Adormeci em meio ao caos que se instalara em minha mente, chorei até não ter mais lágrimas, soluçando até minha garganta arder. Mas quando os primeiros raios de sol atravessaram as cortinas do meu quarto, algo mudou dentro de mim. Era como se uma força interior tivesse despertado junto comigo.
Não. Eu não ia me permitir entrar em depressão. Não ia deixar que uma traição do Carlos me jogasse no fundo do poço como um animal ferido. A verdade nua e crua era que esse era um problema dele, não meu. Obviamente meu coração estava despedaçado, sim, eu estava arrasado por ter confiado cegamente, por ter aceitado tantas coisas que agora faziam sentido... mas não havia mais nada que eu pudesse fazer para mudar o que já estava feito.
Meu celular vibrava incessantemente na mesinha de cabeceira. Mensagem atrás de mensagem do Carlos. Ligação perdida atrás de ligação perdida. O desespero dele era palpável até através da tela, mas eu não queria saber. Não queria ouvir suas desculpas patéticas, suas justificativas vazias. O que ele fez estava feito, selado, gravado na minha memória como uma marca a ferro em brasa, e naquele momento ele simplesmente não merecia o meu perdão.
Então tomei uma decisão que mudaria tudo: eu não ia me permitir ficar na fossa. Eu não ia deixar que eles roubassem minha força, minha energia, minha juventude. Minha vida precisava andar, precisava caminhar, agora sem o Carlos - e talvez essa fosse exatamente a hora de focar realmente em mim. Aproveitar a vida de verdade. Afinal, eu tinha apenas 18 anos e o mundo inteiro pela frente.
Por um momento pensei em faltar na faculdade, me permitir um dia inteiro de autocompaixão, mas algo dentro de mim gritou: "Não!". Eu iria para a aula, sim. E principalmente, eu queria olhar diretamente nos olhos do Raul para ver que tipo de homem ele realmente era. Afinal, o Carlos certamente já havia contado para ele que eu tinha pego seu celular e descoberto toda a farsa sórdida deles.
Me arrumei com uma determinação que eu não sabia que possuía, tomei meu café da manhã mastigando cada pedaço como se fosse combustível para a batalha que estava por vir, e parti para a faculdade.
Assim que cheguei no campus, peguei meu celular e digitei rapidamente para o Matias: "Já chegou? Me encontra na lanchonete perto da biblioteca, preciso muito falar contigo."
A resposta veio quase instantânea: "Chego em 10 minutos, vou direto pra lá. Tudo bem?"
Peguei um café bem forte - ia precisar de toda a cafeína possível - e me sentei numa das mesinhas próximas a uma grande mangueira que sombreava o local. Alguns minutos depois, avistei o Matias se aproximando com aquele sorriso característico que sempre me acalmava.
— Bom dia, amigo! — disse ele estendendo a mão para um aperto de cumprimento, mas logo sua expressão mudou quando me viu de perto. — Cara, essa cara aí... você dormiu péssimo, né? O que aconteceu?
— Aff, Matias... — suspirei pesadamente, sentindo o peso de tudo que havia descoberto. — Nem te conto, cara. Na real, passei a noite inteira chorando feito uma criança, mas... — respirei fundo — ...eu tô bem. Ou pelo menos vou estar.
— Chorando? — Matias se inclinou para frente, preocupado. — Como assim, mano? Que parada é essa? O que diabos aconteceu?
— Olha, não quero entrar muito em detalhes porque ainda dói pra caramba, mas... — pausei, organizando as palavras na minha cabeça. — Passei o final de semana inteiro com o Carlos na casa de praia dele, né? Ontem ele desceu para pegar comida e eu, feito um idiota desconfiado, peguei o celular dele. Tinha uma mensagem nova do Raul piscando na tela.
— E aí? — Matias estava totalmente focado na história.
— Aí eu abri a conversa e... cara... — minha voz tremeu um pouco — ...simplesmente descobri que o Carlos vem tendo um caso com o Raul durante todo esse tempo, Matias! Pelas minhas costas, enquanto eu estava ali, apaixonado feito um otário, acreditando em cada palavra, em cada 'eu te amo' que saía da boca dele.
— QUE?! — Matias quase gritou, se controlando apenas porque estávamos em público. — Você tá falando sério? Não acredito... O Raul? Que sempre dizia ser seu amigo?
— Exatamente! — respondi com amargura. — O mesmo Raul que ficava dando conselhos sobre relacionamento, que dizia torcer por nós dois... O mesmo puto de um talarico, de um sacana sem caráter! — minha voz estava subindo de tom. — Como ele tinha a coragem, a cara de pau de dizer que era meu amigo enquanto estava transando com meu namorado escondido? Me responde isso!
— Cara, eu tô passado! — Matias balançou a cabeça, incrédulo. — Juro por Deus, não esperava isso do Raul. Sempre achei ele meio estranho, mas isso... isso é covardia pura! E agora, o que você pretende fazer?
— Sabe o que mais me dói, Matias? — ignorei a pergunta dele por um momento. — Não é nem só a traição em si. É saber que enquanto eu ia dormir, o Carlos ia encontrar com o Raul. Enquanto eu sonhava com não sei o quê, eles estavam fudendo pelas minhas costas, traindo da forma mais sórdida possível.
— Isso é de fuder, mano... — Matias estava visivelmente indignado. — Mas e aí? O que você vai fazer agora?
— Olha, minha primeira reação foi querer partir para cima do Raul, quebrar a cara dele até ele não conseguir mais sorrir com aquele sorrisinho falso... — cerrei os punhos sobre a mesa. — Mas isso não vai me trazer paz, né? Na real, nada que eu fizer vai apagar o que aconteceu, então prefiro deixar como está. Prefiro preservar minha energia para coisas melhores.
— Acho que você tá sendo sensato, mesmo com toda a dor que deve estar sentindo... — Matias me olhava com admiração. — Mas e o Carlos? Quem diria, né? Nunca imaginei que ele fosse capaz de uma coisa dessas.
— Pois é, cara... — minha voz ficou mais baixa, mais melancólica. — Ele dizia que me amava todos os dias, Matias. Todos os santos dias! E estava ali, transando com meu suposto amigo, rindo da minha cara, me fazendo de palhaço... — balancei a cabeça. — Mas enfim, já estou com a cabeça mais fria sobre isso. Claro que ainda estou triste, não vou mentir, eu amo o Carlos pra caramba ainda... mas ele jogou sujo comigo. Ele podia ter tido a decência de terminar comigo antes de partir para outra, mas não... preferiu me enganar. Enfim, preciso dar tempo ao tempo e deixar essa ferida cicatrizar.
— Você tá sendo muito maduro com tudo isso, cara. Admiro sua força... — Matias deu uma pausa e depois arregalou os olhos. — Ó, olha lá! O Raul tá chegando... e pelo jeito que ele tá caminhando, acho que vem vindo na nossa direção.
Senti meu estômago se contrair. Era exatamente o que eu queria e ao mesmo tempo o que mais temia naquele momento.
— Ai, meu Deus... — suspirei fundo. — Era só o que me faltava ter que dar de cara com esse talarico logo agora... — fiz uma pausa, sentindo uma mistura de raiva e curiosidade. — Mas sabe que vai ser até bom? Quero ver que tipo de desculpa esfarrapada ele vai me dar, isso se tiver coragem de falar alguma coisa.
Alguns segundos que pareceram eternos se passaram até que Raul chegasse à nossa mesa. Ele se aproximou com aquela pose de sempre, mas havia algo diferente no seu jeito... uma tensão, um nervosismo que ele tentava disfarçar.
— Bom dia, meninos! Tudo bem com vocês? — disse Raul, se sentando na cadeira bem de frente para mim, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Bom dia... — respondeu Matias, visivelmente constrangido e sem saber como agir.
— E aí, Lucas? — Raul me encarou com aquele olhar que antes eu achava misterioso e interessante, mas que agora me parecia calculista e falso. — Tudo tranquilo com você?
Senti o sangue ferver nas minhas veias. A audácia dele era surreal.
— Você tem a pachorra de me perguntar se eu tô bem? — cruzei os braços e me inclinei para frente, encarando ele de volta. — Sério mesmo, Raul? Você acha que eu posso estar bem depois de descobrir que você estava transando com meu namorado pelas minhas costas? Quer dizer, estava não... está, né? Porque pelo que eu vi nas mensagens, vocês estão apaixonadinhos um pelo outro.
Raul engoliu seco, mas tentou manter a compostura.
— Lucas... eu... desculpa, cara, mas as coisas simplesmente aconteceram, sabe? — sua voz soava forçada. — Eu sei que errei, sei que machuquei você, mas foi o Carlos que veio atrás de mim primeiro. Eu não tinha muito o que fazer, entende? Não consegui resistir...
— VOCÊ É UM FALSO, RAUL! — explodi, sem me importar com quem pudesse estar ouvindo. — Isso é o que você é! Um falso de marca maior! Durante todo esse tempo vocês dois ficaram rindo da minha cara, fazendo eu de idiota, e você ainda vem aqui falar que "não tinha o que fazer"?
— Calma, Lucas... — ele tentou me interromper.
— Calma nada! — continuei, sentindo toda a raiva acumulada saindo de uma vez. — Vocês transavam pelas minhas costas, debaixo do meu nariz, e eu aqui achando que tinha dois grandes amores na minha vida: meu namorado e meu amigo! Que piada, né? Sério, tô com nojo de você, Raul. Nojo e pena.
— Eu não tenho culpa de tudo que aconteceu... — ele disse, e então soltou uma frase que me deixou ainda mais indignado. — Na real, você que é culpado de tudo isso! Você podia ter se juntado à gente desde o início!
Minha boca literalmente caiu aberta. Matias ao lado fez uma expressão de choque total.
— EU que sou culpado? — quase gritei. — E ainda por cima você sugere que eu deveria ter "me juntado" a vocês? Você tá maluco ou o quê?
— Não é bem assim que eu quis dizer... — ele tentou se explicar.
— A traição já começou naquele primeiro dia, quando eu estava dormindo e vocês ficaram embaixo do chuveiro juntos! — interrompi, sentindo lágrimas de raiva nos olhos. — Enquanto eu dormia, vocês estavam ali, se pegando, rindo de mim provavelmente! Você não era para ter feito isso, Raul! EU SOU SEU AMIGO! Ou pelo menos era...
Raul baixou a cabeça por um momento, mas depois me olhou com uma expressão que misturava culpa e algo que parecia... desafio?
— Lucas, desculpa por tudo, de verdade... mas aconteceu e não tem como voltar atrás. — sua voz ficou mais firme. — Quer saber de uma coisa? No começo, eu comecei a ficar com o Carlos porque eu queria você. Queria me envolver mais com você, e ele seria tipo uma ponte para chegar até você, entende?
— Que ponte que nada, cara! Isso é loucura! — respondi, incrédulo.
— Mas sei lá, Lucas... — ele continuou, ignorando minha indignação. — O Carlos é envolvente pra caramba, ele tem um sorriso, um jeito diferente de ser... e eu acabei me apaixonando por ele de verdade. — fez uma pausa. — Peço mil desculpas por ter machucado você, sei que deve me odiar agora, mas o que era para ser só uma brincadeira, uma forma de chegar até você, virou algo real. Eu tô apaixonado pelo Carlos.
Fiquei alguns segundos em silêncio, processando a confissão mais surreal que já havia escutado na minha vida.
— É mesmo? — perguntei com ironia. — Que coincidência, né? O Carlos me disse exatamente a mesma coisa ontem! Que começou tudo porque queria se distrair, mas acabou se apaixonando por você... — dei uma risada amarga. — Que par perfeito vocês fazem! Duas pessoas que começam uma relação baseada em mentira e traição e ainda acham que é amor verdadeiro!
— Lucas, não é assim... — ele tentou protestar.
— Não, Raul, é exatamente assim! — me levantei da cadeira, sentindo que se ficasse ali mais um segundo ia explodir de vez. — Mas sabe de uma coisa? Agora o caminho tá livre para vocês! Podem namorar, podem adotar um cachorro, ter filhos, fazer o diabo a quatro... sejam felizes e me esqueçam de uma vez por todas!
— Lucas, espera... — ele tentou se levantar também.
— E sabe o que mais, Raul? — virei para ele uma última vez. — Se o Carlos fez isso comigo, que estava com ele a um certo tempo, ele pode muito bem fazer a mesma coisa com você. Boa sorte vivendo com a paranoia de não saber se pode confiar no seu "grande amor"! — fiz aspas no ar com os dedos. — Enfim, vou para minha aula. Adeus, Raul. E dessa vez é adeus mesmo.
— Lucas, por favor, espera! — ele segurou meu braço com força, desesperado.
— ME SOLTA, RAUL! — gritei, me desvencilhando bruscamente. — Não tenho mais nada para falar com você! NUNCA MAIS!
E então saí dali com passos firmes em direção à sala de aula, deixando para trás não apenas Raul e Matias na mesa, mas também uma parte da minha vida que eu sabia que nunca mais voltaria a ser a mesma.
Obviamente aquelas palavras todas me machucaram profundamente - cada sílaba era como uma nova facada no peito. Eu sabia exatamente o quanto o Carlos era envolvente, o quanto ele era carismático e sedutor. Não podia culpar completamente o Raul por ter se apaixonado por ele... mas isso não mudava o fato de que eu havia sido traído pelos dois homens um que eu acreditava ser meu grande amor da minha vida, e o outro meu amigo da faculdade, que eu acabara de conhecer.
A verdade nua e crua era que não havia mais nada que eu pudesse fazer. O caminho estava livre: se eles realmente se gostavam, que ficassem juntos então. Mas que fosse bem longe de mim, porque essa era a única coisa que eu queria naquele momento - distância. Muita distância de toda essa dor.
Enquanto caminhava pelos corredores da faculdade, senti que uma fase da minha vida havia terminado definitivamente. E talvez, só talvez, isso fosse exatamente o que eu precisava para começar uma nova.
Consegui assistir todas as aulas daquele dia, focando nos meus estudos como se fosse a única coisa que importasse no mundo. O Matias tentava conversar comigo entre os intervalos, sempre me analisando com aquele olhar preocupado de quem não sabia bem o que dizer, mas a verdade é que eu realmente estava conseguindo me manter firme. Como eu já havia decidido pela manhã: não havia nada a ser feito além de seguir em frente.
O Raul ficou praticamente imóvel durante todas as aulas, com uma expressão séria e abatida que não era nada comum para alguém tão popular e sempre sorridente como ele. Mas sinceramente? Eu não queria mais nenhum tipo de envolvimento com aquela situação. Minha energia estava sendo direcionada para coisas mais importantes.
Quando as aulas finalmente terminaram e eu estava caminhando em direção ao estacionamento, meu coração quase parou. Lá estava ele: Carlos, parado encostado no meu carro, com aquela postura que misturava nervosismo e determinação. Suspirei fundo, revirei os olhos e senti meu estômago se contrair novamente.
— Com licença, por favor — falei, olhando diretamente para o rosto dele, tentando manter minha voz neutra.
— Lucas, por favor! — Carlos se afastou do carro, mas bloqueou meu caminho. — Vamos conversar! Eu preciso falar com você!
— Carlos, eu não tenho absolutamente mais nada para conversar com você — respondi com firmeza. — Acabou. Segue em frente. O caminho está livre para você viver sua linda história de amor com o Raul.
— Lucas, por favor! — ele insistiu, dando um passo em minha direção. — Deixa eu me explicar! Me dá pelo menos essa chance!
— Explicar o quê, Carlos? — questionei, sentindo a raiva começando a ferver novamente. — Me diz! Que você estava transando com meu amigo pelas minhas costas? Que você está apaixonado pelo Raul? Que tudo que vivemos foi mentira?
— Não é bem assim... — Carlos coçou a cabeça, visivelmente desesperado.
— Então é como, Carlos? — cruzei os braços. — Vai, me conta! Estou todo ouvidos para escutar suas desculpas esfarrapadas!
— Lucas... — ele pausou, passando as mãos pelo rosto. — Eu nem sei o que dizer direito, mas por favor, vamos tentar encontrar um jeito, uma maneira de resolver isso...
— Um jeito? Uma maneira? — repeti, incrédulo. — Carlos, acabou! Se você me amasse de verdade, você não teria ficado com o Raul pelas minhas costas! — minha voz começou a subir de tom. — Naquele dia que fizemos o ménage, no outro dia eu acordei e vi vocês dois no banheiro juntos! Sério, aquilo me deu um nojo profundo, me senti a pior pessoa do mundo!
Carlos tentou me interromper, mas eu continuei, deixando toda a mágoa sair de uma vez:
— Eu te confrontei depois, lembra? E você disse que eu não tinha acordado direito, que você estava apenas com tesão matinal! Que mentira descarada! E ainda por cima vocês trocaram telefone! Desde então vocês vêm tendo um caso escondido!
— Lucas...
— Eu suspeitava, sabia? — continuei, sentindo lágrimas de raiva nos olhos. — Por um lado, minha intuição queria me dizer alguma coisa, mas eu estava tão apaixonado por você, tão cego de amor que eu simplesmente quis fechar os olhos para os sinais! E isso foi traição, Carlos! A pior de todas as traições!
Então Carlos fez algo que me deixou completamente indignado. Ele respirou fundo e disse:
— Quando a gente estava junto da primeira vez, você me traiu também! Você traiu o Luke várias e várias vezes!
Senti como se ele tivesse me dado um soco no estômago.
— Carlos, o que eu fiz no passado não está em jogo agora! — explodi. — Isso não te dá permissão para me trair! Eu estava com você desta vez, você disse que não queria nada aberto, que era para sermos só nós dois! Quando você me propôs o a3 com o Raul, você não me deu uma escolha real! Você disse que ia com ou sem mim, e eu fui forçado porque não queria te perder!
— Mas Lucas...
— Você foi um covarde, Carlos! — gritei, não me importando mais com quem pudesse estar ouvindo. — Você me usou, me manipulou, e agora vem me questionar coisas do passado? O que importa é o que a gente vive hoje, e hoje você me traiu da pior forma possível!
Carlos ficou em silêncio por alguns segundos, e então sua expressão mudou completamente. Ele parecia... derrotado.
— Tá bom, Lucas... — disse ele, com a voz mais baixa. — Você tem razão. Eu errei. Eu estou muito mal por tudo isso porque você é o grande amor da minha vida. Eu te amo tanto, Lucas... — sua voz tremeu. — Eu não sei onde eu estava com a cabeça, não sei por que eu quis me encontrar com o Raul essas outras vezes.
Senti meu coração se apertar ao vê-lo daquele jeito, mas tentei me manter firme.
— Eu sempre quis você — Carlos continuou. — Eu até armei para afastar o Luke de você naquela época. Eu fiquei muito mal quando a gente terminou, e meu pai até me deu uma surra porque estava chorando por sua causa... — ele fez uma pausa, respirando fundo. — Mas sabe, Lucas? Eu não vou passar por isso de novo.
— Como assim? — perguntei, confuso.
— Eu estou aqui, disposto a mudar, a virar a página. Eu quero você, me perdoa! — ele me olhou nos olhos com uma intensidade que me desarmar. — Mas se você não conseguir fazer isso, tudo bem. Eu vou seguir minha vida. Eu me arrependo, não devia ter feito nada disso, mas infelizmente não vou passar pelo que já passei antes.
— Carlos...
— Você acha que foi fácil para mim quando meu pai me tirou do LEI? — sua voz estava carregada de mágoa. — Eu tive que ir para uma escola completamente diferente para ficar longe de você, porque você havia me trocado pelo Luke! Você tem ideia do que foi isso para mim?
— Carlos, o que aconteceu no passado acabou! — respondi, tentando manter meu ponto. — Passou! Entenda isso! Eu não quero justificar seus erros de hoje com dores antigas!
— Não quero saber! — foi a vez de Carlos subir a voz, e pela primeira vez ele parecia realmente bravo. — Para você tudo sempre foi fácil, sempre foi fácil, né?
— Carlos, você quer me manipular! — acusei. — Quer fazer com que eu me sinta culpado por algo que foi responsabilidade sua!
— Não, Lucas! — ele gritou de volta. — Eu quero desabafar tudo que tenho engasgado aqui no peito há tanto tempo!
— Eu achei que a gente estava em sintonia desta vez, mas pelo que vejo, estávamos longe disso! — respondi, sentindo que a situação estava saindo completamente do controle. — Isso não tem nada a ver com você jogar coisas do passado para me atacar, Carlos!
— Tá, tá, tá bom! — Carlos interrompeu, passando as mãos pelos cabelos com frustração. — Vamos ser práticos então. Você quer me perdoar e voltar para mim? É isso que você quer?
O silêncio que se instalou entre nós foi ensurdecedor. Eu podia sentir meu coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca. Olhei nos olhos dele, naqueles olhos que eu conhecia tão bem, que já me fizeram sonhar tanto...
— Não — falei finalmente, com a voz firme, olhando diretamente nos olhos dele. — Não quero.
A expressão de Carlos mudou completamente. Era como se algo tivesse se partido dentro dele.
— Tudo bem então — disse ele, e sua voz tinha uma frieza que eu nunca havia escutado antes. — Então isso é um adeus definitivo. Se você não quer ouvir o que eu tenho engasgado, se você não quer me perdoar, se você não quer mais saber de mim... ok. Acabou. Cada um segue sua vida.
— Carlos...
— Como eu disse, eu não vou passar pelo que já passei de novo — continuou ele, e havia uma determinação dolorosa em sua voz. — Eu te amo, Lucas, e sempre vou te amar. Mas eu não sou mais trouxa. Você me enganou tantas vezes, você me usou quando quis, e um único deslize meu e você me ataca como se eu fosse a pior pessoa do mundo!
— Carlos, eu nunca te usei te amando! — explodi, sentindo as lágrimas começarem a escorrer. — Eu sempre fui claro com você! Principalmente quando eu estava com o Luke, eu me declarei para você, porra! Eu te disse que nos últimos meses eu estava completamente apaixonado por você! Eu te amo, entenda! Eu não esperava por isso!
E então desabei. Comecei a chorar alto, soluçando sem conseguir me controlar.
— Vo-você me machucou, Carlos! — falei entre soluços. — Você feriu meu coração de uma forma que eu nem sabia que era possível!
— Desculpa... — Carlos sussurou, e então me puxou para um abraço.
E eu me deixei ficar ali, chorando alto em seus braços, soluçando como uma criança, sem me importar se alguém no estacionamento da faculdade estava vendo ou não. Por um momento, sentir o cheiro dele, o calor do seu corpo, foi como estar em casa novamente.
Mas então a realidade me atingiu como um balde de água fria.
— Acabou — falei, me afastando bruscamente dele, limpando as lágrimas com as costas da mão.
— Tem certeza disso? — Carlos me olhou no fundo dos olhos, e pela primeira vez percebi que ele também estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Sim — respondi, tentando ser forte. — Segue sua vida, que eu vou seguir a minha.
Carlos ficou me olhando por alguns segundos que pareceram eternos. Então assentiu lentamente.
— Tudo bem — disse ele, com uma tristeza profunda na voz. — Só quero que você seja feliz, Lucas. Peço desculpas... eu fui um cretino, não devia ter feito nada disso. Você não merece passar por isso.
Fez uma pausa, olhando para o chão e depois voltando seus olhos para mim.
— Mas sabe... — continuou — ...talvez esse ainda não seja nosso momento de estar juntos. Um dia você vai me perdoar, e um dia eu vou conseguir esquecer tudo o que já passamos, e talvez a gente possa ser amigos... ou quem sabe até namorados novamente.
Senti meu coração se partir um pouco mais.
— Mas enfim... — ele deu de ombros — ...não tenho muito mais o que dizer. Quero que você fique bem e siga sua vida, que eu vou seguir a minha. Adeus, Lucas.
Carlos começou a se afastar, e por um momento eu fiquei ali parado, vendo-o caminhar em direção ao próprio carro. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas voltarem com força total...
— Espera! — gritei de repente.
Corri até ele e o abracei com força, um abraço apertado e desesperado. Cheirei seu perfume como se fosse uma droga, gravando aquele cheiro na minha memória porque não sabia quando teria essa chance novamente.
Ele me abraçou de volta, fazendo meu corpo ficar colado no dele, alisando minhas costas com aquela delicadeza que sempre me desarmar.
— Fica bem — sussurrou no meu ouvido.
Então ele me soltou, me olhou uma última vez com aqueles olhos cheios de amor e dor, e seguiu em frente.
E eu fiquei ali, sozinho no estacionamento, vendo o amor da minha vida ir embora para sempre, sabendo que dessa vez não havia mais volta.
O silêncio que ficou era ensurdecedor. E pela primeira vez desde que havia descoberto tudo, eu me senti completamente... vazio.