O Escolhido de Eldoria ☆ Capítulo 12

Um conto erótico de Tiago e Lucas
Categoria: Homossexual
Contém 1928 palavras
Data: 30/08/2025 08:10:49
Assuntos: Fantasia, Gay, Homossexual

✧ O Peso da Vergonha ✧

(Lucas)

Fiquei enraizado no lugar, um espectador pétreo de uma vulnerabilidade crua e desesperada. O som do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos abafava qualquer outro ruído, marcando o ritmo de um choque profundo. O que eu acabara de testemunhar não me deixava palavras, apenas a sensação avassaladora de ser um invasor na alma de outro homem. A imagem dele, ajoelhado na terra úmida e fria, tremendo não de frio, mas de uma vergonha que o consumia por inteiro, era mais perturbadora do que qualquer campo de batalha que já vira. O desprezo inicial que sentira por sua fraqueza física, uma fraqueza que eu tanto aprendera a repudiar em mim mesmo, colidiu violentamente com uma onda inesperada de algo que eu não podia nomear. Não era pena, pois isso seria um luxo sentimental inaceitável, mas sim um reconhecimento sombrio, uma comunhão silenciosa na escuridão. Naquele ato solitário de desespero, percebi o peso esmagador de seu medo, de seu cativeiro interior e de uma solidão que, de uma maneira sinistra e familiar, espelhava a minha própria. Com a cautela de uma sombra que se retira para não ser vista, recuei, voltando para a tenda antes que ele o fizesse. Deitei-me, fechei os olhos e forcei minha respiração a se tornar um ritmo regular, um disfarce necessário. Fingir dormir era a única cortesia que eu podia oferecer naquele momento, um véu de silêncio para cobrir a minha descoberta.

(Tiago)

A jornada de volta para a tenda foi uma caminhada de pura humilhação. Cada passo que eu dava na terra escurecida parecia um julgamento, e cada brisa noturna que roçava meu rosto trazia consigo sussurros acusadores. Deslizei para dentro do meu saco de dormir, buscando um casulo que não oferecia conforto, apenas um lugar para esconder meu rosto marcado por lágrimas silenciosas e vergonha. O corpo de Lucas era uma montanha de calor imóvel a poucos palmos de distância, e o som de sua respiração regular e profunda era uma tortura constante. Ele dormia, alheio à minha degradação, inconsciente da profunda ferida que me dilacerava. A proximidade dele, que antes me inquietava com um desejo proibido, agora era uma fonte de pura e lancinante vergonha. Eu me encolhi o máximo que pude, desejando que o chão me engolisse, que a própria noite tivesse o poder de apagar a memória do que eu tinha feito, do homem em que me tornei. E, no entanto, por baixo de tudo isso, o Vínculo entre nós zumbia, um fio fino e tenso, agora maculado com o gosto amargo e persistente do meu segredo indizível.

(Lucas)

O silêncio profundo da noite, que antes era uma promessa de descanso, de repente se estilhaçou. Não foi um som audível que quebrou a quietude, mas uma ausência palpável. Os sons familiares dos insetos noturnos cessaram abruptamente. O farfalhar das folhas ao vento morreu como se o próprio vento tivesse prendido a respiração. Um frio anormal, desprovido de qualquer umidade, começou a se infiltrar na tenda, um frio que parecia penetrar não a pele, mas os próprios ossos, anunciando algo antinatural. Meus instintos de guerreiro, afiados por anos de batalha, gritaram em alerta máximo. Isto não era obra da natureza. Sentei-me abruptamente, a mão disparando instintivamente para o cabo da minha espada, a lâmina em minha mente já desembainhada. O ar ficou denso, pesado como melado, impregnado por uma energia maligna que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem em um prenúncio de perigo. “Tiago”, eu sussurrei, minha voz um rosnado baixo e tenso. “Acorde. Algo está terrivelmente errado.” O Vínculo, antes um fio sereno de conexão, agora vibrava com uma frequência dissonante e perigosa, como uma corda de alaúde esticada ao limite, prestes a arrebentar sob a tensão.

(Tiago)

A voz de Lucas, incisiva e tensa, me arrancou de um torpor autoimposto de vergonha e autoaversão. O frio que ele mencionou já havia me envolvido, mas eu o atribuí à minha própria angústia paralisante. Agora, com o tom de alarme em sua voz, percebi que era algo muito mais sinistro. As sombras nos cantos da pequena tenda pareceram se aprofundar, se contorcer e ganhar vida própria, como criaturas espreitando nas profundezas. Um zumbido baixo começou a ressoar em meus ouvidos, e com ele, surgiram sussurros, fragmentos de frases cruéis e insidiosas que pareciam emanar de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo. O medo, meu companheiro constante e indesejado, agora agarrava minha garganta com suas garras geladas. “O que… o que é isso?”, gaguejei, tentando me sentar, mas meu corpo parecia ter sido transformado em chumbo, cada membro pesado, afundando em um pesadelo acordado. A clareira, que antes estava banhada pelo luar prateado da noite, agora emitia uma luz doentia, de um verde-acinzentado pálido e perturbador.

(Lucas)

A tenda, como se nunca tivesse existido, desapareceu. Em um instante, eu não estava mais na floresta escura, mas no pátio de treinamento da minha casa, sob o sol forte e implacável do meio-dia. O cheiro inconfundível de metal quente e suor pairava no ar, preenchendo minhas narinas. E lá estava ele, meu pai, não como eu o recordava em seus últimos dias enfraquecidos, mas em seu auge: alto, de ombros largos, com um olhar de aço tão penetrante que parecia capaz de cortar um homem ao meio. Ele segurava em suas mãos a minha primeira espada, a mesma que ele mesmo forjou para mim com suas próprias mãos. Seus olhos percorreram cada centímetro do meu corpo, não com o orgulho de um pai, mas com um desdém cortante que me atingiu mais profundamente do que qualquer lâmina. “Eu lhe dei tudo”, sua voz era um trovão que ribombava em minha alma, reverberando em um eco de condenação. “Um nome, força, treinamento. E o que você se tornou? Um guerreiro sem honra, arrastando um verme inútil pela floresta como um fardo. Você é uma desgraça para a nossa linhagem. Um fracassado.” Cada palavra era um golpe físico, mais doloroso e devastador do que qualquer corte de espada, mais profundo e corrosivo do que qualquer veneno.

(Tiago)

“Lucas!”, gritei, vendo seus olhos arregalados de terror e espanto, o suor brotando em sua testa como se estivesse lutando contra um inimigo invisível. Ele não olhava para mim, mas para um ponto vazio dentro da tenda, seu rosto uma máscara de dor excruciante. Ele ofegava, cada respiração arrancada de seus pulmões como se lutasse desesperadamente contra uma força invisível e esmagadora. Finalmente entendi. “Lucas, é uma ilusão! Lute contra isso!” Estendi a mão para tocar seu braço, um gesto desesperado de conexão, mas uma força invisível e repulsiva me arremessou para trás, como se o próprio ar ao redor dele estivesse carregado de eletricidade com sua dor. O Vínculo transmitia ondas de desespero e fúria, uma torrente de agonia que quase me sobrecarregou, ameaçando me afogar em sua angústia. Eu podia sentir sua energia vital sendo drenada, sugada vorazmente por aquela presença maligna que nos envolvia, como um parasita invisível.

(Lucas)

“Você não sabe de nada!”, eu rosnei, a voz embargada pela raiva e pela dor, sem saber ao certo se falava com a aparição fantasmagórica do meu pai ou com a voz distante e desesperada de Tiago. A ilusão era perfeita em sua crueldade, cada detalhe meticulosamente projetado para cortar mais fundo em minhas feridas mais antigas. Meu pai, com seu olhar de gelo, apontou a espada diretamente para mim. “Fraco. Arrogante. Hipócrita. Você nunca será metade do homem que eu fui.” O chão sob meus pés parecia se abrir em um abismo sem fim, um buraco negro de fracasso pessoal que me chamava para o esquecimento. Senti minha força se esvaindo, não como um simples cansaço, mas como se estivesse sendo ativamente roubada, sugada para fora de mim, deixando um vazio gelado e aterrador em seu lugar. Eu sabia, com uma certeza terrível, que era magia negra, uma armadilha mental projetada para me destruir, mas saber e resistir eram duas coisas completamente diferentes quando a ferida era tão antiga, tão profunda e tão dolorosamente real.

(Tiago)

Então, a ilusão macabra se voltou para mim, cruelmente. O rosto furioso de Lucas se dissolveu em uma névoa de fumaça, e em seu lugar, as paredes da tenda se transformaram em um salão lotado, repleto de rostos familiares e desconhecidos, todos apontando para mim com escárnio. Suas bocas se abriram em um coro uníssono, e o som que emanou delas foi uma onda cacofônica de riso zombeteiro e malicioso. “Olhem para ele!”, gritava um comerciante da minha aldeia, um homem que eu mal conhecia, mas cuja voz ecoava com um desprezo familiar. “Tão gordo que mal consegue andar!” Um dos três Sábios do Pico Cinzento, cujo nome eu esquecera em um lapso de memória angustiante, debochou com um sorriso torto: “Acha que os deuses ouviriam as preces de alguém tão insignificante e repugnante?”. A risada aumentou, tornando-se um rugido ensurdecedor que me deixou tonto. E então, no centro da multidão acusadora, eu o vi. Lucas. Ele não estava angustiado, como eu imaginara. Pelo contrário, ele estava rindo mais alto que todos, o rosto contorcido em uma careta de puro desprezo. “Essas suas tetas estão cheias de poeira, seu verme”, ele disse, a zombaria em sua voz cortante como vidro. E a multidão explodiu em gargalhadas estrondosas que fizeram o mundo tremer em seus alicerces.

Caí para trás, cobrindo minhas orelhas com as mãos em um gesto desesperado, um soluço rasgando minha garganta. Era o meu pior medo, tornado realidade. Não apenas ser visto, mas ser julgado, condenado e humilhado por cada coisa que eu odiava em mim mesmo, cada fraqueza que eu tentava esconder. A dor era tão intensa, tão avassaladora, que me deixou cego, mas em meio à agonia excruciante, algo dentro de mim estalou. O Vínculo. Através dele, eu ainda sentia a luta desesperada de Lucas. Sua dor era aguda, um fio de navalha na alma, mas seu medo estava drenando sua energia de guerreiro a uma velocidade alarmante. Meu medo, por outro lado, era um companheiro antigo, uma dor crônica com a qual eu aprendera a conviver, um fardo pesado que eu carregava todos os dias. E nesse momento de clareza desesperada, uma verdade terrível e libertadora se revelou. A ilusão se alimentava da nossa energia através do nosso medo. E se eu não fizesse algo, e rápido, Lucas morreria, consumido por essa escuridão.

(Lucas)

Eu estava de joelhos no pátio sombrio da minha mente, a voz do meu pai me condenando ao esquecimento, cada palavra um golpe afiado em minha alma. Minha espada, antes uma extensão do meu braço, parecia pesar uma tonelada, pesada demais para eu erguer. A escuridão estava me consumindo, me engolindo, e a vontade de lutar, de resistir, estava desaparecendo rapidamente, substituída por uma resignação amarga e cruel. Ele estava certo. Eu era um fracasso, um indigno de meu nome e de meu treinamento. Foi então que senti uma mudança sutil, mas significativa, no Vínculo. Em meio à torrente avassaladora de vergonha e pânico que emanava de Tiago, uma pequena faísca, quase imperceptível, se acendeu. Não era força, não era poder, mas era… luz. Uma luz trêmula e incerta, mas inegavelmente pura. Ela vinha dele. Do garoto que eu desprezava, do garoto a quem eu julgava sem piedade. E essa pequena luz, frágil e desafiadoramente presente, empurrou a escuridão para trás por um centímetro, um ato de coragem em meio ao desespero. Era uma âncora na tempestade que ameaçava me afogar, e com a última gota de minha força, eu me agarrei a ela com toda a minha alma.

Continua…

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