✧ Sombras ao Luar ✧
(Lucas)
Enquanto a silhueta de Tiago se movia no início da noite, terminando de se vestir, iniciei o ritual noturno de estabelecer nosso refúgio. Eram movimentos automáticos, uma liturgia gravada em meus músculos por incontáveis noites como esta, e a familiaridade da tarefa servia como um bálsamo para a turbulência do dia. Estendi o pequeno toldo de lona, cujo cheiro de pó e chuva antiga me era mais familiar que o de um lar. Ele se esticou, tenso, entre os troncos de duas faias antigas, e finquei as estacas na terra macia e escura, sentindo o baque surdo de cada golpe. Lá dentro, desenrolei nossos sacos de dormir. A lã áspera roçou em meus dedos enquanto eu os posicionava, deixando um espaço mínimo, quase irrisório, entre eles. Era o máximo de distância que a geometria daquele abrigo precário nos concedia.
A fogueira que acendi foi modesta, um coração pulsante de brasas feito não para aquecer, mas para purificar o ar, para afastar a umidade pegajosa da noite e manter à distância as criaturas de múltiplos olhos que a escuridão abrigava. Assei as duas tiras de carne seca que havia guardado, e o cheiro salgado e defumado se misturou ao aroma de terra úmida. Comemos em um silêncio denso, quebrado apenas pelo estalar da madeira e pelo rugido constante e longínquo da cachoeira — um som tão vasto que parecia ser a própria voz da natureza selvagem. O Vínculo entre nós era uma correnteza submersa, uma vibração serena que comunicava apenas o peso esmagador de nosso cansaço mútuo. Quando nos deitamos, cada um em sua mortalha de lã, virei-lhe as costas deliberadamente. Foi um gesto instintivo, uma cortina de privacidade que eu erguia por uma razão que se recusava a se tornar clara, uma muralha contra algo que eu ainda não entendia. O dia havia sido um mergulho no abismo, e ali, naquela clareira banhada em fogo, parecíamos ter encontrado uma saliência estreita para repousar antes da próxima queda.
(Tiago)
O sono era uma terra estrangeira da qual eu fora exilado. Meu corpo estava limpo, meu estômago, saciado, e a lógica me dizia que eu estava seguro. Mas a minha mente era uma tempestade contida em meu crânio, um turbilhão de imagens e sensações. Deitado na escuridão claustrofóbica, eu sentia o calor que irradiava do corpo de Lucas. Não era apenas calor; era uma presença física, uma força que parecia consumir o pouco ar que havia entre nós. Sua respiração, profunda e regular, era o ritmo inabalável de um predador em repouso, o som de um homem que encontra o sono com a mesma facilidade brutal com que desembainha a espada. Cada inspiração sua parecia roubar o oxigênio da tenda, deixando-me ofegante. Eu fechava os olhos, mas a escuridão atrás de minhas pálpebras era uma tela onde a cena da cachoeira se repetia infinitamente. A imagem dele, nu e esculpido em músculo sob a luz dourada do entardecer, estava gravada a fogo em minha memória. As cicatrizes que mapeavam sua pele, a curva poderosa de suas costas, a forma como a água escorria por seus ombros largos como se prestasse reverência… E sua provocação, cortante e cruel. “Essas suas tetas estão cheias de poeira.” A vergonha ainda me queimava a pele como uma febre, mas agora, na quietude da noite, ela se misturava a algo novo: um calor sinuoso e proibido que se aninhava no fundo do meu estômago, um veneno doce e viciante.
A tenda, antes um refúgio, transformou-se em uma gaiola, o ar tornando-se espesso, carregado, impossível de respirar. Eu precisava sair. Com um cuidado infinito, próprio de uma presa temendo despertar seu caçador, deslizei para fora do saco de dormir. Cada movimento era lento, medido, uma dança silenciosa contra o tecido de lã. Prendi a respiração ao passar pelo vulto imóvel de Lucas, uma montanha adormecida na penumbra. Lá fora, o ar frio da noite foi um choque violento e bem-vindo, despertando cada nervo da minha pele. A lua cheia, um disco de prata polida, pairava sobre a copa das árvores, banhando a clareira em uma luz espectral que transformava as sombras em criaturas dançarinas. Caminhei sem rumo, os pés descalços afundando no musgo úmido e nas folhas apodrecidas, um tapete de decomposição e vida. Fui guiado pelo som, aproximando-me da margem do pequeno lago onde o barulho da cachoeira se tornava um estrondo ensurdecedor, uma parede de som que, felizmente, abafava a gritaria dentro da minha cabeça.
(Lucas)
Eu não dormia. Não de verdade. Anos de emboscadas e noites passadas com o ouvido colado à terra hostil haviam me ensinado a fragmentar minha consciência, a deixar uma sentinela interior sempre de guarda. Senti, mais do que ouvi, o sutil deslocamento de ar quando ele se moveu. O zíper de seu saco de dormir foi um som quase imperceptível, como o roçar de seda em pedra, mas para meus sentidos aguçados, foi um alarme. Permaneci completamente imóvel, um cadáver de respiração contida, mapeando seus passos se afastando em direção à floresta. Meu primeiro instinto, afiado pela guerra, foi de suspeita. Uma tentativa de fuga? Mas o Vínculo, aquele canal invisível que nos ligava, não transmitia o pânico agudo da fuga. Em vez disso, o que fluía dele era uma agitação febril, uma ansiedade crua e confusa. Uma curiosidade que eu deveria ter esmagado me impeliu a levantar. Movi-me com a perícia silenciosa de um caçador, meu corpo se fundindo às sombras na borda da clareira, tornando-me apenas mais uma parte da noite. Segui-o com os olhos, observando-o parar junto à água, uma figura pálida e solitária sob o olhar impassível da lua. Por quê? Que demônio o atormentava ao ponto de expulsá-lo para a noite fria?
(Tiago)
A superfície do lago era um espelho de prata derretida, tremeluzindo sob a luz da lua. Meu reflexo era uma mancha escura e distorcida, uma versão ainda mais imperfeita de mim mesmo. Mas minha mente não me via. Via a ele. Via a força contida em seus braços enquanto torcia nossas roupas, a facilidade com que sua magia, tão diferente da minha — uma força limpa, controlada, primordial — gerava calor do nada. Via, acima de tudo, a ausência absoluta de vergonha em seu corpo, uma aceitação de si mesmo tão natural quanto respirar, algo que eu jamais conhecera. Minha própria carne parecia um fardo, uma armadura de fraqueza, macia e pesada onde ele era firme e letal. E, no entanto, aquele corpo poderoso, aquele guerreiro que me desprezava, havia me protegido. Havia compartilhado seu alimento e secado minhas roupas. E o Vínculo… o Vínculo me mostrava que, sob as camadas de fúria e desprezo, jazia um cansaço tão profundo e antigo quanto o meu.
Uma onda de calor me subiu pela espinha, tão súbita e intensa que meus joelhos fraquejaram. Era uma necessidade, uma pressão que se acumulava em meu baixo ventre, exigindo alívio com a mesma urgência da fome ou da sede. Era a solidão de uma vida inteira, o medo do amanhã e, para minha total e absoluta vergonha, era desejo. Um desejo cru, sem nome. Meu olhar varreu a escuridão da floresta e a tenda distante, uma pequena cicatriz de lona na paisagem. Eu estava sozinho. Ninguém veria. Ninguém saberia. Com mãos que tremiam violentamente, afastei-me um pouco mais, encontrando uma pequena reentrância entre duas rochas cobertas por um veludo de musgo, um confessionário de pedra. A vergonha era uma brasa viva em meu peito, mas a necessidade era um incêndio que a consumia. Puxei a barra da túnica limpa para cima, expondo meu tronco pálido à luz fria e clínica da lua. Então, com dedos desajeitados, meus nervos em frangalhos, empurrei as calças para baixo, até os joelhos.
(Lucas)
Congelei atrás do tronco de um carvalho, o coração martelando contra minhas costelas como um tambor de guerra. O que diabos ele está fazendo? Vi a túnica subir e, por um átimo de segundo, presumi que ele fosse entrar na água novamente. Mas então suas calças desceram, e um nó cego e duro se formou em minha garganta. Cada instinto de um homem honrado gritava para que eu recuasse, para que me virasse e lhe concedesse a privacidade que ele tão desesperadamente buscava. Era a coisa certa a se fazer. Mas meus pés pareciam ter criado raízes, fincados na terra úmida. Um instinto mais antigo, mais sombrio e primitivo, me manteve cativo. Fiquei ali, um espectador nas sombras, um pervertido, observando aquela cena terrivelmente íntima se desenrolar, paralisado por uma mistura de incredulidade e uma fascinação culpada que me enchia de vergonha.
(Tiago)
O ar gelado envolveu minha pele nua, eriçando cada pelo, mas o incêndio dentro de mim apenas se intensificou. Fechei os olhos com força, e a imagem dele na cachoeira retornou com uma clareza dolorosa e vívida. Lembrei-me de suas palavras, da zombaria em sua voz. “Tetas”. Minha mão subiu, hesitante, trêmula, até meu próprio peito. Meus dedos, estranhos a mim mesmo, apertaram a carne macia. E na tela escura da minha mente, não eram os meus dedos. Eram os dele. Eram as mãos calejadas de Lucas, os dedos fortes de um guerreiro, apertando-me não com o desprezo que ele demonstrara, mas com uma curiosidade rude, uma posse áspera. A fantasia era tão real, tão avassaladora, que um gemido baixo e agudo escapou por entre meus lábios, um som que foi imediatamente devorado pelo rugido da cachoeira.
Enquanto uma mão explorava essa fantasia humilhante em meu peito, a outra desceu. Envolveu meu membro já duro e febril, e o choque elétrico de prazer e culpa quase me fez desabar. Minha mente se tornou um caos de imagens proibidas: Lucas se virando na água, seu olhar não de zombaria, mas de algo mais sombrio e inescrutável; suas mãos em mim, sua boca… A respiração ficou presa em minha garganta enquanto meus movimentos se tornavam mais rápidos, mais desesperados, o corpo tremendo em antecipação. A fantasia se tornou tudo, a única realidade, e o som da água era a trilha sonora para minha degradação. Eu me imaginava sendo tocado por ele, sendo despido de toda a minha fraqueza, sendo consumido por aquela força que tanto me assustava e, deuses, como me atraía.
O clímax me atingiu como um relâmpago, um espasmo violento que arqueou minhas costas e arrancou um grito mudo de minha garganta. Meu corpo inteiro estremeceu com a liberação, e por um instante fugaz, houve apenas o vazio branco e ofuscante do prazer. Mas, logo em seguida, a realidade retornou com a força de um soco no estômago. O frio. A umidade do chão. A solidão esmagadora. E a vergonha. Ah, a vergonha era um oceano gelado, e eu me afogava em suas profundezas. Caí de joelhos na terra úmida, ofegante, o suor frio escorrendo por minha testa, sentindo o sêmen quente esfriar sobre minha pele. Eu era patético. Um covarde gordo e desesperado, se tocando no escuro enquanto fantasiava com seu captor. Ajeitei minhas roupas com dedos trêmulos e desajeitados, sentindo-me infinitamente mais sujo do que antes de ter entrado na cachoeira. E nas sombras que me cercavam, eu não sabia, mas não estava sozinho.
Continua…