Psicólogo aposentado. Sessenta e cinco anos. Gay. Solitário por opção. Não bonito, simpático – que é uma gentil forma de dizer “feio”. Na verdade, de pouco ou nada me servem mais a pretensa beleza, charme ou gostosura que eu possa ter tido um dia, já que minha sexualidade – ao fim e ao cabo, o único propósito por que alimentamos esses conceitos – está nos estertores.
Ainda ministro aulas na graduação de Psicologia, da UFSCar – hobby. Turmas de novatos: pouco mais que adolescentes deslumbrados com a universidade e com o curso – pelo menos até que o mercado de trabalho os faça mudar. De ideia e de curso.
Uma dinâmica de quebra-gelo, no primeiro encontro: “Entrevista íntima” – vale qualquer pergunta, sobre qualquer assunto, mas o perguntado tem a prerrogativa de não responder se não quiser, sem dar explicação ou justificativa. Quase ninguém usa esse recurso, loucos que estão para se desnudarem logo de saída. Cravam-me também questões as mais melindrosas – não fujo de nenhuma, e isso os incentiva a encarar também os questionamentos, e a intimidade vai se formatando desde então.
Alfredo Júnior tem o rosto mais delicado, os olhos mais verdes, e o sorriso (quando sorri) mais jovial que já vi. Na apresentação, involuntariamente já causou: estava fazendo dezoito no primeiro dia de aula. Palmas, ruídos, assovios e parabéns pra você. Cara de menino...
Rolando os encontros seguintes, AJr (adotara, frescamente, essa forma de identificação) mostrou-se atento ouvinte, aplicado leitor, competente questionador. Rolou empatia entre nós, e as discussões com ele estendiam-se invariavelmente para além-aula, corredores, cantina, zap... Não demorou muito que enveredasse pelos traumas, conflitos e indecisões do jovem –sentia-se atraído por rapazes, mas o armário ainda trancado a sete chaves. Virou uma espécie de meu paciente extraoficial.
Não deve surpreender o leitor, como a mim não causou espanto, quando, um belo dia, depois de uma pausa em um de seus desnudamentos psicológicos, olhou para meu rosto e disse, cheio de cuidados e com o branco rosto vermelhando, que achava estar sentindo algo mais forte por mim.
Muni-me de todos os argumentos que formam o kit de um momento como este e comecei a desfiar: estava substituindo a figura do pai, sempre ocupado com o trabalho; o tempo que passávamos em conversa, a intimidade surgida de nossos papos, poderiam o estar confundindo as coisas; o fato de ele ser meu aluno criava um empecilho profissional; minha propensão à solidão; e, o mais óbvio de todos, eu tinha mais de três vezes a sua idade – nem eu, que sempre me achei meio “papa-anjo”, conseguia conceber ter alguma coisa com aquele fedelho.
AJr rebateu cada um dos argumentos. Eu já me preparava para sacar a segunda saraivada de razões, mais fortes, mais incisivas, mas comecei a me sentir sem muita convicção. Cacete, eu estava curtindo o fato de ainda inspirar algum tipo de sentimento afetivo em minhas plenas seis décadas e meia, e mais ainda, num pivete ainda cheirando a leite. Resolvi mudar de tática: aceitar mas colocar dificuldades – qualquer reação dele, desistência ou insistência, me deixaria bem.
– Tudo bem, AJr... Podemos tentar, mas precisamos acertar alguns detalhes antes de qualquer coisa.
– Uma lista de condições... Massa. Pode falar! – o fresco tinha tendências ao cinismo.
– Não assumiremos nada, socialmente. A “etáriofobia” e sua condição de aluno são estresses que não desejo.
– Tudo bem. Apesar de estarmos sempre conversando, e isso já é bandeira suficiente...
– Não quero exclusividade, cada um continua vivendo sua vida afetiva com quem desejar (na verdade, essa regra se aplicava mais ao fato de ele não “grudar” muito em mim, sabendo-se livre para outros casos, outros cus, outras rolas... quem sabe até alguma buceta.)
– Certo, sem cobranças. Diga mais...
Diabos! Nada mais me acorria:
– Só isso, por enquanto...
– Também tenho minha lista de condições.
– Ok, manda!
– Estou apaixonado por você e sei que na sua experiência de vida, um relacionamento afetivo necessariamente tem sexo. Sou super a fim de transar com você, mas sou virgem e quero viver todas as etapas desse romantismo. Quero beijar na boca, deitar no teu colo, dormirmos agarradinhos, viajar junto, andar de mãos dadas... essas coisas. E minha primeira foda virá naturalmente (“talvez nem comigo”, pensei).
– Aprovado.
Na verdade, eu estava achando aquilo muito legal. Viver um namoro adolescente aos 65 anos com um jovem lindo de 18, era algo de fenomenal. Talvez o encerramento com chave de ouro de minha vida afetivo-sexual.
Para selar nosso pacto, AJr aproximou-se do meu rosto e rolou um beijo delicioso, que seus lábios são macios e sua língua é muito bem ensinada sobre como agir no encontro com outra língua.
E é assim que tenho um menino de dezoito aninhos como namorado, inteligente pra caralho, que conversa animadamente assuntos profundos, que vai para meu apartamento e divide comigo a nudez, que dorme comigo de conchinha – os dois de pau duro, mas respeitando o tempo do outro; vez ou outra tomamos banho juntos e nos masturbamos mutuamente, usamos nossos massageadores de próstata e plugues (uma vez nos desafiamos e fomos os dois de plugue vibratório enfiado no cu, para uma aula na universidade)...
Não sei quando (ou se) haverá nossa primeira foda. Mas estou amando essas preliminares, que estavam esquecidas, na poeira do passado, e que agora faziam com que me sentisse da idade dele.
Bem, com licença... Vou atender a campainha. AJr está chegando para uma manhã de carinho e tesão...
