O Sítio Boa Vista ficava encravado entre morros pedregosos e mandacarus que pareciam vigiar a estrada de terra. Ali, o tempo corria no ritmo da enxada de Zé, um homem de poucas palavras e pele curtida, que saía antes do sol nascer para cuidar da plantação de subsistência no fundo da propriedade e só retornava quando as sombras das árvores já tinham sumido no breu.
A alma do lugar, porém, era Maria Flor.
Aos 35 anos, ela era o que o povo da região chamava de "cabocla legítima". Sua pele tinha o tom de mel queimado, fruto de anos sob o sol do agreste, e seus cabelos eram de um preto tão profundo que reluziam em tons azulados sob a luz. Ela os mantinha compridos, quase sempre presos em uma trança grossa que balançava contra suas costas enquanto ela varria a varanda ou polia os móveis pesados da "Casa Grande".
Maria Flor possuía uma beleza sólida e silenciosa. Tinha ombros largos de quem carregava baldes, quadris generosos que o vestido de chita mal conseguia disfarçar e pés fortes, acostumados a pisar na terra, mas que ela protegia com chinelos de couro cru feitos sob medida. Na juventude, os rapazes da vila faziam fila na quermesse apenas para vê-la passar, mas Maria nunca fora de "conversas". Casou-se cedo, mergulhou no trabalho e guardou sua exuberância atrás de uma fachada de seriedade e devoção ao lar.
Naquela semana, porém, o silêncio do sítio foi quebrado. Um grupo de jovens da capital alugara a casa para uma celebração de formatura. Maria Flor passava os dias organizando a cozinha e trocando lençóis, ouvindo de longe o som de batidas eletrônicas e risadas estridentes que vinham da área da piscina. Ela via os jovens como criaturas de outro mundo, especialmente um rapaz chamado Lucas, que parecia ser o centro das brincadeiras, sempre "caçando" alguém para fazer cócegas, arrancando gargalhadas escandalosas das moças e rapazes do grupo.
Maria apenas sorria de canto e continuava seu trabalho, sem imaginar que aqueles dedos ágeis e urbanos já tinham notado a tensão nos seus ombros e a curva sensível dos seus calcanhares quando ela subia as escadas.
O Sítio Boa Vista fervilhava com uma energia que Maria Flor não compreendia. Para ela, a casa era um templo de ordem; para os jovens da capital, era um palco de liberdade. Enquanto ela circulava pelos cômodos com seu balde e panos de flanela, o som das caixas de som vibrava nas janelas de madeira antiga.
No centro daquela bagunça organizada estava Lucas. Ele era diferente dos outros; não bebia tanto, mas parecia ter uma bateria inesgotável para a diversão. Maria Flor o observava da janela da cozinha enquanto ele corria atrás de uma das moças, pegando-a pela cintura e fazendo-a desabar na grama em um ataque de risos histéricos.
— "Esse povo da cidade é tudo doido, Zé," — ela comentou com o marido naquela manhã, enquanto ele afiava a enxada.
— "Deixa eles, Flor. Pagando o aluguel, podem rir até o sol se pôr," — respondeu Zé, sem levantar os olhos, antes de marchar para o roçado.
Mas Lucas não era apenas "doido". Ele era um observador. Enquanto Maria Flor estendia os lençóis brancos no varal, o vento soprava o vestido de chita contra o corpo dela, revelando as formas de uma mulher poderosa. Lucas notava como ela se encolhia ligeiramente quando um galho seco encostava em seu pescoço, ou como seus pés, protegidos pelos chinelos de couro cru, pareciam ter uma vida própria, com os dedos se contraindo quando ela pisava em uma pedra mais pontuda.
Havia um mistério naquela cabocla séria que Lucas queria desvendar. Ele percebeu que Maria Flor nunca participava das brincadeiras. Ela era a "autoridade", a dona da casa que mantinha a distância. E foi justamente esse ar de intocável que despertou o instinto de tickler no rapaz. Ele sabia, por experiência, que as pessoas mais sérias e contidas guardavam os reflexos mais explosivos.
Naquela manhã de terça-feira, o grupo decidiu fazer um passeio até a cachoeira próxima, mas Lucas fingiu uma dor de cabeça leve para ficar no sítio. Ele sabia que Maria Flor estaria na Casa Grande, fazendo a limpeza pesada dos armários do andar superior.
O silêncio finalmente caiu sobre o sítio, restando apenas o som das cigarras e o ruído abafado de Maria Flor arrastando cabides no quarto principal. Lucas subiu as escadas de madeira, degrau por degrau, sem fazer barulho. Pela fresta da porta, ele a viu: Maria Flor estava na ponta dos pés, com os braços erguidos para alcançar a prateleira mais alta do armário. O vestido subira um pouco, revelando as curvas das panturrilhas bronzeadas e a base dos calcanhares que saíam dos chinelos de couro.
Ela estava totalmente distraída, cantarolando um hino antigo, vulnerável em sua própria fortaleza. Lucas sorriu, esfregou as mãos silenciosamente e avançou.
Maria Flor estava concentrada, esticando o corpo para alcançar uma pilha de edredons. A posição deixava o tecido do vestido esticado sobre suas costelas, revelando a linha do sutiã e a pele firme das laterais do tronco. Foi nesse momento que as mãos de Lucas, rápidas como o bote de uma jararaca, atacaram.
Ele não hesitou: mergulhou os dedos longos exatamente nos vãos das costelas dela e começou um movimento vibratório e insistente.
— "AI! VALE-ME DEUS! HAHAHAHA!" — O grito de Maria Flor foi um estouro de surpresa. Ela deu um solavanco para o lado, derrubando um dos travesseiros. — "O QUE É ISSO, MOÇO? HAHAHA! PARA! HIHIHIHI!"
Ela tentou se esquivar, mas Lucas era ágil. Ele aproveitou o desequilíbrio dela e, com um empurrão firme mas cuidadoso, a fez cair de costas na cama de casal. Maria Flor afundou no colchão macio, os cabelos longos se espalhando como um manto escuro sobre o lençol. Antes que ela pudesse se levantar, Lucas se ajoelhou na beira da cama, prendendo as laterais do corpo dela com os braços.
— "Moço, pelo amor de... HAHAHAHA! EU NÃO AGUENTO! HA-HA-HA-HA!" — Ela convulsionava, as mãos tentando inutilmente segurar os pulsos de Lucas, que agora atacava suas axilas e a barriga com movimentos circulares.
Mas o objetivo dele era outro. Enquanto ela se contorcia, Lucas esticou a mão e, com um puxão seco, arrancou os chinelos de couro cru dos pés dela, jogando-os no chão com um baque surdo.
Pela primeira vez em anos, os pés de Maria Flor estavam expostos e vulneráveis diante de um estranho. Eram pés de uma beleza rústica e impecável: solas morenas, com arcos altos e pele firme, mas que escondiam uma sensibilidade elétrica. Lucas não perdeu tempo. Ele agarrou os tornozelos dela e cravou as pontas dos dedos exatamente no centro daquelas solas bronzeadas.
— "NÃO! NOS PÉS NÃO! HAHAHAHA! AÍ NÃO, PELO AMOR DE DEUS! HA-HA-HA-HA-HA!" — Maria Flor deu um grito agudo, o corpo arqueando na cama.
O riso dela agora era um som que ela mesma não reconhecia: um som de puro desespero e alegria incontrolável. Seus pés começaram a chutar o ar em espasmos frenéticos. Lucas usava as unhas para "riscar" levemente a pele carnuda dos calcanhares e depois mergulhava os dedos entre os vãos dos dedos dos pés dela.
— "SOCORRO! HAHAHA! EU VOU MORRER! HIHIHIHI! SOLTA MEUS PÉS! HA-HA-HA-HA-HA!" — Maria Flor estava vermelha, o suor brilhando em sua testa. Seus dez dedinhos abriam e fechavam como se estivessem desesperados para fugir do ataque impiedoso de Lucas.
Foi nesse exato momento, enquanto o quarto ecoava com as gargalhadas histéricas da cabocla e o som dos chutes dela contra o colchão, que a porta se escancarou. O grupo de jovens tinha voltado mais cedo — e eles não pareciam surpresos, mas sim ansiosos para participar.
A porta do quarto bateu contra a parede com um estrondo, mas o som foi abafado pela torrente de risos de Maria Flor. Três ou quatro jovens do grupo entraram, os rostos iluminados por uma euforia travessa ao presenciarem a cena da séria e respeitada cabocla sendo "dobrada" por Lucas.
— "Olha só! O Lucas pegou a Dona Maria!" — gritou uma das moças, com uma risadinha cúmplice.
Sem precisarem de convite, eles se aproximaram da cama como uma onda. Maria Flor, que já estava sem fôlego apenas com Lucas, arregalou os olhos em pânico cômico ao ver aquele cerco se fechar.
— "Não! Povo... HAHAHA! Me deixem! HIHIHIHI! É muita gente! HA-HA-HA-HA!"
O ataque tornou-se orquestrado e implacável. Duas moças se posicionaram nas laterais, mergulhando os dedos nas costelas e na cintura de Maria Flor, explorando as dobrinhas que o vestido de chita agora revelava. Outro rapaz, rindo da situação, segurou os braços dela acima da cabeça, expondo totalmente as axilas morenas e úmidas ao ataque de Lucas, que continuava a dedilhar a pele sensível dali com uma agilidade diabólica.
Mas o foco principal continuava sendo os pés. Com as pernas imobilizadas pelo peso de dois deles, as solas bronzeadas de Maria Flor ficaram totalmente à mercê. Lucas alternava entre as axilas e as solas, enquanto outra moça usava as pontas das unhas para "dedilhar" a curva sensível dos joelhos dela.
— "A-HA-HA-HA-HA-HA! SOCORRO! EU VOU MORRER DE RIR! HAHAHAHA!" — O som que saía de Maria Flor não era mais apenas uma risada; era um som gutural, contínuo, um êxtase físico que ela nunca experimentara.
Seu corpo forte e trabalhador se contorcia em ondas. Ela sentia dedos em todos os lugares: na barriga, nos vãos dos dedos dos pés, na nuca e nas laterais do tronco. Era uma sobrecarga sensorial completa. Cada vez que ela tentava puxar o ar, um novo ataque nas solas fazia seus pulmões expulsarem o fôlego em novas gargalhadas histéricas.
— "PAREEEEM! HAHAHAHA! EU NÃO... HIHIHI... EU NÃO AGUENTO MAIS! HA-HA-HA-HA-HA!" — Suas lágrimas de riso molhavam o travesseiro. Os dedos dela, das mãos e dos pés, estavam esticados em máxima tensão, vibrando com cada toque.
Ela estava no centro de um furacão de dedos e mãos, sentindo-se, pela primeira vez na vida, o centro de uma atenção vibrante e caótica. A "tortura" das cócegas havia rompido sua barreira de seriedade, transformando a dona de casa recatada em uma massa de espasmos e alegria pura, totalmente entregue ao domínio daqueles forasteiros.
No ápice do delírio, quando Maria Flor sentia que sua consciência ia se dissolver em puro riso, Lucas levantou a mão esquerda. O gesto foi sutil, mas o grupo reagiu com uma disciplina quase coreografada. Em um milissegundo, o ataque cessou. As dezenas de dedos que exploravam suas solas, costelas e axilas recuaram simultaneamente.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração ruidosa e entrecortada de Maria Flor. Ela ficou imóvel, estirada na cama de casal como se tivesse sido atingida por um raio. Suas bochechas estavam cor de brasa, e os cabelos pretos, agora totalmente soltos e bagunçados, colavam na testa suada.
Sem dizer uma única palavra, Lucas se levantou. Ele deu um sorriso de canto, um olhar de "missão cumprida", e caminhou em direção à porta. Os outros jovens o seguiram em fila, em um silêncio absoluto e quase solene, como se estivessem saindo de um ritual. A porta se fechou com um clique suave, deixando Maria Flor sozinha com o tique-taque do relógio de parede.
Ela permaneceu deitada, os olhos fixos no teto de madeira. Seus pés, ainda nus e expostos, pulsavam. Ela sentia um formigamento elétrico que subia das solas rosadas, passava pelos joelhos e se instalava no centro do seu peito.
— "Meu Deus do céu..." — sussurrou ela, a voz saindo falha.
Ela tentou se sentar, sentindo os músculos do abdômen doloridos pelo esforço das gargalhadas. No início, ela quis sentir raiva. Mas, ao olhar para seus chinelos de couro jogados no chão, um sentimento diferente — e muito mais potente — a inundou.
Era uma leveza desconhecida.
Anos de seriedade, de trabalho pesado sob o sol e de silêncios com o marido pareciam ter sido lavados por aquela torrente de risos incontroláveis. Aquela "tortura" havia arrancado dela uma casca dura, revelando uma Maria Flor que ela mesma não conhecia: uma mulher vibrante, sensível e, estranhamente, livre. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia apenas a "dona da casa" ou a "mulher de Zé". Ela se sentia viva em cada centímetro de sua pele morena.
Ela se levantou devagar, calçou seus chinelos de couro com um novo respeito pela própria sensibilidade e caminhou até o espelho. Viu uma mulher de olhos brilhantes e lábios ainda trêmulos de um riso residual. Algo dentro dela tinha sido libertado naquele quarto, e o agreste lá fora nunca mais pareceria tão silencioso quanto antes.