O shopping vibra ao seu redor como um ruído distante, mas você quase não o escuta. Os passos ecoam no mármore polido, bolsas roçam tecidos, vozes se misturam — e, ainda assim, o mundo vai diminuindo à medida que sua atenção se afunila para o ritmo da própria respiração. Você sente o ar entrar mais fundo, sair mais lento, como se o corpo estivesse aprendendo a esperar. Ele caminha ao seu lado sem pressa, presença estável, calor que atravessa o espaço entre vocês. Luzes suaves deslizam sobre vitrines brilhantes, e cada reflexo parece puxar você para dentro de si mesma, para uma consciência delicada da pele, do coração, do instante suspenso.
Quando entram na loja de roupas, o perfume de tecidos novos envolve vocês. Espelhos multiplicam silêncios. Você percebe o olhar dele antes de vê-lo — um reconhecimento mudo, uma tensão que não precisa de palavras. Há algo proibido nessa cumplicidade: vocês sabem que não deveriam desejar desse jeito, e justamente por isso desejam mais. Seus dedos passeiam distraídos por seda e veludo, mas sua mente permanece presa à maneira como ele observa, atento, sem invadir, como quem conhece o poder da espera. O tempo parece esticar, fino como fio de ouro.
Ele sugere, em voz baixa, que você experimente algo. Não ordena — conduz. Caminha atrás de você pelos corredores estreitos de cabides, marcando o ritmo com passos calmos. Você sente essa liderança tranquila no jeito como ele abre espaço, no modo como se aproxima sem tocar. A antecipação cresce como maré lenta. Seu corpo responde antes de você perceber: um calor que sobe, um leve arrepio, a pulsação mais nítida nos ouvidos.
Dentro do provador, o tecido desliza por sua pele como um sussurro. Você se olha no espelho, mas também o imagina do lado de fora, esperando. Quando sai, ele não comenta de imediato. Observa. Silêncio calculado. Você sente o peso daquele olhar percorrer você com respeito e domínio contido. No corredor entre vitrines, a proximidade aumenta — não há contato, apenas presença — e essa quase-intimidade faz sua respiração afundar ainda mais. Cada segundo parece mais denso que o anterior.
Quando deixam o shopping, as luzes ficam para trás, mas o que foi despertado acompanha você. O vento na pele lembra o toque que nunca aconteceu. Seu corpo permanece sensível, atento, como se ainda estivesse sendo guiado por aquele ritmo lento e seguro. Você caminha ao lado dele em silêncio, sabendo que algo mudou entre vocês — não por palavras, mas por uma chama discreta que continua pulsando dentro de você, quente, silenciosa, impossível de ignorar.