Divã: Sobre abusos e superação

Um conto erótico de Fmendes
Categoria: Homossexual
Contém 3567 palavras
Data: 18/03/2021 18:43:10

Durante muitos anos trabalhei com "situações limite". Episódios de assédio ou estupros das mais diversas naturezas, físicas ou psicológicas. E algo que pude notar é que além do trauma causado na vítima por conta da própria experiência em si, existe também o trauma ocasionado pelas cobranças sociais nos meios em que o indivíduo está inserido.

Pois cada sociedade exige da vítima uma série de posturas e comportamentos que, se não seguidas, levam inclusive a dúvida e ao julgamento sociais entre seus pares quanto a sua inocência em relação ao episódio.

Ao longo de minhas consultas, atendi algumas vítimas que conseguiam rapidaente dar a volta por cima e se livraram de sentimentos de revolta, trauma ou violação. E o que as martirizava era o fato de se sentirem na obrigação de estarem assim, e que a ausência de qualquer desses sentimentos as levava a imaginar haver algo errado com elas

Os familiares, conhecidos ou até a sociedade em geral, nos casos que acabam por circular na grande mídia, tendem a apontar para a vítima e julga-la, tal qual ou pior que fazem contra o assediador. Por ela não ter o que podemos chamar de "postura de vítima". A sociedade tente a ser bem cruel com a vítima nesses episódios.

Devo dizer que, do ponto de vista psicólogico, a vítima não se sentir assim possui uma série de pontos positivos, na medida em que nosso objetivo é alcançar a restauração de sua saúde mental. Isso não desqualifica o ato, não inocenta o estuprador, mas abre margem para a vítima voltar a viver de forma normal e sentindo-se segura.

O caso que vou narrar agora é de Carlos, jovem de classe média que passou por uma dessas situações limite quando pegava uma condução de volta pra casa, após voltar de uma balada de madrugada.

Quando atendi Carlos, ele viera a mim em segredo, pois ninguém, nem familia ou amigos próximos, sabia do ocorrido. Caso muito comum nas vítimas de abuso. Elas não contam pois, como foi falado anteriormente, o julgamento social atinge tanto a vítima, quanto o criminoso.

Vamos a história pra vocês entenderem melhor.

***

Depois de muito insistir, eu finalmente aceitei o convite do Ivan para ir àquela boate. Ele estava certo ao fim, eu havia estudado muito e finalmente tinha passado no concurso no Tribunal. Merecia uma folga.

A verdade e que eu não gosto muito de sair a noite. Sempre fui mais caseiro. O que sempre achei estranho em mim, já que tenho 19 anos e devia gostar mais dessas coisas

O caso é que fiz um esforço e fui com Ivan. Mas fiquei entediado logo na fila, pra dizer a verdade, e olhei meu relógio toda hora pra ver se ela passava.

Entrei e tentei me enturmar, mas não consegui. A música, as luzes, as pessoas. Nada daquilo me chamava. Ivan me ofereu uma paradinha que ele tinha trazido, mas eu recusei. Não queria drogas. Ele insistiu em tentar me ajudar de alguma forma. Disse ele que queria que eu aproveitasse a noite.

Acabei aceitando uma bebida leve, só pra inovar. Tomei e gostei do sabor, mas quando estava perto de terminar, consegui perceber um pouco de pó no fundo do copo. Larguei na hora e questionei Ivan. Ele tentou negar, mas ao fim assumiu que pôs uma paradinha no meu copo, pra ajudar a me soltar. Fiquei revoltado. Brigamos ali mesmo e eu saí. E eu ia embora mesmo, mas parei na porta. Me senti revoltado, mas não era justo estragar toda uma noite por uma merda que Ivan tinha feito.

Eu sei, parece doideira, mas eu estava afim de ficar naquele momento. Talvez a droga, talvez porquê não queria me sentir como se estivesse fugindo de algum lugar. Mas eu fiquei e não encontrei mais Ivan naquela noite. Apenas dancei e me diverti. E tinha de dizer, estava bem mais solto. Suei muito e bebi muita água para repor e também para ver se evitava qualquer efeito colateral da droga.

Foi quando encontrei um cara me olhando. Era um pouco mais velho que eu, usava uma camisa branca aberta, o peito tinha poucos pelos. Era forte, barba bem desenhada. Moreno.

Ele me olhou e eu fiquei sem graça, tentei disfarçar, mas toda hora eu dava uma espiada. E ele estava me olhando.

Foi então que pensei em me insinuar, tentar flertar, sabe? Nossa, não sabia onde enfiar minha cara. Pois me senti ridículo, mas fiz. E ele sorriu, deu uma bebida na cerveja que estava tomando e veio até mim. Parou na minha frente e eu gelei.

- Você é lindo - falou simplesmente.

Eu não consegui responder, olhava apenas os olhos pretos dele.

- Quero te beijar, não faça nenhuma reação se concordar - e sorriu, sacana. Paralisado estava, paralisado fiquei. E ele me beijou.

Nesse momento, eu acordei. Envolvi ele com os braços e correspondi. Como ele beijava bem. A barba era macia, os braços fortes me apertaram e a mão atrevida pegou logo na minha bunda

Fiquei sem ar,

- Qual teu nome? - perguntou.

- Carlos.

- Prazer, Carlos. Sou Lucas.

E sorriu de novo. Que sorriso bonito.

Sem pensar, eu apertei seu volume quando o senti me cutucar. O pau tava durasso. Ele sorriu de novo e me levou pra um canto da boate. Uma parte mais escura, onde tinham outros caras. Em duplas, trios. De cara notei algo diferente. Vi um cara de bunda de fora e um menino de joelhos chupando outros dois caras.

Aquilo pra mim era como um mundo novo, com o qual jamais sonhei.

Ele beijou meu rosto e falou ao meu ouvido.

- Aqui ficamos mais a vontade.

Eh... E ficamos mesmo. Não tardou e nosso beijo ficou mais quente, nossas mãos mais atrevidas. Enfiei a mão na calça dele e peguei o membro quente e inchado. Ele me lambeu do queixo ao rosto, levantou minha blusa e chupou meu peito. Eu retribui depois o favor e fiz o mesmo, abrindo mais sua camisa.

Foi então que ele enfiou a mão no meu short e começou a enfiar os dedos entre as nádegas. A ponta tocou o buraquinho e eu paralisei de prazer. Lembro de não conseguir fazer mais nada, só gemer enquanto ele brincava com a minha entrada.

- Nossa, como você geme bonito. Que carinha linda - e foi me elogiando, enquanto eu perdia a linha.

Mas foi então que a ficha caiu. E de repente eu fiquei com vergonha. Pois sabia que ali não era eu. Que eu jamais faria aquilo. Só podia ser a droga

Pedi pra ele parar e Lucas não entendeu.

- Olha... Desculpa. Não leva a mal, ta gostoso.

- Então qual o problema? - ele ficou curioso.

- É que... Botaram algo na minha bebida e eu... Eu sinto que não to normal. To fazendo coisas que não faria. Não quero me precipitar e fazer alguma besteira.

Deu para ver que ele ficou decepcionado, mas sorriu e concordou. Fiquei tão feliz, e um pouco triste também rs. Digo... Era claro que se ele insistisse um pouco eu cederia e um lado meu quis que ele insistisse. Mas ao mesmo tempo, não achava certo.

- Acho que vou pra casa - informei.

- Quer que eu te leve?

- Não. Por favor. Não vou estragar sua noite.

- Faço com prazer - insistiu.

- E também... Tenho medo de não resistir se você for - fiquei sem jeito.

- Melhor ainda - e abriu um sorriso e depois gargalhou - brincadeira. Tudo bem, eu entendo.

O beijei de novo, trocamos telefones e saí, me sentindo leve. Apesar de tudo, tinha sido uma excelente noite

Fui no ponto, e penei longos minutos até meu ônibus chegar. Ia dar caro pedir um uber. Eu ainda não tinha começado a trabalhar então não podia me dar a tais luxos.

Ao fim, chegou. Eu devia estar paranóico, pois quando entrei, podia jurar que o motorista me julgava. Como se eu tivesse os olhos vermelhos ou estampado na minha cara que eu estava drogado, sei lá. Sentei no fundo do ônibus, sozinho.

Fiz a viagem só eu e uma mulher. Mas ela desceu logo depois. Fiquei sozinho.

Então, antes de entrar na via expressa, entraram dois caras. Eu gostava daquele ônibus pois era mais rápido. E depois que ele pegava a expressa, não parava até quase próximo a minha casa.

Eu reparei nos caras que entraram. Eram altos, um deles era rústico, forte, negro, com tatuagem no braço. O outro era mais magro, lindo, branco de olhos claros e usava boné. Eles vestiam uma camisa branca e uma calça que lembrava uniforme de segurança. Deviam estar voltando do trabalho.

Sem perceber, eu fiquei reparando neles, nos braços, nos rostos, nas coxas. Aos poucos, minha mente foi viajando e eu imaginei como seriam seus corpos, sem as roupas. Seus paus

Só então me dei conta que eles também me olhavam com curiosidade. Gelei. A quanto tempo eu os estaria encarando?

Baixei o rosto, mas não conseguia evitar olhar pra eles. Principalmente quando percebi que eles falavam de mim, riam e me indicavam com um gesto de cabeça. O sorriso não era como o de Lucas, receptivo e caloroso. Tinha certa malicia nele

Foi então que eles se levantaram e foram para o fundo. Sentando-se um de cada lado meu.

- E aí. Tu é viado? - o branco perguntou

Eu não respondi.

- Já vi que sim, afinal, todo viado é surdo né? - brincou e riu, acompanhado do outro.

Vendo que eu não conseguia falar, o moreno deu um tapa na minha perna.

- Não quer falar, blz. Vai mamar, pelo menos?

- O... O que? - minha voz saiu morta.

- Mamar, porra. Vai se fazer de sonso agora. Ta olhando desde que entrámos. Anda logo, daqui a pouco o ônibus sai da via expressa e vai começar a entrar gente - e falando isso, poys o pau pra fora.

- Não eu ... Desculpa eu... Só...

- Ta se fazendo de donzela agora? - o branco de boné zombou. - tá aí vestido de viadinho, secando a gente e agora vai fazer cu doce?

Eu vestia um short de cor beje, uma camisa listrada colorida e tênis. Não costumava usar roupas tão coloridas, mas achei que seria legal pra minha primeira noite em uma boate. Não imaginei que chamaria esse tipo de atenção.

Mas antes que eu pudesse responder, o moreno puxou meu rosto e me fez abaixar a cabeça. Tentei sair, mas a mão dele era forte. E me segurou.

Começou a esfregar meu rosto no seu pau. Estava suado, tinha um cheiro forte de alguém que trabalhou o dia todo.

- Vai, caralho. Mama porra

- Vai logo, parceiro. Já nos chamou até aqui, não faz a gente perder a paciência - o de boné completou.

Com medo, mas também com algo mais, eu abri a boca e ele enfiou o pau. O gosto era forte, mas eu me segurei. Conforme sugava, ele ia desaparecendo, mas isso não melhorava a situação. Eu ainda tremia, ainda sentia medo

- Isso. Até que enfim - o moreno regorgizou. - Boquinha boa.

- Maneiro. Deixa eu agora.

Então o branco me puxou e enfiou também o pau na minha boca. Segurou bem meu rosto e foi afundando minha cabeça, fazendo o pau entrar quase todo. Me engasguei no processo.

Foi só então que ele me soltou. Tossi e olhei em volta. Estava sozinho ali, ônibus passando na via expressa. O motorista parecia não perceber o que acontecia no fundo da condução.

- Foi mal - pediu, mas não parecia arrependido e sim se divertir bastante - esqueço que meu pau é grande mesmo,né garoto?

Ele não esperou muito para me puxar novamente e me obrigar a continuar com o sexo oral. Tentei então fazer com mais pressão, pra ver se o obrigava a gozar logo e acabar de uma vez com isso. Mas acho que meu tiro saiu pela culatra.

- Caraca, agora sim tá chupando com vontade. - e se voltou para o outro cara - Viu só? Falei que ele tava doidinho pra dar. Deve tá com o cu piscando.

- Vou conferir - o homem negro se divertiu, enfiando a mão com força dentro do meu short. Tentei tirar, mas ele me deu um tapa na mão.

- Fica quieto, viadinho. Tô só conferindo.

O outro então segurou minhas mãos.

- Relaxa, príncipe. Estamos te tratando com carinho. Se quiser violência, só falar - A ameaça me gelou e eu recolhi as mãos e continuei chupando - isso. Assim.

O negro então abriu meu short e desnudou minha bunda. Me fez ficar declinado no banco e começou a abrir minhas nádegas, então, pegou um dedo e foi enfiando, estava seco e eu me queixei.

- Da doendo? Então para de cu doce porra. Ficou encarando e agora fica de palhaçada. - e enfiou o dedo na boca, enchendo de saliva, e voltou a enfiar. Desta vez, entrou todo e ele comemorou.

- Nossa, engoliu tudo. - e começou a dedar com mais força.

Não chegava a ser dor o que senti, mas incomodava a maneira como estava sendo tratado.

- Deixa eu ir, por favor - pedi, só queria que minha voz tivesse saído mais firme. O rapaz de boné, quem eu chupava, riu.

- Ownn, vai chorar o bebê? Chora não bebê, que sei que tu gosta de rola. - E me puxou pela nuca e me fez sentar - Olha aqui, viadinho - sussurrou, cara a cara comigo - Gosto de cu doce não, ouviu? Ta doendo, ta querendo ir embora?

Eu fiquei com medo, pois a voz baixa dele parecia mais ameaçadora que se estivesse gritando comigo.

- Fala, porra - sibilou, segurando bem meu rosto.

- Quero... - soltei, quase um sussurro.

- Então me diz, porque ta de pica dura aqui - o negão comentou, rindo, enquanto deu um tapa no meu volume.

- Ahhh, fala sério - o de boné pareceu ganhar na loteria - olha aqui, de pau duro e tudo. Vamos, tira essa porra desse short, vai. Tira.

E foram tentando tirar. Quando eu tentei segurar minha roupa, o de boné agarrou firme o meu pulso

- Solta - falou baixo e daquele jeito que me encheu de medo.

Eu soltei.

- Garoto, a gente só quer brincar contigo, temos pouco tempo, então colabora. Depois tu pode ir. Entendeu? - falou baixinho. Era práticamente o de boné quem conduzia tudo. O outro só acompanhava.

Eu concordei com um sinal.

Ele então terminou de tirar meu short e minha cueca com a ajuda do amigo e abriu minhas pernas, colocando uma em cima de seu colo e a outra no do companheiro

Sorriu e levou um dedo a boca, enchendo de saliva. Depois, enfiou no meu orifício.

- Caralho, muleque. Tu deve dá muito não? Todo larginho - e riu.

- Não é? Deixa eu conferir de novo - e o outro fez o mesmo. O de boné nem se deu ao trabalho de tirar o dedo dele. Ficaram os dois dentro

- Porra, couberam os dois, olha. - e foi puxando a parede do meu ânus de um lado enquanto o amigo do outro. Como se quisessem abrir

Eu gemi

- Gostando, bicha? - falou ao meu ouvido - mete cao que ta doendo, que eu sei que não ta. Um cu largo igual o teu aguenta isso fácil.

E foram judiando, de fato não estava doendo. Meu físico estava ótimo. O problema era minha moral, ali, aberto, exposto, sendo usado a bel prazer, ameaçado. Tive vontade de chorar, mas não consegui.

Mas o pior de tudo, o que mais me humilhava... o que eu mais queria...Queria só que meu pau amolecesse... Pois eu não queria que nada demonstrasse que eu pudesse estar gostando daquilo. A verdade é que eu não sabia o que estava sentindo. Eram tantas coisas: medo, humilhação, claustrofobia... Mas nenhuma dessas coisas fazem um homem gemer tão alto quanto eu estava gemendo naquele momento. E não era gemido de dor. Por mais que eu quisesse me convencer, eles não me machucaram nenhum momento...

Queria parar de gemer, mas não conseguia. Fechei os olhos para evitar seus olhares de divertimento e julgamento. Mas não adiantava, eu ainda podia ouvir suas vozes, seus risos...

- Olha como o pau dele não abaixa.

- Ta babando e tudo.

- É uma putinha mesmo. Tava doido pra dar o rabo.

- Geme igual menininha, pqp.

- Cara, acho que vou arrombar esse branquinho.

Então o homem negro se levantou, arriou a calça e me fez me levantar também, me virou de costas pra ele, encaixou e começou a penetrar, como se eu fosse uma boneco.

O de bone me segurou, pois eu ia cair ante a força das estocadas do negro.

- Calma ai, negão. Não vai estragar o brinquedinho - zombou o de boné. Mas o amigo não deu atenção.

Meteu até gozar dentro.

- Ufa, tava precisando. Cuzinho maneiro.

E me soltou.

- Agora aminha vez - o de boné falou.

- Ih parceiro, acho que o ônibus vai sair da expressa já já.

- Foda-se. Eu também vou leitar esse rabo

E sentou no banco e me fez montar nele, de costas. Encaixou minha bunda e enfiou. Então deu um tapa na minha bunda. Ardeu.

- Bora, viadinho, quica vai. Quica porra

Eu, como um cavalo açoitado, obedeci, cavalgando forte.

- Vai porra, arranca leite dessa merda. Vai porra.

E quiquei mais. Queria acabar logo, pois logo o ônibus entreria nas ruas comuns e eu poderia ser visto e, meu Deus, como eu não queria ser visto. Se antes queria que alguém aparecesse, pra me ajudar, agora que eu não queria ver ninguém mesmo.

Quando o cara urrou, eu sabia que tinha acabado, logo senti o sêmen dele me inundar.

- Bora, viado. Bora. Nosso ponto - o negão vestiu rapidamente as calças. O de boné me jogou pro lado como um trapo usado e fez o mesmo.

Fizeram sinal e desceram correndo. Antes de sair, o de boné ainda virou pra mim, sorriu e me mandou um beijinho.

Eu, humilhado, me vesti.

Não estava sentindo nada naquele momento. Estava tudo meio desconexo.

Chegou meu ponto, fiz sinal e desci. Parado na calçada, consegui ainda ver o motorista, que me olhava com julgamento, fazendo sinal negativo com a cabeça.

Mas nem raiva dele eu senti.

Fui pra casa, tomei um banho.

Tentei chorar, mas não consegui. As lágrimas não saiam, e se saíssem, senti que seriam falsas.

Dormi.

No dia seguinte, acordei e não senti nada do que achava que deveria. Não senti raiva, medo, tristeza. Alguma coisa devia estar errado. Seria eu tão depravado assim?

Teria eu gostado? Não queria acreditar nisso.

Quando peguei meu celular, vi a mensagem de Lucas.

" E ai gatinho. Chegou bem em casa? Vou te confessar, me bateu um puta arrependimento de não ter insistido em te levar pra casa. Queria muito beijar você mais ontem a noite"

Fiquei envergonhado de ler isso. Então, apenas respondi o que eu pude da forma mais sincera, sem me expor

"Também me arrependi de não ter pego carona contigo"

...

- E você e Lucas? Tem se falado - perguntei ao fim, o que ele estranhou.

- Sim, todos os dias. Saimos algumas vezes.

- Ele parece ser um cara ótimo - comentei

- Sim... Ele é - Carlos sorriu, como quem tem uma lembrança gostosa - Gosto muito dele. Mas - e seu rosto ficou sombrio. - não foi isso que me trouxe aqui.

- Eu sei... Eu estou lhe mostrando a solução - expliquei. - Carlos, a situação que você passou foi sem dúvidas uma situação limite. Muitos em seu lugar, desenvolveriam traumas profundos, mas você não. Antes de você pensar o que há de errado contigo, deveria agradecer ter um desenvolvimento psicológico desses. Acredite, tentar se enquadrar no que você acredita que deva sentir, em nada vai ajudar.

Carlos pensou, e pareceu concordar.

- Diga, você deu queixa na polícia?

- Sim, mas... Eles não levaram a sério... - olhou para os próprios pés, encabulado

- Infelizmente, temos autoridades assim. - assenti - mas o que importa pra nós aqui é: a polícia acreditando ou não, não muda o fato que você é a vítima nessa história. Não se esqueça disso. Você não escolheu estar ali, foi levado por uma série de circunstâncias. Você não é culpado de ter ido sozinho pra casa, ou de ter caído no golpe do seu amigo que o dopou. Muito menos daqueles caras terem se achado no direito de ir até você, nem do que sentiu enquanto eles abusavam de ti. Nada disso é culpa sua, Carlos. Você me entende?

Carlos apenas fez que sim com a cabeça.

- E é nisso que você deve se enfocar. Nisso, e em tentar resgatar as coisas boas dessa experiência. Lucas, por exemplo, me parece a principal delas

- Tem razão... Você... Acha que eu devo contar a ele o que me aconteceu?

- Só se isso lhe fizer bem - afirmei.

- Entendo... E quanto a Ivan... Digo. Não quero mais ser amigo dele. Não consigo mais olhar pra ele... Mas eu não tenho raiva dele. Sabe? Sou hipócrita por isso?

- O que Ivan fez foi errado. Isso não se discute. Poderiam ter acontecido coisas horríveis. Por sorte, você não se feriu. Seus exames saíram e você não se expôs a nenhuma DST. É normal não guardar raiva. Essa é sua natureza. A de uma pessoa incapaz de guardar rancor e assim, capaz de superar as mais diversas experiências. E alem disso, também é normal não querer mais o ter como amigo. Amizade exige confiança e ele quebrou a sua. Meu conselho para com a ele é o mesmo que dei a você: perdoe. Apenas isso. Perdoar não quer dizer aceitar de volta, não quer dizer esquecer. Quer dizer apenas dar uma chance a você mesmo de seguir em frente. Então, perdoe Ivan e se perdoe, acima de tudo.

Carlos saiu leve de meu consultório e esse foi um dos dias em que mais agradeci minha profissão

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 27 estrelas.
Incentive Fmendes a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Este comentário não está disponível
Foto de perfil genérica

Maravilhoso Fábio, nem consigo por em palavras o tanto de sentimentos que este conto me despertou .

0 0
Foto de perfil genérica

O QUE FAZEMOS EMBRIAGADOS OU DROGADOS É O QUE TÍNHAMOS VONTADE DE FAZER MAS NÃO TÍNHAMOS CORAGEM. É PRECISO ALGUM TIPO DE DROGA PRA BAIXAR A NOSSA CENSURA INTERNA.

0 0
Este comentário não está disponível
Foto de perfil genérica

Não é meu hábito fazer este tipo de comentário, mas é simplesmente o único que me ocorre. Lindo!

0 0