“Devaneio”
Duas semanas se passaram. Era quarta-feira, 7 de março de 2012. Curitiba ainda vivia o fim do verão, com o ar úmido e morno da madrugada, temperatura por volta dos 18°C mesmo cedo, e a promessa de uma pancada de chuva à tarde — típico dessa época do ano no Sul, quando o verão se arrasta com noites amenas e dias que podem esquentar até 28°C ou mais.
Johnny acordou às 5:00 em ponto, como fazia quase todos os dias. O despertador tocou baixo no celular. Ele estendeu a mão, desligou e ficou um segundo olhando para o teto. A cama ao lado vazia — a esposa tinha viajado para uma convenção em Florianópolis na segunda, voltaria só na sexta. Ele não sentiu saudade. Fazia tempo que o vazio era mais tranquilo do que a presença dela.
Levantou às 5:05, foi direto para o banheiro. Banho frio de três minutos: água gelada batendo no peito definido, nas costas, nas coxas grossas. Secou-se olhando no espelho: careca reluzente, olhos azuis ainda sonolentos mas alertas, corpo em forma de quem treinava religiosamente. Vestiu-se rápido: camisa social branca bem passada, calça cinza-escura justa nas pernas, cinto de couro preto, sapato social brilhante. Sem gravata. Primeiro botão aberto, como sempre.
Às 5:25 ele já estava saindo de casa. Pegou as chaves do SUV preto, trancou a porta da garagem e dirigiu os 15 minutos até o colégio. O trânsito matinal ainda era leve, o rádio tocava notícias locais em volume baixo. O sol nascente já começava a aquecer o para-brisa devagar, e o ar-condicionado do carro lutava contra a umidade que entrava pelas frestas. Enquanto dirigia, pensou no casamento.
“Está acabado. Não é ódio, é nada.”
Ainda respeitava a esposa — ela era competente, independente, uma boa profissional. Mas o amor tinha evaporado anos atrás. Sexo virou rotina mecânica, depois raro, depois inexistente. Discussões sobre tempo, dinheiro, família que cobrava netos. Ele tinha sugerido divórcio uma vez, em 2010. Ela chorou, prometeu mudar. Mudou por alguns meses. Depois voltou ao mesmo: viagens constantes, silêncios longos, celular na mesa durante o jantar. Agora ele não tinha mais energia para pedir de novo. Mas estava perto. Muito perto. Especialmente desde que Tiago entrou na vida dele.
Chegou na escola às 5:40. Estacionou na vaga reservada do diretor, pegou a pasta e entrou. O prédio ainda vazio, luzes acesas só no corredor principal. Foi direto para a sala da direção: acendeu a luz, abriu as persianas (o sol já entrava fraco pelas janelas), sentou na cadeira de couro atrás da mesa larga.
Rotina: checar e-mails de pais e professores, aprovar folhas de frequência, preparar a reunião com os coordenadores às 10h. As aulas começavam às 7:30, então tinha tempo.
Mas sua mente estava em outro lugar. Abriu a gaveta de baixo, tocou o frasco de óleo corporal que deixava ali desde a última segunda. Sorriu sozinho.
“Tiago.”
Duas semanas de encontros intensos — toda segunda antes do sinal, toda sexta depois da última aula. O corpo macio, as tetas cheias que balançavam quando ele batia, o jeito que Tiago tremia e gozava só com o pau entre elas. Mas não era só isso. Era o sorriso tímido quando entrava na sala, as mensagens de “bom dia, diretor” que chegavam pontualmente às 6:50 todo dia, o ciúme fofo quando perguntava da esposa. Johnny pensava nele o tempo inteiro: na academia imaginava o cheiro da pele clara, no almoço lembrava do gosto da boca dele, à noite se masturbava pensando no gemido rouco quando gozava.
“Eu tô viciado. Ou apaixonado. Ou os dois.”
A pergunta vinha forte nos momentos quietos, como agora, enquanto assinava um relatório. Ele queria mais. Queria sair da rotina vazia. Queria Tiago de verdade — não só na sala trancada, mas em algum lugar onde pudessem respirar sem medo.
Às 7:15, quando os primeiros alunos começaram a chegar, Johnny se levantou. Pegou uma pasta qualquer como desculpa e saiu da sala. Caminhou pelo corredor principal, cumprimentando os professores que passavam, o sorriso profissional no rosto. Mas o verdadeiro motivo era outro.
Ele foi até a sala do 3º ano A — a turma de Tiago. Parou na porta entreaberta, fingindo observar o ambiente para “dar bom dia aos alunos”, como fazia de vez em quando para manter o clima de proximidade com os estudantes.
Lá estava ele: Tiago sentado na terceira fileira perto da janela, cabelo preto liso caindo um pouco na testa, uniforme azul-marinho impecável, mochila no chão. Quando Tiago ergueu os olhos castanhos e o viu, o rosto dele corou na hora, um sorriso tímido surgindo.
Johnny sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário, depois acenou com a cabeça para a turma toda.
— Bom dia, pessoal. Tudo certo para as provas da semana?
Os alunos responderam em coro, alguns rindo. Johnny deu um sorriso largo, mas seus olhos voltaram para Tiago uma última vez antes de virar e sair.
Enquanto caminhava de volta para a direção, o coração batia um pouco mais forte.
“A rotina mudou. E eu não quero voltar atrás.”
Continua…