Por tradição cultural, domingo sempre foi o dia das refeições especiais. Um prato mais elaborado, um refrigerante mais caro, um álcool para aquecer de dentro pra fora... Apesar dos armários recheados, minha tia percebeu que faltavam alguns ingredientes específicos para fazer um nhoque e seus acompanhamentos. Antes das 8h00, eu já havia recebido a notícia de que teria que sair de casa e comprar o que faltava.
Com uma lista desnecessariamente longa enfiada no bolso, me meti em um ônibus e, como num salto, cheguei ao Atacadão Baratissimo. Apesar da quantidade de itens, consegui finalizar a compra antes das 9h30. Repleto de pequenas sacolas, me encaminhei a parada logo a frente.
Me juntei a uma senhora e duas crianças por uns sete minutos antes de subirem na primeira van que parou. Tinha por destino uma das praias aos arredores. Agora sozinho, me limitei a encarar o chão, perdido em um ponto qualquer.
Eu gostava quando minha mente silenciava como num encanto e tudo o que eu sentia, via e ouvia me passava alheio. Ter ido a praia no dia anterior me proporcionara experimentar esse silêncio ao som do mar.
Durante o transe, um segundo ônibus parou e pelo canto do olho pude notar alguém descer. Virei desnecessariamente rápido, interessado em ver quem era.
Posso jurar que os seus olhos já estavam cravados em mim quando o fitei no rosto — uma coincidência puramente arquitetada. Senti minhas bochechas queimarem e meu coração passou a simular o esforço de uma maratona.
Como um panaca tentando conter o evidente nervosismo, acabei afrouxando as mãos e duas das sacolas escorregaram dos meus pulsos. De uma delas, três ameixas rolaram e uma em específico parou justamente sob sua havaianas esquerda no exato momento em que ele cravou um passo no chão.
Não contive uma risada quando vi a ameixa ser estupidamente esmagada e o barulho molhado dar ao acontecimento um ar de cartoon.
— Caramba, foi mal mano. — Ouvir sua voz pela primeira vez em um pedido de desculpas era a coisa mais improvável que podeira ter me acontecido.
As entranhas da ameixa não se limitou somente ao contorno de sua chinela, e acabou por melar parte do seu dedão. Minha sensatez se apressou em censurar meu desejo bem a tempo de impedir que eu me abaixasse e oferecesse a língua para limpar aquela sujeira. Aceitei suas desculpas e também pedi as minhas.
— Poxa, eu sinto muito — balbuciei. — Elas escapuliram por desatenção minha. Eram para um iogurte... — Silenciei abruptamente quando ele abaixou-se para buscar as duas ameixas intactas.
— Essas sacolas fajutas daí não servem nem pra lixeira — apontou polegar para o Baratista logo atrás de nós. — São fracas demais, papo reto. Uma daquelas grandes e estampadas custam pouco mais de 5 reais. É bem mais util.
Notei atento como a maciez da sua voz soava firme, contrastando com o timbre incerto de uma rouquidão rasgada, característica da puberdade. Parecia tão natural que soava gostoso.
— Você tem razão. Eu tava apressado, não pensei direito. Corri pra não perder o ônibus, tive medo de que já tivesse passado. — Tentei me explicar afobado.
Ele se aproximou com todas as frutas recolhidas enquanto eu me limitei a abrir a sacola e esperar que caíssem dentro.
— E há quanto tempo você tá esperando? — ele indagou interessado.
— O ônibus? Bem....por volta de 10 minutos. — Admiti com vergonha.
Ele esboçou um sorriso quase irônico. Seus olhos sorriram juntos, acompanhando o gesto. Covinhas discretas afundaram nas bochechas.
Merda, diabolicamente sedutor.
Um aroma fresco de limão ao sol, madeira e maresia invadiu meu nariz. Outra vez. Como na padaria. Exalava dele e soava exatamente como ele se comportava: totalmente desinibido, cada movimento era confortavel, o mundo era sua casa. Seu corpo se movia sem esforço, como se cada ação possuísse um propósito preciso.
Quando sentou no banco de concreto, me sugeriu o mesmo. Sentei sem arrudeio e fitei seu perfil por um tempo sutil antes que ele se abaixasse para raspar com o dedo o excesso da ameixa em seu pé.
— Qual é o busão que você pega, aliás? — perguntar ao se endireitar.
Estava vestido com uma camisa de basquete larga e um shorts preto.
— Pego a dois-zero-cê — respondi.
Questionei o dele em seguida.
— A um-nove-bê. Desço ali pela praça verde...
— Ah, eu não conheço. — O interrompi. — Mudei para cá há menos de duas semanas.
Ele arqueou as sobrancelhas, interessado.
— Pô, então tu não é daqui. E o que foi que trouxe você pra cá?
Expliquei brevemente os acontecimentos que me levaram ao presente. Comentei sobre meu curso, sobre minha tia e também sobre a cidade de onde vim.
— Bem bacana. Tá satisfeito com a jornada até agora?
Balancei a cabeça em afirmativo.
A partir dali, intercalamos informações aleatórias sobre quem éramos com observações genéricas sobre o momento. Ele vinha da praia, morava em um bairro próximo ao meu. Estava no segundo ano do ensino médio, cuidava da vendinha de seu pai alguns dias da semana e pegava freelances quando lhe convinha. Estudava em qual horário? Pela tarde.
Apesar de todas as informações, nossos nomes permaneceram em uma espécie de anonimato involuntário ,pelo tempo que durou nossa conversa.
Não percebi quanto tempo se passou até que meu ônibus deu sinal na esquina. Ao levantar tratei de conferi a segurança de todas as sacolas, mas antes que eu pudesse estender a mão pedindo parada, o garoto ja havia feito.
— Esse é o dois-zero-cê mesmo? — Indaguei, buscando certeza.
— É sim.
Observei confuso ele subir, passar a catraca e sentar em uma dupla de acentos livres. Quando entrei procurando lugar, ele me indicou justamente o seu lado esquerdo livre, o da janela.
— O que você tá fazendo? — perguntei quando sentei.
— Vou dar uma volta pra conhecer o caminho que essa sua limusine faz.
Não contive uma risada incrédula.
— Tá com tanto tempo livre assim? — provoquei.
— Uhum, do jeitinho que eu gosto. Dia de domingo eu não tenho roteiro.
Engoli em seco um pedido afoito de companhia. Foi ai que verdadeiramente me dei conta de que eu não tinha a mais remota ideia do seu nome.
— Como você se chama? — Perguntei sem arrodeios. — Não costumo conversar mais de seis minutos com alguém sem saber seu nome.
— Verdade, cara. Eu não me apresentei. Você acha que tenho cara de quê? — Ele sorriu enquanto uma expectativa tomou conta de seu rosto.
Honestamente, eu não fazia ideia. Mas a sua carinha confusa me atingiu no fundo.
— Você parece um pouco com "Felipe".
Ele franziu as sobrancelhas avaliando a ideia. Em seguida, a dispersou com um meneio de cabeça.
— Não. Ainda bem que não me chamo Felipe. Você tem cara de Carlos. — Ele palpitou
— Credo. Me chamo Levi. E ainda bem.
— Levi — ele balbuciou. — Realmente é bem melhor. Você parece um Levi. O meu nome é Thiago — E me estendeu a mão direita.
O seu nome. Finalmente eu tinha um nome para pronunciar. Agora eu sabia ele. Finalizei o feitiço. Meu corpo agora poderia ser encantado. Puff!
Apertei sua mão.
— Prazer, Thiago.
Poderia arriscar que vi seus lábios experimentarem a pronúncia do meu próprio nome em repetitivos sussurros. Mas tudo passou a transitar na linha tênue entre meu desejo e a realidade, portanto tratei de ignorar.
Nos calamos por um trecho breve pois uma lufada podre de algo em decomposição envenenou o oxigênio. Quando foi possível respirar outra vez, ele tratou de retomar a comunicação questionando sobre meus hobbies.
— Você joga?
— Depende. Você fala de futebol?
— É.
— Não mesmo — respondi com desdém.
— Mas joga alguma outra coisa?
— Jogo sim. Videogame, jogos de tabuleiro, jogos de cartas, lúdicos, etc.
Vi um lampejo de interesse passar por seus olhos.
— Que bacana! Eu jogo futebol por hábito, gosto de como molda meu corpo e me torna saudável. Mas sua muito. Videogames e tabuleiros são muito melhores e ainda dá pra comer enquanto joga.
Moldava muito bem, pude ver. Mas haviam detalhes por baixo daqueles panos que precisava conferir.
— Shape de jogador é bem maneiro mesmo. — Me questionei se tinha sido passavel. — De quais games você gosta?
— Curto muito exploração em mundo aberto, Fortnite e Mortal Kombat e alguns outros.
Incrível. Tínhamos coisas em comum. Eu estava absolutamente empolgado, mas não queria parecer uma borboleta espalhafatosa.
— Que bom gosto o seu, hein — pontuei.
Ele sorriu sem dentes.
Thiago e eu engatamos e entrelaçamos assuntos sobre os mais diversos tipos de jogos, até entrarmos na avenida onde eu descia. Começamos a dissolver e amarrar as pontas das conversas que iniciamos.
Quando estava próximo o suficiente da minha parada, levantei e puxei a corda enquanto lutava com suas pernas para passar.
— Ah, é aqui que você desce? — Ele perguntou, cínico.
— Isso. Eu moro no condomínio aos fundos desse quarteirão.
Apontei para cinco blocos verdes escondidos no horizonte.
— Beleza. Te deixo aqui, vou até o terminal e pego outro de volta.
Não podia acreditar que ele realmente havia feito isso. Dono da própria liberdade. Que incrível.
— A propósito, Levi... quantos anos você tem?
Outro detalhe que não havíamos sequer mencionado. Por sorte, ele lembrou.
— Fiz dezessete há poucos meses. E você?
— Legal. Eu faço dezoito no fim desse ano. Ainda falta um tempo pra que eu já possa ser preso.
Gargalhei com seu jeito malandro.
— Dezessete então? — confirmei.
— Dezessete, um pouco mais velho que você.
Me despedi com um balançar desengonçado de mãos e ele retribuiu o aceno sorrindo.
— A gente se esbarra por aí.
— Tomara — soprei baixinho.
Não tinha a intenção de que ele ouvisse, mas vi seus lábios contraírem em um sorriso contido e ele virar o rosto para a janela. Me encaminhei depressa ao fundo do ônibus e saltei na minha parada assim que as portas abriram.
Aterrissei diretamente em um campo de nuvens. Eu pisava leve, o mundo ao meu redor era felpudo e deslizava suavemente sobre minha pele. Senti meu rosto paralisado em um sorriso fabuloso e meus olhos cintilavam. Só me dei conta de que havia entrado em casa quando minha tia pediu ajuda para desempacotar as sacolas.
Até ontem, ele era apenas uma silhueta rondando meus pensamentos. Agora ele possuía nome, cheiro, voz e preferências.
A dúvida que me assombraria dali em diante era sobre qual local da sua mente eu passaria a habitar.
