Dois desejos, uma escolha. CAP 6

Um conto erótico de Vênus de Marte
Categoria: Homossexual
Contém 5867 palavras
Data: 17/01/2026 10:59:49
Última revisão: 17/01/2026 11:08:40

Cap 6

Cap 6 prontinho ;)

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Ponto de vista Luan

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Eu não sou do tipo que perde o sono fácil. Já adulto, sempre fui prático com sentimentos, cuidadoso até demais. Mas naquela madrugada, depois que Rafa adormeceu ao meu lado, fiquei acordado por um tempo maior do que gostaria de admitir.

Observei o jeito como ele respirava, o corpo finalmente relaxado, como se ali não precisasse provar nada. Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Não era só atração — isso eu reconhecia fácil. Era outra coisa. Uma vontade silenciosa de proteger aquele descanso.

Perigoso, pensei.

De manhã, quando ele acordou, tudo pareceu simples demais. Café feito em silêncio, poucos gestos, nenhuma pressa. E ainda assim, cada movimento dele pela casa parecia ocupar espaço demais dentro de mim.

Quando Rafa começou a falar do dia, ouvi com atenção. Beatriz à tarde. Jantar à noite. A mãe de um colega do hospital.

Diego.

O nome ficou comigo mais tempo do que deveria.

Eu não fiz perguntas atravessadas. Não sou assim. Não queria ser. Sorri, mantive o tom neutro, mas senti algo apertar — um incômodo pequeno, controlado, quase racional demais para ser chamado de ciúme. Quase.

Diego era só um colega. Médico. Nada além disso. Ainda assim, o jeito como Rafa explicou, como se quisesse deixar claro que não havia nada ali, me fez perceber que eu não era o único atento àquela linha invisível.

Ficamos juntos até perto das nove. Conversa jogada fora, risadas baixas, aquele conforto que não se constrói em uma noite só — e, mais uma vez, a intimidade aconteceu. Eu queria ainda mais.

Levei Rafa até a casa dele. O caminho foi curto, silencioso de um jeito bom. Antes de ele descer do carro, trocamos um beijo simples, rápido, mas cheio de coisa não dita.

— A gente se fala — eu disse.

— Se fala — ele respondeu.

Esperei ele entrar antes de ir embora. Só então segui para a casa dos meus pais, como tinha planejado. No volante, sozinho, deixei o pensamento ir onde eu vinha evitando desde a madrugada.

Talvez eu estivesse me envolvendo mais do que deveria.

Talvez já estivesse tarde demais pra fingir que não.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de estar me apaixonando não me assustou tanto quanto a possibilidade de perder espaço para alguém que eu ainda nem conhecia direito.

Diego.

A casa dos meus pais tinha o mesmo cheiro de sempre. Nada mudava ali, nem mesmo quando tudo dentro de mim parecia fora do lugar. Cumprimentei minha mãe, meu pai, fui direto pra cozinha pegar água.

Meu irmão estava sentado à mesa, mexendo no celular, como se estivesse só esperando eu aparecer.

— E aí, como você tá?

— Tô bem — respondi. — E você?

— Na correria de sempre.

Ficamos alguns segundos em silêncio. Nada estranho. Só cotidiano.

— Você anda aparecendo pouco por aqui — ele comentou.

— Trabalho, vida… — dei de ombros.

Caio assentiu.

— É. Você sempre foi mais na sua.

Aquilo vinha com calma, mas eu conhecia o caminho.

— Mas — ele continuou — às vezes eu fico pensando se você não se fecha demais.

— Como assim?

— Você nunca comenta de alguém. Nunca apresenta ninguém. Parece que prefere ficar sozinho.

— Não prefiro — respondi. — Só não forço nada.

— Eu sei — ele respirou fundo. — Mas quando começa a ficar sério, você muda. Fica distante.

O peso da conversa começou ali.

— Talvez porque nem tudo precise virar compromisso.

— Talvez — ele concordou. — Mas também tem coisa que não cresce se a gente não cuida.

O silêncio se instalou, atento.

— Só tô falando isso porque eu te conheço — Caio completou. — E porque, quando você gosta de alguém de verdade, dá pra perceber.

A imagem veio sozinha. Rafa, dormindo tranquilo ao meu lado horas antes.

— Só toma cuidado — ele disse. — Nem todo mundo aceita ficar esperando você decidir.

Devagar, eu já tinha começado a sentir.

Caio quebrou o silêncio com um meio sorriso torto.

— Às vezes eu fico pensando… você nunca aparece com mulher nenhuma.

Revirei os olhos.

— Lá vem você.

— Tô falando sério. Desse jeito, qualquer um começa a achar que você é viado.

A palavra caiu pesada demais.

— Qual é o seu problema, Caio?

— Ei, calma. Foi brincadeira.

— Pra você talvez seja — respondi. — Pra mim não é.

Minha mãe apareceu na porta da cozinha.

— Chega. Já deu.

Peguei minhas coisas e saí com o peito apertado.

Gay.

A palavra ecoava, não porque fosse nova, mas porque ainda não era livre.

Eu nunca tinha me assumido de verdade. Não por vergonha exatamente — mas por medo. Medo de mudar a forma como me olhavam. Medo de perder o controle das relações que eu mantinha organizadas demais.

Mas naquela manhã, depois da noite com o Rafa, da conversa com Caio, da reação da minha mãe… algo começou a se deslocar.

Talvez eu estivesse cansado de me explicar pela metade.

De viver confortável, mas escondido.

De gostar em silêncio.

Não era uma decisão pronta. Mas, pela primeira vez, a ideia deixou de ser só um peso.

Virou possibilidade.

Fui pra sala de estar e me joguei no sofá, encarando a televisão desligada. A casa estava silenciosa demais, aquele silêncio típico de lugar onde muita coisa já foi dita e outras tantas ficaram engasgadas.

O celular vibrou no meu bolso.

Peguei sem pensar.

Rafa:

Chegou bem?

Eu:

Cheguei.

Tô na casa dos meus pais ainda.

Rafa:

Fiquei pensando em você desde que desci do carro.

Queria saber se você tava bem de verdade.

Respirei fundo antes de responder.

Eu:

Como ficar ruim depois desta noite, aliás quero mais, não posso nem pensar que já fico animado aqui hehehe

A resposta demorou poucos segundos.

Rafa:

Eu gostei muito de ontem, Luan.

Não só do que aconteceu…

mas de como eu me senti com você.

O coração bateu mais forte do que eu esperava.

Eu:

Eu também.

Fazia tempo que alguém não me deixava assim.

O “digitando…” apareceu quase imediatamente.

Rafa:

Acordar do seu lado ficou comigo.

Me deu vontade de repetir.

Sorri sozinho, sentado ali naquela sala que sempre me pareceu pequena demais.

Eu:

Eu quero repetir.

Mais do que eu devia admitir.

Alguns segundos de silêncio.

Rafa:

Então a gente vai.

No nosso tempo.

Segurei o celular com mais força, sentindo que aquela conversa simples estava mudando coisas profundas.

Ali, cercado por tudo que me lembrava quem eu tinha sido, percebi que talvez estivesse pronto pra ser quem eu era —

porque alguém, do outro lado da tela, já me queria assim.

A porta da sala se abriu e meu pai entrou ajeitando a camisa, como sempre fazia quando chegava do quintal ou da rua. Olhou pra televisão desligada, depois pra mim no sofá.

— Você viu as notícias hoje? — perguntou, já sentando na poltrona. — Esse país tá perdido. Falta ordem. Falta pulso firme.

Assenti com a cabeça, mais por reflexo do que por concordância.

Caio apareceu logo depois.

— É isso mesmo — ele disse. — Esse pessoal quer mudar tudo rápido demais. Família, valores… daqui a pouco não sobra nada.

Meu pai concordou com um gesto firme.

— Sempre foi simples — continuou. — Homem, mulher, trabalho, responsabilidade. O resto é moda.

Fiquei em silêncio. Não por respeito — mas por cansaço. A conversa seguiu sem que eu precisasse participar. Política, costumes, o mundo “de antes” que eles acreditavam estar defendendo.

Enquanto falavam, senti o celular vibrar no bolso. Não peguei. Mas soube.

Rafa.

Ali, sentado naquela sala que tinha moldado quem eu fui por tanto tempo, entendi com clareza algo que eu vinha evitando: não era só medo de me assumir. Era saber exatamente onde eu estava tentando existir.

Olhei pro meu pai, pro meu irmão, tão seguros das próprias certezas. E, pela primeira vez, não senti raiva. Senti distância.

Talvez eu não precisasse convencê-los agora.

Talvez eu só precisasse parar de me esconder de mim.

Quando me despedi minutos depois, abracei minha mãe e naquele momento eu sentir um abraço mais quentinho por parte dela, indo em direção à porta, senti um alívio estranho. Como se cada passo pra fora daquela casa fosse também um passo pra dentro de algo que eu ainda estava aprendendo a aceitar.

No carro, antes de ligar o motor, peguei o celular.

A mensagem do Rafa ainda estava ali.

E, naquele instante, tive certeza de uma coisa:

eu não queria mais viver pela metade.

Não sabia ainda como, nem quando.

Mas sabia por quem eu estava disposto a tentar.

E isso, pela primeira vez, me pareceu mais forte que o medo.

Antes de ligar o carro, o celular vibrou de novo. Dessa vez, não era o Rafa.

Pedro.

Atendi encostando o telefone no ouvido.

— Fala.

— Onde você tá? — a voz veio animada demais

para aquele início de tarde.

— Vou fazer um churrasco lá em casa hoje. Nada grande. Só a galera. Vem?

Olhei pelo retrovisor, a casa dos meus pais ainda ali atrás de mim. Pensei na conversa na sala, nas certezas duras, no peso que tinha ficado no peito.

— Que horas? — perguntei.

— Agora no fim da tarde. Música, bebida, conversa besta. — Ele riu. — Você tá precisando sair um pouco, sumiu do mapa nos últimos dias.

Talvez estivesse mesmo.

— Eu vou — respondi, antes que desse tempo de pensar demais. — Chego mais tarde.

— Sabia — Pedro disse. — Te espero meu consagrado.

Desliguei e fiquei alguns segundos parado, respirando fundo. Não era sobre esquecer nada. Nem sobre substituir sentimentos.

Era só… respirar.

Se permitir um intervalo.

Liguei o carro e saí dali com a sensação de que aquele dia ainda não tinha terminado de me transformar.

Eu não tinha todas as respostas.

Mas, pela primeira vez, também não estava mais parado.

E isso já era um começo.

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Ponto de vista — Rafael

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Entrei em casa ainda com o peito quente da noite. Mal fechei a porta e já ouvi o som conhecido das patinhas correndo pelo corredor. A Vênus veio primeiro, exigindo atenção. Logo atrás, Sirius, mais contido, mas presente do mesmo jeito.

A casa deixou de parecer vazia no mesmo instante.

Fiquei parado alguns segundos na sala, respirando fundo, tentando entender por que um encontro simples tinha me atravessado daquele jeito.

A imagem do Luan se despedindo de mim não saía da cabeça.

Foi uma noite boa.

Boa de um jeito que eu quase tinha esquecido que existia.

Deitei na cama sem acender a luz, o coração batendo diferente. Algo estava começando — e eu sentia.

Não era só atração. Era cuidado. Calma. Respeito pelos meus limites.

E isso me desarmava.

A última vez que deixei algo assim crescer, me machuquei. Desde então, amar virou risco calculado.

Mas com o Luan…

com ele, eu não sentia medo de ser eu.

Talvez fosse exatamente isso que me assustava.

O celular vibrou. Era a Bea avisando que estava a caminho.

Ela chegou perto do almoço, trazendo riso fácil e normalidade.

Em algum momento, me olhou com atenção demais.

— Você tá diferente.

— Diferente como?

— Mais contido. E isso vindo de você… é novidade.

Sentamos à mesa.

— Você tá com o mesmo olhar de anos atrás — ela disse.

Respirei fundo.

— Tem um cara… o nome dele é Luan.

Contei tudo. O jeito dele. A noite. Como eu me senti.

— É cedo — admiti. — Mas eu sinto alguma coisa.

Bea ouviu tudo.

— Sobre o Luan — ela disse — faz tempo que eu não te vejo assim. Sem defesa.

Depois ficou séria.

— E o Diego?

Expliquei o desconforto.

— Intuição — ela respondeu. — E a sua costuma ser boa.

Aquilo organizou algo dentro de mim.

— Você não precisa decidir nada agora — ela concluiu. — Só precisa ser honesto consigo mesmo.

Sorri.

Enquanto almoçávamos, tive certeza de uma coisa simples:

Eu escolhi a melhor amiga do mundo.

Preparei algo simples, do jeito que sempre fazia quando queria cozinhar sem pensar demais. Arroz soltinho, legumes refogados, um frango bem temperado.

Bea ajudou no que deu, mais conversando do que fazendo, provando o molho, implicando com a quantidade de alho, rindo quando eu fingia não ouvir.

Almoçamos sem pressa. A comida quente, a janela aberta, a tarde entrando devagar pelo apartamento. Falamos de tudo e de nada — planos distantes, lembranças antigas, histórias que só nós dois achávamos engraçadas. Era fácil estar ali. Sempre foi.

Depois do almoço, levamos as coisas para a sala. Bea puxou um Uno da bolsa como se fosse um ritual antigo.

— Você ainda rouba — ela acusou, já embaralhando.

— Estratégia — corrigi, sorrindo.

Jogamos espalhados no tapete, rindo alto demais, implicando um com o outro, comemorando vitórias pequenas como se fossem grandes conquistas. A Vênus apareceu no meio da bagunça, deitando em cima das cartas sem pedir licença. O Sirius observava de longe, sério, como se julgasse nossas regras inventadas.

De vez em quando o celular vibrava.

Luan.

Nada demais. Um comentário bobo, um emoji, uma resposta curta. Mesmo assim, eu sorria toda vez que lia. Respondia rápido, depois voltava pro jogo, fingindo que não era importante — mas era. Um pouquinho.

Talvez porque com ele tudo parecesse fácil.

Como se, mesmo longe, ele ainda estivesse ali, dividindo a tarde comigo.

Puxei mais uma carta. A Bea comemorou.

E eu deixei o sorriso ficar.

A tarde passou assim, leve. Entre uma partida e outra, conversas que iam e voltavam, silêncios confortáveis, risadas inesperadas. Em alguns momentos, eu esquecia completamente do hospital, do Diego, das dúvidas. Em outros, lembrava — mas sem peso. Como se tudo estivesse no lugar certo por algumas horas.

Bea se encostou no sofá, esticando as pernas.

— Eu precisava disso — ela disse, sem me olhar.

Eu entendi. Porque eu também precisava.

O sol começou a baixar, dourando a sala, e eu senti uma gratidão silenciosa crescer no peito. Por aquela amizade que atravessava fases, dores, mudanças. Por alguém que me conhecia inteiro e ainda escolhia ficar.

Naquele fim de tarde, entre cartas coloridas, gatos preguiçosos e risadas sinceras, eu percebi que, independentemente do que viesse depois — Luan, medos, conflitos — eu tinha ali um ponto de equilíbrio.

E isso fazia toda a diferença.

Bea foi embora no fim da tarde, quando o sol já começava a baixar de vez. Abraçou-me forte na porta, daquele jeito que dizia mais do que qualquer conselho.

— Se cuida — ela disse, simples.

— Sempre — respondi, sabendo que não era só uma palavra solta.

Fiquei observando enquanto ela se afastava pelo corredor, até o silêncio voltar a ocupar o apartamento. A Vênus se esticou no sofá, o Sirius foi direto para a janela. A casa retomou o ritmo de sempre.

Suspirei fundo.

O jantar.

Tomei um belo banho e fui para o quarto e comecei a separar a roupa com mais atenção do que gostaria. Oficialmente, era o aniversário da mãe do Diego. Na prática, eu sabia que aquilo tinha sido planejado.

Diego tinha insistido no convite dias antes, falando de um presente que queria entregar, de como precisava de ajuda, de como seria “importante” pra ele. Um discurso ensaiado demais para algo que eu sequer conhecia.

Eu nem conhecia a mãe dele.

E, se dependesse só de mim, não estaria indo.

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Ponto de vista Diego

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Eu mantive tudo no tom certo.

Minha mãe estava animada, claro, mas não falava do Rafael como se ele fosse alguém extraordinário. Para ela, era apenas o amigo educado que ajudou com o presente — alguém interessante o suficiente para despertar curiosidade, nada além disso. Exatamente como eu precisava.

Clara também comentou pouco. Perguntou quem ele era, fez uma observação ou outra, disse que parecia simpático. Nada exagerado. Clara era gentil por natureza, não precisava de muito para se mostrar aberta a conhecer alguém novo.

O importante não era o que elas diziam.

Era o clima que criavam sem perceber.

A casa estava preparada para receber os convidados, não um destaque. Isso deixava tudo mais perigoso. Quando alguém não é tratado como especial demais, tende a relaxar. Acredita que está no controle da situação.

Rafael tinha hesitado antes de aceitar o convite. Eu senti isso desde o início. Não foi uma decisão impulsiva, foi uma concessão. E concessões sempre carregam expectativa silenciosa.

Olhei o relógio mais uma vez.

Imaginei Rafael atravessando a porta tentando parecer natural, tentando convencer a si mesmo de que era só um jantar comum. Era nisso que eu apostava. Quanto mais comum parecesse, mais fácil seria conduzir.

Não havia euforia.

Não havia pressão visível.

Só um ambiente pronto para acolher — e, com isso, envolver.

Tudo seguia exatamente como planejado.

Eu não precisei fazer muito.

Minha mãe já tinha aquele impulso natural de receber bem, de oferecer coisas, de não deixar copos vazios. O que eu fiz foi apenas direcionar. Um comentário aqui, outro ali, sempre no tom certo.

Eu mandei a mensagem já sabendo a resposta.

Diego: Posso passar aí e te buscar, se quiser. Fica mais fácil.

Demorou alguns minutos. Rafa sempre pensava antes de responder. Previsível.

Rafa: Ah, não precisa. Vou de Uber mesmo. Me passa o endereço certinho?

Sorri sozinho.

Claro que ele iria recusar. Rafael não gostava de parecer dependente, nem de abrir espaço cedo demais. Mas pedir o endereço era aceitar o resto. Era dizer eu vou sem dizer.

Diego: Tranquilo então. Te mando já.

Enviei o endereço e deixei o celular de lado.

Ele achava que estava escolhendo o próprio caminho.

Mas estava apenas confirmando exatamente o que eu já esperava.

E isso, pra mim, sempre foi a melhor parte.

Eu desci para a portaria antes mesmo de o porteiro avisar.

Não por ansiedade — por controle.

Quando o vi atravessando o saguão do condomínio, tive que me conter. Rafael estava ainda mais bonito do que eu lembrava. Não era algo óbvio, chamativo. Era aquele tipo de beleza que prende porque parece distraída, quase inocente. Camisa simples, postura contida, olhar atento demais ao redor e novamente, aquela cintura, aquela bunda...

Havia algo nele que despertava uma vontade imediata.

Não de conhecer.

De possuir.

Mas eu não deixei nada disso escapar.

— Oi — cumprimentei, tranquilo, como se meu corpo não tivesse reagido. — Chegou bem?

Ele sorriu, um pouco sem jeito. — Cheguei sim.

Peguei o caminho do elevador ao lado dele, mantendo distância suficiente para não parecer invasivo. Observei o silêncio confortável, o jeito como ele respirava fundo, como se estivesse se preparando para entrar em cena.

Na porta do apartamento, minha mãe abriu com um sorriso pronto.

— Rafael! — disse, antes mesmo de qualquer apresentação formal. — Que prazer te conhecer.

Ela gostou dele de imediato. Vi no toque leve no braço, no olhar atento, na forma como passou a incluí-lo na conversa sem esforço algum. Rafa respondeu com educação, doçura, aquela gentileza que não se ensaia. Aprovado em segundos.

Clara se aproximou logo depois. Estava linda, leve como sempre. Cumprimentou o Rafa com naturalidade, sem excesso, sem expectativa exagerada. Ele relaxou perto dela quase instantaneamente.

Quando se sentaram lado a lado no sofá, percebi como a conversa fluiu fácil. Riram, trocaram comentários simples, dividiram pequenas histórias. Nada íntimo. Nada profundo. Justamente por isso, perigoso.

Eu fiquei por perto. Presente o suficiente para não parecer distante. Ausente o bastante para não interferir.

Observava.

Observava como Rafael se encaixava sem tentar, como conquistava sem perceber. Minha mãe encantada. Clara confortável. O ambiente fazendo exatamente o que eu havia previsto.

Ele estava um pouco tímido, sim. Mas já não estava tenso.

E enquanto todos viam apenas um convidado gentil, eu via algo diferente: alguém que começava a baixar a guarda, cercado de aprovação, sem notar quem observava cada detalhe em silêncio.

Eu sorri, discreto.

A noite ainda estava no começo.

E Rafael já estava exatamente onde eu queria.

Enquanto minha conversava com outros convidados, cheguei comentei que o Rafa era tranquilo, mas tímido. Que às vezes ficava rígido demais, como se tivesse medo de ocupar espaço.

Comentei, quase rindo, que ele relaxava mais quando o clima ficava leve. Não falei em bebida diretamente. Não precisei.

Ela entendeu sozinha.

Na sala, Clara conversava com ele de forma simples, gentil, sem exagero. Rafa sorria, respondia com cuidado, sempre escolhendo bem as palavras. Eu observava à distância, já antecipando o próximo movimento.

Quando minha mãe apareceu com a bebida, foi como se fosse parte natural da noite.

— Você aceita? — ela perguntou a ele, com aquele sorriso que não permite muita recusa. — É só um pouquinho, pra acompanhar.

Rafael hesitou por um segundo. Um segundo apenas. O suficiente para eu reconhecer o conflito — e o momento exato em que ele escolheria não parecer difícil.

Ele aceitou.

Segurou o copo com cuidado, deu o primeiro gole como quem mede terreno. Conversa seguiu, risos leves, o ambiente confortável demais para alertas.

Eu reparei quando os ombros dele começaram a relaxar. Quando o sorriso ficou menos contido. Quando o olhar deixou de fugir tão rápido.

Minha mãe, satisfeita, ofereceu mais depois.

Clara comentou como a bebida era boa.

Tudo parecia casual.

Mas nada ali era aleatório.

Rafael não estava bêbado. Ainda não.

Só mais acessível. Mais presente. Mais fácil.

Eu não precisava acelerar.

A noite estava fazendo exatamente o que eu esperava.

E eu só observava, paciente, esperando o momento certo de me aproximar mais.

Eu também bebi. Não muito — só o suficiente para parecer parte daquilo. Um copo aqui, outro ali, sempre intercalado com água, sempre atento. Aprendi cedo que observar exige lucidez.

Enquanto isso, as horas iam passando quase sem aviso, embaladas por risadas fáceis e conversas que se estendiam mais do que deveriam.

Rafa e Clara estavam mais soltos do que o normal. Nada exagerado, mas havia aquele brilho no olhar, a fala um pouco mais leve, o corpo menos contido. Clara ria de coisas simples, inclinava-se na direção dele ao falar, tocava seu braço com naturalidade, como quem não percebe o próprio gesto. Rafa acompanhava o ritmo, relaxado, mais alto, mais presente — diferente do plantão, diferente do hospital. Diferente de como era comigo.

Eu só observava.

Tudo estava caminhando como eu imaginara.

Em algum momento, comentei em voz alta, quase casual, como quem apenas constata um fato óbvio:

— Vocês dois se deram muito bem, né? — disse, com um meio sorriso. — Dá pra ver de longe.

Clara confirmou com entusiasmo, daquele jeito gentil e um pouco bobinho que ela tinha, dizendo que o Rafa era “fácil de gostar”. Ele riu, meio sem jeito, o rosto levemente corado, e tomou mais um gole antes de responder qualquer coisa.

Eu permaneci ali, tranquilo, calculando o tempo, as reações, os silêncios. Eles bebiam mais do que o normal. Eu, menos do que parecia.

E, dentro de mim, a sensação era clara e perigosa:

tudo estava exatamente onde eu queria.

O jantar seguiu de forma surpreendentemente tranquila. Risadas, histórias antigas, pratos sendo repetidos. Minha mãe, sempre solícita, continuava a encher o copo do Rafa — sem maldade alguma, apenas aquele cuidado exagerado de quem quer agradar. “Come mais um pouquinho”, “aceita só mais um gole”.

Ela já estava alta.

Meu pai, então, nem se falava. Falava alto, ria sozinho, gesticulava demais. A mesa inteira estava tomada por aquela euforia típica de quando o tempo passa rápido demais.

Todos ali estavam altos.

Todos — menos eu.

Rafa já estava bêbado. Não caído, não perdido, mas visivelmente fora do eixo. O corpo mais solto, a postura menos defensiva, o sorriso fácil demais.

Clara estava no mesmo estado — rindo alto, encostando nele sem perceber, a cabeça levemente pendendo para o lado quando falava.

Eu fingia. Um gole aqui, outro ali. O suficiente para ninguém desconfiar.

Em determinado momento, Rafa se levantou devagar demais da cadeira.

— Vou ao banheiro — avisou, com a voz um pouco arrastada.

Minha mãe explicou o caminho do banheiro mais próximo.

Observei enquanto ele se afastava pelo corredor. Esperei alguns segundos. O tempo exato para não parecer coincidência.

Levantei também.

O encontrei no banheiro, parado diante da pia, apoiado com as duas mãos na borda, respirando fundo como quem tenta se recompor. O espelho devolvia uma versão dele que ele talvez não estivesse pronto para ver — vulnerável, exposto, bonito demais naquele estado.

Ele estava diante da pia quando me aproximei outra vez. O espelho denunciava tudo: o olhar perdido, o corpo levemente inclinado para a frente, a respiração descompassada demais para alguém que só tinha bebido um pouco.

Fechei a porta atrás de mim. O clique foi baixo, mas suficiente para fazê-lo me olhar.

— Tá melhor? — perguntei.

— Um pouco… — respondeu, passando a mão pelo rosto.

Cheguei mais perto. Não encostei de imediato. Aprendi que a antecipação era mais eficaz do que o toque.

— Você não costuma beber assim, né? — comentei, observando cada reação. — Dá pra perceber.

Ele soltou um riso curto.

— Hoje… passei do ponto.

Inclinei o corpo para a frente, apoiando a mão na pia, ao lado da dele. Não o encurralei à força — apenas ocupei o espaço de um jeito impossível de ignorar.

— Engraçado — murmurei — porque mesmo assim você continua tentando manter o controle.

Rafa levantou o olhar, confuso.

— Do que você tá falando?

Aproximei o rosto do dele, devagar, calculando cada centímetro. Fiquei perto demais. Próximo o suficiente para sentir o calor da pele, para perceber o cheiro do álcool misturado ao perfume.

— De você — respondi. — Do jeito que finge que nada te afeta.

Minha mão subiu lentamente, parando no antebraço dele. Não apertei. Apenas deixei ali. Ele enrijeceu por um instante… e depois relaxou. Esse detalhe me disse tudo.

— Você fica bonito assim — continuei, baixo. — Vulnerável.

— Diego… — ele disse, a voz falhando levemente. — Isso não é uma boa ideia.

Sorri de canto.

— Eu não disse que era — respondi. — Só disse o que eu vejo.

Deslizei o polegar pelo pulso dele, sentindo o batimento acelerado.

— Seu coração tá disparado — observei. — Não parece só efeito da bebida.

Ele engoliu em seco. Não se afastou. Não pediu que eu parasse.

Aproximei ainda mais o rosto, até ficar a poucos centímetros do dele. Não toquei seus lábios. Não precisei.

— Você sabe — sussurrei — que, se quisesse, poderia sair agora.

Esperei.

Ele respirava fundo. Os olhos buscavam os meus, depois desviavam, como se lutasse contra algo dentro de si.

Afastei-me então, de repente, quebrando o clima como quem corta um fio esticado demais.

— Melhor voltarmos — falei, recomposto. — Já devem estar sentindo falta da gente.

Abri a porta, deixando o caminho livre.

Antes de sair, acrescentei, sem olhar para trás:

— Mas não se engane, Rafa…

— Eu sei exatamente até onde você aguenta ir.

Saí primeiro.

E deixei para trás não um toque, não um beijo —

mas algo muito pior:

a dúvida.

Cerca de meia hora depois, o clima já era outro. A mesa estava bagunçada, copos quase vazios, vozes mais altas do que o normal. Rafa olhou o celular, piscou algumas vezes para focar na tela e respirou fundo antes de anunciar:

— Gente… acho que vou indo. Já tá tarde.

Clara, claramente bêbada, arregalou os olhos como se ele tivesse dito um absurdo.

— Nãooo — protestou, rindo. — Fica mais. A gente nem terminou de conversar direito.

Ela se inclinou na direção dele, apoiando o queixo na mão, com aquele sorriso solto demais para ser consciente. Rafa riu, meio sem graça, passando a mão na nuca.

— Eu queria, mas amanhã cedo… — a frase morreu no meio. Ele sabia que não convencia ninguém, nem a si mesmo.

— Besteira — minha mãe interferiu de imediato. — Mais um pouquinho não mata ninguém.

Meu pai concordou com a cabeça, já alto demais para medir as palavras. Rafa balançou a cabeça, gentil.

— Melhor não… sério.

Foi aí que entrei, no tom mais neutro possível.

— Se for o horário, eu levo você — ofereci, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Assim vai tranquilo.

Rafa me olhou rápido demais.

— Não precisa, Diego. Posso ir sozinho.

— Você bebeu — Clara apontou, rindo, como se fosse uma grande piada. — Tá todo zonzo.

Minha mãe concordou na hora.

— É mais prudente mesmo — disse. — Deixa o Diego te levar.

Até meu pai reforçou, com a convicção exagerada de quem já passou do ponto.

— É isso. Melhor não ir sozinho assim.

Rafa hesitou. Eu não disse mais nada. Apenas observei. Às vezes, insistir menos era a melhor estratégia.

Ele respirou fundo, vencido, e assentiu.

— Tá… então tudo bem.

Levantou-se com cuidado, despediu-se de todos — Clara ainda tentou um abraço mais demorado do que o necessário —, agradeceu minha mãe e seguiu comigo até a porta.

O carro ficou em silêncio nos primeiros minutos. Rafa olhava pela janela, apoiando a cabeça no vidro, o reflexo das luzes da rua passando lento demais.

— Quer abrir um pouco a janela? — perguntei.

— Não… tá bom assim — respondeu, a voz baixa, arrastada.

Dirigi tranquilo, sem pressa. Esperei o momento certo.

— Você ficou quieto — comentei, quebrando o silêncio. — Normalmente fala mais.

— Tô só… cansado — respondeu, sem me olhar.

— Cansado de quê? — insisti, num tom quase curioso. — Do dia… ou de fingir?

Ele virou o rosto na minha direção por um segundo.

— Você não facilita, né?

Sorri de canto.

— Eu só digo o que vejo.

Deixei uma das mãos relaxar fora do volante, apoiada entre os bancos. Em uma curva mais fechada, aproximei um pouco mais o braço — e minha mão encostou na perna dele. De leve. Rápido demais para parecer proposital… lento demais para ser só acidente.

— Foi mal — murmurei, sem tirar a mão de imediato.

Rafa prendeu a respiração. Eu senti. O músculo da perna dele enrijeceu sob meus dedos.

— Tudo bem… — disse, mas a voz não acompanhava a palavra.

Mantive a mão ali por mais um instante, como se estivesse distraído com a direção. Meu polegar se moveu um centímetro. Nada demais. O suficiente.

— Você reage rápido — comentei, tranquilo. — Mesmo bêbado.

— Diego… — ele começou, incerto.

— Relaxa — respondi, finalmente afastando a mão. — Tô dirigindo. Só isso.

O silêncio voltou, mais pesado do que antes. Rafa mexeu no cinto, desconfortável, como se tentasse se recompor.

— Sabe o que eu acho? — continuei, com a voz baixa. — Que você se cobra demais.

Ele riu fraco.

— Você acha muita coisa.

— Acho — concordei. — Mas também observo.

Olhei rápido para ele, depois voltei para a estrada.

— E agora mesmo — acrescentei —, você tá pensando se aquilo no banheiro foi só a bebida… ou se foi você.

Ele não respondeu. Mas o silêncio confirmou.

— Fica tranquilo — falei, quase gentil. — Não vou te pressionar a nada.

Dei uma pausa curta.

— Só acho injusto quando alguém sente tanto… e finge que não sente nada.

O carro diminuiu a velocidade ao se aproximar do bairro dele. Rafa respirou fundo, como se só então lembrasse de onde estava.

— A gente já tá chegando — disse, mais para si mesmo do que para mim.

— Eu sei — respondi.

E, antes de parar o carro, completei, num tom calmo demais para ser inocente:

— Mas algumas coisas… não ficam no caminho.

— Ficam na cabeça.

Estacionei.

E esperei.

O carro já estava parado quando o silêncio ficou insuportável. O motor desligado, a rua quieta demais. Rafa demorou a soltar o cinto, como se precisasse de um tempo extra para organizar os pensamentos.

Ele respirou fundo e virou o rosto na minha direção. Os olhos estavam pesados, o foco impreciso, a voz levemente enrolada quando finalmente falou:

— Diego… — começou, hesitando. — Por que você fica… fazendo isso?

Inclinei um pouco o corpo para o lado, ainda mantendo a mão longe dele. Dei espaço para que ele continuasse.

— Fazendo o quê? — perguntei, sabendo exatamente.

— Me provocando… — disse, quase num sussurro. — Desde o jantar. No banheiro… agora no carro.

Havia confusão na voz, mas também algo mais cru, mais honesto do que ele talvez fosse quando sóbrio.

— Você tá bêbado — respondi, com calma. — As coisas ficam maiores assim.

— Não foge — ele insistiu, franzindo a testa. — Eu não tô inventando.

Sustentei o olhar dele por alguns segundos antes de falar. Quando falei, foi baixo, medido, entre linhas — como você pediu.

— Talvez porque eu queira — disse. — E você percebeu.

O ar entre nós mudou na hora. Rafa engoliu em seco.

— Quer… o quê? — perguntou, mesmo sabendo.

Aproximei um pouco mais o corpo. Não toquei. Não ainda.

— Você — respondi simplesmente. — Do jeito que é. Do jeito que tenta esconder.

Ele ficou em silêncio. Os olhos desceram por um segundo, depois voltaram para mim. O coração dele batia visível no pescoço.

— Isso não faz sentido… — murmurou. — Eu… eu não devia…

— Eu sei — concordei, aproximando ainda mais o rosto, diminuindo o espaço entre nós até ficar quase íntimo demais. — Por isso mesmo você não diz nada.

Ele não se afastou. Também não avançou. Apenas ficou ali, respirando mais rápido.

— Se eu quisesse mesmo — continuei, a voz baixa —, você já teria me mandado parar.

Levantei a mão devagar, como se fosse apenas ajeitar algo, e deixei os dedos pairarem perto do joelho dele — próximos o suficiente para serem sentidos, não tocados.

— Mas não mandou.

Rafa fechou os olhos por um instante. Quando abriu, parecia ainda mais perdido.

— Diego… — disse de novo, sem terminar.

Aproximei mais um pouco, o suficiente para que ele sentisse minha presença inteira.

— Calma — falei. — Não vou fazer nada que você não queira.

Dei uma pausa curta, carregada.

— Mas não finja que não sente.

Inclinei-me devagar, dando a ele tempo suficiente para recuar. Ele não recuou.

— Diego… — murmurou, a voz fraca, indecisa.

Foi o suficiente.

Segurei o rosto dele com firmeza e o beijei.

Não foi um beijo cuidadoso. Foi intenso, faminto, urgente demais para parecer apenas curiosidade.

Minha língua invadiu sem pedir licença, como se eu quisesse consumir cada hesitação que ainda restava nele. Rafa correspondeu por um instante

— curto, confuso — o corpo reagindo antes da cabeça.

A mão dele se moveu sem pensar, guiada mais pelo choque do que pela vontade.

Foi aí que ele entendeu.

O beijo cessou de repente. Rafa se afastou bruscamente, os olhos arregalados, o ar faltando. A realidade caiu inteira sobre ele, pesada demais para ser ignorada.

— Não… — disse, quase sem voz.

Abriu a porta do carro rápido demais, como se o espaço tivesse se tornado pequeno demais para respirar. Saiu cambaleando, sem olhar para trás, atravessando a entrada do prédio às pressas, como quem foge não de alguém — mas de si mesmo.

Fiquei ali, imóvel por alguns segundos, observando a porta se fechar atrás dele.

Respirei fundo.

Não o segui.

Liguei o carro com calma, um sorriso discreto se formando no canto da boca. Não era frustração o que eu sentia — era certeza.

Eu tinha ido longe o bastante.

Tinha atravessado a linha.

Tinha deixado a marca.

Enquanto me afastava, uma coisa era clara:

Rafa podia ter fugido…

mas agora ele sabia exatamente o que estava em jogo.

E isso, para mim, já era uma vitória.

Voltei para a casa dos meus pais com a sensação de dever cumprido. Encontrei Clara ainda animada, rindo alto, completamente entregue à noite que insistia em não acabar. Não foi difícil convencê-la a ir comigo. Ela confiava. Sempre confiou.

Seguimos para o meu apartamento sem pressa, embalados pelo resto da bebida e por uma intimidade que já não exigia explicações. Clara estava disponível, aberta, querendo mais — e eu ofereci exatamente isso.

Naquela noite, estive com ela de forma intensa, quase urgente. Mas, em nenhum momento, era realmente Clara quem ocupava meus pensamentos.

Enquanto seu corpo reagia ao meu, era o rosto de Rafa que eu via. A confusão no olhar, a resistência quebrada por segundos, o gosto do que quase aconteceu.

Clara estava ali.

Mas era Rafa quem eu via e queria, enquanto bombava com vontade, imaginava Rafa ali, era com ele que eu estava.

Quando tudo terminou, fiquei desperto por alguns minutos, encarando o teto no escuro. Um sorriso discreto se formou no meu rosto. Eu sabia: aquela noite não tinha sido um fim.

Tinha sido apenas o começo.

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Pessoal mais um cap entregue, agradeço quem estiver acompanhando, até a próximo cap e bom fim de semana a todos! S2 S2

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