Os últimos dias na praia passaram sem sobressaltos depois daquele começo estranho, que eu preferi atribuir ao cansaço e à minha própria insegurança. Tudo entrou num ritmo confortável. Manhãs de sol, tardes longas, conversas na areia, banho de mar para refrescar. Nada pareceu mais fora do lugar.
Bruno e Lívia, aos poucos, deixaram de fingir que eram só companhia eventual um do outro. Não houve anúncio, nem conversa formal. Simplesmente passaram a se comportar como um casal, do jeito deles. Dormiam juntos, saíam juntos, mas sem aquela aura de compromisso que eu conhecia. Nada de planos, nada de promessas. Era como se ambos tivessem feito um acordo silencioso: aproveitar enquanto fosse leve.
— A gente se entende. — Bruno disse uma noite, abrindo uma cerveja. — Sem cobrança. Sem drama.
Lívia concordou, encostada nele, tranquila demais pra alguém que estivesse “começando algo sério”.
— Responsabilidade afetiva é importante. — Ela comentou, sem ironia. — Mas nem toda relação precisa carregar isso o tempo todo.
Achei curioso o jeito como ela falou. Profissional, quase clínico, enquanto Mariana ouvia com atenção. Não como quem discorda, mas como quem absorve.
Eu não me metia. Nunca fui de opinar sobre a forma como os outros vivem. Bruno sempre foi livre demais para se encaixar em qualquer modelo tradicional, e Lívia parecia confortável naquela dinâmica solta, sem rótulos.
Eles se tocavam com naturalidade. Beijos rápidos, mãos que se encontravam sem pedir licença. Nada escondido. Nada exagerado. Uma intimidade funcional.
— Vocês dois combinam. — Mariana comentou certa vez, sincera.
Bruno riu.
— Não é questão de combinar. A gente só não atrapalha um ao outro.
Aquilo ficou na minha cabeça mais tempo do que eu esperava.
Quando a viagem chegou ao fim, voltamos com aquela sensação de férias bem aproveitadas. Nada quebrado. Nada mal resolvido. Se havia algo fora do lugar, estava tão bem acomodado que não fazia barulho.
Bruno e Lívia continuaram se vendo depois. Não como namorados no sentido clássico, mas como duas pessoas que escolhiam estar juntas quando queriam. Às vezes sumiam por dias. Às vezes apareciam de mãos dadas em algum encontro do grupo. Mariana e Lívia acabaram construindo uma amizade próxima.
As primeiras semanas com a Mariana após a volta da praia tinham um ritmo próprio. Não eram intensas no sentido barulhento da palavra. Eram contínuas. Como algo que se instala devagar e, quando você percebe, já faz parte da vida, se torna confortável e indispensável.
Lembro de como passei a deixar coisas em seu apartamento antes mesmo de a gente decidir qualquer coisa. Uma camisa esquecida “sem querer”. A escova de dentes que apareceu no copo do banheiro como se sempre tivesse estado ali.
— Não precisa trazer roupa toda vez. — Ela disse um dia, simples. — Você já fica mais aqui do que na sua casa. Já até liberei uma parte do guarda-roupa para você.
Eu ri, mas não discordei. Gostava daquela sensação de pertencimento silencioso. De não precisar pedir espaço. De não precisar disputar atenção. Aos poucos, fui me instalando definitivamente.
Mariana era carinhosa de um jeito tranquilo desde o começo. Me deixava livre para ser eu mesmo, para ter meu próprio espaço quando queria ficar sozinho, não fazia cobranças além do meu limite. Eu me encaixava fácil naquele papel.
Bruno continuava presente. Às vezes passava “só pra dar um oi”. Às vezes aparecia com alguma história do trabalho, alguma confusão nova. Outras vezes, simplesmente se jogava no sofá e ficava ali, como se aquele também fosse o espaço dele.
— Vocês dois são muito certinhos. — Ele provocava. — Isso aí é amor ou contrato?
Mariana ria.
— É paz. — Ela respondia. — Coisa que você não sabe sustentar.
Ele levantava as mãos, rendido, mas o sorriso nunca sumia.
Com o tempo, comecei a notar que ela falava com o Bruno de um jeito diferente do que falava comigo. Não melhor. Não pior. Só... diferente. Mais solta. Menos cuidadosa. Como quem não precisa medir palavras.
Eu dizia a mim mesmo que era normal. Eles se conheciam há mais tempo. Ele tinha sido o elo entre nós. Havia uma intimidade prévia ali que eu não precisava problematizar. E, honestamente, eu nem queria.
Havia noites em que eu chegava cansado demais para qualquer coisa além de tomar banho e deitar. Mariana se aproximava, me abraçava por trás, beijava meu ombro.
— Dorme. — Ela sussurrava. — Amanhã é outro dia.
E eu dormia.
Em outras, quando o desejo vinha mais forte da parte dela, eu correspondia... do meu jeito. Sem pressa, sem urgência, sem improviso. Eu sempre fui assim. Metódico. Constante. Seguro.
Ela nunca reclamou. Nunca diretamente. Mas eu comecei a perceber pequenos silêncios depois. Olhares que se perdiam por alguns segundos a mais. Um suspiro contido. Nada que desse pra apontar como problema, só o suficiente para gerar dúvida. E dúvida, quando nasce sem que o outro a externe, costuma se esconder bem.
Naquela fase, eu ainda acreditava que amor era presença. Que lealdade era rotina. Que quem está sempre ali... não vai a lugar nenhum.
Mal sabia eu que algumas pessoas não saem. Elas apenas aprendem a ficar invisíveis.
Certo dia, eu estava no quarto, com o notebook aberto sobre a mesa improvisada, tentando adiantar relatórios que ficaram acumulados por causa da minha frustração. O som do teclado preenchia o espaço, abafando o resto da casa. Achei que estivesse sozinho, mas logo percebi que Mariana tinha chegado. E não estava só.
As vozes vieram da sala, primeiro baixas, depois mais soltas, à medida que a conversa avançava. Não era minha intenção ouvir. Mas, quando percebi, já era tarde demais para fingir que não estava escutando.
— Então vocês não são... exclusivos? — Mariana perguntou, curiosa, sem malícia.
— Não! — Lívia respondeu com naturalidade. — Nunca fomos.
Fechei o notebook devagar, mais por instinto do que por interesse.
— E funciona? — Mariana insistiu.
— Funciona porque é combinado. — Lívia disse. — Nada escondido. Nada pelas costas. A gente escolhe o que pode, o que não pode. Sem mentira.
Houve uma pausa curta.
— E o ciúme? — Mariana perguntou.
Lívia riu divertida.
— Ciúme é construção. A gente aprende a lidar quando para de tratar o outro como posse.
Fiquei parado, encostado na cadeira, ouvindo.
— Eu e o Bruno nunca fomos feitos para aquele modelo fechado, tradicional. — Lívia continuou. — A gente se gosta, se deseja... mas sem obrigação de preencher tudo um no outro.
Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
— Deve ser libertador. — Ela disse, por fim. — Não ter que corresponder o tempo todo.
O comentário foi leve. Quase distraído. Mas algo nele me atingiu em cheio.
— É. — Lívia concordou. — Liberta. Principalmente quando você gosta de alguém, mas sente que falta alguma coisa.
Meu estômago apertou. Houve risadas depois, copos brindando, o som de alguém se levantando do sofá. Foi aí que me dei conta de que eu tinha parado de trabalhar há minutos.
Elas não sabiam que eu estava ouvindo. Não havia segredo. Não havia sussurro. Era só conversa franca. Talvez fosse por isso que me incomodou tanto.
Eu estava prestes a abrir o notebook de novo quando resolvi anunciar minha presença. Não por necessidade, talvez por incômodo.
— Amor... tô em casa. — Gritei do quarto, e minha voz ecoou pelo corredor até a sala.
O silêncio que veio depois foi curto, mas denso demais para passar despercebido. Em seguida, ouvi passos apressados e o som de algo sendo colocado às pressas sobre a mesa. Mariana apareceu na porta do quarto com um sorriso que demorou meio segundo a mais do que o normal para se formar.
— Achei que você ia demorar mais. — Ela disse.
— Consegui adiantar tudo. — Respondi, observando sem parecer observar.
Atrás dela, Lívia surgiu, já pegando a bolsa.
— Bom... acho que vou indo. — Ela disse, animada demais para uma despedida tão rápida. — O Bruno deve estar me esperando.
Ela me deu um beijo no rosto, educado, rápido demais e abraçou Mariana, que a acompanhou até a porta.
Quando Mariana voltou, o clima estava diferente. Não pesado. Mas suspenso.
— Você quer tomar um banho? — Ela perguntou. — Eu vou preparar alguma coisa pra gente comer.
Assenti, me levantando e pegando a toalha. Não queria confronto. Não naquele momento.
No chuveiro, deixei a água cair mais quente do que o necessário, tentando organizar pensamentos que insistiam em se misturar. Não era ciúme. Nem raiva. Era algo mais difícil de nomear. A sensação de ter ouvido algo que não era proibido, mas que também não era para mim.
Quando saí, o cheiro de comida simples preenchia a cozinha. Mariana estava de costas, mexendo algo na frigideira. Parecia calma.
Parecia.
— Ricardo... — Ela chamou, sem se virar.
— Oi.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Você ouviu o que eu estava conversando com a Lívia mais cedo? — A pergunta veio direta demais para ser casual.
Encostei no balcão, sentindo o peso do momento se formar entre nós.
— Ouvi um pouco. — Respondi, sincero. — Não era minha intenção.
Ela desligou o fogão, finalmente se virando para mim. O olhar não era acusatório. Era cauteloso.
— E... isso te incomodou? — Havia mais na pergunta do que parecia.
Não era só sobre Lívia. Nem sobre Bruno. Era sobre nós.
Fiquei em silêncio por um instante longo demais para ser confortável.
— Eu ainda tô tentando entender. — Admiti.
Mariana assentiu devagar, como se já esperasse por aquela resposta.
— Eu também. — Disse ela, em voz baixa.
O assunto ficou ali, pairando entre nós. Não avançou. Não recuou. Às vezes, a primeira rachadura não faz barulho. Ela só muda a forma como a gente pisa em gelo fino depois.
{...}
De volta ao presente:
A noite passou sem que eu percebesse exatamente quando começou ou terminou. O concreto frio da cela, o zumbido distante das vozes, o piscar intermitente da luz no corredor... tudo se misturou num sono raso, fragmentado, feito de pensamentos que não me deixaram relaxar.
Quando acordei, já era dia. A claridade pálida entrava pelas grades altas, desenhando sombras compridas no chão. Meu corpo doía, não de pancada, mas de cansaço acumulado. A cabeça pesada, como se tivesse passado a noite inteira tentando montar um quebra-cabeça sem imagem de referência.
Foi o som dos passos que me trouxe de volta.
— Você tem visitas.
Fui levado para a mesma sala de interrogatório do dia anterior. Eu me sentei cabisbaixo, desanimado.
— Ricardo... — Levantei o rosto no mesmo instante. Minha mãe estava ali.
Ela se aproximou rápido, ignorando o ambiente, as regras não ditas daquele lugar. Meu pai vinha logo atrás, sério como sempre, mas com os olhos vermelhos, cansados demais para disfarçar qualquer coisa.
Minha mãe segurou minhas mãos entre as dela, apertando forte.
— Isso é um absurdo. — Disse, com a voz firme, apesar do tremor. — Um absurdo completo.
Meu pai pousou a mão no meu ombro.
— A gente sabe quem você é, filho. Sempre soubemos.
Engoli em seco. Aquilo doeu mais do que qualquer acusação.
— Eu... — Tentei falar, mas a voz falhou. — Eu não sei nem explicar direito o que aconteceu.
— Não precisa. — Minha mãe cortou, olhando direto nos meus olhos. — Você nunca precisou provar nada pra gente.
Meu pai assentiu.
— Se isso tudo é uma confusão, ela vai se esclarecer. Isso é um mal-entendido, Ricardo. E vai passar.
Respirei fundo, tentando manter algum controle.
— A Mariana... — Comecei, hesitante.
— Nós vamos cuidar dela. — Minha mãe disse, sem me deixar terminar. — Ela não vai ficar sozinha. Se precisar, vai pra casa com a gente. Vai ter apoio, carinho... tudo.
Meu pai completou, com a calma de quem sempre foi meu chão:
— Ela é família. E a família não abandona ninguém no meio da tempestade.
Minha mãe não largava minhas mãos. Os dedos frios, apertando como se tivesse medo de que eu desaparecesse se soltasse por um segundo.
— Você não imagina o que é acordar e receber uma ligação daquelas. — Ela disse, com a voz embargada. — A gente cria um filho para vê-lo preso por algo que ele não fez?
Meu pai pigarreou, dando um passo para o lado, como se precisasse de espaço para respirar. Cruzou os braços, postura firme, quase militar. Era o jeito dele de se manter inteiro.
— Sua mãe está certa. — Ele disse, num tom controlado demais. — Isso não fecha. Nada disso fecha.
Ele olhou ao redor, avaliando o ambiente, os detalhes, como se estivesse em uma cena de crime.
— Você não teria motivo. Não teria método. Não teria... — Ele parou, respirando fundo. — Não teria perdido o controle assim.
O silêncio que veio depois foi pesado. Minha mãe levou a mão ao rosto, enxugando as lágrimas sem se importar em disfarçar.
— Eu só queria poder te tirar daqui. — Ela sussurrou. — Te levar pra casa, fazer um café, fingir que isso tudo foi um pesadelo.
— Vai passar, mãe. — Menti, tentando confortá-la. — Tem que passar.
Meu pai se aproximou mais, abaixando o tom.
— O advogado vem mais tarde. Ele ligou pra mim. Disse que surgiram novas informações.
— Boas? — Perguntei.
Ele hesitou. Pouco. Mas hesitou.
— Informações... — Respondeu. — E a gente vai enfrentar isso como sempre enfrentou tudo. De frente.
Minha mãe me abraçou então, forte, sem dizer mais nada. Um abraço longo demais para um lugar como aquele. Quando se afastou, seus olhos estavam vermelhos, mas decididos.
— Cuida da sua cabeça, Ricardo. — Ela tentou me animar. — Não deixe esse lugar te engolir.
Um oficial apareceu na porta.
— Desculpa, mas tá na hora. Abri uma exceção por serem seus pais. Por ser você, Ricardo.
Eles foram embora alguns minutos depois. Meu pai saiu primeiro, ereto, digno, carregando nos ombros um peso que não admitiria em voz alta. Minha mãe olhou para trás uma última vez antes de desaparecer pelo corredor. Quando a porta se fechou, o vazio voltou.
O resto da manhã se arrastou. Almoço frio. Perguntas burocráticas. Um guarda que evitava me olhar nos olhos. Outro que parecia curioso demais.
Eu sabia que o advogado voltaria à tarde. E sabia, no fundo do estômago, que aquilo não seria para me trazer alívio.
Quando finalmente me chamaram, o relógio marcava pouco depois das quatro. O sol já não entrava direto pelas janelas altas. O dia começava a morrer lá fora.
O advogado entrou com uma pasta mais grossa. Seu olhar era tenso.
— Ricardo. — Ele disse, sentando-se à minha frente, abrindo a pasta devagar. — As coisas estão... se complicando.
Meu coração afundou. O advogado respirou fundo antes de continuar. Não era mais o tom cauteloso de antes. Era o tom de quem já tinha visto aquele filme muitas vezes.
— Surgiram novas evidências.
Ele espalhou as fotos e capturas de tela sobre a mesa metálica.
— Da agência de vocês. Dos corredores e do estacionamento do prédio comercial.
Inclinei o corpo para frente, analisando uma a uma.
— Os horários... — Murmurei.
— Batem. — Ele confirmou. — Com as câmeras do prédio onde você mora. Cada deslocamento seu naquele dia está mapeado.
Meu estômago se revirou.
— Não há lacunas. — Ele continuou. — Nenhum intervalo sem registro. Do momento em que você sai da agência até o momento em que a vítima entra no seu prédio.
— Isso não prova que eu o matei. — Retruquei.
— Não. Mas constrói uma linha perfeita — respondeu. — E é isso que a promotoria precisa.
Ele puxou outra foto.
— A faca.
Reconheci no mesmo instante.
— Essa faca é minha. — Falei, sentindo a garganta secar. — Faz parte do conjunto lá de casa. Eu e a Mariana compramos juntos.
— As impressões digitais são suas. — Disse ele, direto. — E o laudo confirma que a arma do crime veio da sua cozinha.
Fiquei em silêncio. É claro que a faca da minha casa teria minhas digitais.
Ele me observava com mais atenção. Avaliando. Pesando.
— Ricardo. — Disse, apoiando os cotovelos na mesa. — Eu preciso que você seja honesto comigo.
— Eu estou sendo. — Respondi, mais ríspido do que pretendia.
— Eu já defendi culpados e inocentes. — Ele continuou, sereno. — Não é meu papel julgar. Mesmo que você seja culpado, eu não abandono a sua defesa. Mas sem a verdade, eu não consigo montar uma estratégia eficaz.
Meu sangue ferveu.
— Você está insinuando o quê? — Questionei. — Está me chamando de mentiroso?
— Estou dizendo que, com os elementos que temos, a promotoria vai pintar você como alguém que perdeu o controle. — Ele explicou. — Um confronto que saiu do eixo.
Levantei da cadeira num impulso.
— Eu não lutei com ninguém! — Rosnei. — Eu não esfaqueei ninguém!
Ele não se moveu. Não elevou a voz. Apenas me encarou.
— Eu sei que isso ofende. — Ele disse. — Mas eu não estou aqui pra te agradar. Estou aqui pra te manter vivo juridicamente. Se foi você, podemos alegar legítima defesa. Existe todo um histórico entre vocês dois que podemos ter como base.
Respirei pesado, tentando conter a raiva.
— Tudo está contra mim. Não sou idiota. — Falei, mais baixo.
— O cerco está se fechando. — Ele confirmou. — E quando isso acontece, talvez a estratégia de assumir a culpa seja mais eficaz.
O silêncio que se seguiu foi esmagador. Não eram só as provas, as evidências, a polícia, ou mesmo a promotoria. Era o mundo inteiro me empurrando para um lugar onde eu nunca estive. O lugar do culpado.
Depois que o advogado foi embora, fui conduzido de volta à cela. O corredor parecia mais estreito do que antes. Ou talvez fosse eu que estivesse menor por dentro.
Sentei no banco de concreto e fiquei ali, parado, olhando para nada por um tempo longo demais. Pela primeira vez desde que tudo começou, a esperança vacilou. Não sumiu, ainda não, mas ficou fraca, como uma chama exposta ao vento.
Senti falta da Mariana. Uma falta física, quase dolorida. Parte de mim queria vê-la entrar por aquela porta, mesmo que em silêncio. Mas outra parte entendia. Ela tinha cedido o lugar aos meus pais. Era justo. Era correto. Mesmo assim, o vazio pesava.
Eu ainda estava detido na delegacia, não tinha sido transferido. Ser ex-policial ajudava. Os carcereiros me tratavam com respeito, alguns até com camaradagem contida. Um aceno de cabeça aqui, um “força aí” sussurrado ali. Pequenos gestos que não resolviam nada, mas lembravam quem eu tinha sido.
À noite, me entregaram a marmita. Arroz, feijão e carne dura demais. O cheiro metálico da tampa ainda estava quente.
— Posso fazer uma ligação? — Perguntei ao carcereiro, um conhecido, que vinha me tratando com gentileza.
Ele me olhou por um segundo, avaliando.
— Rápido. — Ele me entregou o próprio celular.
O telefone parecia mais pesado do que deveria quando o peguei. Disquei de memória e chamou duas vezes.
— Agência Ribeiro & Costa, boa noite.
— Sou eu, o Ricardo.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— Ricardo... — A voz soou aliviada. — Aqui é o Mateus.
Mateus. Meu braço direito. Organizado, metódico, do tipo que anotava tudo duas vezes.
— Como estão as coisas aí? — Perguntei, para quebrar o gelo.
— Uma loucura. — Ele respondeu. — O Bruno está coordenando tudo. A equipe inteira está mobilizada. Todo mundo tentando ajudar, levantar informações, falar com contatos...
— Eu sei. — Interrompi. — E agradeço.
Ele hesitou.
— Mas você não ligou só pra isso, né?
Fechei os olhos por um instante.
— Não. Mateus, eu preciso que você faça algo pra mim. E isso tem que ficar só entre nós.
O tom da minha voz fez ele entender na hora.
— Claro.
— Comece a fazer cópias de tudo. — Eu disse, pausadamente. — Imagens, documentos, registros de horários, depoimentos, contatos de testemunhas... qualquer coisa que você julgar relevante.
— Tudo? — Ele confirmou.
— Tudo. E não comenta com ninguém. Nem com o Bruno. Nem com a equipe.
Do outro lado da linha, o silêncio foi mais longo.
— Entendi — Ele disse, por fim. — Vou manter tudo separado e protegido. Com backup físico e digital.
— Ótimo. — Respondi. — Guarda bem. Pode ser que eu precise disso mais à frente.
— Ricardo... — Ele começou, mas parou. — Você acha que...
— Eu não sei o que eu acho. — Cortei. — Só sei que, se eu não posso sair daqui para olhar as coisas com meus próprios olhos, alguém precisa fazer isso por mim.
— Eu faço. — Disse ele, firme. — Pode confiar.
— Eu confio.
Agradeci, me despedi e desliguei.
Fiquei alguns segundos segurando o telefone desligado, como se ainda pudesse ouvir algo. Devolvi o telefone e voltei para o banco de concreto com a marmita nas mãos. A comida já não importava tanto.
Desde a prisão, de tudo o que aconteceu, minha cabeça estava estranhamente clara. Talvez tudo estivesse contra mim. Talvez o cerco estivesse mesmo se fechando. Mas eu ainda era um investigador. E ninguém arma um jogo perfeito sem deixar, em algum lugar, uma peça fora do lugar.
Depois de falar com o Mateus, o silêncio voltou a me envolver. A cela parecia menor à noite. Mais quieta. Mais propícia a pensamentos que a gente passa a vida inteira empurrando para o fundo.
Sozinho novamente com meus pensamentos, as lembranças do passado voltaram à minha mente...
{...}
8 anos atrás:
Eu lembrava bem do começo.
Recém-formado, farda ainda dura, cheia de vincos, eu acreditava — de verdade — que ser oficial da polícia militar significava liderar, proteger, fazer diferença. Tinha estudado, me preparado para aquilo. Achava que comandar era, antes de tudo, dar exemplo.
A realidade foi outra. Ser novato, mesmo como oficial, me colocou numa posição estranha: eu tinha patente para chefiar, mas não tinha poder real algum. Na prática, eu era massa de manobra dentro de um sistema antigo, viciado, que não gostava de perguntas nem de gente que levava o regulamento a sério demais.
As ordens vinham prontas. Questionar era visto como insubordinação. Apontar irregularidades era “falta de jogo de cintura”. E eu nunca soube jogar aquele jogo.
Cada dia de serviço arrancava um pouco do idealismo que eu tinha levado para dentro da corporação. Eu via decisões sendo tomadas por conveniência, não por justiça. Por lucro, não por profissionalismo. Via colegas fechando os olhos para abusos pequenos — depois médios, depois grandes — sempre com a desculpa de que “é assim que funciona”.
Enquanto isso, Bruno... florescia. Ele entendia aquele ambiente como poucos. Sabia exatamente o que dizer, para quem sorrir, quando se fazer de aliado. Sua lábia abria portas que minha conduta impecável jamais conseguiu abrir. Em pouco tempo, ele era convidado para rodas onde eu nunca entrava. Era o queridinho dos superiores. Era visto como “promissor”.
Eu, não. E não demorou para começarem a me escantear.
Primeiro vieram as escalas menos interessantes. Depois, funções administrativas. Arquivos, relatórios, setores burocráticos que não mudavam absolutamente nada na vida do cidadão comum. Era uma forma elegante de me manterem ocupado... e longe. Eu obedecia. Mas cada dia ali me corroía por dentro.
Até que veio o escândalo. Estávamos completando o segundo ano e a vida deu uma guinada de cento e oitenta graus.
Bruno foi envolvido em um esquema de propina grande demais para ser ignorado. Licitações, favores, dinheiro circulando onde não deveria. O nome dele apareceu rápido. Manchetes, investigação interna, pressão.
Eu sabia que Bruno não era santo. Nunca foi. Mas também não era o cabeça daquele esquema. Ele tinha sido usado. Um bode expiatório conveniente para proteger um superior muito mais poderoso, muito mais bem relacionado.
Quando o castelo começou a ruir, empurraram tudo nas costas dele. A corporação fechou fileiras. Ninguém falou nada. Ninguém viu nada e o que veio depois não saiu nos jornais. Foi abafado pelo próprio sistema.
Bruno recebeu dinheiro. Muito dinheiro. Uma quantia alta o suficiente para garantir silêncio, distância e obediência. O acordo era simples: ele assumiria a culpa formalmente, pediria demissão sem criar problemas e deixaria o assunto morrer ali. Em troca, o sistema o protegeria de algo maior. Nenhuma denúncia criminal avançaria. Nenhuma investigação externa prosperaria.
Nomes importantes foram apagados dos registros. Testemunhas estratégicas simplesmente sumiram. Relatórios foram reescritos. Bruno virou o bode expiatório perfeito, e aceitou o papel. Não por covardia. Mas por sobrevivência.
Quando tudo veio à tona, ele já estava fora da corporação. Oficialmente manchado. Extraoficialmente... bem recompensado para manter a boca fechada.
Eu vi aquilo tudo de perto. E, ao contrário do que muitos pensariam, não me choquei. Não daquela vez. E o que aconteceu com o Bruno foi o empurrão que eu precisava.
Problemas diferentes, soluções iguais.
Aquele ambiente já tinha me esgotado. Dois anos enterrados na burocracia policial, no lado oposto do sistema, mantendo meus valores e caráter, tinham me ensinado mais do que qualquer curso de formação: eu tinha talento para encontrar o que estava escondido. Para ligar pontos que não queriam ser ligados. Para enxergar o que as pessoas faziam de tudo para manter fora da luz.
Quando Bruno me procurou, já ambos fora da Polícia, pois eu aproveitei a situação para pedir dispensa também, a ideia surgiu quase sem esforço.
Com o dinheiro do silêncio, ele financiou nosso novo começo: a agência de detetives.
Para ele, era uma forma de agradecer. Um gesto quase altruísta com o amigo, o irmão, que não o tinha abandonado quando todos os outros viraram o rosto. Um jeito de transformar a própria queda em algo produtivo.
Para mim era oportunidade. Onde outros veriam vergonha, eu vi liberdade. Onde outros veriam fracasso, eu vi espaço para fazer o trabalho do jeito certo, sem hierarquia podre, sem jogo de bastidores, sem ordens absurdas.
Bruno pode ter deixado a polícia se sentindo derrotado, um fracasso, mas eu não. E no fim, nós a deixamos porque tínhamos aprendido demais sobre como ela realmente funcionava. E aquele conhecimento acabaria sendo útil.
Os planos para a agência tomaram forma rápido demais para parecer improviso. Em poucas semanas, o espaço estava alugado, as salas pintadas, os computadores instalados. Um nome simples, direto. Um lugar pequeno, mas funcional. Nosso.
A inauguração foi discreta. Nada de placa chamativa, nada de anúncio. Só nós, Mariana e Lívia, nossos pais, alguns contatos estratégicos e garrafas de uísque barato sobre a mesa ainda sem gavetas.
Eu estava animado. Solto. Parecia mais leve do que jamais tinha sido na polícia. Bruno já parecia recuperado.
— Agora sim. — Ele disse, erguendo o copo. — Sem farda, sem chefe, sem relatório maquiado. — Brindamos.
Mas ainda havia um elefante na sala. E eu sabia exatamente qual era: a conversa entre Mariana e Lívia, ainda martelando meus pensamentos.
Mais tarde, quando a comemoração já tinha virado conversa solta, puxei Bruno para a varanda improvisada dos fundos. O barulho da rua chegava abafado.
— Preciso te contar uma coisa. — Falei.
Ele arqueou a sobrancelha, curioso.
— Manda.
Contei sobre a conversa que ouvi sem querer entre Mariana e Lívia. Sobre o tom baixo demais, íntimo demais. Sobre a palavra que tinha criado raízes na minha mente: relação liberal.
Bruno ouviu tudo com atenção. Sem surpresa. Sem choque. Quando terminei, ele sorriu debochado.
— Cara... — Ele balançou a cabeça, quase rindo. — A Lívia é um achado.
— Um achado? — Repeti.
— Mulher desapegada. — Ele explicou, com naturalidade demais. — Sabe o que quer. Não faz drama. Aceita dividir.
Aquilo me incomodou mais do que eu esperava.
— Dividir... como? — Perguntei, já meio irritado.
Ele deu de ombros.
— Do jeito que funciona. Cada um com sua liberdade. Sem posse, sem cobrança exagerada.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso do que ainda não tinha sido dito.
— E os direitos? — Perguntei, por fim. — São iguais?
Bruno me encarou. O sorriso mudou. Ficou mais lento. Mais malicioso.
— Que graça teria se não fosse?
O jeito como ele disse aquilo não era provocação gratuita. Era convicção.
— Não sei se isso é pra mim. — Falei.
— Não precisa ser. — Ele respondeu. — Mas também não precisa te assustar. Às vezes a gente só descobre o que quer depois que para de fingir que não quer nada.
O silêncio voltou a se instalar entre nós. Lá dentro, risadas. O som de copos se chocando. O nascimento oficial da nossa nova vida profissional.
Eu brindei com ele mais uma vez naquela noite. À agência. Ao futuro. Mas, no fundo, eu já sentia... algumas portas, quando abertas, não fecham mais do mesmo jeito. E algumas perguntas, não gostam de ficar sem resposta.
Continua...
