Amar Você Até a Morte

Um conto erótico de Sativo
Categoria: Heterossexual
Contém 3757 palavras
Data: 18/05/2025 08:13:48
Última revisão: 05/01/2026 05:08:50

Conto inspirado pela música “Love You To Death”, da banda Type O Negative.

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Lázaro emergia de sua morada como uma figura espectral, dissolvendo-se entre a penumbra sobre as ruas desertas, enquanto a noite, tipo um véu de veludo negro, cobria a cidade engolindo as cores suaves do crepúsculo.

As luzes das ruas cintilavam, somente as sombras habitavam por aqueles becos estreitos. Era lá, entre as construções frias e a névoa espessa, que ele sempre a esperava. Quando o som oco das botas quebrava o silêncio, Lázaro sabia que Rosália, seu amor noturno, se aproximava.

Ela, com seus lisos cabelos negros, como cetim ao toque da noite, e uma pele alva como a lua. Ele, uma figura alta e silenciosa, com olhos tão escuros quanto as águas de um lago profundo. Os ouvidos dele atentos aos passos de Rosália. Sentia-se atraído pelos votos de paixão eterna, uma chama que queimava na escuridão, que devorava os dois sem piedade.

Quando Rosália o encontrou, encostado contra a parede úmida de tijolos antigos, ela o saudou com um sorriso malicioso, porém delicado. O peito dele pesou, o “Boa noite, meu amado!” de Rosália ecoou em seus ouvidos como notas de um órgão dentro de uma catedral vazia. Lázaro se aproximou e a puxou para si com uma força que beirava a violência, mas que ela adorava.

— Sabias que por teu nome eu me entregaria à morte? – as palavras escaparam dos lábios dele em uma devoção profana, enquanto seus dedos deslizavam pela curva do pescoço dela, sentindo o pulso acelerar sob a pele fria.

Rosália não respondeu, apenas inclinou a cabeça expondo a garganta, em um sinal de completa rendição.

Tomado pelo ímpeto daquela cena, Lázaro traçou uma trilha de beijos e mordidas úmidas ao longo do pescoço dela, enquanto seguia sussurrando ao seu ouvido.

— Digo com a mais intensa sinceridade, Rosália. Achas que Ele se entregaria por ti? – Aquela frase escapara das profundezas da alma de Lázaro, feroz como uma besta. Havia resquícios de rancor no modo como mencionava “Ele”.

— Definitivamente Ele não o faria – a voz de Rosália carregava o peso de um assunto que preferia deixar para outro momento.

Apesar da devoção ardente a Lázaro, Rosália vivia presa a uma existência dupla. Em seu refúgio iluminado pelo frio do alvorecer, Evandro, seu marido ausente rasgava a noite com seu labor incessante, como um vulto distante na sua vida.

Rosália o mantinha no limiar do desconhecimento. Enquanto ele assumia o turno da noite na vigilância de uma fábrica do bairro, os desejos verdadeiros da esposa se desenrolavam nas trevas da noite com Lázaro.

Era somente com Lázaro que Rosália se entregava aos sussurros da noite, dançando entre as penumbras, seus passos furtivos apressando-se para que o sol jamais encontrasse sua pele marcada pela volúpia oculta.

— Deixemos Evandro para outra hora. Agora somos apenas nós dois! – murmurou Rosália.

— Como em todas as noites – respondeu Lázaro, o esboço de um sorriso em seus lábios.

Suas bocas se encontraram em um beijo que já era instintivo, explorando o interior um do outro. Lázaro a prensou contra a parede áspera, marcando sua pele pálida como um símbolo de posse, como um altar recém-consagrado ao desejo.

Em seguida, ele a tomou nos braços, guiado pelo fervor que queimava em suas veias, e a conduziu aos beijos até a entrada de seu refúgio sombrio, a poucos metros dali. A saia de Rosália, como um véu, dançava ao vento enquanto ele a carregava pela escuridão daquele beco.

Dentro da casa, o santuário pagão de Lázaro, entregaram-se ao fogo daquela paixão furtiva e feroz. Como em noites passadas, ele a deitou sobre o antigo sofá da sala, aconchegante, as mãos de ambos delinearam o corpo um do outro com a urgência de quem dança à beira do abismo. Línguas se entrelaçaram, lábios se chocaram, como um jogo voraz de prazer, um duelo de desejos bravios.

— Ainda guardas aquele vinho tinto da noite passada? – perguntou Rosália, suas palavras abafadas entre a selvageria dos beijos e carícias.

— Sim, ainda o conservo. Lembraste bem, minha deusa da noite – respondeu Lázaro, direcionando-se à cozinha. Rosália o seguiu, seus passos ecoando pelo carpete antigo.

Era o vinho predileto de Rosália, um néctar rubro que ele guardava como uma parte dela. Nas noites em que ela não vinha, Lázaro sorvia aquele líquido escarlate em solitária devoção, como se cada gole fosse uma comunhão com sua amante.

Ao servi-la, estendeu a taça, propondo um brinde à noite que os envolvia, companheira silenciosa daquele romance proibido.

— Minha gratidão, Lázaro – a voz de Rosália escapou em tom suave apaixonante. Ao levar a taça à boca, sorvendo um trago do vinho, seu batom escarlate selou o vidro com a marca dos seus lábios.

— Servir-te é minha lei.

Lázaro observava Rosália como uma fera domesticada, seus olhos escurecendo como o próprio vinho que tragava. Encarava-a, decifrando o olhar delicadamente malicioso e os gestos sutilmente sensuais que ela fazia com os lábios avermelhados.

— Seus lábios, tão suaves... mas posso sentir o que estão suplicando em silêncio... – a voz dele emergiu como um trovão.

— Então me diga, meu amado, que mistério se oculta por detrás deles! – seus olhos ardiam com um fervor vívido.

Em um movimento hábil e firme, Lázaro a envolveu pela cintura, atraindo-a para si até que seus corpos se chocassem. Rosália percebeu a rigidez pulsante do sexo dele colidindo contra o seu. Lázaro a olhou nos olhos e respondeu:

— Eles dizem que a fera que habita em mim deve pegar você! – como um bicho selvagem despertado do sono, Lázaro conduziu Rosália para o quarto, carregando-a pela cintura, aos beijos.

Impaciente, Rosália arrancou a blusa, enquanto ele, já sem camisa, deslizou o zíper da calça. Em poucos instantes, suas roupas estavam dispersas pelo chão frio. Lázaro devorava os seios dela, lambendo e chupando com devoção, enquanto ela se contorcia, entregue aos braços vigorosos que a envolviam.

— Sabes bem como me umedecer toda! – a voz dela escapava trêmula, entre gemidos, enquanto o fazia deslizar delicadamente as pontas dos dedos sobre a umidade do tecido suave da sua calcinha, que já revelava a fenda de seu sexo.

Os lábios de Lázaro desciam com uma lentidão provocante, mas com carícias que faziam Rosália arder de tesão. Seu corpo tremia, tomado pelo fervor que crescia a cada centímetro que ele explorava.

— Apenas fecha teus olhos e deixa-me te amar até o fim! – sua voz, profunda e envolvente, sussurrava junto ao ouvido dela.

Desceu pelo ventre de Rosália, os lábios desenhando caminhos até encontrar a maciez de suas coxas. Ele a provocava com beijos e lambidas, dançando ao redor do ponto mais sensível, sem jamais tocá-lo diretamente, como um predador que prolonga a caçada para intensificar o prazer da captura.

Quase como uma súplica, Rosália arqueava seu corpo até que a língua dele finalmente se lançou contra os lábios molhados de seu sexo, arrancando-lhe um gemido que ecoou pela escuridão do quarto.

Rosália sentia a língua de Lázaro deslizando com ardor, traçando círculos lentos e súbitos em seu clitóris, alternando entre movimentos firmes e provocantes. Seu corpo tremia em ondas involuntárias, dedos entrelaçados nos cabelos dele, puxando-o cada vez mais forte contra os lábios da sua boceta. Até que ela dissolvesse em júbilo. Rosália gemia com uma intensidade animalesca, enquanto ele saboreava seu mel como um condenado sedento.

Lázaro a envolveu por trás em um abraço fervoroso, mas algo despertou-lhe a atenção para a janela entreaberta.

Com um gesto silencioso, pediu que Rosália aguardasse, então avançou até a vidraça, onde o vento gelado da madrugada lhe afagou o rosto, fazendo seus longos cabelos dançarem no ar. Inclinou-se para olhar a calçada, e uma figura familiar cortou a penumbra.

— Ah, eras tu... Assustaste-me, Vlad – comentou Lázaro, dirigindo-se ao enorme felino de olhos da cor de esmeralda e pelos negros cumpridos.

O felino, certamente, havia se esgueirado para a rua quando seu dono saiu ao encontro de Rosália. Com um chamado suave, ele saltou de volta pela janela, aterrissando com graça nos braços de seu devoto tutor.

Lázaro, com Vlad aninhado em seu peito nu, caminhou até a porta do quarto, enquanto os olhos de Rosália o seguiam, brilhando com uma admiração apaixonada.

— Pobre Vlad, estavas a perecer de frio. Ainda bem que nos chamaste – disse Rosália em tom amável, aproximando-se dos dois, seus dedos deslizando carinhosamente pelo focinho do felino.

O gato foi solto cuidadosamente na entrada do quarto, de onde ele escapuliu para a sala em poucos segundos, aninhando-se sobre a sua almofada ao lado do sofá.

Então, os olhos de Lázaro se voltaram para Rosália, queimando em desejo, indicando a vontade de retomar o prazer interrompido.

Rosália retornou à cama, deitou-se em uma pose convidativa. Seus músculos ainda estavam trêmulos do êxtase. Seus olhos, entreabertos, capturavam cada movimento de Lázaro, que avançava que nem um predador, com as mãos envolvendo o próprio membro, rígido, como lâminas que se preparam para o corte final, afiando-se no desejo que os consumia.

— Vem, Lázaro, deixa-me te amar também! – a voz dela escapando em um murmúrio ofegante, clamando-o.

Rosália, sedenta de desejo, lançou-se com a boca sobre o sexo dele, entregando-se ao ímpeto primitivo que dominava os seus sentidos. Lázaro deixava escapar gemidos roucos, enquanto Rosália, entregue à lascívia do momento, envolvia o pênis pulsante dele em carícias orais.

Era um ritual sagrado de devoção e obscenidade. Rosália prosseguia com a felação, quando Lázaro deslizou a língua pelas pontas de seus dois dedos do meio, afundando-os lentamente no sexo dela.

Por alguns minutos, permaneceram entregues àquela troca luxuriosa, onde ela envolvia-o com sua boca úmida e faminta, enquanto ele a penetrava com seus dedos longos, explorando-a com a mesma devoção. Lázaro se sentia duplamente dentro de Rosália, seu domínio sobre ela parecia tão profundo quanto a noite que os assistia pela janela.

Entre lambidas, sucções e engasgos, Rosália o devorava com uma fome incontrolável, fazendo com que o membro de Lázaro pulsasse intensamente em sua boca.

Não suportando mais o tormento delicioso daquela entrega, ele a deitou de costas no colchão, afastando-a com uma firmeza cuidadosa, arrancando dela um leve arquejo quando seus lábios se separaram bruscamente do membro dele.

Fios de saliva cintilaram, enquanto o pênis dele tremulava no ar, no auge da rigidez, erguendo-se como uma estátua obscena.

Rosália sentiu as mãos fortes de Lázaro pegá-la pela cintura, aproximando seus corpos até que suas pernas o prendesse a ela, selando-os em uma fusão febril.

A mão esquerda dele subiu ao pescoço dela, os dedos apertando levemente enquanto a penetrava, uma linha tênue entre prazer e submissão, enquanto a outra mão a mantinha firmemente contra si, aprofundando cada movimento. Seus corpos se moldavam no ritmo de uma sinfonia macabra.

A cada estocada de Lázaro, Rosália arquejava suplicando mais. Seu corpo, curvando-se como uma oferenda viva ao prazer que a consumia, implorava por mais, sempre mais, com uma ferocidade herética que se renovava a cada golpe dele na sua boceta.

Quando Lázaro se afastou por um momento, seus olhos capturaram o brilho escuro dos dela – um juramento que apenas os amantes noturnos poderiam compreender. Ele traçou o desenho de sua mandíbula com os lábios, sussurrando contra sua pele fria:

— Sou bom o suficiente para você?

A única resposta de Rosália foi o arranhar de suas unhas contra as costas dele, puxando-o de volta. Lázaro compreendeu.

Os lábios se chocaram em mais um beijo voraz. As línguas, como serpentes, enroscavam-se, enquanto seus corpos se moviam em um ritmo brutal.

Cada estocada ressoando como trovões em meio à tempestade de prazer. A energia que ardia entre os dois era tamanha que Rosália, embora menor e mais delicada, encontrou força para lançar o corpo vigoroso de Lázaro para o lado, fazendo-o tombar no leito, caindo no exato ângulo que permitia a ela montá-lo, que nem uma rainha reclamando seu trono.

Os quadris dela ondulavam em um ritmo hipnótico, afundando sobre o pênis dele, enquanto as mãos grandes de Lázaro acompanhavam cada movimento – também sabia e adorava ser um servo. Seus corpos brilhavam sob a luz pálida, envoltos em suor, e as gotas escorriam pelos seios de Rosália, saltando de seus mamilos rígidos, desaguando no torso dele, como rastros ardentes de seu prazer.

Cada fibra do corpo de Lázaro vibrava com uma intensidade crescente, seus músculos tensionando-se a cada galope de Rosália, moldando-se perfeitamente a ele. As pulsações do pênis dele se intensificavam, reverberando no ventre dela, enquanto o calor que os consumia ameaçava transbordar, prestes a se derramar em uma explosão de prazer desvairado.

O êxtase os atingiu quase simultaneamente, como um raio rasgando a escuridão. Rosália esmaecia em prazer pela segunda vez, seu corpo estremecendo em espasmos incontroláveis.

Os dois urravam e se apertavam como feras enlouquecidas, seus corpos marcando-se com unhas e dentes, como amantes que selam seu pacto com sangue.

Silenciosa, a lua cheia era testemunha daquele rito herético que se desenrolava nas entranhas da cidade. Porém, não era a única.

* * *

Lá fora, uma figura se movia em meio à escuridão, uma silhueta solitária, próximo à janela do quarto de Lázaro. Escutara cada som – o atrito febril das carnes, os gemidos roucos dos amantes noturnos – mas não com o deleite de um pervertido, e sim com o amargor de um espírito condenado à miséria. Este homem, consumido pela angústia e traído pelo próprio destino, era Evandro, o marido de Rosália, um fantasma de carne e osso que se arrastava pelos caminhos da vingança.

Pela segunda vez, ouviu Lázaro proclamar, com a intensidade de um mártir, que se entregaria à morte no lugar de Rosália, tão profundo era o amor que por ela nutria, tão ardente sua devoção por ela.

Evandro, por um breve instante, permitiu-se acreditar que também fosse capaz de semelhante sacrifício por sua esposa. No entanto, agora, enquanto o rancor queimava em seu peito, só desejava pôr à prova as palavras daquele que ousara roubar o coração de sua mulher.

* * *

No interior da casa, os amantes estavam na cozinha, de onde emanava o aroma terroso dos legumes recém-cortados. Lázaro, partindo os vegetais, pediu para Rosália alimentar Vlad, o gato. No entanto, ao despejar a ração, Rosália estranhou a ausência do felino, que normalmente aparecia ao menor ruído do alimento seco caindo na tigela. Curiosa, seguiu até a sala, onde encontrou Vlad com os pelos eriçados, o olhar fixo na fresta sob a porta, como se enxergasse algo além do visível, que a própria noite temesse revelar.

Da cozinha, Lázaro ouviu o som brutal da porta da sala sendo arremessada contra a parede, seguido pelo grito agudo do felino e o brado sufocado de Rosália. Ele correu em disparada para sala, seu coração martelando no peito, no ritmo de uma marcha fúnebre.

A porta da sala, violentamente rompida, permitia que o ar gélido da noite se derramasse pelo cômodo, como o hálito frio da morte.

Vlad, encolhido sob o móvel da televisão, assistia à cena com seus olhos verdes dilatados pelo terror.

Atrás do sofá, Rosália, tomada pelo desespero, debatia-se nos braços de um homem que a segurava com força implacável, com a fria boca de uma arma de fogo pressionada contra sua têmpora pálida.

— Traidora! – vociferava o homem.

— Evandro, não! Por tudo quanto é sacro nesta terra e além! – implorava a mulher, sua voz trêmula.

— Onde se esconde o infame? Hei de entregar ambos à morte ainda esta noite! – Evandro bradava com ódio, cada palavra cuspida como um açoite no ar.

Tamanha fúria obscurecia-lhe a razão, cegando-o ao ponto de não perceber a aproximação frenética de Lázaro por suas costas.

Lázaro lançou-se sobre Evandro com a fúria de um animal ameaçado, derrubando-o ao chão com um golpe firme e preciso na cabeça, acreditando, por um breve instante, que havia subjugado o invasor.

Quando Lázaro se inclinou para desarmá-lo, Evandro, ainda caído e atordoado, ergueu o braço com rapidez desesperada, apontando a arma diretamente para Rosália. Num movimento instintivo, Lázaro se atirou sobre o braço do homem no exato momento em que o disparo ecoou, cortando o silêncio da noite.

O estalo do tiro reverberou pelas ruas, misturando-se ao grito seco de Lázaro, cuja carne foi rasgada pouco abaixo do ombro esquerdo. Rosália, em pranto, caiu de joelhos, as mãos trêmulas estendidas em súplica, implorando ao marido que cessasse aquele delírio mortal.

Evandro, ensandecido por vingança, pareceu imune às súplicas de Rosália. Avançou em sua direção, deixando o seu amante ferido para trás, enquanto seus passos ecoavam pesados no chão frio. Seus olhos, duas órbitas esvaziadas de compaixão, encontraram os dela e, após um breve silêncio, esbravejou com a voz de alguém que já não teme o próprio destino:

— Terás algo mais cruel que a própria morte, Rosália – o marido traído vociferava. — Verás teu amado infame ser enlaçado pelos braços dela, como eu vi teus juramentos se dissiparem nos dele!

Aos pés de Evandro, Lázaro se encontrava em agonia, arrastando-se sobre o rastro do próprio sangue. A sala, outrora cenário dos prazeres noturnos dele e Rosália, agora se estendia como um caminho sem fim, onde cada movimento o levava à morte iminente.

Lázaro ergueu seus olhos, injetados de ódio e desespero, encontrando os de Evandro, que, mesmo com a vantagem da posição, intimidou-se por um momento ante aquele olhar que parecia amaldiçoá-lo. Mas a hesitação foi breve, e com a frieza de um assassino, Evandro apontou a arma e, sem piedade, puxou o gatilho pela última vez.

Quando o eco do último disparo de Evandro rasgou o silêncio, desta vez foi o grito de Rosália que se sobrepôs ao estampido, atravessando a noite com uma força descomunal.

— Perdoai-me, Senhor Deus, pois apressei a viagem de uma alma ao inferno – murmurou o marido, traçando sobre o próprio peito o símbolo da cruz, imaginando purificar a própria alma.

Rosália derretia-se em lágrimas e soluços, sufocada pelo peso do horror, não conseguia articular nenhum protesto ou súplica. Mas seu corpo, tomado por um ímpeto fulminante, reagiu com a ferocidade de uma besta diabólica.

Quando Evandro, ainda trôpego e alheio, dirigia-se em silêncio para a saída, Rosália se lançou pelas suas costas sem hesitação. O homem vacilou, seus pés deslizaram pelo rastro úmido do sangue de Lázaro e ele tombou, batendo a cabeça no chão com brutalidade.

A arma, manchada pelo mesmo sangue, deslizou até os pés de Rosália, como se se oferecesse para mais um ato mórbido de vingança. Com mãos trêmulas e olhos arregalados, ela a ergueu, contemplando por um breve instante o rosto atordoado do marido caído.

— Eis aqui tua redenção, Evandro! – então, sem hesitar, ela apertou o gatilho, disparando uma, duas, três vezes… até que o silêncio, enfim, se fizesse absoluto.

Ao som dos primeiros disparos que dilaceraram a vida de Lázaro, os ecos do caos rapidamente se espalharam pela vizinhança, atraindo olhares inquietos para a casa agora marcada pela tragédia. Quando Rosália se vingou do marido, em questão de minutos as luzes azuladas do carro de polícia se projetaram contra as paredes da velha casa, e quatro oficiais adentraram o local com passos cautelosos, os olhos já preparados para o horror que os aguardava.

Ali, no centro daquele banho de sangue grotesco, os oficiais encontraram dois homens entregues à eternidade: um estirado ao chão, o rosto e o peito perfurados pelas marcas das balas, os olhos vítreos voltados para o nada; o outro, repousando nos braços trêmulos de uma mulher em desespero, que, derretendo-se em lágrimas, ainda segurava a arma com dedos manchados de pólvora e sangue.

Rosália foi presa em flagrante, arrastada das sombras para a frieza das celas. Jamais soube do cortejo que acompanhou o corpo do marido, nem das preces murmuradas por aqueles que o velaram.

Quanto a Lázaro, seu destino foi menos piedoso – sepultado às pressas no cemitério dos esquecidos, à poucas ruas de sua velha casa, sem lágrimas, sem hinos, apenas seu fiel Vlad, imóvel no topo de um muro enegrecido, observando seu tutor ser tragado pela terra fria, como uma semente que jamais veria a luz.

* * *

Nas celas insalubres da prisão, Rosália logo se viu escrava de comprimidos que prometiam bons sonos e um alívio do peso que a esmagava.

Entregou seu corpo à proteção de Meredith, a soberana implacável daquela ala. Com ela, Rosália trocava sexo por segurança naquele mundo hostil.

Na noite em que a morte de Lázaro completava sete dias, nem mesmo seus remédios poderiam acalmar as perturbações da sua mente. As imagens do amante caindo, os miolos tingindo o ar com a cor do desespero, não lhe davam paz. Desesperada por esquecimento, Rosália dobrou a dose, afundando-se, enfim, no abraço frio do adormecimento profundo.

Naquela noite, Rosália reencontrou Lázaro em seus sonhos, mas ali, a morte não os separava. O ambiente ao redor era a sala de paredes brutas da casa dele. Ao contrário da cena grotesca que ela revivia antes de dormir na sua cela, o sonho era tão perfeito quanto todas as noites que passou com o amante. Era uma memória envolta em júbilos de devassidão e infinitas promessas.

Em seu sonho, Lázaro sorria com os olhos escuros cintilando na escuridão, repetindo as palavras que um dia aqueceram seu coração: “Vou te amar para sempre, Rosália. Até o dia de minha morte”.

Como nos encontros reais, os dois se trataram com devoção, devoraram-se com a ferocidade de amantes condenados, seus corpos entrelaçados em uma dança de desejo e desespero. Naquela mesma sala, que parecia intocada pelo sangue da vingança, o tempo parecia se dissolver, como se os próprios espíritos tivessem se curvado diante do poder daquele seu amor ímpio.

Foi naquela noite que Rosália dormiu o seu melhor sono desde o fatídico dia, entregando-se às sombras acolhedoras que se estendiam ao seu redor. Foi naquela noite que Rosália dormiu tão profundamente que nunca mais acordou. Permaneceu presa ao seu sonho encantado, onde Lázaro a esperava, eterno e perfeito, em um lugar onde o tempo se curvava à vontade dos amantes.

Rosália partira desta vida para a misteriosa eternidade. A família de Evandro, rígida em seus costumes e ainda mais endurecida pelo escândalo, não permitiu que sua esposa repousasse ao lado dele, os ossos orgulhosos dele recusariam a presença de uma traidora, mesmo na morte. Assim, as autoridades decidiram sepultar Rosália junto a Lázaro, unindo-os finalmente em um abraço eterno sob a terra fria.

Dizem pela cidade que, nas noites em que a névoa cobre os túmulos como um véu espectral, é possível ouvir sussurros apaixonados se misturando ao vento, e que uma tumba esquecida, marcada apenas por musgo e pedras gastas, é visitada apenas por um felino negro de olhos verdes da cor de esmeralda, cuja silhueta turva parece guardar os segredos de um amor que se eternizou pela morte.

[ F I M ! ]

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Foto de perfil de SativoSativoContos: 21Seguidores: 28Seguindo: 20Mensagem Sou apenas um proletário apaixonado por literatura, aventurando-se no universo erótico da escrita. //// 📩 sativosdevaneios@gmail.com

Comentários

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O gênero de terror/horror é o mais difícil para mim, nunca escrevi algo nessa linha que me deixasse satisfeito. Já você o fez com maestria, parabéns!

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Muito obrigado, Bayoux! É um gênero que gosto bastante. E até pode soar meio repetitivo em certo ponto, pois gosto dessa ambiência unida ao erotismo.

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Acho que esse é o meu favorito entre seus contos até agora. Uma maravilha de texto do começo ao fim!

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Muito bom saber disso, Sah. Muito obrigado!

Abraço!

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Olha Sativo, que primor de conto. É sombrio, macabro e ao mesmo tempo muito sensual e bonito. São tantos elementos aqui e todos bem dosados. Nem tenho muito a acrescentar além de dizer parabéns!

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Grato demais, Lucy. Muito obrigado, de coração!

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Sério esse final me pegou bastante! Adorei muito esse conto. Gosto dessa ambiência sombria e de personagens assim com ar de mistério.

O Vlad deu um toque especial na história [/spoiler]além de que foi o único sobrevivente kakaka[/spoiler]

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Também adorei o Vlad e seus olhos cor de esmeralda 🐈‍⬛🖤🥰

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Pois continue por aqui acompanhando que logo haverá mais contos desse gênero. ;)

O Vlad é a cereja do bolo (haha)

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Cara sem condições... cada parágrafo desse conto foi como ter mãos prendendo a minha atenção. E olhe que esse é um gênero que nunca tinha me atraído muito, mas sua escrita é poderosa.

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É muito bom saber disso, Raffa. Fico muito feliz. Obrigado por sua leitura e comentário!

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Que maravilha! Conto com ambiente, personagens e enredo bem construídos. Seus contos são bem diferentes do que costumo ler, mas me prende muito até o fim. E que final o desse!

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Espero que os próximos também te agradem, pois estarão nessa mesma linha literária. Fico muito grato por sua leitura e comentário, Rikky!

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Listas em que este conto está presente

Erotismo Gótico (Sativo)
Meus contos que abordam o erotismo de forma atípica, com alguns elementos da escrita gótica e/ou do horror/terror.
Curtos (Sativo)
Meus contos curtos ou de capítulo único.