— Eu preciso ir.
As palavras saíram num tom mais baixo do que eu imaginava, quase como se meu corpo estivesse tentando diminuir o impacto do que tinha acabado de acontecer.
Arthuro não pareceu surpreso.
— Tudo bem — respondeu com naturalidade. — A gente continua se falando.
Assenti com a cabeça.
— Tá bom, mas…
Antes que eu completasse, ele inclinou levemente o corpo para frente e abriu um sorriso largo, desses que ele sabia usar muito bem. Um sorriso escancarado, provocador, quase desarmante. O tipo de sorriso que não dizia nada, mas dizia tudo.
— Mas…? — provocou.
Eu ri, sem graça, e bati de leve com a mão aberta no peito dele, como quem pede trégua.
— Não. Nada. Deixa.
Ele riu também. Um riso solto, satisfeito.
A gente se despediu sem mais palavras. Sem abraços. Sem outro beijo. Cada um seguiu para um lado da rua, caminhando, porque nossas casas já estavam próximas dali.
O trajeto era curto, mas a minha cabeça… essa parecia ter quilômetros.
O primeiro pensamento veio pesado.
O Arthur.
O irmão do Arthuro.
Tudo que tinha acontecido nos últimos dias, as tensões, os silêncios, as conversas interrompidas.
Eu ainda preciso conversar com o Arthur, pensei.
Mas não agora. Não hoje.
Logo depois, outro nome atravessou minha mente.
Yan.
Soltei um suspiro involuntário.
Meu Deus… onde eu fui me colocar?
Ainda tem o Yan.
As camadas da minha vida pareciam se sobrepor sem pedir licença. Emoções, responsabilidades, desejos, passado e futuro disputando espaço dentro de mim.
E então, como se minha mente fosse irônica, voltei a pensar no que tinha acabado de acontecer minutos antes.
No beijo.
No sorriso.
No jeito como Arthuro me olhou.
Sem perceber, deixei escapar um sorriso curto.
— O Arthuro… — murmurei para mim mesmo, balançando a cabeça.
Quando dei por mim, já estava chegando em casa.
Cumprimentei meus pais na sala, trocando algumas palavras rápidas.
— Vou tomar um banho rápido e já volto pro jantar — avisei.
Já devia estar perto das sete da noite.
Subi para o quarto quase no automático.
Entrei no banheiro, fechei a porta e, finalmente, fiquei em silêncio.
Tirei a roupa sem pressa.
Nu, parei diante do espelho por alguns segundos.
Observei meu corpo com um olhar diferente — não de vaidade excessiva, mas de reconhecimento. Ombros firmes. Abdômen marcado, o tanquinho em dia. As linhas do corpo bem definidas, resultado de disciplina e rotina.
Passei a mão pelo próprio abdômen, distraído.
Notei a marca mais clara do bronzeado, o contraste da pele onde o sol não alcançava tanto.
Sorri para mim mesmo.
— Ah… ainda dá pro gasto — murmurei, quase rindo.
Liguei o chuveiro.
A água caiu quente, escorrendo pelos ombros, pelas costas, pela cabeça. Fechei os olhos por um instante, deixando que o barulho abafasse os pensamentos — embora eles insistissem em voltar.
Eu ainda tenho que arrumar tudo isso.
Arrumar essa bagunça que eu chamo de vida.
Ri sozinho, baixo.
Depois do banho, me enrolei na toalha na cintura, passei outra no cabelo, secando de qualquer jeito. O cheiro do sabonete ainda pairava no ar.
Foi quando o celular tocou.
Peguei sem olhar, mas quando vi a tela, senti o estômago dar um leve salto.
Yan.
Chamada de vídeo.
Atendi.
— Nossa… — a voz dele veio acompanhada de um sorriso visível. — É assim que você atende todas as chamadas de vídeo?
Olhei para a tela, percebendo tarde demais que estava apenas de toalha.
Fiquei levemente constrangido, mas ri.
— Oi, Yan… — respondi. — Como é que você tá? Como foi seu dia?
— Normal, como os outros — disse ele. — Eu te liguei porque queria te ver. Saber como você tá. Como foi o seu dia.
Saí do banheiro e fui até o quarto, apoiando o celular em um lugar mais estável. Continuei sem camisa, a toalha ainda na cintura, enquanto secava o cabelo com a outra.
Conversamos sobre coisas simples. A rotina. O trabalho. Pequenos detalhes do dia a dia.
Enquanto eu falava, percebi o olhar dele. Não era disfarçado. Yan me observava com atenção, demorando mais do que o necessário.
— Você sabe que eu já tô sentindo saudade desse corpo, né? — comentou, num tom meio brincalhão, meio sério.
Fiquei sem jeito.
— Calma aí… — disse, rindo, virando o celular um pouco para baixo. — Um minuto.
Corri até o guarda-roupa, vesti uma cueca branca e um short de academia também branco. Voltei ainda sem camisa.
Quando reapareci na tela, ele sorriu.
— Essa cor clara te favorece — comentou.
— Para… — respondi, sem graça.
A conversa seguiu leve. Rimos bastante. Ele comentou sobre o meu quarto, disse que eu tinha bom gosto.
— Eu tenho bom gosto — concordei, entrando na brincadeira.
Yan arqueou a sobrancelha.
— Você me escolheu.
A frase caiu diferente.
Senti um pequeno peso no peito. Um silêncio breve se instalou.
Mudamos de assunto logo depois, mas a palavra ficou ali, ecoando.
Antes de desligar, ele comentou:
— A gente podia fazer alguma coisa no próximo fim de semana.
Pensei rápido antes de responder.
— Eu não sei como vai ser… Na próxima semana antecede minha nomeação do concurso. Talvez eu precise resolver algumas coisas. Mas, se for pra fazer algo, talvez no sábado. A gente pode se organizar. Vai ser legal te reencontrar.
Piscar de olhos. Um sorriso cúmplice.
— Vai ser muito bom te reencontrar — ele respondeu.
Ficamos nos olhando por alguns segundos, trocando sorrisos silenciosos, até a chamada se encerrar.
O quarto voltou ao silêncio habitual. Um silêncio diferente daquele de antes, como se o ar ainda estivesse carregado de palavras não ditas, de olhares que atravessaram a tela.
Fiquei alguns segundos parado, olhando para o celular apagado na mão.
Respirei fundo.
Guardei o aparelho sobre a cômoda, vesti uma camiseta leve e desci as escadas em direção à sala de jantar. O cheiro da comida já tomava a casa, aquele aroma familiar que sempre me trazia uma sensação de pertencimento, de chão firme.
— Chegou bem na hora — minha mãe disse, colocando a última travessa sobre a mesa.
Sentei-me. Meu pai já estava acomodado, mexendo distraidamente no guardanapo.
O jantar foi tranquilo. Risadas leves, comentários soltos sobre o dia, pequenas histórias que não exigiam esforço emocional. Era confortável estar ali. Simples.
Em determinado momento, minha mãe apoiou os cotovelos na mesa e me olhou com mais atenção.
— E então, filho… — começou, num tom calmo. — Você já decidiu como vai ser agora, depois da aprovação no concurso?
Engoli um pedaço de comida antes de responder.
— Já… mais ou menos — falei. — Hoje eu conversei com o Jonas, o coordenador acadêmico. A gente ajustou algumas coisas. Decidi manter os dois colégios por enquanto, mas com uma carga horária mais organizada. Dá pra conciliar com o início da nomeação, sem me sobrecarregar tanto.
Meu pai assentiu, satisfeito.
— Ótima decisão — disse. — Você sempre soube pensar no longo prazo. Ajustando a rotina, tudo vai se encaixar.
— É o que eu espero — respondi, sorrindo de leve.
Terminamos de jantar, recolhemos os pratos. Enquanto ajudávamos a tirar a mesa, senti aquela vontade antiga, quase infantil, de falar com a minha mãe. De me abrir sem filtros.
Olhei para ela e falei, meio hesitante:
— Mãe… você tem um tempo pra gente conversar? Só nós dois?
Ela me olhou surpresa, mas sorriu.
— O que foi, garoto? — disse. — Tem tempo que você não me chama pra conversar assim.
— É… tem muita coisa acontecendo.
Ela virou-se para meu pai.
— Danilo, vai adiantando as coisas aí. Vou ali fora com o nosso filho.
Meu pai sorriu de canto.
— Já imaginei — respondeu. — Vão lá.
Saímos para a frente de casa. A noite estava agradável. Sentamos lado a lado, no degrau da porta. O barulho distante da rua misturava-se com aquele silêncio confortável entre mãe e filho.
Respirei fundo antes de começar.
— Mãe… você acha que, com a idade que eu tenho hoje… quase vinte e três anos… as coisas ficam mais intensas? — perguntei.
— Porque eu sinto que existe um turbilhão acontecendo ao mesmo tempo. Mesmo quando eu tento fugir de coisas do meu passado, elas sempre voltam. E parece que eu tô sempre à beira de fazer escolhas que, muitas vezes, eu nem sei se quero fazer.
Ela riu baixinho, com ternura, e levou a mão até o meu rosto.
— Isso é o mais natural da vida, meu filho — disse. — Sempre vai acontecer. Olha o exemplo do concurso. Você ficou dividido entre continuar onde estava ou ajustar tudo.
Quando saiu de casa hoje, depois da conversa com aquele rapaz… como é o nome mesmo?
— Jonas.
— Isso. Depois da conversa com o Jonas, você optou por ficar nos dois colégios. A vida é isso: adaptação constante.
Levantei-me um pouco, caminhando dois passos à frente, enquanto ela permanecia sentada.
— Eu entendo… mas não tô falando do profissional — falei. — Tô falando da minha vida romântica. Você sabe que isso nunca foi minha prioridade, mas parece que tá tudo acontecendo ao mesmo tempo.
Ela riu de novo, dessa vez com um suspiro.
— Ah, filho… essa talvez seja a parte mais complicada da vida. E tá tudo bem falhar às vezes. A gente nem sempre vai ser forte, nem sempre vai ser exemplo em tudo.
Assenti.
— O problema é quando a gente é visto como exemplo o tempo todo — respondi. — Como se tivesse uma vida perfeita.
Ela me olhou com atenção.
— Bernardo, meu filho… você sempre foi cativante — disse. — Pelo foco, pela dedicação, pela postura. Seja pra mim, pro seu pai, ou pra quem convive com você. Mas isso não te tira o direito de errar. Ninguém vai te julgar por isso.
Olhei para o chão por alguns segundos.
— Será que não, mãe?
Ela foi firme.
— Claro que não. Todo mundo tem o direito de acertar e errar. E já faz um tempo, né? — completou, com cuidado. — Desde que você terminou seu último relacionamento… já passou mais de um ano.
— É… passou rápido — respondi.
— Então talvez seja bom você se permitir — disse ela. — Ter alguém. A vida pode ser muito solitária sozinho. E você tá vivendo um período de conquistas. Nada mais justo do que compartilhar isso com alguém.
Suspirei.
— Será, mãe? — murmurei. — Eu já me machuquei tanto… e ainda carrego esse peso de ser um homem gay.
Ela se levantou de imediato, o olhar sério.
— Filho, nunca diga isso como se fosse um peso — repreendeu, com carinho. — Nunca foi e nunca será. Por isso que eu e seu pai sempre te aceitamos. Pelo contrário, isso é motivo de orgulho pra gente.
Senti os olhos marejarem.
Abracei minha mãe com força.
— Obrigado… — sussurrei. — Obrigado por ser minha mãe.
Nesse momento, meu pai apareceu na porta.
— Posso mandar vocês entrarem? — brincou. — Já tá tarde e eu já terminei tudo aqui.
Sorri.
— Estratégia perfeita — respondi. — Chamar minha mãe pra conversar foi a melhor forma de fugir da louça.
Rimos.
Entramos. Desejamos boa noite. Subi direto para o quarto.
Deitei na cama, o corpo cansado, a mente ainda cheia.
Peguei o celular.
O brilho da tela iluminou meu rosto enquanto meus olhos passeavam pelas notificações.
Respirei fundo.
Uma delas me chamou atenção imediatamente.
Jonas.
Franzi levemente a testa.
— Ué… o Jonas?
Abri a conversa. Havia um áudio. Logo abaixo, um print de tela com uma imagem que ainda não analisei com atenção. Dei play.
A voz dele surgiu baixa, tranquila, com aquele tom que misturava cuidado e uma certa proximidade recém-descoberta.
“Oi, Bernardo, boa noite.
Desculpa o horário… e a intimidade também.
Hoje de manhã a gente conversou sobre trilhas, praia, esse rolê mais natureza…
E eu achei isso aqui.”
— Parei o áudio por um segundo, sorri de canto. Voltei.
“É uma trilha que dá numa praia. E como você disse que gosta bastante de praia…
Eu confesso que fiquei interessado.
Acho que antes da sua rotina mudar, seria um bom momento pra isso.”
Meu olhar desceu automaticamente para o print. Uma trilha recortando o verde, o caminho estreito levando até uma faixa de areia clara, o mar azul abrindo no horizonte.
O áudio continuava.
“Você mesmo brincou dizendo que eu tava um pouco pálido…
Então acho que o objetivo agora é tentar ficar bronzeado, né?
Do jeito que você gosta.”
Sorri de forma involuntária.
“Dá uma olhada com calma.
Se você se animar, a gente organiza direitinho pro fim de semana.
Abraço. Se cuida. Até amanhã.”
Fiquei alguns segundos com o celular apoiado no peito, olhando para o teto.
— Ele tá mesmo interessado em fazer essa trilha… — murmurei. — Ou talvez… interessado em mais coisas do que só a trilha.
Abri o chat para responder. Digitei algumas frases, apaguei. Digitei de novo. Suspirei.
— Não… melhor áudio.
Apertei o botão de gravar.
“Jonas, boa noite.
Fica tranquilo, não tá atrapalhando não.
Eu não conhecia essa trilha… confesso que me animou.”
Parei, pensei, continuei.
“Dei uma olhada rápida aqui e vi que a praia não costuma ser tão cheia.
Acho que fazer a trilha primeiro e depois chegar na praia faz todo sentido.
Dá aquela sensação de recompensa.”
Sorri sozinho.
“Praia eu nunca dispenso.
Uma boa companhia, então… melhor ainda.
Amanhã a gente se vê no trabalho e organiza isso direitinho.
Boa noite.”
Enviei.
Poucos segundos depois, apareceu a notificação: 👍
Logo abaixo, uma mensagem simples:
Boa noite.
Bloqueei a tela por um instante, respirei fundo.
Abri novamente.
Havia outra notificação. Yan.
Uma mensagem curta, desejando boa noite. Respondi no automático, com o mesmo cuidado. Não houve retorno.
O quarto voltou a ficar silencioso.
Coloquei o celular de lado, as mãos atrás da cabeça, encarando o teto. Minha mente começou a desfilar tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Conversas, olhares, beijos, possibilidades.
Quando o celular vibrou novamente.
Peguei.
Arthur.
Tá acordado?
Digitei quase de imediato.
Tô sim. Aconteceu alguma coisa?
A resposta veio rápida.
Não, não. Nada aconteceu.
Eu só queria conversar um pouco contigo.
Te atrapalha ou você já vai dormir?
Sorri.
Não atrapalha. Ainda tenho um tempo.
O que foi?
Nada muito sério, ele escreveu.
Queria saber como você tá.
Como foi seu dia.
E… o que você tá esperando agora com esse concurso todo.
A conversa começou a fluir.
— Meu dia foi intenso — escrevi. — Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Trabalho, decisões… e a sensação de que nada tá exatamente no lugar ainda.
Ele respondeu quase como se estivesse falando.
Eu imagino.
Mas você sempre soube lidar bem com pressão.
Desde a escola.
Sorri com a lembrança.
— Às vezes eu só pareço saber — respondi. — Por dentro é tudo meio bagunçado.
Acho que todo mundo é assim, ele escreveu.
Só que nem todo mundo admite.
A conversa seguiu leve. Falamos do dia dele, da rotina, de pequenas coisas. Até que, sem aviso, surgiu a notificação:
Visualização única.
Meu coração deu um leve salto.
Abri.
A imagem surgiu na tela.
Arthur estava sem camisa. O corpo claro, bem definido, a linha do abdômen marcada de forma natural, aquele desenho suave que descia pela lateral da cintura. A cueca aparecia baixa, sem exageros, deixando evidente mais sugestão do que exposição. A pele parecia quente sob a luz amarelada do quarto. O enquadramento não era vulgar — era íntimo.
Logo abaixo, a legenda:
Tá quente essa noite. 😈🔥
Senti meu corpo reagir antes mesmo de formular um pensamento.
Ri, desacreditado.
— Arthur… — murmurei, passando a língua pelos lábios.
Um calor conhecido se espalhou devagar. A respiração ficou mais consciente. Pensamentos atravessaram minha mente, rápidos, maliciosos, quase indesejados.
Fechei a imagem.
Digitei.
— Você não existe — escrevi, tentando brincar, tentando manter o controle.
A resposta veio quase instantânea.
Existo sim.
E sei exatamente o efeito que isso tem em você.
Engoli em seco.
Ainda estava de lado na cama, o celular apoiado na palma da mão, quando a tela voltou a vibrar.
Dessa vez, não era uma mensagem.
Era uma chamada de vídeo do Arthur.
Meu coração deu um salto involuntário.
— Arthur… — murmurei, antes mesmo de atender.
Atendi.
O rosto dele apareceu quase imediatamente. O quarto estava mal iluminado, a luz morna criando sombras suaves no corpo dele. Arthur parecia completamente à vontade — deitado, encostado na cabeceira, os cabelos levemente bagunçados, a expressão aberta, quase tímida, mas com aquele sorriso que sempre denunciava mais do que ele dizia.
— Eu espero não estar te atrapalhando — ele disse, com a voz baixa, quase cuidadosa. — Mas… eu queria ver o seu rosto.
Sorri de leve.
— Não tá atrapalhando — respondi. — Eu só tava pensando em algumas coisas.
Ele riu, daquele jeito curto, meio envergonhado.
— Eu também. E… isso é meio bobo, eu sei.
Observei melhor a imagem dele. Arthur estava visivelmente mais despojado agora. O corpo relaxado, a postura solta. Havia algo de íntimo naquela cena, como se eu estivesse sendo convidado para um espaço que não era exatamente físico, mas emocional.
— Você já tá no seu quarto? — perguntei.
— Tô, sim. — Ele assentiu. — Subir as escadas foi tranquilo… ficar lá embaixo no sofá é que não dá. É desconfortável.
— E o quarto do Arthuro… — completou, rindo. — Bom, é o quarto do Arthuro.
— É… — ri junto. — O quarto do Arthuro.
Houve um breve silêncio. Um desses silêncios que não são vazios — são carregados.
Arthur inclinou levemente a cabeça, me observando pela tela com atenção demais.
— É assim que você dorme? — perguntou.
Franzi a testa, provocando.
— Ué… como eu dormiria?
Ele sorriu de canto.
— Tá calor. A noite tá quente. E você aí… de camisa.
Suspirei, fingindo desinteresse.
— Acho que eu sei onde você quer chegar.
Levei a mão até a barra da camisa e, sem pressa, tirei-a. Não foi um gesto exibido — foi natural. Ainda assim, senti o ar tocar a pele, o corpo responder, a consciência do próprio movimento se acender.
Do outro lado da tela, Arthur reagiu imediatamente. O olhar mudou.
— Agora tá bem melhor — ele disse. — Essa é a visão que eu queria ter.
Inclinei levemente o rosto.
— A visão que você queria ter… é só eu sem camisa?
Ele deu uma risada baixa.
— Bom… como a gente tá distante, acho que isso funciona por enquanto.
— Por enquanto? — repeti. — E o que você tem em mente?
Antes que ele respondesse, percebi meu próprio corpo reagindo. Um calor subindo devagar, a respiração um pouco mais funda, aquele estado conhecido entre controle e entrega.
Arthur se ajeitou na cama, como se estivesse procurando a melhor posição. O celular balançou levemente.
— Você fala como se nunca tivesse feito isso — ele provocou.
— Isso o quê? — perguntei, sabendo exatamente do que ele falava.
— Me dá um minuto — disse ele, de repente.
A tela virou para baixo por um instante. Ouvi um ruído distante, como uma porta sendo fechada. Meu coração acelerou. Quando a imagem voltou, Arthur estava mais próximo da câmera. O enquadramento havia mudado. Não mostrava mais o rosto inteiro — era um recorte mais íntimo, mais ousado, carregado de intenção.
Ele sorriu.
— Isso aqui.
Engoli em seco.
— Arthur… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Você já tá assim?
Ele riu, sem desviar a câmera.
— Não o tempo todo. Só quando tem um motivo.
— Ou alguém… que eu tô desejando bastante.
Meus lábios se entreabriram, quase sem perceber.
— Você tá me desejando tanto assim?
A resposta veio sem hesitação.
— Eu quero continuar aquilo que a gente começou.
Desviei o olhar por um segundo, tentando organizar os pensamentos. Quando voltei a encarar a tela, ele ainda estava ali, esperando.
Arthur estava parado na frente da câmera, aqueles olhos claros penetrantes fixos em mim, aquele sorriso de canto de boca que já me conhecem bem provocando.
— Merda, ele é ainda mais gostoso do que eu lembrava.
Com as pernas um pouco afastadas. A mão grande e forte estava utilizando seus dedos longos e delicados brincando com a barra da cueca. Ele estava provocando, sabe que gosto de ver cada detalhe daquele corpo perfeito.
— Com uma voz rouca, que me deixa ainda mais excitado. — Você está uma gracinha hoje. Adoro quando fica assim, todo nervoso e ansioso em me ver.
— Vai se foder, Arthur — respondi com uma risada baixa, sacudindo a cabeça. — Você sabe exatamente o que está fazendo comigo, seu puto. Porra, como você é gostoso.
— Eu sei exatamente o que estou fazendo com você, Ber... — Retrucou com um sorriso de canto de boca, aqueles lábios cheios e rosados se curvando de forma provocativa. — E gosto de ver você assim, todo excitado e pronto... pronto para muita coisa que ainda vai acontecer!
— Cala a boca, Arthur — Rosnei, sentindo meu pau latejar dentro da bermuda. — Você é um filho da puta provocador. Sabe que me deixa com tesão fazendo isso.
Tesão? — Zombou, erguendo uma sobrancelha. — Eu posso ver o quanto você está com tesão? Ber... — Quero ver o volume do seu pau dentro da bermuda. Você deve está duro feito uma rocha, não está? Está todo excitado, todo ansioso por minha causa,
— Eu quero te foder com força até eu não aguentar mais. Te fazer gritar meu nome, te deixar engasgando no meu pau. Quero te deixar completamente à minha mercê, completamente no meu controle. Eu quero te dominar, Bernardo. Quer te possuir por completo, quero estar dentro de você!
— Você é um safado provocador, Arthur — murmurei, sentindo meu pau latejar ainda mais intensamente.
— Você quer me desafiar, quer me provocar até eu não aguentar mais. Você quer que eu perca o controle...
— Eu quero continuar aquilo que a gente começou! Novamente Arthur exclamou essa frase.
Desviei o olhar por um segundo, tentando organizar os pensamentos. Quando voltei a encarar a tela, ele ainda estava ali, esperando.
— E quando a gente vai continuar? — ele perguntou, a voz mais grave.
Fechei os olhos por um instante.
— Arthur… — respirei fundo. — Não precisa responder isso agora.
Abri os olhos e encarei a câmera.
— Vamos fazer… o que a gente tem vontade agora.
Ele não disse nada. Apenas inclinou o celular, mudando novamente o enquadramento, deixando claro que aquela conversa já tinha ultrapassado qualquer linha de retorno.
E naquele instante, eu soube: aquela noite não seria apenas mais uma.
Por um segundo, eu não entendi o que estava vendo — apenas senti o impacto. O enquadramento deixou de ser o rosto do Arthur e desceu, mais baixo, mais íntimo, mais direto. Meu corpo reagiu antes mesmo de qualquer pensamento racional.
Arthur havia virado a câmera.
O que apareceu na tela foi o corpo dele entregue à própria intenção. A postura aberta, as pernas firmes, fortes, bem marcadas. A pele clara contrastando com as sombras do quarto. O enquadramento não precisava ser explícito para ser absolutamente claro no que comunicava: era uma oferta, um convite silencioso e deliberado.
Ele estava nu.
Não havia pressa no gesto, nem exagero. Apenas a certeza. O corpo relaxado, pesado contra a cama, a respiração visível no movimento lento do abdômen. Uma das mãos repousava sobre a própria coxa, num gesto quase casual — mas carregado de significado demais para ser inocente.
Meu estômago contraiu.
— Arthur… — murmurei, sentindo a garganta secar.
Do outro lado da tela, a voz dele veio baixa, quente, sem hesitar:
— Deixa eu ver você.
— Quero ver como você tá agora.
Engoli em seco.
— A gente vai cruzar um limite — falei, mais como constatação do que como alerta.
Ele riu. Um riso curto, rouco.
— A gente já cruzou esse limite faz tempo, Ber.
— Eu quero você.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu também quero você.
Mas ele não me deixou continuar.
— Não tem mais “mas”. — A voz dele ficou mais firme. — Você já sabe disso.
A câmera se moveu levemente. O
enquadramento mudou de novo. Arthur levou a mão até o próprio corpo, num gesto lento, consciente, sem pressa alguma. Não era apenas desejo — era intenção. Era entrega.
— Olha como eu tô — ele disse, quase num sussurro. — Isso aqui… é por você.
Corta pra imagem do Arthur... — Com sua mão grande e forte envolvendo seu pau extremamente duro e grosso e cheio de veias, subindo e descendo num ritmo lento. As coxas musculosas e definidas se contraíam progressivamente com cada movimento, os músculos saltando sob a pele clara.
— É o que você me provoca.
Meu corpo respondeu imediatamente. Um calor intenso subiu pelo peito, pelas costas, pelas pernas. Respirei fundo, tentando manter algum controle que já estava se desfazendo.
— Um momento — falei.
Abaixei o celular.
O mundo ao redor ficou distante enquanto eu me desfazia da pouca roupa que ainda me separava daquela entrega. Cada movimento parecia amplificado — o tecido deslizando, o ar tocando a pele, a consciência do próprio corpo acordando inteiro.
Voltei a erguer o celular.
Troquei a câmera.
Quando a imagem reapareceu para ele, não era mais meu rosto. Era meu corpo, oferecido do mesmo jeito — sem pressa, sem medo, sem volta.
— É assim que você queria me ver? — perguntei, a voz baixa, firme, carregada.
Houve um silêncio do outro lado.
Um silêncio pesado.
E então, o sorriso dele apareceu novamente na tela — não o sorriso leve de antes, mas aquele que carrega desejo, reconhecimento e uma promessa implícita de continuidade.
Nada mais precisava ser dito.
O limite já tinha ficado muito para trás.