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Meu Devasso: Parte Um: Declaração - Capitulo XXIII

Um conto erótico de Marcos
Categoria: Homossexual
Data: 10/08/2018 09:22:54
Nota 10.00

Capitulo XXIII

MARCOS

— Tem alguma coisa errada? — perguntei, depois de alguns segundos sendo criteriosamente observado.

— Você vai vestido assim? — Ele se levantou do sofá e caminhou em minha direção.

Eu estava usando calça, camisa e blazer.

— Qual é o problema? É preto. Não tem como errar com preto, certo? — perguntei, começando a duvidar do meu bom gosto.

— O problema, Marcos, é que você assim, todo de preto... — ele disse, mordendo o lábio enquanto alisava meu tórax, deixando a mão deslizar até o final.

Meu pau, que já estava acordando, despertou de vez.

Eu estava a um segundo de agarrá-lo, o que, certamente, poria a porra da reserva em risco, quando meu celular tocou no bolso.

Otávio se afastou com uma expressão estranha. Provavelmente, achava que era algum cara.

Por mais que eu estivesse puto com ele, não queria que as coisas piorassem ainda mais.

Enfiei a mão para pegar o aparelho, torcendo, pela primeira vez na vida, para que fosse um dos meus amigos.

Era a quenga do Piolho, graças a Deus. O desgraçado finalmente tinha dado uma dentro.

— Só vai levar um minuto — pedi licença para atender, observando sua expressão amargurada.

Ele estava mesmo achando que era um homem!

Não contive um sorriso quando atendi, decidindo usar um vocativo que o deixaria puto:

— Fala, gostoso!

Otávio me encarou com uma expressão imensa de incredulidade estampada naquele rosto lindo.

— Putão, tenho uma treta insana pra te contar, véi. Uma parada punk que aconteceu hoje na academia, depois que cê foi embora. Mas, antes de contar, deixa eu te perguntar. Cê comeu aquele Brendo, mano? Vi que ele foi correndo atrás quando cê saiu.

— Ainda não — respondi.

Infelizmente, se eu mentisse e dissesse que já tinha comido, Otávio sacaria que eu estava falando com um dos caras. Além disso, havia vários jeitos de Piolho descobrir a verdade.

— Tô louco pra comer, mas não sei o que cê faz com esses caras, mano! Eles botam na cabeça que querem que cê coma eles, e não fodem com cara nenhum lá da academia até conseguirem. Alguém precisa ensinar pra eles que quem não tem cão caça com gato! Cê é o cão. No caso, chupando manga. E o gato é o Piolhão aqui, saca? — Ele deu uma risada. — Come logo, carai! Para de filhadaputagem e libera pra mim, véi! Para de amarrar hômi, mano! Que bosta, meu!

Caí na risada.

Otávio estava tão pálido que decidi cortar o teatro.

— Anda, filho da puta, conta logo essa porra, tô atrasado.

Vi sua expressão suavizar e prendi o lábio para não rir.

— Mano, seguinte... Otávio deu uns tabefes em Diano, lá no banheiro da academia! Diano tá com a cara toda marcada, meu! Tá puto pra carai! Queria ir à delegacia e tudo, mas não deixei. Tive que dopar a fera, porque ele tava mó locão, falando nada com nada lá no apê. Um troço a ver com uma sunha vermelha e sete dias. Muito Samara isso. Cê sabe que eu cago de medo da Samara, mano! E, pelo que entendi, Diano fez uma simpatia, quenga! Simpatia pra te amarrar, sua puta! Tava contando pro Leonardo lá no banheiro, e Otávio ouviu a parada toda. Leo que me contou essa parte. Cago de medo dessas porra de simpatia também, mas já ri pra carai disso! Olha só a que ponto essa merda chegou. Meu irmão tá zoado, mano. Pelo amor de Deus, véi, quebra o carai da regra e come o mano.

Simpatia? Então esse era o motivo da porra da sunga debaixo da minha cama?

E Otávio tinha batido em Diano?

Puta que pariu, como foi que perdi essa cena? Que porra!

Mas a briga significava que...

Por isso ele queria se desculpar, tinha descoberto minha inocência!

E, ironicamente, por meio de uma confissão.

— Alemão, cê vai comer meu irmão, mano? — perguntou Piolho.

— Óbvio que não! Não quebro a porra da regra, e você sabe disso, caralho — respondi.

— Eu já falei pro Diano mil vezes, mano! E ele não ouve! Tô vendo a hora de ter que ligar pros velhos darem um jeito nele. Quero dizer, pra minha mãe, porque meu pai... Cê sabe. Enfim, pra levarem aquele sem noção pra Veneza, Madri, ou onde quer que eles estejam agora.

Os pais de Piolho eram podres de ricos, e ele era um rebelde sem causa e sem casa. Há alguns meses, estava morando no apartamento de Diano, porque tinha planos de juntar dinheiro para investir em sua incipiente carreira de jogador profissional de pôquer. Acho que, em relação a aspirações profissionais, Piolho só perdia para a multiplicidade de empregos de Otávio.

No ano passado, ele cismou que viraria um Grande

Mestre Internacional de xadrez, mas a dedicação ao jogo durou até ele descobrir que os meus ratings Blitz e Bullet no ICC eram maiores que os dele. Agora, estava cismado com pôquer, e dizia para todo mundo que era jogador profissional, embora ainda não fosse, tecnicamente, um. O cara achava que viraria um Negreanu do dia para a noite.

O mais assustador é que Piolho é formado em Letras (e Administração, que ele fez obrigado), e dá aulas de Português para alunos do ensino médio. Mas, se alguém pergunta qual é a profissão dele, ele não diz que é professor. Fala que é jogador profissional de pôquer, porque acha que isso atrai a “gayzarada” (“deixa os caras loucos de tesão no charuto do Piolhão”, como ele diz) e que ele vai se dar bem na vida por conta própria, sem precisar de Lutero, o “coroa” bilionário com quem ele rompeu relações há anos.

Talvez, no mês que vem, ele diga que é jogador profissional de sinuca (e passe a dizer que isso “deixa os caras loucks de tesão no taco e nas bolas do Piolhão”). É impossível saber qual será a próxima ideia fixa do cara.

— Faça isso. Estará me fazendo um grande favor — falei, referindo-me ao envio de Diano para a Europa.

— Mas cê precisava ver a briga, Putão. Teve puxão de cabelo, tapa na cara, aquele clássico gostoso de ver, tá ligado? Só que, como meu irmão tava envolvido, nem deu pra sentir tesão, apesar da visão da bunda de...

— Acho melhor você não terminar a frase, sua puta! — falei, usando meu melhor tom de ameaça.

— Vixe, esqueci que cê tá todo possessivo com o cara, mano. Só porque é priminho. Nem tiro sua razão. Gostoso pra carai, tá ligado? Mas deixa eu te mandar a real: vai atrás de Betona, quenga! Aquele puto passou na minha frente, véi! Vai sair com ele, o filho da puta! Eu até tentei organizar um menagezinho maroto, pra todo mundo comer e ser feliz, mas aquela puta egoísta...

— O quê? — vociferei.

— Na moral! Ele me contou essa parada lá na academia. E na volta, durante a carona...

Meu Deus, eu estava enfartando. Estava tendo um infarto aos 27 anos! E qual seria o meu legado na Terra?

Isso. Nenhum.

— O que foi que eu te falei, desgraçado? Perdeu o medo de morrer, porra? — berrei.

— Calma, mano! Rolou nada, não, véi! Tava chovendo. Foi uma carona inocente, na parceria, saca? Para de comer meu rabo e vai atrás de Betona, mano. Eu já pulei fora, vou comer seu priminho, não, eu juro.

— Pra cima de mim, caralho? Você só desistiria se perdesse o pinto, Piolho. Coisa que vai acontecer, se você continuar tentando comer o meu... Primo.

— Cê e Beto são duas putonas egoístas. Pode ser assim, não, mano. Tem que dividir o pão, tá ligado?

— Tomar no cu, filho da puta! — gritei e desliguei.

Guardei o celular e respirei fundo, tentando evitar minha morte precoce.

Encarei Otávio e pensei nas implicações de iniciar uma briga àquela hora. Estávamos atrasados pra caralho, não havia tempo para brigar. O problema é que a minha raiva queria que o horário fosse se foder.

— Você vai sair com Beto? — perguntei, tentando soar frio e tranquilo.

Mas minha irritação devia estar estampada na minha cara, a julgar pela expressão pacificadora de Otávio.

— Não — ele respondeu imediatamente.

— Então Piolho, além de puta fofoqueira, é puta mentirosa, é isso? Você veio de carona com ele, não veio?

— Vim, mas... Foi só uma carona, Marcos. Piolho é o cara mais sem noção que...

— Foi só uma carona... Tudo bem. Caronas liberadas, então? Ótimo. — Fiz uma pausa, tentando não explodir. Eu precisava me manter são.

— Você está dizendo que vai... — começou.

— Sair por aí dando caronas? — interrompi. — Vou sair com quem eu quiser! Vou dar carona a um puteiro, e não quero ouvir merda no meu ouvido depois. Foda-se.

— Marcos... — Ele se aproximou para me abraçar.

— Vamos. Precisamos sair agora ou perderemos a porra da reserva — falei, afastando-me do abraço.

Otávio me fitou com olhos desapontados. Ignorei sua decepção, peguei a chave do carro em cima da mesa e comecei a sair da sala. Ele pegou a carteira em cima do sofá e veio atrás.

Então, eu me lembrei do iPhone.

— Fica com o celular, Otávjo — insisti.

— Eu já disse que... — ela começou.

— Um médico não pode ficar sem telefone — argumentei firmemente.

Ele me olhou com aqueles grandes olhos de culpa e remorso, e eu soube que tinha ganhado a batalha.

Otávio voltou até o sofá, pegou a caixa, tirou o iPhone de dentro, enfiou o aparelho no bolso e caminhamos juntos até a garagem.

Ficamos em silêncio no carro. Eu estava tão puto com aquilo tudo que apertava o volante a ponto de os nós dos meus dedos ficarem brancos.

A qualquer momento, quebraria o câmbio, de tanta força que imprimia para passar as marchas.

— Eu não vou sair com Beto, Marcos — ele falou de repente.

— Você pode sair com quem quiser. Não sou e nunca vou ser nada seu — respondi, sentindo um misto de raiva, tristeza e dor.

Tristeza e dor? Eu não entendia o motivo, porque, obviamente, não queria que fôssemos nada um do outro.

Eu não queria a porra de um namorado! Mas também não queria que Otávio saísse por aí transando com todo mundo ou pegando carona com os filhos da puta que eu costumava chamar de amigos.

O que eu queria, então? Um parceiro sexual fixo?

Meu Deus, absolutamente ridículo! Que cara acostumado a transar até com vários ao mesmo tempo abdicaria disso tudo por um único homem?

É, eu sei. Não precisa responder, porra!

Eu sei. Um cara pateticamente apaixonado pelo homem em questão.

Eu sei, caralho, eu sei.

Mas não deixa de ser algo rídiculo e assustador.

Porra, isso é assustador pra caralho! Vai contra a racionalidade! Vai contra a esperteza do meu pau. Provavelmente, isso contraria até alguma lei da física.

Agora, voltemos à pergunta inicial: o que eu queria, então?

Isso eu não sabia.

E o que Otávio queria?

Isso eu sabia muito menos.

Não dissemos nada um ao outro até chegarmos ao Flörsheim, meu restaurante alemão favorito, que serve o melhor goulash da cidade.

O ambiente é incrivelmente acolhedor, e o fato de a construção ser parecida com uma grande casa rústica é um motivo à parte para frequentá-lo sempre que possível.

Otávio e eu já estávamos sentados à mesa quando ele abaixou o cardápio e decidiu falar de novo.

— Marcos... — chamou.

Porra, eu estava com saudade. Há quanto tempo minha boca não sentia o gosto dos lábios dela?

Quando tinha sido o nosso último beijo? Horas atrás, porra. Muitas horas atrás.

Eu estava em uma puta abstinência.

— Sim, senhor Otávio — respondi suavemente.

Tinha me transformado na porra de um cara bipolar.

Otávio olhou para mim e sorriu. Senti uma onda acalentadora chapinhar em meu peito.

— Por favor, aceita minhas desculpas? — pediu, me olhando daquele jeito que fazia meu coração doer pra caralho. — Eu estava errado, Marcos.

— É mesmo? E descobriu isso como? Com uma bola de cristal, um espelho mágico ou um caldeirão vidente? — indaguei, lembrando-me de suas palavras na noite anterior.

Ele fez menção de rir, mas ficou sério de novo.

— Eu... Acho que Piolho já te contou como eu descobri. Mas essa não é a questão. A questão é que agora eu sei que estava errado e...

— Você precisou ouvi-lo contar a porra toda no banheiro, Otávio. Não confiou em mim. Eu disse que não tinha transado com Diano, e você não acreditou. Estragou um dia que era para ter sido perfeito.

— Marcos, você não pode me culpar por não ter acreditado na sua palavra. Você é um devasso e...

— Posso ser a porra de um devasso, como você diz, mas não sou um mentiroso. Isso eu posso garantir que não sou, Otávio.

Ele baixou o olhar, e percebi que sua postura ficou tensa.

— Eu não minto. Todas os homens com quem já transei sabiam que não haveria uma segunda vez. Sou um devasso honesto, o que me coloca na categoria de extremamente cobiçáveis, já que, além de excepcionalmente bonito, gostoso pra caralho, financeiramente estável e deus do sexo, eu sou um cara sincero — provoquei. — E, antes que você ironize que também sou humilde, lembre-se de que prefiro soar presunçoso a fingir modéstia.

Ele se limitou a sorrir.

— Tenha certeza de que nunca vou mentir para você — completei.

— Você transou com Breno? — ele perguntou de repente.

— Não — respondi sem piscar.

— Mas ainda pretende?

Titubeei. A resposta era negativa, mas eu queria que ele soubesse disso?

— Não. — Foi o que acabei respondendo.

— Por que não pretende mais?

— Não estou mais interessado — respondi.

— Por que não? Ele faz seu tipo.

— Não tenho um tipo.

— Tem, sim. Gostosos.

Não contive um sorriso.

De fato, costumava ser o meu tipo. Mas eu tinha me tornado mais exigente. Agora, só servia se fosse um gostoso em particular.

Porra, isso era indizivelmente trágico!

— Então quer dizer que a sunha era produto de uma simpatia? — Mudei de assunto.

— Aquele puto não tem miolos! Fazer a porra de uma simpatia ridícula pra fisgar o meu... — Ele parou e deu uma tossida.

— O que você ia dizer? — perguntei, sentindo o coração pular.

— Primo — ele respondeu, limpando a garganta outra vez.

— Estou aqui, senhor Otávio. Por que está falando de mim como se estivesse falando a alguém?

Puta que pariu, meus batimentos estavam assustadoramente acelerados.

Porra, isso era indizivelmente não masculino!

— O que você vai pedir? — ele desconversou, levantando o cardápio.

Caralho, o que ele ia dizer? Que palavra ele ia usar?

“Homem”? Eu ia gostar de ouvir isso. Porra, ia gostar pra caralho.

— Goulash. — Decidi não forçar a barra. Insistir para que ele dissesse seria patético. — É a minha...

— É a sua comida favorita — Otávio completou o raciocínio.

— Como você sabe? — perguntei, surpreso.

— Lídia comentou no sábado, na sua casa. Quando nós voltamos do shopping. Lembra?

Não tinha lembrança alguma do comentário, mas me lembrava perfeitamente de tudo daquele dia. O passeio na loja de brinquedos, a caça ao palhaço, minha necessidade inexplicável de fazer com que ele se sentisse tão linda quanto realmente era na frente das vendedoras... A praça de alimentação... A forma como eu pontuava suas sentenças direcionadas a Sofia com um sorriso idiota na cara...

Caralho, eu já estava apaixonado por Otávio!

Até então, eu suspeitava que a porra toda havia começado no banheiro. Com aquela transa épica na pia, com o chupão... Com aquele beijo...

Mas tinha sido antes. Eu já estava fora de mim antes disso.

Porra! Como não percebi? Quando foi que me apaixonei por ele? Quando essa porra aconteceu?

— Terra para Marcos. — Ouvi Otávio dizer.

— Lembro — respondi, voltando à superfície. — E você, vai querer o quê? — indaguei, indicando o cardápio.

— Nunca comi goulash. Acho que vou provar. Se você gosta, deve ser bom.

— Tem certeza? Há outros pratos excelentes, como o Schlachtplatte, que combina eisbein, kassler, bockwurst, chucrute e batatas. Só perde em meu estômago para o goulash. Tenho um caso de amor com goulash. Vó Ercília aprendeu a fazer, só para me mimar. Que saudade daquela velha safada...

— Velha safada? — Otávio caiu na risada.

— Eu a chamava de "minha velha safada", e ela me chamava de "meu meninão gostoso".

— Sério? — ele perguntou, rindo.

— Sério. Vó Ercília vivia atentando meu avô, dizendo que eu era uma versão mais jovem dele. Se ele tivesse te conhecido, teria dado o troco. Você diz que sou um devasso, mas não conheceu meu pai ou vô Franz. Se estivessem vivos, eu teria que disputar você com meus próprios ascendentes!

— Eu sabia! Sabia que seu Franz tinha alguma responsabilidade nesses seus genes devassos, Marcos! Coitada da minha tia! Deve ter sofrido na mão do seu avô!

— É aí que você se engana, primo. Meu avô era um camisolão. Todo homem apaixonado é. Meu pai deu sorte de morrer antes de se tornar um.

— Tia Ercília sentiria um treco se te ouvisse falar esse tipo de coisa — ele falou, meio irritado. — Sabia que ela me fez prometer ir ao seu casamento? E tenho uma lista de coisas para dizer à seu noivo.

— Está dispensado do encargo, primo, porque, como você sabe, esse dia nunca vai chegar.

— Nunca diga "nunca".

— Você também disse que nunca se casaria. Nunca diga "nunca".

— O meu "nunca" é verdadeiro.

— O meu também. — Fiz uma pausa. — Você se casaria comigo, Otávio?

Eu não fazia ideia de onde a pergunta havia saído. Mas era curiosidade pura, claro.

Ele arregalou os olhos e, depois de alguns segundos me encarando, disse:

— Isso é um pedido oficial, Zimmer?

— Se fosse, você estaria pelado — falei, sorrindo torto.

Ele sorriu de volta.

— Sim ou não? — insisti.

— Vai saber a resposta se fizer um pedido formal.

— Ele deu de ombros.

— Então nunca vou saber — respondi.

— Nunca vai saber — ele repetiu, voltando a analisar o cardápio. — Bem, se o prato que você falou for esse aqui da foto dá para alimentar um batalhão — ele disse, sem me olhar nos olhos.

— Ou um Marcos Zimmer — completei.

Otávio abriu um sorriso fraco.

Eu estava estudando sua expressão quando o garçom se aproximou, querendo saber se já tínhamos escolhido.

Foi quando me toquei que Suze e Plínio estavam irremediavelmente atrasados.

Disse ao garçom que estávamos esperando duas pessoas, saquei o celular, pedi licença a Otávio e fui ligar pro puto lá fora.

— Vocês dois estão esperando essa babá terminar de chupar o pau murcho do marido broxa? Alguém precisa avisar a essa filha da puta pra parar de tentar fazer milagre e ir fazer a porra do trabalho pelo qual ela é paga.

— Quanta insensibilidade, Marcos... A mulher acabou de ligar. O marido faleceu há poucos minutos — ele disse, parecendo abalado.

— Puta merda... Sério, puto? — falei, já me sentindo mal pela piada.

Plínio começou a gargalhar.

— Ah, seu filho da puta! — exclamei.

— Não acredito que você caiu nessa! — falou, ainda rindo. — E fazendo piadinha de broxa, como se nem fosse um! — Ele caiu na risada.

— Broxa é a puta que te pariu! — xinguei.

— Puto, você não broxou com Otávio, não, né?

Porque broxar em família é foda, porra...

— Plínio, tira o dedo do cu e vem logo, caralho. Puta falta de respeito esse atraso de vocês.

— Não vai dar para ir. A babá não veio, desmarcou em cima da hora, maior sacanagem com a gente. Isso é o que a Suze quer que eu te diga. Mas a verdade é que a babá já chegou, e minha adorada esposa e eu estamos saindo para um jantar romântico. Segundo ela, estamos dando uma grande oportunidade para você se declarar para Otávio, o grande amor da sua vida, como todos os integrantes desta família já sabem, inclusive o Rodolfo, que dorme o dia inteiro.

— Todos os integrantes desta família, inclusive o Rodolfo, têm sérios problemas mentais — respondi, puto pra caralho.

Eu não era tão óbvio assim. Era?

— Estou trancado no banheiro enquanto temos esta conversa, porque Suze está se arrumando no quarto. Ela está empolgadíssima com o seu futuro relacionamento sério com Otávio, Marcos. Está radiante, flutuando. E já arquitetou um plano quase diabólico para juntar vocês dois de vez. Você não tem ideia do que ela já planejou. Anotou uma porrada de coisas na agenda. Você conhece a sua irmã quando o assunto é arquitetar alguma coisa. A porra é séria.

— Você é médico, caralho. Marca a porra de uma consulta com um psiquiatra para Susanne. Porque, se ela acha que há a mínima possibilidade de eu me relacionar seriamente com Otávio, está louca. Perturbada pra caralho, já que não reconhece mais o próprio irmão. Marcos Zimmer não se apaixona...

— Não namora e não se casa — ele completou, com uma voz enfadonha. — Marcos Zimmer também não broxava com loiros gostosos e não tinha crises infantis de ciúme por causa de um cata. E, agora, a pergunta que vale um milhão de reais: o que aconteceu a Marcos Zimmer?

Fiquei em silêncio. O que eu ia dizer?

— Essa é fácil demais — ele continuou. — Você não sabe?

— Não, porra. Não faço a mínima ideia — menti.

— Sei que você sabe, mas deixa que eu respondo: Otávio Albuquerque aconteceu. Agora, para de agir como uma putinha covarde e diga a ele o que você sente, Marcos. Isso não vai te deixar menos másculo, não vai te tornar menos homem. Pelo contrário, vai te transformar em um homem completo. Estou falando por experiência própria.

— Putinha covarde é seu cu, filho da puta — falei e desliguei.

Então fiquei parado onde estava, respirando pesadamente. Ergui a cabeça e olhei para cima em busca de respostas. Parecia que o céu ia desabar a qualquer momento, e é claro que as nuvens pesadas não responderam nada.

Plínio estava tão louco quanto Suze. Dizer a verdade o Otávio me transformaria em um camisolão.

Plínio era um camisolão. Achava que não, mas era. Essa coisa de amor não foi feita para os homens.

Todos viram camisolões. É ridículo.

Eu seria meu pai, não meu avô.

Quando voltei para o restaurante, estaquei a alguns passos de distância da mesa.

Havia um cara de pé, conversando com Otávio.

Eu queria a porra da minha vida de volta. Queria estar me fodendo para a concorrência, em vez de me sentir ameaçado o tempo inteiro. Queria não ter aqueles impulsos homicidas, não passar tantas horas completamente puto ou preocupado com aquele tipo de coisa.

Queria conseguir me controlar, queria soar indiferente, mas, puta que pariu, o sangue fervia nas têmporas, e só o que eu queria fazer era cometer a porra de um assassinato.

— Que porra é essa, Otávio? — trovejei atrás dele.

Nem sabia como havia caminhado até lá. Mal senti as pernas em movimento.

O cara me mediu de alto a baixo e teve a coragem de me cumprimentar com um sorriso cortês.

— Você deve ser o Marcos — falou, estendendo a mão.

— E você deve ser o filho da puta que vai desaparecer voluntariamente das minhas vistas em dois segundos, a menos que prefira uma boa dose de coação no queixo — falei, ignorando o gesto.

— Caralho — ele disse, me encarando.

— E então, o que vai ser? — perguntei.

— Já estou indo, cara — ele falou, afastando-se. — Até mais, Tavinho. Foi um prazer revê-lo depois de tanto tempo. Vou te contar a história toda via WhatsApp.

Via WhatsApp? Nem fodendo!

Que porra! Ele tinha dado o número ao cara? Ele já tinha o caralho do número?

Por que fui comprar a porra do telefone? Porra.

Porra. Porra.

Ia ter que pegar aquela desgraça de volta!

— Até mais, Ícaro — ele se despediu, e o cara foi se sentar no fundo do restaurante, com um grupo de pessoas.

— Não posso te deixar um segundo sozinho, porra? — falei, puxando a cadeira para me sentar.

— Não tenho culpa de ser extremamente cobiçável, Marcos, já que, além de excepcionalmente bonito, gostoso pra caralho e deus do sexo, sou um cara simpático e sociável.

— Simpático e sociável de cu é rola. Quem era aquele cara, Otávio? — perguntei, sentando-me.

— Se estivesse tão interessado em saber, teria cumprimentado e esperado pelas apresentações.

— Responde logo, porra!

— Um velho conhecido — ele respondeu, com enervante concisão.

— Um velho conhecido? Ex-namorado? — perguntei, tentando, inutilmente, fingir desinteresse.

— Primo, já te falei que nunca tive um namorado.

— Você entendeu a porra do sentido da minha pergunta, caralho. Você já transou com aquele cara?

— Já.

Fiquei atônito por alguns segundos.

— Já? E me diz isso assim, com essa cara?

— Que cara, Marcos? — Ele deu uma risada. — Você sabe que não tirou a minha virgindade, né, primo? Sabe que eu já tinha transado com outros caras antes de transar com você, né? — ironizou.

Eu não estava bem. "Transado" e "outros caras" na mesma frase, saindo da boca de Otávio, era algo que me deixava tonto, enjoado e furioso.

— Falando em virgindade, Ícaro foi meu primeiro. Olha que coisa engraçada! Eu sempre achei que ele se chamasse Juliano ou Júlio, mas acho que entendi errado quando fomos apresentados, porque ele se chamava Júnior! Ícaro é o nome do pai dele também e...

— Chega, porra! — vociferei. — Vamos embora. — Maneirei no tom, levantando-me.

Ele me seguiu em silêncio, talvez pelo medo de eu estourar na frente de todo mundo, coisa que, até pouco tempo, eu consideraria impossível, mas que ali, no calor do momento, era algo mais provável de acontecer que a porra do nascer do sol na manhã seguinte.

Informei a desistência na recepção do restaurante e, depois de toda a burocracia, andei até o estacionamento.

— Por que estamos indo embora? — ele perguntou, enquanto caminhávamos em direção à vaga.

— Porque, se eu ficasse mais um segundo no mesmo lugar que aquele cara, perderia a porra do controle e acabaria matando o desgraçado com as próprias mãos.

— Eu não perdi a porra do controle quando descobri que você foi apaixonado por Diano na adolescência. E o abutre faz parte da sua vida. E, olha só, ontem o seu pau estava na boca do cachorro! Eu nem me lembrava mais do nome do cara com quem perdi a virgindade, enquanto a sua primeira vive no seu pé! Eu vi o cara apenas uma vez, a minha vida inteira! Foi uma noite só, em uma festa, no quarto da...

— Cala a boca, porra! Para! Para de falar dessa porra, caralho! Não quero ouvir mais nada. Porra nenhuma! — falei, destravando o carro e entrando em seguida.

Otávio entrou e cruzou os braços, soltando o ar com fúria.

— Coloca a porra do cinto — ordenei.

— Coloco se eu quiser — ele retrucou, franzindo ainda mais as sobrancelhas.

— Isso não é a porra de um pedido, Otávio! Olha aí, caralho, começou a chover. Coloca a porra do cinto! É uma ordem!

— Você não manda em mim! — ele gritou na minha cara. — Eu te odeio, Marcos! Você e aquele puto! Bati pouco naquele Made in Paraguai! Vou desfigurar a cara daquele vagabundo da próxima vez que...

Eu sabia que ia me arrepender amargamente daquilo. Sabia que era a porra de um erro. Mas a porra do tesão estava nublando minha capacidade de raciocinar.

Então, fiz a única coisa que queria fazer naquele momento: agarrei a nuca de Otávio e calei sua boca com a porra de um beijo.

Comentários

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14/08/2018 16:22:10
Excelente.
10/08/2018 18:56:29
Quem será o primeiro que assumirá que estará amando o outro???
10/08/2018 18:16:00
Marcos, desconta esse ciúme todo na bunda do Otávio. Come ele gostoso e mostra pra esse garoto quem é o dono daquela bunda deliciosa.
10/08/2018 15:10:36
Definitivamente, um dos melhores contos que já li. Experimentei todas as emoções aqui. Espero ansioso pelos próximos capítulos.
10/08/2018 12:26:02
O safado do Marcos não quer dar o braço a torcer que está muito apaixonado pelo primo
10/08/2018 12:22:27
Esses dois devem assumirem que se amam.
10/08/2018 12:11:54
MAS QUE DROGA. NENHUM DOS DOIS SE DECLARA. PERDERAM A CHANCE DE UM JANTAR ROMÂNTICO PRA QUE? POR QUE? TÁ FICANDO CHATO ISSO.
10/08/2018 11:57:32
Oh amor.
10/08/2018 11:39:36
Menino ta ficando cada Vez mais emocionante viu o conto. ta babado viu o marcos tem q controlar o ciúmes dele por que ta de mais viu kkk..... Todo mundo ja percebeu q os dois estão apaixonado por q eles n admiti longo essa merda.. Esperando o próximo.
10/08/2018 11:18:27
Hot, caralho eu amo essa história.