O Escolhido de Eldoria ☆ Capítulo 10

Um conto erótico de Tiago e Lucas
Categoria: Homossexual
Contém 2054 palavras
Data: 29/08/2025 07:37:09

✧ O Refúgio do Penhasco ✧

(Lucas)

O silêncio que se instaurou entre nós era mais denso que a escuridão no fundo daquele desfiladeiro, um abismo mudo onde palavras não ousavam transpor. O ar parecia vibrar com o peso do não dito, com as verdades cruas que tentávamos desesperadamente enterrar sob a poeira e o suor. Olhei para a fina cicatriz em meu braço, um mapa de um momento de fúria e desespero, depois para o rosto de Tiago, ainda marcado pelas lágrimas secas e a poeira que o tempo não apagara. A fúria que me consumira horas antes se esvaíra como fumaça ao vento, deixando para trás apenas o gosto amargo e persistente da vergonha. A palavra “carrasco”, lançada como uma pedra, ainda ecoava em minha mente, perfurando a quietude. Precisava quebrar aquele silêncio opressor, mas um pedido de desculpas parecia uma moeda pequena demais para pagar uma dívida tão profunda, um gesto insuficiente diante da ferida aberta em nossa relação. Em vez disso, agarrei-me ao que eu conhecia, ao instinto de sobrevivência que sempre me guiou: a necessidade.

“Precisamos encontrar água”, disse eu, minha voz soando rouca e estranha aos meus próprios ouvidos, um eco distante de quem eu era. “E sair deste maldito penhasco antes que outra coisa decida nos caçar.” Virei-lhe as costas, não por desprezo, mas porque ainda não conseguia encontrar a coragem para encará-lo, para confrontar a imagem que eu mesmo criara. Comecei a caminhar pela borda irregular do penhasco, meus olhos perscrutando a paisagem rochosa em busca de um caminho para baixo, uma saída daquele labirinto de pedra.

(Tiago)

Eu o observei se afastar, minhas expectativas correndo para encontrar a dureza de antes em sua voz, a aspereza que me definia para ele. Mas ela não veio. Havia algo diferente em seus ombros, uma tensão que não emanava mais de raiva, mas do peso esmagador de responsabilidades não solicitadas. Eu o segui em silêncio, mantendo uma distância cautelosa, um reflexo incômodo de nossa relação. O Vínculo, que antes me inundava com sua fúria gelada ou com a dor aguda de seus ferimentos, agora estava estranhamente quieto, transmitindo apenas uma exaustão profunda e uma confusão que espelhava a minha, um reflexo de nossa mutualidade forçada. Andamos por quase uma hora, o sol, em sua lenta descida, tingindo o céu de tons ardentes de laranja e roxo, um espetáculo melancólico que presidia nossa jornada. Foi então que o ouvi, primeiro um sussurro distante, depois um murmúrio crescente, o som inconfundível de água corrente. A esperança, uma sensação quase esquecida, tremulou em meu peito como uma brasa teimosa reacendida.

(Lucas)

O som me guiou, um farol em meio à desolação. Afastei um emaranhado de samambaias largas, cujas folhas frias e úmidas roçaram meu rosto, e ali estava. Não era uma nascente tímida, mas uma cachoeira de verdade, majestosa em sua queda d’água, despencando de um rochedo antigo coberto de um musgo vibrante e úmido, para mergulhar em um lago pequeno, cujas águas eram de uma clareza cristalina, convidando à purificação. O lugar parecia intocado, um santuário escondido no coração daquele inferno de pedra. O ar era fresco e carregado com o aroma terroso de samambaias molhadas e o cheiro metálico e limpo do ozônio. Por um instante, eu apenas fiquei ali, absorvendo a paz profunda do lugar, sentindo o peso do mundo começar a se dissipar. Era o primeiro momento de consolo genuíno em dias, uma pausa bem-vinda na maratona de sofrimento. “É aqui”, falei, mais para mim mesmo do que para ele, minha voz carregada de um alívio quase palpável. E sem pensar duas vezes, impulsionado por uma necessidade visceral, comecei a me despir. Eu precisava lavar não apenas a sujeira do corpo, mas o peso da minha própria crueldade, a mancha em minha alma.

(Tiago)

Eu parei, petrificado, meus olhos fixos na figura de Lucas enquanto ele começava a se despir. Ele tirou a túnica escura, outrora imaculada, mas agora suja de suor, lama e o toque pegajoso de sangue. Depois, o cinto de couro, jogando-o na grama com um baque surdo, um som final para a armadura que o cobria. Eu deveria desviar o olhar, sabia que deveria, era o decoro, a vergonha que me comandava, mas meus olhos estavam presos, incapazes de se afastar. Quando ele tirou as calças e, em seguida, se livrou da cueca, ficando completamente nu sob a luz dourada e diminuinte do entardecer, senti um calor repentino subir pelo meu pescoço e queimar minhas orelhas, um rubor involuntário. O corpo dele era um mapa de batalhas, um compêndio de experiências gravado em sua pele. Cicatrizes brancas e finas se sobrepunham à pele bronzeada, testemunhas silenciosas de incontáveis combates. Era magro, sim, mas cada músculo era definido, talhado com a precisão de uma escultura por uma vida de treinamento rigoroso e lutas incessantes. Ele não demonstrava um pingo de vergonha, movendo-se com uma naturalidade que me deixava ainda mais constrangido, mais exposto em minha própria apreensão.

(Lucas)

Senti o olhar dele pousar em minhas costas e me virei, seu rosto provavelmente uma máscara de constrangimento. Tiago estava parado ali, imóvel como um cervo apanhado pelos faróis de uma carruagem, o rosto de um vermelho vivo que quase se destacava na penumbra crescente. Um sorriso cansado e genuíno, o primeiro em dias, curvou meus lábios, um bálsamo inesperado. “O que foi? Nunca viu um homem nu antes?”, provoquei, minha voz mais suave do que eu pretendia, uma tentativa desajeitada de dissipar a tensão. Ele se encolheu, como se as palavras tivessem o atingido fisicamente. “Vamos. Entre na água. Precisamos nos lavar e limpar essas roupas. Você fede a peixe e eu fedo a suor de goblin.” Meu olhar desceu por seu corpo, notando a palidez e a massa do seu tronco, e eu não pude evitar um riso baixo. Ele era tão pálido e pesado em sua forma, tão diferente da minha própria constituição. “E trate de lavar o peito. Essas suas tetas estão cheias de poeira.” A provocação era para ser leve, uma tentativa desajeitada de quebrar o gelo, de nos tornarmos algo além de carrasco e prisioneiro, de encontrarmos um terreno comum, por mais estranho que fosse.

(Tiago)

Meu rosto pareceu entrar em combustão, um incêndio de vergonha e constrangimento. “Tetas?”. A humilhação me atingiu em cheio, mas era diferente da de antes. Não era a crueldade fria de um agressor, mas algo… um gracejo, um comentário casual dito em um momento de estranha intimidade. Um gracejo terrivelmente embaraçoso. Gaguejei algo ininteligível, minhas palavras se embaralhando em minha garganta, e, com as mãos trêmulas, comecei a tirar minha própria roupa, mantendo as costas viradas para ele, uma muralha de recato. Cada peça de roupa que eu tirava era como remover uma camada de proteção, me deixando mais exposto, mais vulnerável. Quando finalmente fiquei nu, uma rajada de vento frio me fez arrepiar da cabeça aos pés, um choque gelado contra minha pele desprotegida. Não me atrevi a olhá-lo, mas minha mente, traidora, conjurou a imagem dele nu, parado ali sem um pingo de pudor, sua pele bronzeada e musculosa sob a luz do crepúsculo. E por um segundo fugaz e terrível, meu olhar mental desceu mais baixo, para a sombra entre suas pernas, e a curiosidade sobre o tamanho do seu pau ereto me atingiu com a força de um tapa, um choque físico e mental. O puro choque e a vergonha me fizeram correr desajeitadamente para a água gelada, apenas para escapar dos meus próprios pensamentos invasivos e perturbadores.

(Lucas)

Eu o observei entrar na água, desajeitado e correndo como se fugisse de um demônio que o perseguia. O rapaz era um emaranhado de nervos e vergonha, uma criatura trêmula de fragilidade. A visão dele, tão gordo e pálido, com os mamilos enrijecidos pelo frio penetrante, despertou algo em mim que não era desprezo nem raiva, mas uma sensação nova e estranha. Pela primeira vez, senti uma pontada aguda de… proteção. Ele parecia incrivelmente jovem e completamente fora de seu elemento, uma ovelha perdida em um deserto de lobos. Suspirei, um som de resignação e talvez um toque de afeição, e peguei nossas roupas imundas. Entrei na água até os joelhos e comecei a esfregá-las contra uma rocha lisa e polida, o som da água batendo contra o tecido sendo os únicos ruídos que ousavam quebrar a quietude entre nós. O Vínculo estava calmo, transmitindo apenas o choque do frio e uma corrente subterrânea de pura e absoluta mortificação vinda dele, um mar de constrangimento flutuando ao seu redor.

(Tiago)

A água era tão fria que roubou meu fôlego, um choque gelado que limpou minha mente dos pensamentos vergonhosos e indesejados. Mergulhei a cabeça, sentindo a água fria e límpida lavar o suor, a sujeira e a desesperança dos meus cabelos. Quando emergi, Lucas estava de costas para mim, suas costas largas e fortes voltadas para a luz que se esvaía, ocupado em lavar nossas roupas com uma eficiência metódica, quase ritualística. A luz do sol poente se quebrava nas gotas de água que escorriam por suas costas, fazendo as cicatrizes cintilarem como veias de prata. Assistindo-o ali, naquele momento de paz inesperada, era difícil lembrar do homem que me empurrara no chão e lançara palavras de desprezo, chamando-me de covarde. E era mais difícil ainda ignorar o fato de que a minha magia, a mesma que, horas antes, tinha o poder de conjurar chuvas de peixes gordos, tinha, de alguma forma, curado aquele corpo forte e marcado. Nós éramos duas peças de um quebra-cabeça que não se encaixavam em absoluto, mas que, de alguma forma, estavam irrevogavelmente ligadas, entrelaçadas por fios invisíveis e poderosos.

(Lucas)

Quando as roupas estavam tão limpas quanto o nosso esforço poderia alcançar, eu as torci, uma a uma, espremendo a água fria e suja como se estivéssemos nos livrando do passado. O sol já havia desaparecido completamente atrás das montanhas imponentes, lançando longas sombras sobre o vale, e o frio cortante da noite começava a se instalar, um prenúncio do que viria. Não podíamos esperar que secassem naturalmente na escuridão fria. Saí da água, meu corpo arrepiado, sentindo o frio penetrar em meus ossos, e organizei as peças molhadas sobre uma rocha plana e exposta, não esperando que o calor residual do dia as secasse. Tiago ainda estava dentro do lago, seus olhos fixos em mim, parecendo relutante em sair e ficar exposto novamente à minha visão, ao mundo exterior. “Saia, antes que congele”, ordenei, mas a rispidez habitual, o tom de comando de antes, não estava lá. Minha voz era mais branda, tingida por uma preocupação inesperada. Estendi a mão sobre nossas roupas molhadas, concentrando-me, juntando minha vontade. Chamei o calor dentro de mim, a pequena centelha de poder elemental que todos os guerreiros do meu clã aprendiam a controlar desde cedo. Um vapor suave começou a subir do tecido encharcado, e um brilho avermelhado e quente emanou da minha palma, um presente de calor que dissipava o frio.

(Tiago)

Saí da água, tremendo violentamente, tentando desesperadamente me cobrir com os braços, um gesto fútil de pudor. E então eu vi. A mão de Lucas pairava sobre nossas roupas, e delas subia um vapor denso e convidativo. Não era um fogo agressivo, destrutivo, mas um calor controlado, uma luz suave e persistente que secava o tecido diante dos meus olhos, um milagre silencioso. Sua magia era como ele: precisa, funcional, sem um pingo de caos ou exibicionismo. Era o oposto direto da minha, selvagem e imprevisível. Em poucos minutos, as roupas estavam secas e quentes ao toque, um consolo bem-vindo contra o frio da noite. Após o Guardião me secar com a mesma magia gentil, ele me jogou minhas roupas sem uma palavra, um gesto eficiente e direto. Enquanto nos vestíamos no crepúsculo avançado, o silêncio retornou, mas desta vez, era diferente. Era um silêncio limpo, despojado de tensão, um espaço onde as feridas estavam começando a cicatrizar. Não éramos mais o guerreiro e o fardo, o carrasco e a vítima. Éramos apenas dois viajantes, limpos, cansados e, de alguma forma, unidos pelo fogo oculto da compreensão, compartilhando o silêncio ao lado de uma cachoeira sob a luz das primeiras estrelas que começavam a pontilhar o céu. E pela primeira vez, a jornada à frente, tão árdua e incerta, parecia um pouco menos impossível.

Continua…

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