Dia 19
O dia 19 amanheceu com um pôr do sol que parecia zombar do meu caos interno. Ao meu lado, Alisson. O homem por quem decidi lutar, mesmo com o fantasma de uma paternidade inesperada pairando sobre nós. Em qualquer outra história, o "certo" seria ele voltar para a ex, mas eu não consigo simplesmente desistir. Olho para ele e vejo alguém que vale cada batalha. Decidimos, juntos, que faríamos dar certo.
A volta para casa foi tensa. Por precaução com o temperamento instável de Ande, Alisson sugeriu que eu fosse na van com os outros meninos. Ver John e Ande juntos me dava náuseas; a lembrança daquela cena na viagem — algo que eu nem sabia classificar como planejado ou consentido — não saía da minha mente. Ande estava em um estado deplorável, completamente dopado. Ele desabou e dormiu no meu ombro o caminho todo. Decidi que não seria eu a confrontá-lo; esperaria que ele, no seu tempo, tivesse a decência de contar a verdade.
Ao chegarmos, Alisson já nos esperava. Ele mesmo carregou o irmão para a cama. Contei sobre o abuso das drogas, mas silenciei sobre o que vi entre ele e John. Alisson, sempre o pilar da família, estava uma pilha de nervos. Descobrir que a ex está grávida e ver o irmão se destruindo no mesmo dia destruiria qualquer um.
A noite foi longa. Tive pesadelos onde Alisson partia com Carolina e o bebê, deixando-me para trás com uma angústia sufocante. Acordei com lágrimas nos olhos, mas o "bom dia" de Alisson no celular trouxe um pouco de ar para meus pulmões. Ele foi almoçar com Carolina para definir os limites: ele seria pai, mas não seria marido.
A paz durou pouco. A mãe deles, em um desabafo furioso na cozinha, deixou claro que não aceitaria um neto "sem pai". Ela quer o casamento a qualquer custo. O medo se instalou em mim: não tenho medo de traição, mas tenho pavor de que Alisson, por pressão ou por acreditar que é o melhor para a criança, acabe cedendo a essa encenação de família feliz.
O confronto final com Ande veio à tarde. Ele acordou com a pior ressaca da vida e, em vez de gratidão pela minha ajuda, devolveu cinismo. Eu explodi. Joguei na cara dele a traição com a Júlia e a sua imaturidade. "O mundo não gira em torno do seu umbigo, Anderson!", gritei. Peguei minhas coisas e saí. Fui para a rodoviária decidido a ir embora, mas Alisson não deixou. Ele apareceu como um resgate. "Vim buscar meu namorado", ele disse, com uma voz que misturava autoridade e súplica. Voltei com ele, mas o clima na casa era uma bomba-relógio.
Dia 20
Alisson me surpreendeu com uma fuga para a praia. Precisávamos de ar. No caminho, em uma parada no mesmo posto de antes, decidi que não haveria mais segredos entre nós. — Seu irmão e sua ex estavam juntos — soltei, de uma vez.
O silêncio de Alisson por vinte minutos foi a eternidade mais dolorosa que já vivi. Achei que o tinha perdido. Mas ele me abraçou. Um abraço de quem encontra um porto seguro. Ele me confessou seu amor e sua decepção profunda com o irmão que sempre mimou.
Na pousada, o confronto com Carolina continuou via telefone. Alisson foi cirúrgico: "Só assumo depois do DNA". A reação histérica dela só reforçou nossas suspeitas. Após o estresse, tentamos nos reconectar. No banho, cuidei dele. Dei a ele o carinho que o mundo estava lhe tirando. Ali, entre beijos e promessas, selamos que seríamos um do outro.
Mas o destino não nos daria um fim de semana de paz. O telefone tocou: era a mãe dele, desesperada. Ande, em um surto de fúria e drogas, havia destruído o quarto de Alisson e quebrado seu computador com um martelo.
Voltamos imediatamente. O cenário era de guerra. Roupas rasgadas, eletrônicos despedaçados. Alisson, com uma calma assustadora, entrou no quarto de Ande e confiscou o computador do irmão para poder trabalhar. "Ele quebrou o meu, ele paga", sentenciou.
Sentamos para organizar os arquivos e o backup do que restava. Foi então que encontramos a pasta oculta. O que parecia ser apenas pornografia revelou-se algo muito mais sinistro: um arquivo digital da traição. Fotos e vídeos de Ande e Carolina, datados de períodos em que ambos deveriam estar com outras pessoas. A máscara de Anderson não caiu; ela foi estraçalhada diante dos nossos olhos. A tempestade que esperávamos na volta já havia começado dentro de casa.
