O dilema de Camila (prologo)

Um conto erótico de Escritor de Contos
Categoria: Heterossexual
Contém 1587 palavras
Data: 17/01/2026 21:41:17

Esse texto é uma série literária que envolve dilemas na vida dos seres humanos envolvidos é um momento de catarse de um dos envolvidos. Haverá cenas de sexo, porém os primeiros contos é necessário entender o contexto onde estão envolvidos os personagens da trama. A trama envolve sedução, sexo, dominação.

Era uma terça-feira, dia comum, pessoas comuns e uma chuva sem trégua. Lá fora, a cidade parecia prestes a desabar. Carros parados em fila, buzinas impacientes, vendedores recolhendo barracas e o som das sirenes misturado a uma noite fria e sem graça. As ruas se tornavam espelhos de luzes borradas, e cada clarão no céu fazia os postes piscarem, nervosos.

Dentro do restaurante, porém, o mundo seguia outro ritmo. O ambiente era quente e acolhedor, protegido do caos urbano lá fora. Luzes amareladas refletiam no granito polido do balcão, e o ar trazia um perfume discreto de vinho, especiarias e madeira encerada. O som da chuva — alto do lado de fora — chegava ali como um murmúrio calmo, quase aconchegante.

Camila estava sozinha em uma das pontas do bar, os dedos contornando o copo de vinho como se buscassem calor. A roupa ainda guardava o toque e o cheiro de um dia que queria esquecer — um dia intenso, de corpos, de domínio e de silêncios que agora soavam altos demais na própria lembrança. Sentia-se exausta, como se tudo nela ainda vibrasse na frequência do prazer e da culpa.

Tentava se concentrar no vinho, no som da chuva, em qualquer coisa que não fossem eles — os dois que, naquele instante, provavelmente se amavam em algum canto da cidade. Um arrepio tênue subiu-lhe pela pele. Ciúmes e desejo se confundiam, criando uma espécie de dor doce, uma saudade que não cabia em palavras.

A mente insistia em voltar às horas antes — o peso dele sobre ela, a forma como a tocava com urgência e posse, como se fosse dele por direito. Mas não era. Camila sabia disso. Sabia que era apenas diversão, um corpo que cabia bem entre os dois, um brinquedo compartilhado. A lucidez doía mais que o desejo. Sentia-se fria por dentro, vazia como o eco da chuva batendo no asfalto. Pensou em fugir — pegar a bolsa, sair dali, desaparecer da vida deles de uma vez. Mas era mentira. Não conseguia. Não importava quantas vezes tentasse se convencer do contrário: ela era só dele. E essa verdade a aprisionava mais do que qualquer gesto de amor jamais faria.

— Noite péssima pra estar na rua — disse uma voz atrás do balcão, firme e gentil.

Ela ergueu o olhar e o viu. Daniel, o dono do restaurante, enxugava as mãos em um guardanapo de linho antes de sorrir. Tinha o olhar calmo de quem confia no silêncio — e tratava cada cliente como se fosse alguém importante.

— O clima lá fora está um caos, mas aqui continua calmo. — Ele gesticulou em direção ao bar. — Posso garantir abrigo, calor e o melhor vinho da casa, se me permitir o exagero.

Camila sorriu de leve, sem pensar. — O abrigo já é o suficiente.

Ele riu, sincero. — Nesse caso, um brinde à sorte de quem escolhe o lugar certo pra se perder numa noite dessas.

O som dos copos se tocando foi quase simbólico — o início de uma trégua, um respiro. Daniel falava sobre o restaurante como quem fala de casa: os fregueses, a rotina, os dias bons e as noites em que cozinhava apenas para si. Seu tom era sedutor na medida certa — gentil, confiante, familiar. Camila o ouvia e, sem perceber, sentia a chuva e o vazio existencial se afastarem da cabeça.

A conversa seguiu natural, despretensiosa, até que um silêncio diferente se formou entre eles. Foi o tipo de pausa que não constrange, mas convida. O olhar de Daniel pousou sobre o dela com a mesma calma com que havia servido o vinho — e, por um momento, Camila pensou em como algo tão simples poderia acalmar uma alma em guerra.

Ele se aproximou, respeitando o espaço, e ainda assim tornando impossível ignorar sua presença. Quando a beijou, foi um gesto leve, quase improvisado, mas cheio de certeza.

O primeiro toque foi hesitante — o segundo, não. O bar desapareceu, a chuva virou música de fundo, e o vazio que a acompanhava desde o início da noite pareceu dissolver-se por instantes. Camila fechou os olhos e sentiu algo diferente do fogo habitual: sentiu paz.

Mas a paz veio acompanhada de confusão. O beijo de Daniel era doce, gentil, quase terno — tão diferente do que conhecia. Seu amante a beijava com fome, com urgência, às vezes quase violento na forma como a tomava. Era lascivo, incontrolável, e isso a fazia sentir-se viva. Mas também a fazia sentir-se pequena. Propriedade. Ela sempre fora propriedade dele — e, no fundo, gostava disso. Mas ali, nos braços de Daniel, algo se deslocou. Pela primeira vez, não se sentiu possuída. Sentiu-se vista. E isso a assustava tanto quanto a acalmava.

Pela primeira vez em muito tempo, o corpo não pesava.

Quando se afastaram, Daniel manteve o olhar por um segundo a mais, sorrindo com simplicidade.

— Nem toda tempestade vem pra atrapalhar a noite. Algumas só tiram o excesso do caminho.

Camila respirou fundo, entre surpresa e gratidão. Do lado de fora, a cidade seguia em caos. Mas ali dentro, no calor suave do bar, a tormenta dentro dela enfim começava a silenciar.

Daniel não se afastou. Permaneceu próximo, apoiado no balcão, como se aquele momento merecesse durar. Serviu mais vinho, devagar, sem pressa. Comentou algo sobre a chuva que parecia não ter fim, e Camila respondeu — não lembrava mais o quê, apenas que a conversa fluía com naturalidade, como se sempre tivessem se conhecido. O restaurante estava vazio agora, só eles dois e o som da tempestade lá fora.

Daniel não sabia ao certo quando tudo ao redor havia desaparecido. Desde que Camila entrara no restaurante, encharcada e com aquele olhar perdido, algo mudou no ar. Ele tentara manter a postura profissional — o dono atencioso, cordial, distante —, mas aos poucos percebeu que estava respondendo a algo mais profundo. A forma como ela segurava o copo, o jeito como olhava para o vazio, a tristeza bonita que carregava nos ombros. Ele queria conhecê-la. Não só conversar, mas entender o que a fazia tão presente e ao mesmo tempo tão ausente. E quando finalmente a beijou, sentiu que aquela noite de terça-feira sem graça, em meio ao caos da chuva, tinha se tornado a mais importante em muito tempo. O bar, vazio e silencioso, parecia existir apenas para eles dois — um refúgio improvisado onde o mundo lá fora não importava.

A noite prosseguiu em compasso lento, pontuada por risadas espontâneas e silêncios confortáveis. Daniel a cortejava com uma naturalidade desarmante — não forçava sorrisos, não buscava impressionar. Apenas existia ali, presente, atento, como se aquela conversa fosse a única coisa que importava no mundo. Camila sentia algo estranho crescer dentro de si, uma sensação esquecida ou talvez nunca experimentada: sentia-se desejada, mas não como objeto. Desejada como pessoa. Como alguém que merecia tempo, atenção, curiosidade. A diferença era sutil, mas transformadora — e a confundia.

Queria ficar. Queria estender aquela noite, sentir de novo o gosto daquele beijo, deixar que as mãos de Daniel a tocassem com a mesma calma com que ele servia vinho. Mas algo a segurava. Não queria parecer fácil, não queria que ele pensasse que era qualquer uma — ainda que, horas atrás, tivesse sido exatamente isso para outros. A ironia a atingiu como um tapa silencioso: entregava-se sem hesitar aos dois que a tratavam como diversão, mas temia o julgamento do único homem que parecia vê-la de verdade. Como explicar que a vergonha só aparecia quando o respeito estava presente?

Camila brincava com a borda do copo, hesitante. Parte dela queria se levantar e partir antes que a ilusão se quebrasse, antes que Daniel descobrisse quem ela realmente era. Mas outra parte — menor, mais frágil, quase inaudível — sussurrava que talvez fosse justamente por isso que deveria ficar. Talvez, pela primeira vez, pudesse ser outra versão de si mesma. Não a amante submissa. Não a mulher que se dissolvia no desejo alheio. Apenas Camila. E isso, ao mesmo tempo que a atraía, a apavorava.

Quando deu por si, já passava da meia-noite. Os funcionários tinham ido embora há quase uma hora, e o restaurante estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes do balcão. A chuva continuava firme lá fora, agora mais calma, sem a violência dos trovões. Daniel olhou para Camila — ainda ali, ainda perto — e sentiu que não queria que aquela noite terminasse. Não ainda. Havia algo nela que o intrigava, que o fazia querer prolongar cada segundo, cada palavra, cada silêncio. Pela primeira vez em anos, não pensava no restaurante, nos compromissos ou na rotina. Pensava apenas nela.

Camila também não tinha pressa. O relógio na parede marcava um horário que deveria significar despedida, mas seu corpo permanecia ali, relaxado contra o banco, os olhos fixos em Daniel como se ele fosse o único refúgio que restava no mundo. Lá fora, a tempestade que antes parecia expulsá-la de tudo agora servia como desculpa perfeita para não ir embora. Não queria voltar para o vazio do apartamento, para as lembranças que a esperavam, para a solidão que a consumiria até o próximo encontro com eles. Ali, com Daniel, sentia-se diferente — leve, vista, desejada por razões que não entendia, mas que a faziam querer ficar. Nenhum dos dois disse nada sobre partir. E, no silêncio cúmplice que se formou entre eles, ficou claro: aquela noite ainda não tinha chegado ao fim.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive Escritor(a) de Contos a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.
Foto de perfil genéricaEscritor(a) de ContosContos: 1Seguidores: 0Seguindo: 0Mensagem

Comentários