14 de maio do Anno Domini XLII
Ontem ele voltou. Eu estava no rio me banhando, tentando conter o fogo que ardia em meu corpo. Como o presságio que antecede a tempestade, senti sua presença e seu cheiro antes mesmo de vê-lo. O vento mudou de direção, e o ar tornou-se pesado, como se o próprio tempo houvesse detido o fôlego. As tochas tremularam, projetando sombras que dançavam em círculos, e o fogo pareceu inclinar-se, reverente, ao seu passo.
Ele estava ali, diante de mim, exatamente como antes — e, contudo, mais. Se antes o temera, e depois o desejara, agora compreendia que jamais existira escolha. Minha alma o reconheceu como o prisioneiro reconhece o som da chave.
Não falou, mas ouvi sua voz dentro de mim — não com os ouvidos, mas com o sangue. Disse-me que o que me daria seria um presente: força, glória, vigor que não conhece fadiga e em troca, apenas o que já era dele desde o primeiro olhar: meu corpo, meu sangue, minha vontade. Senti que tudo o que fui — soldado, homem, servo de Roma — se dissolvia como cera sob o toque do fogo. E o fogo era ele.
Aproximou-se e entrou na água comigo, e o mundo pareceu recolher-se. Nenhum som, senão o de sua respiração, compassada como o ritmo das águas, e do meu coração, que batia como tambor de guerra. Quando me tocou, percebi que seu toque não era frio nem quente, mas a própria ausência de temperatura — o instante antes da criação, o silêncio que antecede o nome das coisas.
Caí de joelhos, não por submissão, mas porque o corpo não suportou a vastidão do instante. Diante dos meus olhos, seu falo me convidava novamente e minha boca se abriu para o engolir por inteiro. Eu estava ávido por sentir o gosto salgado que saída da glande avermelhada e o cheiro de seus pelos pubianos que me embriagava. Desta vez, eu quis mais. Levantei-me, e o beijei com tanta voracidade que parecia querer devorá-lo — o que senti ser recíproco da parte dele. Nossos membros eretos, se chocavam como as espadas de dois lutadores em campo de batalha no decorrer daquele longo beijo.
Então, ele me virou de costas e fez algo que me trouxe um prazer que eu jamais pensei existir. Ele se agachou e afastou minhas nádegas, como um explorador procurando um tesouro. Quando sua língua tocou meu orifício, eu estremeci de cima a baixo e, instintivamente, me lancei para trás, desejando que ela me adentrasse. E assim aconteceu. Ela percorria ao redor do orifício e depois entrava nele, me invadindo deliciosamente. Meu membro pulsava de tão rígido e expelia o mesmo líquido viscoso e transparente, formando um fio em direção à agua, como o mel que pinga vagarosamente da colmeia. Pensei em me tocar, mas sentia que estava a um toque de não me conter mais de prazer. Esforcei-me até que minha boca, como tendo vontade própria, o convidou... a me penetrar.
O prazer e a dor se misturaram enquanto eu era invadido por aquele pedaço de carne rígido e pulsante. Quando fiz menção de gritar de dor, suas mãos me calaram, e em meu ouvido, ele sussurrou e me tranquilizou até que todo o falo estivesse em mim. E quando chegou nesse ponto, minha mente pareceu se encher de uma névoa densa e escura. A dor estava ali, intensa, mas era como se não estivesse. Eu não me importei mais com ela, mas apenas com o prazer que o ato me proporcionava. Em determinado instante, a areia do fundo do rio pareceu ter desaparecido dos meus pés... Me pergunto se eu estava flutuando. Não sei ao certo. Mas apenas sei que depois de algum tempo, eu fui inundado pelo seu sêmen, ao mesmo tempo que o meu jorrava com força no ar. Não sei quanto tempo o nosso ato durou. Talvez minutos, talvez séculos. O prazer e a dor misturaram-se até se tornarem uma única substância, e nela afundei, dissolvido, purificado e condenado.
Ainda dentro de mim, seus lábios tocaram meu pescoço, e compreendi que aquele gesto não era paixão — era liturgia. Não um beijo, mas um selo. Um pacto. O sangue pulsava como oferenda. E eu — soldado de César, homem de guerra e ferro — tornei-me sacerdote de um deus sem altar. Ofereci meu pescoço voluntariamente e, por sua vez, ele recebeu meu sacrifício. A mesma dor se seguiu e a escuridão a acompanhou até que colapsei em seus braços.
Quando abri os olhos, quase ao amanhecer, eu estava dentro da tenda sozinho. Eu estava no meu leito, completamente nu, sentindo os resquícios do prazer intenso e a dor no pescoço como prova de que ele estivera ali. Na minha mente, uma confusão de pensamentos, mas um deles era a verdade cruel de que eu havia feito um pacto com um ser não-vivo, um vampiro. O vento, que soprou do leste, murmurava um nome. O dele: Valek. E, ao ouvi-lo, compreendi que, ao aceitá-lo, deixei de ser um homem comum.
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