — Complementei tentando soar o mais convincente possível. Se Eric pretendia manipular a todos nós com seus truques de novo para nos manter separados com ele no meio da floresta, não o permitiria. Olhei para Carol. Era mais seguro para ela que ficasse em um grupo com mais pessoas e não apenas perto de mim e Guilherme para protegê-la.
Eric não me respondeu. Não parecia ter como invalidar tal lógica irrefutável. Agora via com clareza o quão encurralado ele estava naquela discussão. Desde o início, tentou conduzí-la mas falhou, usando todo o seu livro de táticas até a exaustão. Ele tentara ganhar nossa simpatia com sorrisos falsos, nos assustar falando de Marcos, esconder o que houve no avião, descredibilizar Edward e até comprar as pessoas com suas bugigangas. O cerco se fechou à sua volta. Não ia voltar para aquele lugar com ele e ter Carolina sobrevivendo na floresta, passando fome e tendo de comer ostras e cogumelos suspeitos enquanto todos trabalhavam nas invenções malucas daquele garoto.
Era nítido que Edward organizava as coisas de forma muito melhor e mais eficiente. Todos em seu grupo pareciam bem. Dormiam sobre um teto, mesmo que rudimentar, estavam limpos e bem alimentados. Já tinham 3 dias que eu não tomava banho e ontem a noite, sequer consegui jantar por causa daquela loucura toda com fungos alucinógenos.
Eric suspirou. Estava frustrado, tal qual uma criança que não consegue convencer a mãe a comprar um brinquedo que quer. Sua brincadeira de lider chegara ao fim. Carol, Guilherme, Andressa e eu não éramos suas ferramentas.
— Não esperava menos de vocês, pessoal! O sabonete é incrível. — Edward disse passando a pequena pedra de sabão para os lados. Sua simpatia era tanta que rivalizava apenas com a de Carol. Nossos colegas pareciam quase brigar para cheirar aquela coisa. — Enfim, vocês terão tempo para pensar no assunto. Mas antes, é bom todo mundo estar com a barriga cheia. — Ele complementou com um sorriso. A maturidade em sua postura era notável, bem como sua capacidade de desescalar conflitos. Minha barriga roncou. Olhei para aquele bode selvagem ali no chão. Fizemos silêncio em volta do animal. Não fazia ideia de como se preparava aquilo.
— Uau! Tanta coisa aconteceu que quase me esqueci da caça. — Andressa disse rindo. — Ei Eric, você sabe como preparar essa carne, né? — Ela o questionou.
— Não é muito diferente de um animal de corte mais convencional. — Ele respondeu e deu alguns passos em direção ao ibex. — Vamos levar para perto da fogueira e lá a gente inicia a limpeza. — Pediu nossa ajuda. Guilherme e Edward também se aproximaram.
Então, sem qualquer aviso, Eric colocou um de seus pés sobre o pescoço peludo daquela cabra silvestre. Antes que pudesse berrar novamente, o garoto fez um movimento brusco segurando um dos chifres com as mãos. Um estalo ecoou pela planície, bem como suspiros femininos de todas ali presentes. Afastei o rosto no susto e, quando olhei de novo, o ibex estava morto. Apenas uma de suas patas traseiras tremia ainda, como se parte de seu corpo esquecesse por alguns segundos que aquela vida tinha deixado esse mundo.
Troquei olhares com Guilherme. Todos à nossa volta estavam horrorizados. Era impossível não reparar na facilidade com que Eric tinha executado tal ato. Ele, entretanto, sequer parecia perceber que chocara a todos nós mais uma vez, arrastando a carcaça desfalecida do caprino junto de Edward até o acampamento. Gabriel os seguiu rapidamente a uma distância segura. Nitidamente, ainda tinha medo de Eric. Meu estômago também se embrulhou um pouco. Acho melhor comer peixe mesmo… Pensei sem coragem de me alimentar do animal que tinha acabado de ver morrer.
Em seguida, Thais e Micaela rumaram para a mesma direção lado a lado. Quando suficientemente distantes, olharam para nós. As duas cochicharam algo e riram. Logo a minha direita, Guilherme estufou o peito. Endireitei minha postura também em reflexo.
— Tudo bem contigo? — Perguntei para Carol. Ela fechou os olhos, pareceu se recompor e me encarou de cima a baixo enquanto acenava que sim com a cabeça. Notei, seu rosto ficou vermelho e, antes que pudesse me dizer algo, foi puxada pelo braço por Andressa que só me lançou um sorriso e a levou para longe.
Adrien olhou para mim ali parado a alguns metros de distância. Seu rosto corado e íris azuis me lembravam um pouco de Carolina. Seu olhar tímido desviou quando se encontrou com o meu também. Notei certo padrão. Desde que cheguei, parecia que todos me olhavam meio estranho… Não. Devia ser só impressão minha.
— Ei Adrien, como vocês conseguem fazer aqueles potes? — Guilherme perguntou curioso quando nos aproximamos. Lá perto das tendas de palha, via alguns dos pequenos recipientes de cerâmica. O garoto nos olhou de cima a baixo de novo.
— Nós pegamos a argila do lago… — Contou rapidamente e se virou de costas. Parecia impaciente em lidar conosco. Quando olhou para mim de novo, notei, seu rosto ficou ainda mais vermelho. — Cara, sei que estamos presos nessa ilha tentando sobreviver… M-mas… Mas você podia se cobrir ao menos na frente das meninas. — Disse-me e foi a passos largos em direção ao acampamento.
O que? Pensei confuso.
Um vento frio me atingiu. Olhei para as garotas lá perto da cabana novamente. Thais e Micaela estavam com Andressa. Elas cochichavam, riam e olhavam para mim, tentando ser discretas. Senti a brisa chacoalhar de leve as folhas que cobriam minha bunda. Na frente, entretanto, o ar me atingiu diretamente. Olhei para baixo assustado.
A saia de folhas curta ali em minha virilha era apenas um fio de cipó amarrado em volta da minha cintura. Aterrorizado, via ali meus pelos pubianos, acima de meu membro flácido sobre as bolas encolhidas pelo vento gélido. Estava tudo exposto! Reparei dando um salto para trás. Lembrei da corrida para alcançar o ibex, em especial, quando aquele bicho trotante me arrastou no chão de barriga para baixo. Soube na hora que, naquele momento, os folíolos frágeis e delicados foram arrancados, restando apenas aqueles na parte de trás do meu corpo.
Gabriel olhava para cá lá de longe, assim como as garotas também. Meu rosto esquentou e me cobri imediatamente com as mãos. Merda! Praguejei mentalmente. Endireitei com as mãos trêmulas minha saia de folhas, girando-a em minha cintura. Uma de minhas coxas permanecia para fora, mas ao menos agora, ocultei finalmente o que estava causando todo aquele constrangimento coletivo. Meu coração disparou e meu rosto todo parecia pegar fogo.
— Porra, cara! Porque você não me avisou? — Questionei Guilherme ali ao meu lado. Meu amigo sorriu e encolheu os ombros.
— O que? Achei que você já tinha notado e tava de boa com isso… — Me respondeu pensativo. O fuzilei com os olhos por aquilo.
Que merda Guilherme! Como eu estaria de boa com algo assim? Pensei indignado. Parte de mim ainda não queria acreditar que eu estava com a rola de fora desde que cheguei naquele lugar, permanecendo assim durante toda aquela discussão. Lembrei dos olhares que recebi, em como as pessoas desviavam o rosto sempre que falava. Que vergonha… Senti com a cabeça baixa. Mal reencontrei aqueles 5 colegas de classe e eles já tinham também visto tanto de mim. Me questionei se as pessoas tinham percebido que foi um acidente ou se, como Adrien, pensavam que fiquei daquele jeito de propósito.
Fui correndo para o acampamento deles com Guilherme, evitando contato visual com as pessoas. Agora, finalmente recebia menos olhares e todos pareciam trabalhar em tarefas diferentes. Andressa examinava cada pote de cerâmica e dava pitacos sobre como Gabriel e Thais podiam melhorar com aqueles artesanatos. Eric e Edward estripavam juntos o ibex em cima de uma rocha na margem do lago. Carol e Micaela conversavam sorridentemente organizando suprimentos. Mangas, uvas e alho selvagem foram alguns dos alimentos que as vi separar. Em outro local perto da água, peixes salgados secavam sob o Sol. Tudo ali parecia limpo e organizado, dando a sensação de bom funcionamento. Guilherme comentou com o presidente que ia preparar a fogueira. Edward lhe respondeu com um sorriso, gesto com polegar para cima e, é claro, nos agradeceu pelo empenho.
Fiquei os próximos minutos juntando lenha com meu amigo, afastado dos demais e ainda tentando mandar para longe a nuvem de constrangimento que pairava sob minha cabeça. Difícil não pensar naquelas coisas ainda. Cara, quando sairmos desse lugar e voltarmos para nossas vidas, esperava que todos, as meninas em especial, fossem discretas e não espalhassem fofocas sobre momentos constrangedores como aquele… Pensei angustiado e cada vez mais auto-consciente. Sempre que podia, ajeitava aquela saia de folhas toda ferrada em minha cintura. Temia que algo escapasse pelo lado da minha perna em que nada estava coberto, bem como administrava as folhinhas escassas ali atrás. Era impossível cobrir a parte da frente e, ao mesmo tempo, não deixar metade de meu glúteo esquerdo para fora.
Quando madeira e carvão pegaram brasa, senti também a vergonha se dissipando bem aos poucos. Com facas de pedra lascada, Guilherme e eu ajudamos os outros caras a remover em um grande pedaço único a pele dotada de pelos do animal que, a cada minuto que se passava, se tornava mais parecido com o que estava habituado a ver em um frigorífico. Sentia a fome voltar cada vez mais quando cortamos o animal e apareceram partes nobres comuns de se ver em churrascos.
Sob a pedra quente, carré francês, lombo, T-bone e até picanha surgiram. As garotas descascaram alho, pimentas selvagens e amassaram tudo em cuias de barro. Jogamos tempero sob algumas partes e, sob outras, apenas sal grosso obtido da evaporação da água do mar. O couro foi deixado para secar em um varal de cipó. De acordo com Andressa e Eric, ela devia descansar ali por dois dias.
Quando o fogo lambeu a carne vermelha e espalhou o cheiro de gordura fumegante no ar, já nem me lembrava mais de Eric quebrando o pescoço daquele bixo ou a bagunça de vísceras que surgiu quando Edward e ele abriram sua barriga. Estava faminto enquanto verificava toda hora junto de Guilherme e Andressa a carne se aproximar cada vez mais de chegar ao ponto ideal enquanto estendida em espetos grossos de madeira sob o fogo. A insistência coletiva foi tanta que começamos a comer a carne mal passada mesmo.
Tinha um gosto forte e denso, mas também fresco como nenhuma carne de supermercado conseguia alcançar. O sabor misturava-se com o cheiro de carvão, sendo que a diversidade de cortes e especiarias colocadas em algumas partes da carne do ibex tornaram difícil distinguir qual peça era superior dentre todas. Foi simplesmente o melhor churrasco que já comi em toda a minha vida.
Enquanto almoçamos reunidos em volta da fogueira, também trabalhamos incessantemente. Edward e Eric pareciam finalmente ter se dado bem. Concordavam em um ponto: Sem desperdícios. Contrariados inicialmente por nós, aqueles dois salvaram fígado, coração e alguns outros órgãos internos que sequer sabia serem comestíveis. Os ajudamos mesmo assim a moer parte da carne e encher tripas com ela para fazer salsichas, mais uma ideia que me causou aversão no início, mas que me surpreendeu quando experimentei.
O ibex selvagem era um animal enorme e totalmente impossível de ser todo consumido naquele dia apenas, mesmo que tivéssemos 10 pessoas no grupo agora. Eric nos solicitou ajuda para construir uma plataforma rudimentar de madeira e folhas, onde estendeu as enormes costelas pré-salgadas cheias de carne daquele animal e defumou tudo o que restou. De acordo com ele, esse processo preservaria a carne, permitindo seu consumo dias a fio. Não acreditei inicialmente, mas me surpreendi quando tudo ficou pronto e o auxiliei a pendurar os pedaços de presunto, linguiça defumada, pastrami e bacon no teto de uma das cabanas de palha que agora mais parecia uma adega alemã rústica.
Ao final do churrasco, estava totalmente cheio. Sentei sobre uma pedra em formato de cadeira diante da fogueira, pretendendo não levantar de lá tão cedo. Guilherme se deitou de barriga para cima sobre o chão forrado com palha. Comeu tanto que agora estava passando mal. Meu corpo também pedia descanso, assim como o de todos ali presentes. Algumas pessoas aproveitaram para tirar um cochilo depois da refeição tão farta e pesada.
O clima agora estava definitivamente melhor. Com algum esforço, fui gradualmente conseguindo me entrosar novamente com meus demais colegas de classe que contaram suas histórias impressionantes e até engraçadas de sobrevivência. De acordo com Edward, todos aqueles cinco tinham chegado na ilha por aquela praia menor onde, dias atrás, fui coletar suprimentos com Andressa. Era uma infeliz coincidência que tivéssemos demorado tanto para nos encontrar, mesmo estando assentados tão proximamente uns dos outros.
Queria ter tido essa sorte toda. O local em que acordei no primeiro dia, encontrei Guilherme, Eric e as meninas era bastante mais longe daquele lago e rio, portanto, tivemos de andar tanto a esmo até encontrar água potável, o que, para o grupo de Edward, se deu de forma bem mais imediata. Sobrou tempo para que eles fizessem suas tendas de palha, explorassem os arredores e coletassem suprimentos. Consequentemente, tinham uma noção muito mais avançada sobre a geografia daquele local que nós.
Enquanto Guilherme pegava no sono ali perto, Gabriel, Thais e Micaela já deviam estar dormindo dentro daquelas tendas. Ao lado de Adrien, o presidente relatava tudo o que sabia sobre aquele lugar para Eric, Carol, Andressa e eu.
— Parece ser argila de qualidade. — Eric disse enquanto examinava uma pequena xícara feita de barro ao lado de Andressa. A garota de cabelos pretos assentiu com a cabeça. — Onde exatamente conseguiram ela? — Questionou.
— Vê aquele manguezal? — O presidente apontou para a pequena floresta de raízes aéreas do outro lado do rio. — Está cheio disso por lá. Complementou.
— Vocês estão aquecendo demais a argila, se querem minha opinião. Se deixarem ela secar no sol um tempo, peneirar e adicionar uma parte de areia, conseguirão fazer recipientes com menos rachaduras. — Andressa sugeriu. Era de se esperar que aquela nerd por artes tivesse algum criticismo. Para mim, conseguir fazer aqueles copos simples com a lama estranha de borda de lago em um local como aquele já era bem impressionante. Certamente era melhor que aqueles copos chamuscados feitos de bambú que usávamos.
— Uau Andressa! Com certeza faremos desse jeito a partir de agora. — Edward disse surpreso. — Bem, nós não temos nenhuma especialista assim conosco, então demoramos bastante para sequer tornar a argila maleável. — Comentou em seguida com divertimento. Andressa sorriu orgulhosamente diante do elogio.
— A propósito, como vocês tomam banho por aqui? — Carol questionou e era uma boa pergunta. Como ela, eu certamente apreciaria me lavar da sujeira que já fazia meu corpo coçar.
— Se seguirem o lago pelo outro lado, parte dele adentra a mata mais densa. É bastante discreto e coberto, embora perto daqui e, portanto, seguro. — Contou. Carolina sorriu. — Thais e Micaela podem mostrar para vocês duas onde fica. Aqui, as garotas vão lá primeiro e, ao voltar, os caras em seguida. — Explicou.
— Ontem eu achei uma fonte termal, se preferirem. — Adrien comentou.
— O que? Tem água quente? — Andressa pulou curiosa.
— Bem, eu só vi ela a distância enquanto explorava perto daquela montanha. — Comentou apontando para além da floresta. Não muito longe dali, via a distância a paisagem de rochas pretas em meio a mata fechada. — Não cheguei a entrar na água para sentir a temperatura, mas saia vapor dela. — O rapaz nos informou.
— Carol, a gente tem que ir lá! — Andressa comentou agitada.
— Ei, não é perigoso vocês duas ficarem andando em uma montanha como aquela sozinhas? — Disse preocupado.
— Ela tem razão. — Eric notou. — Água quente na superfície é um indicativo de vulcanismo. Devem ter recursos minerais ainda melhores que a argila lá naquela montanha. — Comentou de forma técnica, mas ainda assim interessado. Ele então olhou para Adrien. — Você viu alguma caverna por lá? — Questionou o rapaz loiro que corou de leve ao ser endereçado de forma tão direta.
— Eu vi uma, mas já estava ficando tarde e escuro. Então fiquei com medo de entrar lá para explorar sozinho e voltei para o acampamento. — Adrien respondeu.
— Hum… — Eric fez uma pausa para pensar. — Agora são 13:16. Está bem cedo. O que acham? — Se dirigiu a nós.
Guilherme roncou. As garotas sorriaram e fizeram que sim com a cabeça. Aquilo era diferente. Pelo que me lembrava, aquela foi a primeira vez que vi Eric pedir por nossa opinião ou autorização para enveredar a todos nós em mais uma de suas aventuras estranhas. Devia estar tentando se redimir ou coisa do tipo. Vendo que as garotas estavam ao seu lado naquilo, concordei também. Eric nos lançou um meio sorriso. Estava definitivamente mais simpático que o normal. Impressionante. A convivência com Edward já estava fazendo a diferença ali.
— Uau! Como você sabe que horas são sem um relógio? — Adrien perguntou surpreso.
— É muito simples… — Eric começou a falar.
— Ele consegue calcular pela posição do Sol. — O interrompi vendo que o garoto iniciaria mais um de seus monólogos. Eric deu de ombros. As garotas e Edward riram.
— Eu posso ir com vocês para mostrar onde é. — Adrien se ofereceu enquanto olhava para o presidente, como se pedisse autorização. Impressionante como ele conseguia manter a ordem e impor tanto respeito mesmo sendo também tão simpático.
— É uma boa ideia. — Edward disse. — Já que vocês todos vão, acho melhor eu ficar por aqui, já que Thais, Gabriel e Micaela estão dormindo. É uma pena. Eu também adoraria tomar um banho quente agora. — Mencionou em seguida com um sorriso.
Alguma insistência ocorreu ali por parte das garotas. Edward era um cara legal e merecia relaxar um pouco, mas ele se manteve com aquela opinião. Era realmente o melhor a se fazer. Ele era um lider nato, naturalmente sacrificava as próprias vontades pela segurança do grupo.
— Já que estamos indo procurar por suprimentos também, acho melhor buscar algumas coisas lá no nosso acampamento antes. Precisamos de picaretas, bolsas e cabaças para levar água. — Eric falou ao se levantar. Logo em seguida, olhou para o presidente diretamente. — Ei Edward, você vem comigo? Assim já te mostro onde fica nosso acampamento de uma vez. — Convidou com um olhar frio.
O que? Percebi algo de estranho no ar imediatamente. O que ele está planejando, afinal? Me questionei e involuntariamente, me lembrei de quando Eric tirou uma barra de sabonete de dentro de sua saia de folhas. Bolsos… Cogitei. Não... Não vai por aí. Ainda assim, a ideia se impôs.
— Eu posso ir com vocês também para ajudar a carregar as coisas. — Me ofereci de imediato com o coração acelerado.
— Você comeu bastante, né? — Eric lembrou com aqueles olhos estoicos postos sobre mim. — Seria bom que descansasse antes da expedição. — Sugeriu. Era dificil não perceber seu nítido esforço em ter Edward sozinho com ele.
— Tudo bem Daniel. — O presidente falou ao se levantar também. — Duas pessoas devem ser suficientes para carregar essas coisas, não é, Eric? — Comentou com um sorriso genuinamente inocente. Eric fez que sim com a cabeça.
Eu estava exagerando? Observei os dois se afastarem, tentando me convencer disso. Edward estava despreocupado, de mãos limpas. Carol e Andressa, ao meu lado, pareciam tranquilas, como se nenhuma tensão tivesse se instalado ali. Só eu sentia aquele nó no estômago?
Meus olhos voltaram, contra a vontade, para a saia de Eric. Dava para esconder uma faca ali, ou qualquer outra coisa.
Pare Daniel. Me repreendi. Apesar de tudo o que Eric havia revelado naquela manhã, eu precisava confiar nele. No fundo, percebi que eu só não queria que ele nos decepcionasse de novo.
Olhei para o garoto quando acenou, dizendo que voltaria em meia hora, e seguiu ao lado de Edward, afastando-se entre as árvores. O corpo esguio contrastava de forma quase absurda com o que agora sabíamos que ele era capaz de fazer. Ainda assim… era impossível não notar como era bonito. A lembrança do sorriso veio sem ser convidada. Os olhos profundos. E, maldição, o toque de seus lábios.
Por um instante, a memória mudou: Eric arremessando a lança contra o ibex. A imagem máscula, firme, recortada pelos raios de sol, foi um deleite cruel para os olhos. No avião… Teria sido assim também? A ideia me atravessou.
Interrompi o pensamento quando senti o calor subir pelo peito.
Eric, é bom você voltar em meia hora! Pensei com força.
E ao lado de Edward também!
*****
Olá leitores(as)
Obrigado pelos comentários e avaliações ao último capítulo.
Tive problemas com minha internet semana passada, então esse capítulo demorou mais do que o normal para ser publicado. Ao menos isso me serviu para avançar mais na escrita da história. O próximo capítulo não deve tardas a ser postado.
Um abraço!
