Quando voltamos a nos ver, foi Heitor quem me puxou pela cintura no primeiro momento em que ficamos sozinhos. O toque não era afetuoso. Era afirmativo.
— Você ficou distante — disse Heitor, sem tom de pergunta.
Eu não recuei, mas também não correspondi de imediato.
— Eu estou cansado.
— Cansado de mim?
Eu pensei antes de responder.
— Cansado de sentir que tudo gira em torno do que você sente.
A frase caiu como uma lâmina lenta. Heitor riu, curto.
— Você está dizendo isso agora?
— Estou percebendo agora.
Heitor se aproximou mais, invadindo o espaço.
— Você sabe que ninguém te quer como eu quero.
Ali estava. O desejo como argumento. O corpo como território. Eu senti, com clareza desconfortável, que o toque de Heitor não era convite, era contenção. E, pela primeira vez, isso não me excitou.
Heitor permaneceu de pé, encostado na parede, braços cruzados, como se estivesse segurando algo que não queria deixar cair. Eu continuava sentado, o corpo ligeiramente curvado, exausto demais para sustentar qualquer pose.
— Você entende o que isso faz comigo? — perguntou Heitor, enfim, sem levantar a voz.
Eu assenti, devagar.
— Entendo — e completei, quase num sussurro — Mas eu não posso mais viver só reagindo ao que isso faz com você.
A frase não era um ataque. Justamente por isso, doeu mais. Heitor franziu o cenho.
— Desde quando você fala assim comigo?
Eu pensei antes de responder.
— Desde que eu comecei a perceber coisas que eu fingia não ver.
Heitor sorriu de lado, um sorriso curto, defensivo.
— Tipo o quê?
Eu levantei o olhar. Não havia desafio ali. Havia cansaço.
— Tipo o fato de que tudo gira em torno do que você sente — uma pausa — Do que você quer. Do que você teme perder.
Heitor se afastou da parede e começou a andar pelo quarto, inquieto.
— Você está sendo injusto.
— Não acho.
Heitor parou.
— Eu te protegi.
Eu respirei fundo.
— Você me esconde.
A palavra caiu como um objeto quebrado no chão.
— Não é a mesma coisa — rebateu Heitor, rápido demais.
— É — respondi, firme — Só muda o nome pra ficar mais bonito.
Heitor passou a mão pelos cabelos, gesto antigo, quase automático.
— Você sabia onde estava entrando.
— Sabia que era complicado — inclinei a cabeça — Só não sabia que era tão vazio.
O impacto foi visível. Heitor riu, mas o riso não encontrou eco.
— Vazio?
Eu me levantei. Não havia confronto no meu corpo, apenas clareza.
— Heitor… você não estuda.
Silêncio.
— Não trabalha.
Outro silêncio.
— Vive de uma herança que você diz odiar, mas nunca recusou.
Heitor abriu a boca para responder, mas eu continuei, sem agressividade, como quem enumera fatos incontestáveis.
— Seus dias giram em torno da casa, do carro, da moto, da música, das festas, das pessoas que te desejam — olhei nos olhos dele — E de mim.
Heitor sentiu algo deslocar dentro do peito. Não era raiva. Era medo.
— E qual é o problema disso? — perguntou, tentando soar seguro.
Eu hesitei. Essa parte doía em mim também.
— O problema é que, quando tudo isso ameaça escapar… você aperta.
Heitor engoliu em seco.
— Eu não controlo você.
Eu dei um meio sorriso triste.
— Você usa o desejo como rédea — me aproximei um pouco — Quando eu me afasto, você me puxa. Quando eu me mostro inteiro, você me esconde. Quando alguém me olha… você marca território.
O quarto parecia menor.
— Eu te amo — disse Heitor, de repente, quase num impulso.
Eu fechei os olhos por um instante. Não conseguia acreditar na infantilidade dele.
— Sério? — abri os olhos de novo — Amor que só funciona enquanto o outro é menor… não é amor. É medo disfarçado.
Heitor sentiu o chão ceder milímetros sob os pés. Nada visível. Nada espetacular. Só uma rachadura fina, quase elegante, como as que aparecem antes de uma queda maior.
— Você está me julgando agora? — perguntou, a voz baixa.
— Não — balancei a cabeça — Estou te enxergando.
E isso, Heitor percebeu, era o que mais o aterrorizava. Eu peguei a jaqueta.
— Eu preciso ir.
— Vai pra onde?
— Pra qualquer lugar onde eu não precise caber num papel que não fui eu que escrevi.
Eu me aproximei, hesitei, beijei o rosto de Heitor com cuidado, não como despedida, mas como limite.
— A gente continua — disse — Mas não desse jeito.
Quando saí, o quarto permaneceu exatamente igual. Apenas Heitor havia mudado. E, pela primeira vez desde que chegara àquela cidade, ele teve a sensação incômoda de que o charme não bastaria para sempre.
Naquela noite, voltei para casa pensando em Rafael. Pensei não no corpo, nem na transgressão, mas na frase que uma vez ele me dissera, dias antes, quase como provocação distraída:
“O Heitor não sabe perder.”
Eu comecei a entender. Heitor precisava ser o centro. O mais desejado. O mais interessante. O mais ferido, porque a dor também era uma forma de poder. Eu percebi, com um frio na boca do estômago, que Heitor não me amava apesar da juventude, me amava por causa dela. Porque eu ainda podia ser moldado. Porque eu ainda pedia. Porque eu ainda voltava. Sempre voltava. Ou voltava até agora.
Na próxima vez em que Heitor perguntou onde eu estava, eu respondi com atraso proposital. Na próxima vez em que Heitor insinuou ciúme, eu não me expliquei. Na próxima vez em que Heitor tentou transformar desejo em acordo silencioso, eu disse simplesmente:
— Hoje não.
Foi o suficiente. Heitor não gritou. Não confrontou. Mas algo em seu olhar escureceu, uma mistura de medo e raiva contida. Porque Heitor começava a perceber o que nunca imaginou possível: eu já não estava mais preso pelo encanto. Nem pelo segredo. Nem pelo medo de perder. E quando o charme racha, o que sobra não é beleza. É desespero.
Só que a reaproximação não trouxe paz. Trouxe inquietação.
Nas semanas que se seguiram àquela tarde na área de serviço, eu percebi que havia despertado em Heitor algo que antes existia apenas em estado latente, um ciúme silencioso, agora transformado em vigilância.
Nos dias seguintes, Heitor passou a aparecer demais e, paradoxalmente, a desaparecer quando eu precisava. Ligava sem avisar. Surgia na porta da escola. Observava demais. Perguntava e olhava como quem exige respostas imediatas.
No começo eram detalhes quase invisíveis. Eu sentia isso no corpo antes de compreender em palavras. Heitor queria saber onde eu estava. Com quem estava. Porque demorava a responder. Mesmo eu jurando que nunca mais me encontrara com Rafael.
— Você sumiu ontem — dizia ao telefone, numa terça qualquer.
— Eu estava estudando.
— Até meia-noite?
— Às vezes eu estudo até mais tarde.
Um interrogatório disfarçado de conversa.
Heitor passou a aparecer sem avisar na porta da minha casa, para o meu total desespero, visto que poderia chamar a atenção indevida dos meus pais. Às vezes com um sorriso, às vezes com uma seriedade difícil de decifrar. Trazia presentes, convites, planos improvisados.
— Vamos dar uma volta.
— Agora?
— Agora.
Como se o meu tempo lhe pertencesse por direito adquirido.
Heitor já não ria como antes. Já não me tocava como antes. Havia sempre um segundo olhar depois do carinho, um ajuste no tom, uma tensão contida, como se estivesse constantemente medindo perdas invisíveis.
No fundo, eu entendia de onde vinha aquilo. A confissão sobre Rafael ainda pairava entre nós como uma sombra permanente. Heitor nunca voltara a tocar diretamente no assunto, mas também nunca o esquecera. E isso o transformava.
Ele oscilava. Havia dias em que era doce, atento, intenso, quase carinhoso demais, quase desesperado. Dias em que falava de futuro, de viagens, de sonhos que nunca tivera coragem de ter com ninguém. Mas havia outros dias em que era distante, frio, me punindo com silêncio. Dias em que o tom endurecia.
— Você vai naquela festa mesmo? - ele me perguntou certa vez.
— Vou - respondi.
— Sozinho?
— Com uns amigos.
— Que amigos?
A pergunta vinha limpa, mas carregada. Eu comecei a sentir o peso do acordo implícito: voltar para Heitor significava ser observado. Comecei a me sentir observado mesmo quando Heitor não estava por perto. Como se houvesse um radar invisível acompanhando cada passo meu. Era estranho perceber que o encanto começava a ganhar contornos de prisão.
Quando eu demorava a responder mensagens, Heitor ficava seco. Quando respondia rápido demais, vinha o comentário irônico:
— Estava esperando?
Por incrível que pareça, Júlia foi a primeira a notar. Ela sempre fora atenta a mim, por carinho, por hábito, por um resto de sentimento mal resolvido. Mas agora observava com outro tipo de preocupação.
Ela percebeu as mudanças no meu jeito: o olhar mais cansado, o celular sempre por perto, a ansiedade súbita quando o nome de Heitor aparecia na tela. Certa manhã, ela me puxou de lado na escola. Estava séria, não hostil, mas alerta.
— Você está diferente.
Eu tentei desconversar.
— Impressão sua.
— Não é. Mais quieto. Mais... fechado.
Eu sorri, automático.
— Você sempre acha isso de mim.
— Não assim — ela insistiu — Agora parece que você está se escondendo de alguém.
A frase acertou em cheio. Eu desviei o olhar. Ela cruzou os braços, firme como costumava ser quando decidia não aceitar mentiras.
— O Heitor está te sufocando.
A frase veio direta demais. Eu gelei. Olhei nos olhos dela, e notei que não havia por que ou para quê mentir. Ela sabia o que estava rolando entre o Heitor e eu, não adiantava esconder. Júlia respirou fundo. Não queria acusar. Queria proteger, ao menos, era assim que se via.
— Não fala assim.
— Eu vejo, Mateus. Ele liga o tempo todo. Fica perguntando onde você está. Te trata como se você fosse… propriedade dele.
— Você está exagerando.
— Não estou — Júlia respirou fundo — E eu não estou dizendo isso por ciúme ou coisa parecida. Estou dizendo por que gosto de você. E também porque quero o melhor pro meu irmão.
Eu fiquei em silêncio, sentindo o estômago revirar.
— Ele não é assim — disse, mais por reflexo do que convicção.
— Ele fica assim — Júlia corrigiu — Quando sente que algo não está sob controle. Como se tivesse medo de te perder… e resolvesse isso te apertando demais.
Houve um silêncio denso.
— Você não deve nada a ele, Mateus — ela disse, mais baixo — Nem a mim. Nem a ninguém aqui.
Eu levantei os olhos, surpreso.
— Você está… me defendendo?
Júlia sorriu, triste.
— Estou tentando evitar que você vire o próximo problema da família.
A frase doeu mais do que eu esperava.
— Ele te olha como se você fosse tudo — Júlia continuou — E isso parece bonito. Mas não é leve. Nunca é.
Ela se aproximou mais.
— Você não precisa ser refém de ninguém pra ser amado.
As palavras acertaram um ponto delicado. Eu sabia que Júlia tinha seus próprios interesses, suas próprias feridas, mas havia ali uma preocupação genuína, e isso me desarmou.
— É complicado — murmurei.
— Eu sei que é — ela segurou a minha mão por um instante — Mas você não precisa resolver tudo sozinho.
Eu senti a garganta apertar. Pela primeira vez, alguém dizia em voz alta o que eu começava a sentir.
— Você ainda é muito novo pra carregar esse peso — Júlia concluiu.
Eu não respondi. Não porque discordasse, mas porque já estava cansado demais para discutir.
Enquanto isso, Heitor parecia cada vez mais imprevisível. Um dia chegava leve, brincalhão, cheio de planos. No outro, ficava silencioso, tenso, irritado com coisas mínimas. Começou a implicar com pessoas que antes nem notava. A imprevisibilidade era o que mais cansava.
— Você anda conversando demais com aquele pessoal da sua sala.
— São meus colegas, Heitor.
— Colegas ou interessados?
A pergunta veio carregada demais para ser só curiosidade. Eu respirei fundo.
— Eu tô cansado de tudo isso — respondi — De sentir que cada passo meu precisa ser explicado.
Heitor fechou o semblante.
— Depois de tudo o que aconteceu, você esperava o quê?
— Confiança —respondi, firme — Ou, pelo menos, paz.
O silêncio que veio foi pesado. Heitor deu um passo atrás, como se tivesse sido ferido.
— Você não entende — disse — Todo mundo quer algo de você. Júlia. Rafael. Essa gente da escola. Eu só estou… te protegendo.
Eu senti um arrepio.
— Me protegendo ou prendendo?
A pergunta ficou no ar, perigosa. Heitor não respondeu. Apenas olhou para mim com algo novo no rosto, não charme, não melancolia. Medo.
Eu tentava disfarçar, mas por dentro algo começava a rachar. Eu percebia, com uma clareza incômoda, que o homem por quem me apaixonara não era apenas o rapaz triste e encantador de correntinha de ouro e violão na varanda. Havia um outro Heitor surgindo. Um Heitor que precisava de controle para se sentir seguro. E eu começava a entender que amor nenhum justificava tudo aquilo.
Rafael, como de costume, percebeu antes de todo mundo. Percebeu por que conhecia o irmão melhor do que qualquer pessoa admitiria. Conhecia os silêncios de Heitor, o jeito como ele mudava o humor quando se sentia ameaçado, a maneira como disfarçava insegurança com ironia. E, principalmente, porque sabia reconhecer uma rachadura quando a via.
Depois que comecei a impor limites, Heitor ficou diferente. Mais calado, mais nervoso, mais errático. Começou a me tratar com uma mistura estranha de carinho e cobrança, como se amor e exigência fossem a mesma coisa. Eu sentia isso crescer como uma sombra. E Rafael observava.
Não foi preciso ouvir conversas nem arrancar confissões. Bastou observar o corpo de Heitor: o jeito como ele passou a andar mais tenso pela casa, como evitava a varanda, o violão encostado num canto, mudo. Bastou perceber que eu já não aparecia com a mesma naturalidade e, quando aparecia, não ficava. Rafael sentiu o cheiro da fraqueza como quem conhece bem a própria.
Começou pequeno. Uma frase solta na cozinha.
— O Mateus não veio hoje?
Heitor respondeu sem olhar.
— Não.
— Anda ocupado, né.
Silêncio. Rafael não sorriu. Não precisava. Nos dias seguintes, passou a surgir mais nos espaços comuns da casa. Não provocava diretamente, ainda. Observava. Medindo o terreno, como sempre fizera desde criança.
Foi numa quarta-feira abafada que Rafael apareceu de novo na minha vida, como quem entra numa cena sem pedir licença. Eu estava saindo da escola quando vi o carro parado do outro lado da rua. Rafael encostado na porta, braços cruzados, sorriso discreto no canto da boca.
— Coincidência — disse ele, quando eu me aproximei.
— Você e coincidência não combinam muito — respondi, tentando soar leve.
Rafael riu.
— Vim te buscar. Tá calor demais pra você ir andando.
Eu hesitei. Ainda havia dentro de mim um alerta permanente quando se tratava de Rafael, uma mistura de receio e atração que eu preferia não nomear.
— Heitor sabe que você está aqui?
— Não — respondeu, sem constrangimento algum — E nem precisa saber.
Era sempre assim: Rafael transformava qualquer conversa em um campo minado. Entramos no carro. Durante o trajeto, falamos pouco. Mas o pouco que Rafael dizia vinha carregado de segundas intenções.
— Você parece cansado — comentou ele, olhando de canto.
— Prova, trabalho, essas coisas.
— Ou namorado difícil.
Eu engoli em seco.
— Ele não é meu namorado.
— Não oficialmente — Rafael rebateu, com um meio sorriso — Mas você vive orbitando em volta dele.
A frase ficou ecoando.
Rafael começou a se fazer mais presente. Aparecia na porta da minha casa sem aviso, com a desculpa mais simples possível: “passei por aqui”, “estava perto”, “vim devolver isso”. A faxineira já o conhecia e o recebia com simpatia. Aquilo me divertia. Rafael conversava com ela, fazia piada, ajudava a carregar sacolas, um lado que pouca gente via.
Heitor, claro, não fazia ideia disso. E era exatamente isso que tornava tudo mais perigoso. Enquanto Heitor se fechava cada vez mais, Rafael ocupava os espaços vazios. Heitor exigia explicações. Rafael oferecia silêncio. Heitor perguntava “onde você estava?”. Rafael perguntava “como foi seu dia?”. Heitor tensionava. Rafael aliviava. Eu comecei a notar a diferença com uma clareza desconfortável.
Heitor, por sua vez, começava a perder o centro. O controle que tentava me impor escapava pelos detalhes: mensagens longas demais, perguntas repetidas, silêncios calculados que não surtiam mais efeito. Eu sentia. E, mais do que sentir, começava a cansar.
O ponto de ruptura ainda não havia chegado. Mas o clima já era outro. Rafael observava de longe, como sempre, com aquele sorriso de quem entende mais do que demonstra. Júlia tentava me puxar de volta para um território seguro. E Heitor, sem perceber, apertava cada vez mais a corda que o ligava a mim, ao rapaz que dizia amar.
Eu estava no meio. Dividido entre o desejo, a paixão, o tesão, a atração física e sexual incontrolável que ainda me incendiava e a intuição cada vez mais forte de que eu precisava aprender a me salvar. Pela primeira vez desde que tudo começara, eu me fiz uma pergunta que vinha adiando: até onde valia a pena ir por alguém? Seja por Leandro, por Heitor ou por Rafael? Até que ponto valia a pena anular quem eu era só pela satisfação de ser desejado?
Bem, essa era uma lição que eu ainda teria que aprender.
