“Conexão”
Sábado de manhã em Curitiba amanheceu com um sol tímido, daqueles que lutam contra as nuvens cinzentas e acabam vencendo por pouco. Tiago desceu para a cozinha ainda de pijama, o cabelo preto liso bagunçado, os olhos castanhos sonolentos mas com um brilho que não saía desde segunda-feira.
A mãe já estava na mesa, servindo café fresco. O pai, de camisa polo e calça jeans — pronto para o trabalho no escritório por algumas horas antes da reunião de obreiros à tarde —, folheava o jornal impresso que ainda assinava.
— Bom dia, filho — disse a mãe, sorrindo e colocando uma xícara na frente dele. — Dormiu bem?
— Bom dia, mãe. Dormi sim, que nem pedra — respondeu Tiago, sentando e pegando uma fatia de pão com manteiga.
O pai ergueu os olhos por cima do jornal.
— Que bom. Você tá com uma cara boa esses dias, hein? Tá estudando bastante?
Tiago assentiu, mordendo o pão.
— Tô sim, pai. As provas tão chegando, né? Mas tá tudo sob controle.
— Ótimo. Lembra de orar antes de estudar, filho. O Senhor dá sabedoria — o pai disse com aquele tom sereno de sempre, virando a página.
A mãe serviu suco de laranja.
— E hoje? Vai pro parque de novo?
— Vou, mãe. Como todo sábado. Leio um pouco, tomo ar fresco. Ajuda a cabeça.
— Faz bem — concordou ela. — Só não esquece de levar água, tá quente hoje.
Tiago terminou o café da manhã rápido, ajudou a lavar as poucas louças e subiu para trocar de roupa: moletom cinza, calça jeans confortável, tênis. Colocou a mochila nas costas com o livro, o fone de ouvido e uma garrafa d’água.
O parque ficava a quinze minutos a pé. Chegou lá por volta das dez, o lugar já tinha algumas famílias, corredores, gente passeando com cachorro. Tiago foi direto para sua árvore favorita: um ipê-amarelo grande, com sombra farta. Sentou no chão, encostado diretamente no tronco largo e áspero, abriu o livro — um romance coreano que tinha baixado no celular, mas impresso em papel porque gostava da sensação — colocou os fones e deu play na playlist de K-Pop.
A música começou: “Butter” do BTS, depois “Dynamite”, depois algo mais suave do Stray Kids. Ele mergulhou na leitura. O livro contava a história de um garoto tímido que se apaixonava pelo melhor amigo, um cara popular e confiante. As descrições eram delicadas, mas cheias de tensão: olhares roubados, toques acidentais, o coração acelerando. Tiago lia devagar, imaginando Johnny em cada cena. O jeito que o personagem principal se derretia quando o outro sorria. O medo de ser descoberto. O desejo que crescia em silêncio. Cada página fazia o peito dele apertar de um jeito bom. Ele se sentia visto. Como se o autor tivesse escrito sobre ele.
O celular vibrou no bolso. Mensagem.
“Oi, garoto. Tá livre agora? Podemos fazer uma chamada de vídeo rapidinho?”
Tiago sentiu o rosto esquentar na hora. Respondeu rápido.
“Tô no parque. Pode sim! Me chama.”
Segundos depois, o ícone do WhatsApp piscou. Chamada de vídeo.
Tiago aceitou, ajustou o fone para um só ouvido e virou o celular para que a câmera pegasse só o rosto e o tronco, escondendo o parque ao fundo.
A tela mostrou Johnny: careca reluzente, olhos azuis brilhando, sem camisa, provavelmente ainda na cama ou no sofá da sala de casa. Fundo claro, talvez o quarto dele.
— Oi, meu garoto — Johnny disse com aquele sorriso de lado, voz grave e rouca de quem acabou de acordar.
— Oi, diretor… — Tiago respondeu baixinho, olhando pros lados para ter certeza de que ninguém estava perto.
— Como tá a manhã aí?
— Boa. Tô no parque, debaixo da minha árvore de sempre. Ouvindo música, lendo um livro. E você?
Johnny riu baixo.
— Acordei agora. Fiz café, tô aqui de boa. Mas já pensando em você desde que abri o olho.
Tiago sorriu, mordendo o lábio inferior.
— Eu também. Não paro de pensar em ontem.
Johnny assentiu, o olhar suavizando.
— Eu sei. Foi intenso.
Silêncio confortável por um segundo.
Tiago respirou fundo.
— E… como tá o casamento? Quer dizer… você parece mais leve esses dias.
Johnny suspirou, passando a mão pela nuca.
— Tá complicado. A gente mal se fala. Ela viaja muito pro trabalho, eu fico aqui. Quando tá em casa, a gente discute por besteira. Não tem mais nada. Só rotina e silêncio.
Tiago sentiu uma pontada no peito.
— Por que você não se separa, então?
Johnny olhou direto para a câmera, sério.
— Porque ainda tem coisas práticas. A casa é dos dois, tem a família dela que é próxima da minha família… E tem o medo também. Medo de bagunçar tudo, de começar do zero aos 32 anos. Mas… tá chegando o ponto que eu não aguento mais fingir.
Tiago baixou o olhar, o ciúme subindo.
— Entendo. Mas… você ainda dorme com ela?
Johnny percebeu na hora o tom. Sorriu de leve.
— Ciumento, hein?
Tiago corou.
— Um pouco.
Johnny riu.
— Relaxa, garoto. Não. Faz meses que a gente não se toca. Nem beijo. É como se fosse colega de quarto.
Tiago soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
Johnny mudou de assunto, voz mais leve.
— E aí, como vai ser a gente agora? Me conta o que você quer.
Tiago pensou um segundo.
— Eu quero continuar. Quero te ver toda segunda e sexta. Quero… te conhecer mais. Não só o corpo. Quero saber das suas coisas, do que você gosta, do que te faz rir.
Johnny assentiu, o olhar ficando mais quente.
— Então vamos fazer assim. Vamos nos conhecer mesmo. Eu quero saber tudo sobre você também. O que você gosta de ler, que música ouve, o que sonha pro futuro. Quero saber quem é o Tiago de verdade, não só o garoto safado que me deixa louco na sala da direção.
Tiago riu, tímido.
— Eu gosto de K-Pop, de ler romance, de desenhar às vezes… Quero fazer faculdade de Letras ou Design. Quero morar sozinho um dia, ter minha vida.
— Gostei. E eu? Quer saber o que eu gosto?
— Quero tudo.
Johnny sorriu.
— Eu gosto de academia, de correr de manhã, de cerveja gelada no fim de semana. Gosto de filme de ação, de cozinhar (surpreendentemente bem). E… gosto de você. Muito.
Tiago sentiu o coração disparar.
— Eu também gosto de você. Muito.
Eles ficaram se olhando pela tela por alguns segundos, só sorrindo.
— Segunda chega rápido — Johnny disse por fim.
— Mal posso esperar.
— Então guarda energia, meu garoto. Vai precisar.
A ligação terminou com um “beijo” sussurrado dos dois lados.
Tiago guardou o celular, encostou a cabeça no tronco da árvore e fechou os olhos, o sorriso não saindo do rosto.
Continua…