Amigos,
É uma nova produção independente minha, com boa participação do Mark. Estou desenvolvendo há algum tempo e só agora ele começou a me ajudar a escrevê-la. Vou postar alguns capítulos aqui. Dependendo da aceitação, continuo; dependendo, vou reservá-la para transformar em um livro, porque eu gostei bastante da ideia.
Não prometo regularidade, mas postarei.
Espero que curtam.
Beijão procês,
Nanda.
PAIXÃO E SANGUE
Parte 1 - Luzes da Ribalta?
- Está pronta? - Perguntou Ricardo, tocando gentilmente a mão de Bruna, sua amada esposa.
- Estou tremendo inteirinha, amor. - Respondeu ela, apertando a mão do amado com a sua que tremia levemente.
- Por quê?
- Ainda pergunta por que, amor!? É meu primeiro longa e já como protagonista. Não sei se irão gostar de… Ai, meu Deus! Eu vou passar mal! - Disse Bruna, abanando-se com a mão de uma maneira nervosa.
Ricardo virou-se de lado na sua poltrona, apoiando-se num dos braços de modo que pudesse olhar para a sua esposa de frente. Ela sorriu assim que seus olhares se cruzaram:
- Estou brincando, amor. Eu só estou ansiosa pra caramba! Mas que estou tremendo, estou. Olha só. - Disse ela, mostrando as mãos que realmente tremiam bastante naquele momento.
Ele lhe deu um beijo gentil no rosto, dizendo que tudo ocorreria bem. Então, trocaram um sorriso cúmplice e ele se recostou novamente, agora oferecendo um pouco de refrigerante para ela enquanto aguardavam o início daquela “première”. Bruna aceitou a oferta, tentando aplacar um nervosismo que não tinha a ver somente com a exibição. Ela e somente mais uma meia dúzia de pessoas sabiam de algo que poderia mudar sua vida para sempre.
Antunes Morato, o premiado internacionalmente diretor que conduziu os trabalhos, subiu no palco e ficou atrás de uma espécie de púlpito, montado ao lado do telão. Fez então um breve discurso, em que agradeceu todo o corpo técnico e se derreteu em elogios para Bruna Brunetti e Maurício Pinheiro, os dois protagonistas do filme “Paixão e Sangue”. O discurso demorou um pouco mais do que seria aceitável e de tudo o que disse, somente um trecho ficou gravado no subconsciente de Ricardo: “A interação dos protagonistas foi um show à parte. Eles literalmente se entregaram de corpo e alma ao projeto, deixando vergonhas e limites foras da sua atuação. Se o filme se tornar um sucesso, e se tornará, tenho fé nisso, devemos tudo a eles.”
Uma breve salva de palmas ecoou pela sala do cinema, lotada por alguns poucos privilegiados: atores, diretores, produtores, alguns do corpo técnico, e críticos especializados, estes escolhidos a dedo, alguns convidados a preços exorbitantes, certamente para tornar as “análises” mais amistosas.
As luzes foram apagadas. Iniciou-se então a exibição da história de amor, encontros e desencontros entre os personagens Tiago Toledo e Mariana Maria. A história e o roteiro Ricardo já conhecia bem, pois Bruna havia compartilhado com ele durante os estudos preliminares, enquanto ainda se preparava para iniciar as filmagens. Inclusive, o próprio Ricardo deu alguns palpites à esposa que ela fez questão de levaram até o diretor e que, de tão relevantes, culminaram na sua contratação como auxiliar na elaboração dos roteiros do núcleo B da trama.
Curioso é que, embora Ricardo e Bruna tenham trabalhado no mesmo projeto, ele quase nunca participou das gravações, pois o diretor era sistemático e dizia querer evitar vazamentos, o que lhe parecia um absurdo, afinal ele conhecia o roteiro como poucos.
Foi assim que, não obstante ser um filme de romance, Ricardo soube que haveria drama e também algumas cenas bem mais “calientes” envolvendo os protagonistas. Nas palavras do próprio Antunes, seria “um novo Romeu e Julieta com roupagem de século XXI e para maiores de 18 anos” e esse era justamente o temor no coração de Bruna, pois ela não sabia como o marido reagiria ao assistir as tais cenas.
A exibição seguia e tudo transcorria às mil maravilhas. Os atores realmente desempenhavam muito bem os seus papéis e a história era forte, envolvente, contando erros e acertos próprios de dois corações que se querem e temem se perder. Não se ouvia um pio na sala de projeção, a concentração era total dos telespectadores. A história seguia fluindo de uma forma que prendia a atenção de todos. Ricardo estava orgulhoso do desempenho da esposa e Bruna parecia deslumbrada consigo mesma, assistindo e reagindo inconscientemente com sorrisos e espasmos físicos conforme o filme era apresentado.
Entretanto, tudo estava para mudar.
O filme entrou num momento de grande tensão. Agora, Tiago Toledo e Mariana Maria, os personagens principais de Maurício e Bruna, que haviam se separado por causa da intriga causada por Fernanda Mariana, papel desempenhado por Rúbia Tâmara Negra, uma consagrada atriz que quase roubou os holofotes para si, tamanha a sua “expertise”, conversavam numa mesa de restaurante. Ali, após toda uma discussão em que um culpava o outro pela separação, passaram a juntar as histórias que cada um desconhecia do outro e tentavam entender como o amor deles não fora forte o suficiente para fazê-los superar aquela trama que parecia tão infantil.
Durante a cena, era visível que os olhares entre Tiago Toledo e Mariana Maria eram intensos, passando para quem assistia, quase uma paixão ferida mesmo. Mas isso não incomodava Ricardo, afinal, sua esposa era uma profissional e aquela era apenas encenação. Porém, quando os dois personagens chegaram à conclusão de que haviam sido enganados, os gestos, os toques e tudo mais passou a caminhar para fazer daquele reencontro, algo muito maior. Algo que encenação alguma conseguiria fingir.
Os beijos entre os personagens começaram ainda no restaurante. Mas logo eles decidiram sair dali para o apartamento do protagonista e, ali sim, as cenas se tornaram tórridas. Tão logo Tiago Toledo estacionou o seu carro na garagem do prédio, Mariana Maria subiu em seu colo e passou a beijá-lo com sofreguidão. Mãos e carícias se sucediam de ambos os personagens, acintosas, perigosas, realmente íntimas. “Caramba! Cara mãozudo!”, pensou Ricardo ao ver a mão de Maurício apertar forte a bunda da esposa.
Mas ainda era pouco.
No elevador, os beijos e amassos entre eles se tornaram ainda mais intensos, com os corpos se chocando contra as paredes do elevador e as mãos de Maurício agora também nos seios de Bruna:
- Amor, agora é que… é aquela cena, tá? - Falou Bruna, chamando a atenção do marido.
Só que Ricardo notou também que a voz dela saiu trêmula, vacilante. Ele, absorto pela película, perguntou automaticamente:
- Ah! É agora? No elevador!?
Bruna lembrou-o rapidamente de alguns detalhes. Ele então relembrou que ela havia comentado um milhão de vezes que haveria uma cena em especial que ele deveria assistir com muita calma, pois era realmente muito “intensa”:
- Não, né, seu bobo, depois dessa. - E depois de uma discreta, mas nervosa risada, Bruna insistiu uma vez mais: - Eu só queria que você soubesse que eu te amo, tá bom? Foi tudo apenas… profissional.
- Vem Oscar de melhor atriz! - Ricardo ainda brincou com ela, piscando em seguida, para tentar acalmá-la.
Entretanto, o sorriso dela vacilou novamente. Aliás, foi morno, quase frio, e isso o incomodou um pouco. Ricardo voltou a sua atenção para a tela e viu que os personagens já estavam dentro do apartamento do Tiago Toledo e os amassos entre os protagonistas continuavam, mas com uma intimidade ainda maior, tanto que, agora, a mão do tal Tiago Toledo passeava sem freios por dentro do vestido da Mariana Maria, por entre as pernas para ser mais exato, enquanto ela era prensada numa parede.
Após uma cena de beijos e carícias que não pareciam mais ter limites, na qual Mariana Maria fora colocada sentada sobre uma mesa e Tiago Toledo havia se posicionado entre suas pernas, chegou o tão aguardado ápice do filme, a reconciliação dos personagens. E devia ser mesmo uma senhora cena, pois Bruna, inadvertidamente, apertou forte a mão de Ricardo, chegando a franzir a testa, tudo sem encará-lo, tamanha sua tensão.
Na cena, após vários beijos e um dos seios de Mariana Maria aparecer no telão, Tiago Toledo deu um passo para trás e a puxou para fora da mesa, virando-a de costas para si e a encoxando, enquanto beijava o seu pescoço.
Mas não foi só.
Ele puxou o seu vestido, tirando-o por cima da cabeça dela, agora deixando-a quase nua, vestida apenas com uma calcinha preta, rendada e mínima, não que fizesse diferença, pois era transparente e praticamente nada escondia. Ricardo se lembrou inclusive que, a pedido do diretor Antunes que queria tornar as imagens ainda mais marcantes, Bruna, para esse filme, parara de se depilar, deixando crescer uma matinha nativa bem escura, da cor de seus cabelos, podada apenas nas laterais para deixar um típico formato de triângulo, bem ao estilo dos anos 80.
Certamente também por orientação do diretor, o câmera caprichou nas tomadas, especialmente nos lindos seios médios e naturais de auréolas levemente amarronzadas da Bruna. Sua púbis apareceu em alguns momentos também, ocultada apenas por aquele minúsculo e valente paninho que lutava bravamente, mas em vão.
O Maurício, aliás, o personagem Tiago Toledo não economizava nas carícias, abusando do contato com o corpo da Mariana Maria, tocando incansavelmente o seu corpo quase nu, especialmente os seus seios, tendo chegado ao absurdo de até mesmo pinçar o bico de um deles, que já se encontravam eriçados e pontudos.
Na tela, Mariana Maria rebolava e gemia ao contato de uma forma que parecia tão... natural, mas tão natural que Ricardo chegou a se perguntar no seu íntimo se aquilo era realmente uma simples encenação ou a prova de uma traição. Foi nesse momento que Ricardo entendeu o porquê da tensão de Bruna nos últimos dias: a cena era intima e explícita demais.
Mas como diz o ditado: nada é ruim que não possa piorar. E Ricardo sentiria isso na pele.
Na sequência, Tiago Toledo dobrou o corpo quase nu de Mariana Maria sobre a mesa, deixando apenas as suas pernas do lado de fora. Passou então a beijar seu sua nuca, seus ombros, suas costas, enquanto acariciava o seu corpo todo, mas todo mesmo: seios, costas, cintura, bunda, coxas... Até então a tomada da cena, mostrava que ele descia e o rosto da Mariana Maria, em especial as reações desta, que mordia seus lábios, excitada, além de seus suspiros e gemidos que pareciam tão naturais para Ricardo…
Mas logo a tomada de cena mudou para a lateral traseira dela e logo Ricardo entendeu o porquê, pois Tiago Toledo estava abaixando a sua calcinha até os pés, olhando deslumbrado para a intimidade dela, aliás, mostrando que os pelinhos tinham uma razão de ser: pois saltaram por entre as nádegas dela para a apreciação de todos.
Ricardo inconscientemente se recostou ainda mais, afundando seu corpo na sua macia poltrona e também mordeu os lábios, mas apenas para abafar o suspiro do incômodo que o dominava. Bruna o olhou de soslaio nesse momento, preocupada com suas reações, mas sem coragem de falar com ele, desviou o olhar para o próprio colo, perguntando em silêncio para si mesma “o que foi que eu fiz?”, temerosa de ter ultrapassado a linha tênue entre arte e vida real. A ela cabia apenas aguarda e torcer que seu marido entendesse, pois nada mais havia a ser feito. Ela suspirou e voltou a focar na tela de projeção.
No filme, Tiago Toledo passou a subir com as mãos pela panturrilha, pernas, coxas, até alcançar a bunda de Mariana Maria. Ali, além de massageá-la, apertá-la mesmo com vontade e vigor, passou também a abri-la para si, vendo a centímetros de distância, o que até então Ricardo imaginava ser o único a ver desde que começaram a namorar.
Nesse momento, assombrado com aquela parte da cena que, naturalmente, não havia lido no roteiro, Ricardo olhou para Bruna que se mantinha ou fingia estar atenta à tela, ignorando o seu olhar. Mas ele teve a impressão de vê-la o olhando de soslaio, discretamente, silenciosa, apreensiva…
Ricardo voltou sua atenção para a tela bem no momento em que o Tiago Toledo enfiava o rosto entre as nádegas da sua esposa, colhendo um sonoro gemido de uma fala dela que lhe pareceu realista demais:
“Isso! Aí mesmo. Assim! Bem fundo… Aiiii, Tiago!”.
Ricardo ficou boquiaberto e, agora assustado, olhou novamente na direção da esposa que, além de se manter ou fingir estar atenta ao filme, espremia levemente os olhos, como se se esforçasse ainda mais para não desviar o foco, talvez imaginando que o marido a encarava, inquirindo, buscando uma explicação. E ela estava certa, mas a única resposta que conseguiu dar naquele momento para ele foi o silêncio. Aliás, silêncio dela Bruna, porque da Mariana Maria ouviu-se um longo e alto gemido de prazer, reverberando pelo sistema de som daquela sala.
Ricardo voltou a olhar na direção da tela e notou que os personagens agora transavam numa tomada lateral direita dos personagens. Ricardo nem sabia dizer quanto tempo se perdeu olhando para a esposa, porque houve tempo suficiente para o personagem do Maurício tirar a sua calça e passar a simular uma penetração por trás da Mariana Maria que continuava de quatro, apoiada sobre o tampo da mesa. A cena era demasiadamente obscena e ficou ainda mais impactante quando, ainda nessa tomada lateral dos corpos, Ricardo começou a desconfiar de realismo demais na atuação dos personagens:
- Ele… está te… penetrando, Bruna!? - Ricardo inclinou-se na direção da esposa e perguntou em um tom quase inaudível até mesmo para ele próprio, boquiaberto e sem tirar os olhos arregalados da tela.
Ela não respondeu. Talvez não tivesse ouvido, ou talvez não tivesse o que responder. Mas fato é que ela nada falou.
As tomadas seguintes foram mais amenas, algumas por trás do Tiago Toledo, mostrando a movimentação de “ir e vir” de sua bunda desnuda, outra pela frente da Mariana Maria, mostrando seu corpo sendo empurrado para a frente pela força das “estocadas”. Mas o ápice eram suas expressões faciais, tão bem estampadas em seu rosto que pareciam verdadeiras.
Logo, uma outra tomada, que fazia um movimento contínuo, partindo do rosto dela e seguindo pela sua lateral direita até parar pouco atrás de sua coxa, na altura da bunda, mudaria para sempre o casamento de Ricardo e Bruna. Nesse momento, mesmo de forma rápida, mas repetida pelo menos algumas vezes, Ricardo viu o membro duro do Tiago Toledo aparecendo e sumindo dentro das entranhas da Mariana Maria… aparecendo e sumindo… aparecendo e sumindo… aparecendo e…
- Ele está te penetrando, caralho! - Ricardo agora afirmava, agora olhando diretamente para a esposa para ter certeza de que ela lhe ouviria.
Entretanto, Ricardo novamente não obteve resposta alguma por parte dela, apenas um rápido olhar que externava culpa, medo e uma legítima preocupação com o futuro. Ele ficou atônito e retornou o corpo para a poltrona que ocupava, e com muito custo, conseguiu soltar a mão dela da dele, chegando a ter que usar pouca e moderada força. Ato contínuo, ele usou a própria mão para ocultar a boca, talvez numa tentativa inconsciente de evitar que alguma palavra insensata escapasse, enquanto a cena prosseguia.
Bruna, nesse momento, o encarou rapidamente, disposta a tentar algo que nem mesmo ela sabia o que era. Mas, vendo o choque estampado no rosto do marido, preferiu se calar, ainda mais depois que Ricardo fechou os olhos e respirou profundamente consternado, tentando certamente se ausentar daquele ambiente carregado agora de descobertas vis.
Ricardo queria não mais estar ali e conseguiu de alguma forma se desconectar, ao ponto de não registrar mais nada do filme daquele momento em diante. O som ainda o incomodava, os sussurros, gemidos, um grito da Mariana Maria que ele já não sabia mais se era uma simulação ou um gozo real. Mas o pior foram os murmurinhos que se seguiram. Ele pareceu ter desenvolvido uma capacidade inesperada de ouvir conversas ao seu redor. Mas verdade ou impressão, ele sabia bem qual era o assunto dessas conversas, e isso lhe embrulhava o estômago.
Ainda assim ele se forçou a se abster, refugiando-se num local do seu inconsciente que só ele conhecia, que só ele usava desde a infância para fugir dos momentos mais difíceis pelos quais passou. Funcionou, pois ele só se deu conta de que o filme havia acabado quando um empurrão vindo de trás da sua poltrona e uma salva de intensas palmas foi ouvida. As luzes foram acesas e ele ainda levou um breve tempo para se acostumar com a claridade, mas então notou que a plateia toda estava aplaudindo de pé, o que durou ainda por um bom tempo. O único que não se levantou ou aplaudiu foi ele, ainda aturdido com o que havia assistido há pouco.
Bruna já estava de pé, sorrindo e aplaudindo também. Mas naturalmente que ela notou a inércia do marido, bem como o seu semblante carregado, o olhar translúcido, perdido para além da tela de projeção. E da mesma forma como se levantou para receber a salva de palmas, ela se sentou ao seu lado, sabendo que seus piores temores haviam tomado forma:
- Amor, foi… foi tão ruim assim?
Ricardo apenas a olhou, sem sentimento algum. Para ele, aquela não era a mesma mulher com quem dividia a cama. Aliás, ele não a reconhecia mais. Após duas piscadas rápidas para fazer com que seus olhos “engolissem a saliva”, pareceu tê-la reconhecido e passou a encará-la com ódio, mas não teve tempo de vomitar tudo o que estava entalado em seu coração, pois Antunes Morato, o diretor, passou ali e puxou Bruna pelo braço sem lhes dar chance de protestarem, dizendo que queria fazer uma nova homenagem a ela e ao Maurício, agora no palco à sua frente.
Ricardo até se sentiu aliviado de não tê-la mais ali ao seu lado. Agora os via lá em cima, lado a lado, e já não mais conseguia enxergá-los como atores ou colegas de elenco, mas sim como amantes, traidores, facínoras, mentirosos, e isso lhe doeu profundamente no peito. Antunes se derretia em elogios ao casal de protagonistas, palavras doces, quase cruéis, das quais Ricardo não registrou uma sequer. Maurício era só sorrisos, nem poderia ser diferente, afinal, ele comera a mocinha, o corno ali era Ricardo. Já Bruna sorria, mas já não era de uma forma espontânea, apenas puramente teatral, quase profissional, pois talvez a sua alegria dependesse da reação do marido e ela, até aquele momento, não havia sido nada boa.
As pessoas começaram a se movimentar na sala de projeção. Alguns saindo, outros interagindo entre si, outros indo até o diretor e seu casal de protagonistas para cumprimentá-los. Ricardo permaneceu onde estava, sentado, calado, muito magoado. Ele apenas encarava o telão, como se quisesse assistir novamente aquele flagrante, ou talvez apagá-lo da produção. Ele nem sabe o tempo que isso durou, mas só foi tirado do seu torpor pela suave voz da esposa:
- Amor, um dos… dos produtores nos convidou e a um pequeno grupo para um “after” num bar aqui perto. Vamos?
Agora, encarando-a, olhos nos olhos, Ricardo repetiu a pergunta:
- Ele te comeu, Bruna? De verdade!?
Agora nos olhos de Ricardo ficou estampada toda a mágoa, decepção, talvez ódio, tudo o que Bruna não gostaria de ver, mas ela sabia que ali não era o lugar nem o momento para uma conversa como aquela:
- Por favor, podemos falar sobre isso depois, lá em casa? Vamos só… aproveitar, comemorar o sucesso do filme, pode ser?
Comemorar!? Ricardo queria sumir! Ele não tinha a menor condição de curtir nada e se levantou, dando-lhe as costas e seguindo até a porta de saída da sala. Nesse instante, Bruna olhou na direção do Antunes e este, um homem maduro e vivido, confirmou de imediato o que já vinha suspeitando estar acontecendo. Quando Bruna, voltou a olhar na direção do marido, viu que ele já estava quase fora da sala de projeção e se adiantou em segui-lo, alcançando-o somente quando ele já descia as escadas para o salão principal:
- Amor, por favor…
Ricardo parou e a encarou sem um resquício de sentimento no olhar. Ele, naquele momento, era a síntese do nada. De seu olhar, emergia apenas um frio congelante, capaz de matar qualquer sentimento ao redor.
Havia mais...
Havia uma tristeza que parecia capaz de contagiar qualquer um que se aproximasse dele naquele momento. Bruna sentiu um nó no estômago, uma quase ânsia de vômito, e sem saber o que dizer, nem mesmo se deveria dizer algo, apenas resmungou:
- Amor, poxa…
- Não vou atrapalhar a sua noite, Bruna, fica tranquila! Mas não peça para eu comemorar porra nenhuma! - Ricardo se calou para não deixar público que acabara de descobrir que havia sido traído, tipicamente chifrado da pior maneira possível: - Mas eu estou mesmo precisando beber alguma coisa bem forte, talvez assim eu esqueça o que eu vi!
Nem tiveram tempo de falar mais nada, pois Antunes se aproximou deles, tocando o ombro dela e encarando Ricardo que seguia com a pior expressão possível. Então, sarcasticamente, quase sadicamente, perguntou:
- E então, meu querido, o que achou do filme? Ficou ótimo, não ficou? Será que vamos para Los Angeles no ano que vem?
Ricardo que o encarava, fechou os olhos e suspirou profundamente, tentando não deixar transbordar toda a sua amargura. Após segundos, resolveu ser igualmente sarcástico:
- Dê meus parabéns aos profissionais envolvidos, especialmente ao casal de protagonistas. Realmente as cenas de sexo ficaram muito “realistas”... - Fez aspas com os dedos e sorriu, sem graça alguma: - Até demais! Eu senti o chifre lá da poltrona, sabia, Antunes?
- Amor… - Resmungou Bruna, com os olhos agora levemente marejados.
- É… Ricardo… - Antunes engasgou, praticamente sussurrando, temendo um vexame: - Meu querido… É um filme feito para marcar gerações. Tentamos passar o máximo de realismo para justamente causar um impacto e…
- Ahhhh!? Conseguiram! - Interrompeu-o Ricardo, extremamente ácido: - Sem dúvidas, conseguiram. Sou prova viva disso. Mas precisava ter sexo explícito, Antunes!? Porra, cara! Eu acabei de descobrir, junto de uma caralhada de gente, que fui traído da forma mais… mais… covarde, mais sórdida possível! Porra, precisava ter feito isso no filme!?
- Mas ela estava trabalhando e…
- Ah! Por favor, né, Antunes! Trabalhando!? - Ricardo o interrompeu novamente, elevando o seu tom de voz, o que fez com que Bruna e Antunes lhe pedissem calma.
Ricardo então suspirou profundamente, novamente fechando os olhos, e contemporizou, olhando para a esposa:
- Taí! Agora fiquei na dúvida se tomei só um chifre nesse filme. Essa foi a única trepada, Bruna? Porque você fez três ou quatro cenas de sexo com o Maurício, não foi?
Bruna naturalmente não tinha o que falar, porque se falasse, sabia que a situação pioraria em progressão geométrica. Fez então o que lhe pareceu certo naquele momento, baixou a sua cabeça e se calou, controlando-se para não chorar. Antunes olhou ao redor, apenas para se certificar se não eram ouvidos, mas naquele momento era impossível. Ainda assim, os puxou para um canto mais vazio e tentou explicar o seu ponto de vista:
- Ricardo, você ajudou na concepção do filme. Inclusive, adotamos vários dos seus conselhos no roteiro e… Ah! Inclusive, tenho um outro projeto que eu gostaria de contar com a sua participação, mas vou te passar os detalhes depois, tudo bem?
- Está vendo, amor? As portas estão se abrindo… - Comemorou Bruna sem um mínimo de resquício de alegria no rosto.
- Ah é… - Desdenhou Ricardo, acidamente: - Estão se abrindo do mesmo jeito que o Maurício abriu a sua bunda antes de enfiar a cara lá dentro. Acho que o segredo é esse, né? Meter a cara…
Um silêncio tumular surgiu nesse momento entre os três. Bruna e Antunes se entreolharam brevemente e depois para o próprio Ricardo: ela estava constrangida; Antunes, parecia surpresa; e Ricardo, devastado por descobrir a traição, ou traições, testemunhada por várias pessoas. Após algum tempo em que ninguém parecia saber o que dizer, Antunes arriscou:
- Essa é só uma primeira versão, Ricardo, apenas para a “première”. Vamos agora sentar e decidir se será necessário refazer alguma cena ou…
- Refazer!? - Ricardo o interrompeu novamente, fingindo surpresa: - Quer dizer, filmar uma nova trepada deles? Mas porquê, Antunes? A tomada da pica do Maurício no rabo da Bruna não ficou boa? Ah... Eu acho que não precisa. A Bruna parecia estar tão... entregue ao personagem do Maurício. Bom, mas vocês que sabem. Só me avisem com antecedência, ok? Assim, pelo menos, eu não sou mais pego de surpresa. Quem sabe até, dessa vez, eu possa querer assistir a cena de camarote, ou não, né? Quem sabe…
- Poxa, amor, não faz assim... - Pediu Bruna, uma lágrima já fugindo por sua face.
- Não! Certamente não… - Tentou apaziguar Antunes, levantando as mãos, como numa tentativa de abanar o fogo que queimava Ricardo: - Eu estava pensando em, talvez, fazer alguns cortes, suavizar um pouco algumas cenas para deixá-las um pouco mais…
- Menos explícitas!? - Ricardo o interrompeu uma vez mais, o sorriso agora quase maligno.
- Pode... ser... - Concordou Antunes, escolhendo as palavras com calma: - Olha, eu nunca quis causar nenhum problema entre vocês. Juro! Mas é que o envolvimento da Bruna e do Maurício com o filme foi tão intenso, tão único. Eles se entregaram tanto aos personagens que quando sugeriram a possibilidade de fazerem algo mais realista, eu nem ousei recusar. Mas eu pensei que você soubesse e tivesse concordado com tudo.
- Ah! Foram eles que sugeriram!? Os dois? - Perguntou Ricardo, fingindo surpreso.
Antunes sabia que não havia resposta fácil e preferiu nada dizer, apenas olhando na direção da Bruna, esperando que ela respondesse, mas foi o próprio Ricardo quem quebrou o silêncio:
- Ela nunca me falou porra nenhuma de que eu seria chifrado, Antunes! Muito menos me pediu algo nesse sentido, é óbvio! Nunca! - Disse Ricardo, enfurecendo-se, mas ao mesmo tempo respirando fundo para se controlar: - Você acha que se eu soubesse desse absurdo, eu teria concordado? Ou se tivesse concordado com essa trairagem do caralho, acha que eu estaria assim como estou agora?
Antunes que o havia encarado enquanto ele falava, voltou a olhar para Bruna que parecia estar no limite, prestes a se desmanchar em lágrimas. O efeito para o filme seria catastrófico. Então, sugeriu:
- Vamos beber! Acho que precisamos relaxar as tensões. Amanhã será outro dia e prometo que iremos encontrar a melhor forma de resolver essa questão. Se para você ter paz, eu tiver que fazer alguns cortes, eu farei. Dou a minha palavra!
- Paz!? Acha mesmo que mudar a merda do filme agora vai me dar paz? Fui traído, cara! Chifrado covardemente pela minha... minha... - Ricardo bufou, hesitando em chamar Bruna de esposa: - Paz… Palhaçada!
Ricardo voltou a descer as escadas, indo para um lugar que nem ele sabia para onde. Seguiu em direção a saída do cinema somente na intenção de entrar em seu carro para sumir, mas foi alcançado por Bruna:
- Só me dá uma chance de explicar. Eu… Eu…
- Vai para a porra da tua recepção, Bruna! Vê se me deixa em paz.
- Por favor, amor… Você me deu a sua palavra de que a gente sempre resolveria os nossos problemas conversando. Se eu errei, se eu causei um problema, estou te pedindo a chance de conversarmos, mas depois. Por favor…
Ricardo não queria comemorar, aliás, ele não tinha motivo algum para isso. Comemorar o quê, o chifre!? Não, o chifre não. Entretanto, a ideia de beber, aliás, de encher a cara, parecia boa. Talvez aliviasse um pouco o peso que carregava na testa e quem sabe lhe desse a coragem de colocar a boca no trombone, deixar de ser o bom moço que ele sempre foi e rasgar o peito na frente de todos. Ele a encarou em silêncio por um breve momento e disse:
- Minha palavra é uma só! Vou te dar a chance de se explicar. Não que vá mudar alguma coisa. Mas sabe que eu fiquei até curioso para saber qual será a sua desculpinha esfarrapada? Essa eu vou querer ouvir...
Antunes se aproximou novamente do casal e insistiu:
- Vamos tomar uma?
Ricardo olhou uma vez mais para Bruna e voltou a encará-lo, assentindo com um movimento de cabeça, embora sem um mínimo esboço de sorriso nos lábios.
Foram então em um grupo de não mais do que 30 pessoas até um bar executivo bastante exclusivo de um endereço no centro de São Paulo. Ali, após uma rápida sessão de cumprimentos em que ele interagiu com o calor de um iceberg, distribuindo apenas alguns poucos sorrisos amarelos, Ricardo se viu só, sentado na ponta esquerda do balcão do bar, bem longe dos demais envolvidos naquela produção que ficaram concentrados na outra ponta.
Bruna e Maurício eram paparicados, brindados, elogiados, ovacionados por todos, que queriam tirar fotos e colher autógrafos. Já Ricardo, bebia seu uísque, sem tirar os olhos do casal de protagonistas, imaginando mil formas de acabar com aqueles sorrisos que agora lhe pareciam os mais falsos do mundo. Foi então que Ricardo sentiu um afago no ombro direito de uma mão pesada e logo ouviu a voz de Antunes:
- Deixou de amá-la, Ricardo?
- Que bosta de pergunta é essa, Antunes!?
- Então vou mudar… - Disse Antunes antes de bebericar um gole de seu próprio uísque: - Você acha que ela deixou de te amar?
- Talvez ela nunca tenha me amado de verdade…
- Homem, o que é isso?... - Resmungou Antunes, colocando-se à frente de Ricardo: - Alguma vez ela te faltou como mulher, te destratou, deixou de ser carinhosa ou de ser a mulher por quem você se apaixonou?
Ricardo, nervoso, passou as mãos na testa, como se quisesse enxugar um suor que não existia. Então, olhou para Antunes e disse:
- Ela me traiu, Antunes, isso é fato! Foi desonesta comigo. Se esse é o amor dela por mim, então não me serve, porque não houve o menor respeito comigo. Nenhum mesmo!
Antunes ficou em silêncio, olhando-o de forma compenetrada, pensando. Depois respirou fundo, bebeu outro gole do seu uísque e arriscou uma saída pela tangente:
- Se eu te dissesse que o que aconteceu pode ser ótimo para você… acreditaria?
Ricardo apenas deu uma rápida e quase inaudível risada sarcástica, de descrença mesmo. Antunes insistiu:
- Para e pensa, cara… Agora você tem um “vale night” sem carência e vitalício. Quer algo melhor do que isso? Acha que ela te negaria o mesmo direito?
- Sério, Antunes!? Na sua ótica, a resposta é eu repetir com ela o que ela fez comigo? Trair como ela me traiu? - Ricardo o encarou no fundo dos olhos: - Porra! Mas que conselhinho de merda, hein!?
Antunes deu um estalo nos lábios, chupando uma pedrinha de gelo e a mastigou na sequência. Então, vendo que não conseguiria resolver nada ali naquele momento, trocou mais meia dúzia de argumentos furados com Ricardo e se despediu, saindo pelo bar afora.
Ricardo seguiu bebendo em silêncio, apenas olhando para todos e para ninguém. Mas num momento qualquer, acabou reparando numa certa “interação” entre os dois protagonistas. Não pode deixar de notar que Maurício tocava sua esposa com uma frequência maior do que deveria, ora pegando na cintura dela, ora segurando e acariciando a sua mão, ora beijando a sua bochecha, chegando ao cúmulo de encostar o queixo no seu ombro, quase encostando os lábios em seu pescoço.
Bruna parecia ignorar aqueles contatos. Mas quando notou a atenção do marido em si, falou algo com Maurício que também olhou na direção de Ricardo, falando algo praticamente em seu ouvido. Aliás, Ricardo também começou a notar que Maurício sorria em demasia enquanto conversa com Bruna e ela correspondia, mas sem a mesma entrega “de cena” vista no filme. Inclusive, foi num desses momentos, quando ela recebeu um beijinho dele no ombro que ela pareceu ter se dado conta de que uma bomba estava prestes a explodir.
Bruna, então, passou a procurá-lo com os olhos e quando seus olhares se cruzaram, ela se levantou para ir até ele. Mas foi contida pelos braços fortes do Maurício que lhe disse algo ao pé do ouvido novamente e praticamente a encoxou por trás enquanto se posicionavam para algumas fotos que ilustrariam uma matéria jornalística qualquer. Acabou que a sessão fotográfica se estendeu e Bruna foi ficando, ficando...
Ricardo desistir de esperá-la e virou seu uísque Quando estava para partir, Cíntia, a diretora de fotografia, uma conhecida sua de tempos, se aproximou para conversar com ele:
- Vida de atriz é cansativa, não é, Ricardo?
- Bastante… - Ele resmungou sem conseguir esconder que havia mais do que cansaço em sua palavra.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sério que você vai me perguntar isso, Cíntia!?
- Tudo por causa das cenas?
- Cíntia, pelo amor de Deus… Eles foderam, porra! Tre-pa-ram! Aquilo foi de verdade, não foi encenação, ou você não notou a pica do Maurício entrando e saindo da Bruna naquela cena do reencontro deles no apartamento? - Disse Ricardo, elevando seu tom de voz.
Aliás, ele estava quase gritando, já chamando a atenção de outros presentes, inclusive da Bruna que, pela forma que o marido gesticulava, já imaginava o que estava acontecendo. Cíntia, mais do que profissional, era amiga dele e o arrastou para uma mesa num canto mais isolado, tudo sob o olhar ostensivo de Bruna que agora parecia não querer mais tanto contato com Maurício.
Mas essa noite estava apenas começando…
[...]
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO E OS FATOS MENCIONADOS SÃO FICTÍCIOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL É MERA COINCIDÊNCIA.
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