Três Colinas: Capítulo 6 - Inferno

Da série Três Colinas
Um conto erótico de Maciel Petrópolis
Categoria: Homossexual
Contém 4581 palavras
Data: 10/07/2024 02:28:24

Eu lembro como se fosse ontem a primeira vez que beijei um homem. Seu nome era Alex, e assim como eu ele era um dos alunos do colégio interno para homens que eu estudei até meus 16 anos, mesma idade que fui expulso de lá.

Nessa época já havia perdido minha mãe, e a convivência na casa dos meus tios não era das melhores. No período em questão eu não me dava bem com minhas primas e era frequentemente excluído por elas, como também por minha tia. Meu tio, ao contrário, era o mais próximo que eu tinha de família.

Alex possuía lindos olhos castanhos. Lembro que olhar para eles era como olhar para o melaço de cana dos engenhos que eu ia com minha "família". As vezes o sol refletia em seus olhos e era como se eles estivessem em chamas, formando uma das visões mais bonitas que já presenciei na vida.

Ele acabou se tornando um grande amigo, sendo talvez aquilo que eu tive de mais próximo de alguém para partilhar a vida para além do meu tio. Eu passava oito meses nessa escola, e os outros quarto na mansão. Lá, eu buscava fazer atividades para passar o tempo a mando da minha tia, sem tempo para brincar ou estudar. Nesses quatro meses morria de saudades dele, implorando para que o tempo passasse e eu podesse voltar para seus braços.

A mãe de Alex era uma renomada agente da Inteligência Nacional. Desde cedo ouvia as histórias fascinantes sobre a vida e obra da mulher, que acabou tornando-se um exemplo para mim. Lembro de ler um livro da minha sogra na época com meu amado durante várias noites seguidas até pegar no sono. Isso com toda certeza me influenciou a ser quem eu me tornei, mas não pelos motivos certos. No ano em que fiz quinze anos ele disse que me amava pela primeira vez, e eu o correspondi. Eu era amado e amava, e tudo estava perfeito – até não estar mais.

Quando fiz 16 anos, ganhei de presente da minha sogra um curso preparatório para a polícia, as vagas eram exclusivas e eu não acreditava que estava ali. Era um estágio para jovens de 14 a 17 anos, como meio de fornecimento de um treinamento básico para aqueles que queriam seguir essa vida profissional. Me empenhei com unhas e dentes para tirar as melhores notas possíveis e me destacar, o que deu bons resultados no final das contas. O que mais gostei dessa experiência foi o fato de não ficar na casa dos meus tios nas férias e perto de Alex, meu namorado em segredo. Bem como, dos olhos estreitos de sua mãe.

Eu iria começar as aulas, quando acabei ficando com o coração partido. Como num passe de mágicas ele parou de falar comigo. Era como se tudo virasse apenas uma lembrança, e eu me questionava várias vezes se o que havia entre nós já existiu ou era um delírio da minha cabeça. Não me explicou nada, nem respondia meus bilhetes. Era como se eu não fosse ninguém. A cada tentativa de contato minha autoestima era esmagada por alguém que parecia não se importar comigo.

Aos poucos eu fui sentindo algo crescendo dentro de mim. No começo era só uma voz pequena, mas logo acabou se transformando em um colosso no meu peito. Certa noite, após ser ignorado durante todo o dia por Alex eu o encurralei no banheiro e coloquei um canivete em sua barriga, esperando por explicações. Ele não reagiu bem e gritou, me chamando de louco e dizendo que não tinha nada para resolver comigo. Eu fiquei furioso e acabei dando um soco nele, além de alguns chutes.

Naquela noite ele não me denunciou aos padres, mas por pouco eu não fui pego no banheiro. Ele inventou que havia sido atacado e que não conseguiu ver quem era. Eu fiquei no meu quarto sem conseguir dormir esperando as horas passarem. Foi então que eu passei a agir como sempre agi em situações em que eu era subjulgado: incendiando tudo ao meu redor.

Quando já estava muito tarde, eu sai pela janela e fui me esgueirando pela parte de fora do prédio até o 5° quarto à esquerda. Ele dormia enquanto entrei sorrateiramente após destrancar a janela com um arame. Coloquei um bilhete na mesa de cabeceira: "vou fazer da sua vida um inferno". Peguei um tubo com álcool que roubei do laboratório e joguei em suas roupas dentro do armário, ascendendo em seguida. Fiquei vendo tudo aquilo queimar e olhando para ele ao mesmo tempo. Algo no fogo me trazia a sensação de paz, mesmo se tratando de destruição eu alimentava dentro de mim um senso de renovação.

Ele acordou desesperado, gritando por ajuda e me olhando com medo. Eu disse que se ele falasse que fui eu, o mataria. Todo corredor acordou com o escândalo. Eu estava no quarto quando um padre veio me buscar dali para sua sala, tratava-se so diretor da escola.

Ele me explicou que haviam várias testemunhas que comprovam o que eu fiz, e eu não neguei nada. Ele insistiu em saber o motivo e eu também não o dei – nem eu mesmo o sabia. Lembro que por último ele me olhava sério perguntando o que eu entendia por inferno, segurando em suas mãos o bilhete que escrevi, respondendo inocente: "a minha vida", disse engolindo o choro e fazendo o possível para não esboçar nenhuma reação. Desse dia em diante eu parei de chorar. Ele sorriu, olhou para mim com pena e disse:

_ Otávio, meu filho, o inferno são os outros!

***

Tudo era escuridão. Meus olhos demoraram um pouco para me acostumar com a ausência de luz, até o momento que eu pude ver algumas silhuetas e formas. No ambiente restava somente a luz muito fraca da lareira, que nessas horas quase não tinha o que queimar. Chovia forte, e por mais que Marinho não falasse nada eu sentia tudo o que ele estava sentindo. O sistema de segurança da casa foi reiniciado, de firma que todas as trancas foram abertas.

Seu coração estava quase saindo do peito quando ele apenas virou para mim e disse em tom de angústia:

_ A gente precisa de armas. Urgente! – Eu não via bem seu rosto, mas sabia que o homem falava sério. Ele pegou em uma das minhas mãos e saímos em disparada para nosso quarto, tropeçando em algumas coisas, mas chegando lá muito rapidamente. Perguntei também em desespero o que estava havendo, no qual ele apenas me diz. – Isso já aconteceu antes, e não foi bom. A gente precisa resolver isso e se defender. Acho que vão tentar matar a gente. – Completou.

Há alguns minutos atrás estávamos namorando tranquilos a luz da lareira, e agora estava carregando minha pistola e as colocando no coldre. Marinho estava da mesma forma. Eu já não lembrava de qualquer sentimento bom ou ruim que tive nas últimas horas, tudo o que eu sentia era meu instinto de sobrevivência tomando conta do meu corpo. Era preciso cuidar de mim e de Marinho.

Estávamos devidamente vestidos e armados quando ele ligou uma pequena lanterna no quarto, iluminando só nós dois. Não ouvimos nada além do barulho de uma violenta chuva do lado de fora da casa, que parecia nos cercar. Na casa, tudo parecia silencioso. Ele me explicou por linguagem não verbal que precisávamos sair dali e ir para a delegacia, do qual eu concordei. Saímos do quarto em silêncio, pisando devagar. Já não via mais luz alguma pensando que provavelmente a lareira já havia sido apagada. Tudo era silencioso demais.

Meu peito ardia sentindo que alguma coisa estava errada e que a qualquer momento eu precisaria agir. Caminhamos lentamente até o final do corredor, no qual abrimos a porta devagar e fomos abaixados. Em um gesto rápido segurei Marinho não o deixando ir a diante, apontando para o chão. Naquele degrau foi colocado uma lâmina virada para cima na horizontal, onde iríamos nos cortar caso não tivéssemos a visto. Ele atravessou e eu fiz isso em seguida.

Já na parte de baixo, percebemos o lugar vazio e a porta da garagem aberta. Para além dela, só havia escuro. Ambos estávamos em formação prontos para atirar em qualquer coisa que se mexesse. Em uma fração de segundos vi uma sombra chegando ao meu lado e não tive dúvidas, me virei de lado de dei dois tiros, de forma que um corpo caiu na nossa frente. Marinho imediatamente ligou a lanterna que tinha, revelando nossa localização, atirando rapidamente em seguida em outra pessoa que estava lá com uma faca, perto da porta da garagem. As duas pessoas usavam máscaras de animais, uma de veado e outra de urso pardo. Nós certificamos de ver se mais alguém estava ali, mas não. Agora só havia nós dois.

Marinho correu para o carro na tentativa de ligá-lo, mas foi em vão. O carro nem sequer deu partida, além de ter os quatro pneus cortados. Ele apenas reagiu que um sonoro "PORRA!!!".

_ A gente precisa ter cuidado agora, vamos ter que buscar reforçar a segurança das meninas resgatas e sair daqui. Tem alguma merda muito grande acontecendo. – Disso eu já sabia, mas queria entender o porquê daquilo.

_ Luciano, o que porra tá acontecendo aqui? – Perguntei.

_ Isso já aconteceu na época que meu pai. A energia da cidade foi cortada com uma invasão na represa e tentaram matar ele. – Me disse apressado, saindo do carro o olhando para os lados pensando no que fazer.

_ A gente precisa falar com alguém. – Eu disse breve e sem tempo para conversa fiado. A gente precisava sair dali e ficar vivo.

Quando estávamos voltando pelas escadas, percebemos um carro chegando na frente de casa. Por um segundo respiramos aliviados pensando ser alguém da polícia que veio nos dar apoio, mas a alegria durou pouco. Ao longe, vimos duas sombras descendo e uma delas possuía uma máscara com chifres enrolados como os de búfalos. Nós abaixamos e subimos as escadas em passos lentos, tomando cuidado para não pisarmos na lâmina. Marinho agora ficou atrás de mim, fazendo guarda caso alguém viesse pelo topo da escada.

Os três entraram pela porta da garagem portanto espingardas. Um veio pela frente se aproximando com cautela enquanto observava os dois corpos no chão, enquanto os outros dois faziam guarda. Eles não se comunicavam entre si, apenas faziam gestos assim como eu e Marinho. O primeiro com a máscara de búfalo estava cada vez mais próximo do início da escada onde estava a pessoa mascarada que matei, e naquele momento eu jurava podia ouvir a sua respiração. O homem se aproximava a passos cuidadosos observando o corpo no chão, e assim que estava mais próximo subiu o olhar para a escada, me vendo em seguida.

Comigo não há tempo de respirar. Eu estava com a mira perfeita nele, e assim que ele pisou no primeiro degrau eu disparei três vezes: um tiro pegou na sua cabeça, outro no tórax e um eu perdi. Imediatamente ouvimos uma rajada de balas na direção da escada. Terminamos os poucos degraus que faltavam e nos trancamos lá em cima, deixando os dois homens na garagem. Olhamos um ao outro e vimos que estávamos bem, graça a Deus. Corremos de volta para o corredor, indo agora para um dos quartos que estava fechado e que ele não abria por nada. Nos trancamos ali dentro e ele me arrastou para um pequeno armário que havia nele. Lá dentro, passamos por uma passagem que nos levou para uma sala pequena que parecia ser uma Sala do Pânico. Fiquei intrigado com aquele cômodo no que parecia ter sido o quarto da filha, mas não disse nada. Ali, ele tirou rápido se um armário dois coletes a prova de balas.

Não disse nada, apenas vesti. Em seguida Marinho pegou um rádio por satélite e começa a tentar contato com a central de polícia, no começou sem sucesso, mas depois funcionando. Ele falou apressado com um policial que explicou que as coisas estavam um caos na cidade, especialmente na represa que a essas horas estava sendo atacada por um grupo armado. Imediatamente o delegado mandou que a vigilância das meninas fosse reforçada e instruiu que uma equipe de busca fosse direcionada a represe para cessar o conflito e religar a energia da cidade.

O policial se encarregou de resolver tudo isso, enquanto alocava algumas viaturas para resolver outros conflitos que aconteciam em função do apagão. Marinho olhou para mim e pude ver que ele tinha medo, eu apenas segurei em suas mãos e o abracei. Ele me apertava também e senti seu coração disparado no peito. A ligação havia caído e eu entendi que naquele momento era eu e ele contra o mundo.

Eu o beijei apaixonadamente enquanto ele sussurrou um "eu te amo" no meu ouvido. Eu não consegui falar nada. Nesse momento, ele via por um pequeno monitor que outro carro chegava na frente da casa, de forma que agora precisávamos matar 5 para sairmos vivos dali. Lembrei da sensação que tive quando era jovem e estava me preparando para colocar fogo nas roupas de Alex... "O inferno são os outros!" Eu estava com minha pistola empunhada, olhando o monitor e vendo onde cada um deles estava. Eu sabia que aqueles homens não veriam a luz do dia.

A porta do quarto que um dia pertenceu a filha de Marinho estava fechada, e ficamos aguardando no armário espiando o quarto para não sermos surpreendidos. As câmaras só cobriam a frente da casa, o porão e a sala. O corredor e os quartos ficavam como ponto cego, o que deixou eu e ele em uma aflição sem tamanhos. Precisávamos ser cautelosos.

Dos cinco, só conseguíamos ver três: dois na sala e um no porão, os outros dois estavam foram do nosso alcance de visão. Um deles cortou o pé subindo as escadas do porão, fazendo com que gritasse chamando atenção dos dois que estavam na sala e de um que correu pelo corredor de volta a sala. Eu saí do armário e Marinho estava atrás de mim me dando cobertura, era nossa chance. Seguimos até a porta do quarto ficando um de cada lado, esperando alguém entrar ali. A maçaneta mexia com calma e alguém parecia ter receio de entrar.

Quando abriu, um mascarado mais baixo e magro entrou sem perceber nós dois, ele estava portando uma pistola em uma mão e uma faca em outra. Eu observava em silêncio enquanto Marinho tinha ele em sua mira, eu fiz um gesto muito discreto para ele mandando deixar comigo. Rapidamente imobilizei sua mão com a arma a fazendo cair, com a outra segurei a mão da faca tomando-a dele. Num golpe rápido tapei sua boca e cortei sua garganta, o fazendo se debater no momento. Senti as unhas do homem cravarem meu braço enquanto o sangue dele escorria pelo chão e corpo.

Quando ele então parou de se debater coloquei lentamente no chão, afastando-o da porta. Olhei para Marinho e sinalizei que ele deveria olhar no monitor onde os outros estavam, ele fez isso rapidamente voltando em seguida falando que três estavam na sala e que um no começo do corredor. Confirmei com a cabeça e nos preparamos para agir. O que vinha andando pelo corredor foi até nosso quarto, ele parecia muito tenso. Eu fui atrás dele enquanto Marinho foi abaixado até a sala.

Ele estava olhando dentro do guarda roupas quando eu me aproximei lentamente. Como não tinha silenciador, muito menos Marinho, decidimos atirar quando contássemos de zero a 10. Um erro poderia prejudicar o outro, não quis tentar a sorte na faca e portanto iria resolver aquilo na bala. Eu tentava acalmar meu coração naquele momento, mas a adrenalina em mim era absurda.

Eu poderia sentir todas as moléculas daqui ambiente. 0, 1, 2. Eu caminhava muito lentamente, enquanto o sujeito apontava para o guarda roupas com o que parecia ser um fuzil em suas mãos. 3, 4, 5, 6. Ele estava com uma máscara de corvo, e só pude ver sua cabeça por trás ele era careca e mais alto que eu. 7, 8. O homem por um segundo ouviu quando pisei em uma tábua que fez um pequeno barulho, travando seu corpo em seguida. 9... Eu parei completamente e respeitei segurando ainda mais firme o gatilho. 10.

Dei dois tiros certeiros nele. Um na sua cabeça e outro em seu peito, ambos pelas costas. Ele não teve tempo de reagir, e ao fundo escutei diversos tiros sendo disparados. Corri desesperado para a sala imaginando o pior, e por uma fração de segundo pensei que iria entrar naquele cômodo e encontrar meu amado morto. Aliás, havia decidido naquele momento: iria chamá-lo de amor assim que o visse. Eu só queria vê-lo bem e fora dali, mas naquele momento eu não poderia me dar ao luxo de ter uma crise.

Duas balas acertaram Marinho, mas ele estava protegido pelo colete. Três corpos estavam no chão, e pensei na tensão que foi para ele também fazer a contagem e atirar nos três caras. Por sorte nossa sincronia foi quase perfeita. Ele pegou a chave que estava no bolso de um deles e a jogou para mim. Eu apenas disse "corre lá no quarto que o corvo tava com um fuzil". Ele volta de lá com a arma em mãos e se eu não estivesse me controlando para não ter um ataque eu teria com certeza achado aquela imagem um tesão.

Ele me abraçou forte beijando meu pescoço e rosto perguntando se eu estava bem. Ele só podia estar doido, eu estava quase desmaiando imaginando que ele havia levado tiros. Eu perguntei de volta e ele só respondeu que sim. Eu o agarrei e beijei, queimando como se estivesse prestes a entrar ou sair do inferno. Ele só me dizia que iria ficar tudo bem.

_ A gente precisa sair daqui, outros podem estar vindo. Na delegacia a gente vai ter apoio. – Disse ele assertivo.

_ Eu dirijo e tu atira. – Falei saindo da nossa zona segura, não tão mais segura, examinando a rua. Tudo limpo. Corremos até uma picape e dei partida, cantando pneu em seguida. Tudo ainda era escuro, e só percebi quando Marinho me afastou para trás no banco e mandou eu virar para o lado dele.

_ Vira, vira, vira... – Passou o cano do fuzil para fora da minha janela e atirou em um homem pilotando uma moto, que caiu em seguida. Eu tentava dirigir da melhor forma possível, mas era difícil.

_ Amor, abaixa. – Ele fala gritando quando puxou minha cabeça para baixo segurando o volante enquanto eu pisava o acelerador. Balas passaram pelo vidro e não me atingiram porque eu estava abaixado. O delegado colocou o fuzil para fora e atirou no sujeito, o alvejando e o fazendo cair. Desviei da moto e segui o caminho.

Estávamos ofegantes e descabelados. Ambos com caras transtornadas e era isso mesmo: transtorno. Tudo ao redor era um inferno, passamos pela cidade ouvindo todo tipo de barulho enquanto vultos eram vistos por entre nosso carro. Chegamos em frente a delegacia encontrando uma equipe pronta para seguir até o hospital. Ele só pegou munição para seu fuzil, enquanto eu não precisava.

Seguimos para o hospital sabendo que as quatro meninas estavam seguras, mas que mesmo assim precisavam de guarda. Marinho queria que todas as equipes de busca retornassem a cidade na tentativa de conter o caos, mas eu mandei que só uma parte retornasse. Expliquei que aquilo poderia ser uma estratégia de quem quer que fosse para atrapalhar nosso progresso. Ele acabou concordando e seguimos para o hospital. Lá as quatro jovens estavam seguras em uma sala, isoladas. Fora dela, alguns policiais faziam a guarda. Naquele ponto em diante nos separamos: eu fiquei no hospital e Marinho seguiu para a represa. Antes de ir ele acabou me beijando na frente de todos ali, e eu retribui. Mesmo com todos os olhares, ninguém teve tempo de reagir. Acho que no fundo a grande maioria sequer ficou chocada.

Naquela noite, ainda matei outro mascarado em uma volta ao hospital. Além deles, outros 5 foram mortos na represa. Marinho não matou nenhum deles, mas acabou se ferindo com uma bala de raspão no braço. Justo o que ele havia sofrido o ataque na mina quando resgatou a criança. A energia da cidade voltou e aos poucos fomos fazendo com que as coisas se acalmassem. Ele estava sentado em uma maca enquanto uma enfermeira costurava seu braço. Eu bati na porta e ambos olharam para mim, por sorte ela estava acabando, onde me cumprimentou e saiu em seguida.

Eu só o abracei e chorei. Eu não tive outra reação, tudo o que eu estava sentindo antes voltou. Eu não queria mais aquela vida, e odiaria continuar nela. Ele me acolheu somente, não dizendo nada. Tom chegou na sala em seguida, pedindo licença a nós dois. Eu continuei abraçado com Marinho:

_ Dois dos corpos do ataque a represa eram de uma enfermeira daqui e do técnico em perícia que catalogou provas com você ontem, Cardoso. – Ele fala olhando para mim. Imediatamente largo o delegado e me recomponho.

_ Vocês tem alguma informação sobre esse ataque? – Pergunto.

_ Desse especificamente talvez não, mas temos uma ideia. – Ele ponderou.

_ Na época do pai desse daí – Disse apontando para Marinho com o queixo – Tinha um festival de música na região que sempre atraia muita gente. Tinha um grupo de hippies que falavam umas baboseiras de se conectar a natureza enquanto enchiam o cu de droga. Eles usavam essas máscaras de animais que vocês viram. Depois esse festival foi proibido, o que não agradou muito essa galera. – Ele falou arrumando seu chapéu na cabeça – A turma achou uma boa desligar a energia da cidade como forma de protesto, mas também surgiram pessoas vestidas assim querendo matar o pai dessa fera, disse mais uma vez apontando pra Marinho – Mas ele atirou mais rápido e fudeu com um monte de gente. O grupo da represa na época disse que não pretendiam matar ninguém, que não eram eles. Mas não acreditamos e prendemos todos.

_ Mas porque eles tentaram nos atacar agora? – Perguntei sem entender como aquilo importava para aquele momento.

_ O delegado que botou pra frente a ação de encerrar mais uma vez com as atividades do festival – Disse olhando para Marinho – já que só gerava prejuízo pra o pessoal que mora aqui. Um monte de playboy que passava uma semana usando todo tipo de droga e destruindo tudo é mais perigoso que as atividades dos desgraçados dos Castanhos. – Tom me explicou enquanto Marinho permanecia calado.

_ Ainda assim precisamos entender melhor esse ataque. – Encerro, enquanto Tom só confirma com um "vamos investigar".

Ficamos na sala só eu e Marinho depois que Tom se retirou para resolver umas coisas a mando dele.

_ Tu lembra quando eu te contei do início dos desaparecimentos?

_ Lembro sim, uma noite antes teve um deslizamento e tava rolando um festival também. Vocês ficaram super atarefados e teve um apagão na cidade de quebra, foi isso né?

_ Foi sim, mas tem mais. A gente descobriu que tava rolando uma parada com uso de Cobre Branco como alucinógeno e que uma galera tava tendo umas experiências bem pesadas de quase morte. A comunidade tradicional ficou super ofendida e foi reclamar, eu aproveitei e mandei pra frente um projeto de lei de banir o festival daqui, que agora é de música eletrônica. Só dava prejuízo e atraso de vida pra comunidade. – Ele completou – A renda gerada sempre foi bem insignificante para as atividades da cidade, e sempre que o festival acontecia muita gente precisava de acompanhamento médico e a polícia precisava tá muito disposta pra resolver várias broncas.

_ Mas quem organiza essa porra então? Já que o o povo desse festival quem tentou matar a gente hoje... – Perguntei completamente enraivado com a situação. – Aí é que tá, é uma formação meio espontânea. Não tem uma organização específica. Eles só se reúnem e uns djs disputam pra ver quem vai tocar e todo ano quem tá presente doa um dinheiro como cachê. Ninguém sabe ao certo, mas o negócio é como uma lenda urbana pra o submundo do alternativo. – Ele termina de falar, me olhando sério.

Eu estava sem entender e acreditar no que acabei de ouvir. Marinho me olhava como se já soubesse no que eu pensava, mas ele se adiantou a falar que a fonte da receita gerada pelo festival nunca era rastreada e que até então não conseguiram encontrar nenhum ligava a família Castanho. Além disso, ele me explicou que o festival foi encerrado anos antes dos primeiros sequestros acontecerem e havia voltado no começo dos anos 2000, de forma que eles não sabiam exatamente como aquilo se conectava aos sequestros. O festival era grande, juntando cerca de 50 mil pessoas todos os anos. Fiquei feliz em saber que aquilo ali não faria mais parte do cotidiano dos moradores de Três Colinas, pelo menos em partes.

Aos poucos a ordem na cidade foi restaurada, e fora os corpos na casa de Marinho, nas instalações da represa e no hospital, a cidade não registrou mais homicídios aquela noite. O grupo invadiu a unidade de abastecimento de energia e desligou o gerador central, fazendo guarda ali. Eles iria detonar uma bomba que felizmente falhou. Eles picharam na fachada do local "TUDO PELA TERRA" e mataram dois seguranças que faziam a proteção. Eu ainda estava nervoso e alerta, já Marinho parecia mais tranquilo.

Ele deu algumas instruções sobre trabalhos que deveriam ser feitos e fomos em direção a estrada. Agora já estava claro, e estávamos visivelmente cansados. Ele dirigiu até certo ponto, e então pegou uma estrada de terra. Eu perguntei para onde iríamos, mas ele só disse que seria uma surpresa – uma boa, segundo ele. Passaram-se 20 minutos até chegarmos em um bifurcação, seguindo pela direita por mais algum tempo até o final de uma estrada. De lá, fomos a pé até um lago muito cristalino.

Havia um chalé nas margens, possuindo de deck projetado nele. Marinho me pegou pela não e fomos para dentro daquele lugar. Tudo era simples, mas muito aconchegante. Ele nos serviu uma comida que trouxe em sua mochila que por sorte ainda estava quente. Comemos em silêncio.

Quando acabamos, ele explicou que ali era um lugar seguro para descansar. Me disse que as coisas estavam encaminhadas e que depois de ontem e hoje precisava disso, a investigação continuava firme e forte enquanto nós iríamos dormir um pouco, ou pelo menos tentar. Ele tirou minha roupa e me conduziu até o banho, me abraçando por trás enquanto eu sentia a água quente alcançar meu corpo. Eu me segurava nele para não cair e ele a mim, ambos exaustos. Depois de um banho rápido, nos secamos e deitamos.

Ele me abraçou com força cheirando meu cabelos. Senti uma de suas mãos fazendo carinho na minha barriga, enquanto a outra passava por debaixo do meu pescoço. O quarto estava quase que por completo em escuridão, e Marinho me tranquilizou explicando que o lugar era blindado e que eu poderia dormir tranquilo. Eu acreditei nele e já estava de olhos fechados quando ele me diz:

_ Boa noite, amor! – Beijando minha nuca. No qual eu respondo quase sem forças.

_ Boa noite. Eu amo você, Marinho! – Dormi em seguida.

Eu não sabia ainda, mas naquele momento eu comecei um incêndio que dura até os dias de hoje.

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Foto de perfil genéricaMaciel Petrópolis Contos: 7Seguidores: 8Seguindo: 0Mensagem Escrevo por diversão, e por isso agradeço a todos que me incentivam de alguma forma. Espero que aproveitem a leitura. No mais, deixo um abraço para cada um de vocês.

Comentários

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O amor é mesmo um incêndio... Valeu ler cada linha. Obrigado.

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Cada vez mais excitante este conto, gostando muito, espero a sequência ansioso.

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Quanta adrenalina!?!?!?! Valeu passarem por tudo isso para terminar com um "eu amo você, Marinho". ❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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