O CLUBE DOS CORNOS FELIZES

Um conto erótico de Rico Belmontã
Categoria: Heterossexual
Contém 767 palavras
Data: 30/11/2025 06:01:52

(Um conto erótico tragicômico com cheiro de couro e café requentado)

Mauro sempre soube que não era o tipo de homem que causava comoção. Sua existência era uma fila de banco em forma gente: previsível, ligeiramente entediante e com um leve cheiro de desodorante vencido.

Trabalhava há quinze anos como contador da rede de clínicas OdontoHappy, onde sua maior emoção era corrigir vírgulas em notas fiscais. Lílian, sua esposa, era esteticista e movia-se pela casa com a elegância de quem sabe que pode tudo. Mauro, por outro lado, movia-se como uma gaveta emperrada.

A descoberta mais recente da infidelidade de Lílian veio com um vídeo. Um vídeo em 4K, com boa iluminação, em que ela gritava "Arregaça o meu cu, Arthur!" enquanto o instrutor de pilates a dobrava como se fosse um pretzel do capeta. Mauro assistiu três vezes. Uma para ter certeza, a segunda para tentar entender aquela posição, e a terceira... só porque estava entorpecido.

Mas não chorou. Nem gritou. Apenas fechou o notebook e foi lavar uma tábua de carne com Cif.

Foi em um fórum online chamado "A Arte de Ser Corno (com Orgulho)" que encontrou a mensagem:

“Se você cansou de sofrer e quer entender o tesão da libertação, venha para a próxima reunião do C.C.F. (Clube dos Cornos Felizes). Traga a sua mente aberta, sapatos confortáveis e, se tiver, uma galocha. Entrada pelo beco do sex shop vegano, centro de Osasco.”

Curioso e ligeiramente embebido de tristeza, Mauro foi. A porta rangia como se dissesse “você tem certeza disso?”, mas ele entrou.

Lá embaixo, o cenário parecia saído de uma orgia medieval organizada por um designer de interiores entediado: sofás vermelhos, um globo espelhado, velas aromáticas de pimenta rosa e ao fundo, um palco com um pole dance. Mas o que mais chamava atenção eram os membros.

Homens de todas as idades, corpos e estéticas — de barrigudos a bombados, carecas a cabeludos, um deles usava um cinto com sinos. E todos, sem exceção, sorriam.

— Seja bem-vindo, irmão! Você está entre iguais! — disse um senhor de bigode fino, usando um quimono de cetim com estampa de ornitorrincos. — Aqui não há vergonha. Aqui há libertação.

Mauro hesitou. Mas uma mão firme agarrou seu ombro.

— Eu também era como você. — disse um homem gorducho com uma camiseta do Iron Maiden e um chicote de brinquedo pendurado na cintura. — Minha mulher me trocou por um entregador de Yakult. Hoje? Eu pago o Yakult. E sirvo café pra eles na cama.

Mauro engasgou. Mas não foi embora. Algo nele... acendeu.

As reuniões tinham rituais. Tudo começava com o "Hino do Corno Feliz", uma paródia bizarra de “Evidências” adaptada para glorificar o prazer de ceder o trono.

Depois, vinham os testemunhos.

— Minha esposa transou com o primo dela no meu carro. Eu instalei iluminação ambiente e um mini bar para eles. — contou um sujeito com dreadlocks.

A risada era libertadora. Aquilo não era sofrimento. Era... arte performática emocional. Um circo do desapego.

Na terceira reunião, Mauro confessou:

— Ela me traiu com o Arthur do pilates. Ele... ele tem o glúteo de um semideus. Eu só... não sei como competir.

Silêncio. Depois, aplausos.

— Você não tem que competir, Mauro! Você tem que assistir! — gritou alguém. — Você já viu a bunda dele ao vivo?

— Não...

— Pois vá ver. Vai ver e vai gozar, irmão!

Foi numa noite úmida, de chuva morna e cheiro de asfalto molhado. Mauro aceitou participar de um dos rituais mais simbólicos: o "Sábado do Espetáculo". Uma celebração onde os membros do clube podiam assistir, a convite de seus parceiros, os atos amorosos de suas esposas com terceiros. Tudo com consentimento regado a Malbec.

Lílian, ao saber da proposta, soltou uma risada diabólica.

— Você quer... assistir? Tá brincando?

— Não. Estou evoluindo.

Naquela noite, Mauro chegou com sua galocha de couro, um robe e uma taça de vinho na mão. Sentou-se em uma poltrona tipo trono, enquanto Lílian e Arthur se entregavam no tapete da sala com a desenvoltura de atores pornôs franceses. Mauro assistia como quem via uma ópera em Viena: curioso, confuso, levemente ereto.

E, estranhamente... feliz.

***

Semanas se passaram. Mauro mudou. Parou de usar cuecas de algodão. Agora só usava rendadas. Começou a frequentar aulas de dança do ventre e se tornou co-diretor do clube. Criou o "Programa de Integração de Amantes", onde os maridos preparavam jantares para os amantes das esposas. Até Lílian começou a respeitá-lo. Às vezes, até chamava ele para escolher a lingerie antes do coito.

Mauro descobriu que o prazer era uma coisa tortuosa, deliciosa, e absolutamente imprevisível. Ser corno, afinal, não era uma maldição.

Era uma vocação.

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Comentários

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hauhauhauhauahuahau²²²²²²²²²²²²²²²²

caralho! não me lembro de ter rido tanto com um conto.

muuito bom!

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