Casa dos Contos Eróticos

Meu Devasso: Parte Um: Declaração - Capitulo XXII

Um conto erótico de Otávio/Marcos
Categoria: Homossexual
Data: 09/08/2018 21:54:47
Nota 10.00

Capitulo XXII

MARCOS

Eu tinha acabado de chegar quando ouvi a porra do celular tocando.

Peguei o aparelho no bolso e constatei que era Suze. Estava tão puto que decidi ignorar a ligação.

Subi as escadas e deitei-me na cama, cruzando os braços atrás da cabeça.

Acomodei-me no travesseiro, fitei o teto e respirei fundo. Fechei os olhos e tentei me desligar de tudo.

Mas não adiantou. Meus pensamentos se voltaram para aquela tarde. Eu já estava amargamente arrependido de ter feito aquelas coisas patéticas.

Otávio não merecia nada, e eu, definitivamente, não deveria estar pensando nele. Mas estava, e não conseguia parar aquela porra.

Em vez de ter ido sozinho para casa, deveria ter dito "sim" à insistência de Breno na saída da academia, mas não estava nem um pouco interessado.

Nem nele nem em homem nenhum, e já tinha decidido parar de me enganar. Não fazia sentido nenhum ficar mentindo para mim mesmo.

A trágica verdade era que eu queria Otávio. E só Otávio. E apenas Otávio.

Mas uma coisa era saber disso. Outra, muito diferente, era colocar essa desgraça para fora.

Isso eu não ia fazer. Nunca. Ele que fosse se foder bem longe, na puta que pariu!

— "Suma de perto de mim, Marcos! Desapareça!". "Marcos, sai do meu pé, caralho!" — arremedei.

Desgraça! Como deixei essa porra chegar a esse ponto?

Homem nenhum diz a Marcos Zimmer para "sumir", "desaparecer", "sair do pé"! Quem ele acha que é?

Eu sabia que devia ter sossegado naquela manhã, quando ele foi embora por não ter acreditado em mim.

Mas o que eu fiz? Resolvi remexer naquela porra toda, do alto da minha santa burrice. Saí para resolver todas aquelas coisas, para tentar me redimir. Do que, eu não sei, já que era completamente inocente na história.

Nunca tinha feito papel de trouxa em toda a minha vida. Agora entendia todos aqueles memes. Eu mesmo poderia virar um.

Tentei ser gentil, e o que recebi em troca? Berros histéricos!

— Pois ele que enfie todos aqueles berros no cu! — gritei, para ninguém além das paredes do quarto.

Então me levantei, completamente puto, e fui tomar banho.

Enquanto me secava, ouvi o celular tocar pela milésima vez. Enrolei a toalha na cintura e atendi logo aquela porra.

— Quer o quê, caralho? — rosnei, caminhando para o quarto.

— Nossa, que mau humor! — Suze reclamou. — Por que você não atendeu antes? Estou ligando há horas!

— Estava ocupado comendo uns putos — respondi dando de ombros, embora ela não estivesse me vendo.

— É sério? E Otávio? — Suze perguntou, indignada.

— Que porra de pergunta é essa? O que tem ele? O que uma coisa tem a ver com a outra, Susanne?

— Tito disse que você e Otávio estão meio que juntos. Falou que você dormiu com ele,

Marcos! Dormiu! — enfatizou. — É verdade? Pelo amor de Deus, me diz que você está tomando jeito! Eu ficaria tão feliz se vocês dois...

— Para de falar merda, porra! Ele só dormiu aqui por causa dos trovões, Susanne. O filho da puta do Tito não sabe nem que a própria rola está atolada no cu dele, e acha que sabe da porra da minha vida!

— Vixe, você está mesmo puto! Está até me chamando de "Susanne"... Mau sinal.

— Não estou com saco pra bater papo, porra. Fala logo o que você quer e me deixa em paz, caralho!

— Então... — ela começou. Reconheci o tom. Ela ia me pedir um favor. — É sobre Otávio e o jantar de hoje. Plínio e eu o convidamos para jantar e vamos nos atrasar um pouco por causa da babá. Por isso, gostaríamos que vocês dois fossem na frente, sabe... Para garantir a reserva. Vai ser no Flörsheim, às 21h.

— Não vou a lugar nenhum. Muito menos com ele — falei com convicção.

— Por quê? — Suze sondou.

— Porque não estou a fim — sintetizei.

— Por que você disse "muito menos com ele"?

— Porque quero que Otávio se foda, Susanne! Por isso, caralho! — explodi.

Ela ficou alguns segundos em silêncio do outro lado da linha.

— Que merda você fez dessa vez, Marcos? — perguntou, por fim.

— Eu? — Dei uma risada. — Fiz tudo certo, porra! Fiz mais do que certo! Eu disse àquele teimoso que não transei com Diano, mas ele não acreditou. E, depois, eu quis consertar as coisas, mesmo sabendo que não havia nada para consertar, porque não havia nada errado. Então, o que ele fez? Me tratou como lixo na academia! Quero que Otávio vá para o quinto dos infernos, Susanne! E vá fazer o capeta de palhaço, porque a mim é que ele não vai fazer!

Cansei. Cansei dessa porra! — disparei.

Dessa vez, o silêncio de Suze foi ainda maior.

— Meu Deus... Não acredito — falou, notoriamente atônita.

— Não acredita no quê, caralho?

— Nada, estava pensando alto. Em outra coisa. Desculpa. Sobre o jantar, seria rude demais se você não fosse, Marcos. Tito já não vai, porque marcou de sair com aquele Leonardo, primo do insuportável do Adriano. Abri uma exceção para Tito porque ele precisa mesmo sair com outros garotos, para recuperar o tempo perdido com aquele louco do Carlos. Além disso, ele não sabia do jantar com Otávio quando marcou com Leonardo. Mas você, meu querido, não tem desculpas. Você vai e ponto.

— Eu não vou, Susa... — comecei.

— Marcos, deixa de ser ridículo! — Ela quase estourou meu tímpano. — Sou sua irmã mais velha e estou ordenando. Esteja pronto e lindo para pegar Otávio às 20h45. Vou ligar agora para ele, pedindo que ele vá com você.

— Ele que vá com o diabo, porque eu não vou.

Suze caiu na risada. Teve uma crise de riso, na verdade.

— Tá rindo do quê, caralho?

— Meu Deus... — Foi só o que eu consegui traduzir, em meio àquele monte de gargalhadas.

— Vou desligar essa porra. Vá tomar no cu, Susanne!

— Não! Não desliga! Por favor! — ela pediu, ainda rindo. — Ai, Senhor, estou chorando de rir. Literalmente chorando! Marcos, por favor, vamos ao jantar. Por favorzinho?

— Nem vem com essa porra de "por favorzinho?"!

— Por favorzinho? Por favorzinho? Por favorzinho? — insistiu.

— Não.

— Pede pro tio Marcos dar uma carona para o Otávio, meu bem. Ele não quer, acredita? — Ouvi Susanne cochichar para Sofia.

Puta golpe baixo do caralho. A filha da mãe ia me pagar!

— Tio Marcos? — Souf chamou.

— Oi, meu anjo — respondi.

— Por que você não quer dar carona pro Otávio? Você disse que gostava dele...

— Disse? Ele te contou, Sofia? — Ouvi a voz perplexa de Suze.

Ela tinha colocado no viva-voz. Ótimo. Minha vida tinha virado um circo.

— Susanne, chama Plínio pra participar da conversa também, aposto que ele está se sentindo excluído — ironizei.

— Já estou aqui, puto — ele falou. — Participando ativamente a partir de agora.

— Muito obrigado por ter aberto essa sua boca enorme de chupar... — Porra, eu ia precisar maneirar nos palavrões por causa de Sofia. — Enfim, obrigado por ter contado a Tito o que eu te contei em um momento de dor inenarrável, filho da puta! O desgraçado me zoou a tarde inteira. Só fala disso.

Estou pensando em matar Tito. Sério.

Plínio caiu na risada.

— Quero saber do que vocês estão falando! Agora! — exigiu Susanne.

— Papo de homem, amor — Plínio respondeu, ainda rindo.

Pude visualizar o famoso olhar irritado de minha irmã em direção ao marido. Até que não seria ruim se ela o desintegrasse. Sofia ficaria órfã, é verdade. Mas eu cuidaria dela. E ficaria livre daquela putinha fofoqueira que Souf chamava de pai para todo o sempre.

— O tio Marcos me disse que gosta do primo Otávio, mamãe — Sofia dedurou.

— Sofia, o que eu te disse sobre isso? — perguntei, já começando a ficar puto.

— Você disse que eu não podia contar pro Otávio que você gosta dele. Eu tô contando só para a mamãe e o papai, tio Marcos.

— Esqueça a piscina de bolinhas, Sofia! — gritei.

— É mentira minha, mamãe, eu estava brincando. O tio Marcos não gosta do Otávio — ela consertou imediatamente.

Plínio e Suze caíram na risada.

— O Papai Noel ainda vai me dar a piscina, né, tio Marcos? — investigou.

Os desgraçados riram mais um pouco.

— Como vocês dois são ridículos... Rindo do mal entendido de uma criança! — recriminei.

— Claro... Crianças, sempre distorcendo as coisas... — Plínio satirizou.

— Plínio! — Suze repreendeu, recuperando-se rapidamente da crise de riso. — É claro que Sofia entendeu errado, Marcos. Filha, o tio Marcos gosta do Otávio como primo. Foi isso que ele quis dizer.

— Não, mamãe. O tio Marcos faz com o Otávio aquilo que o papai faz com você.

Plínio parou de rir na hora, e foi a minha vez de gargalhar.

Podia visualizar sua expressão lívida. Certamente, a mesma que eu fiz quando Souf veio com esse papo.

— Do que você está falando, meu bem? — ele perguntou à filha, provavelmente pensando nas últimas vezes que comeu minha irmã, e se havia a possibilidade de Sofia ter visto alguma coisa.

Eu poderia encerrar seu martírio a qualquer momento. Mas, obviamente, ia me divertir às custas do desgraçado.

— Exatamente do que você está pensando, Plínio — falei.

— Marcos, eu espero que você não tenha... Meu Deus, eu te mato, filho da puta! — berrou.

Caí na risada.

— Sofia, o que você viu? — Suze perguntou com cautela.

— Vi o tio Marcos enfiando os dedos... — minha sobrinha começou.

— Ai, meu Deus! — Suze interrompeu, alarmada.

— ...No cabelo do Otávio — Souf completou. — Igual o papai faz com você, mamãe. Assim.

— Daria tudo para ver a cara de vocês agora — falei, rindo.

— Quase morro do coração, porra! — gritou

Plínio.

— Muito engraçadinho, Marcos... Chega de papo. Vou desligar e telefonar para Otávio. Esteja pronto. Depois do que você nos fez passar, é o mínimo que você pode fazer — ela disse e desligou.

Foda-se. Eu não iria.

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OTÁVIO

A primeira coisa que vi quando entrei na cozinha foi o pacote.

Abri a caixa com desespero, rasgando o papel de presente e usando uma faca de serra para romper os lacres.

Fiquei encarando aquilo por consideráveis segundos, completamente sem reação.

Então, eu o retirei de dentro da caixa e senti a leveza na mão. Virei o aparelho e passei o dedo na maçãzinha prateada.

Dava para comprar uma moto com o dinheiro despendido naquilo! E era igualzinho ao de Marcos. Juntos, compraríamos um carro!

Já estava recolocando o iPhone na caixa, a fim de ir devolvê-lo, quando vi o bilhete.

Desdobrei o pedaço de papel e levei um susto. O desgraçado tinha uma caligrafia perfeita, estilo Hannibal Lecter!

As letras desenhadas e inclinadas, grafadas com tinta preta, diziam:

Senhor Otávio,

Não tente me devolver o aparelho. Ou serei obrigado a tomar medidas drásticas, coisa que, é claro, não quero fazer.

Tomei a liberdade de transferir o seu chip para o celular novo. E baixei seu toque, The Lazy Song, no iTunes. Deixei no último volume, porque, ao que parece, você é surda, porra!

Obviamente, estabeleci outro som de chamada para o meu contato. Sinto muito, mas não sou fã do Bruno Mars, e ele não vai cantar quando eu te ligar.

A boa notícia, em relação ao seu novo celular, é que agora poderemos nos comunicar via WhatsApp o dia inteiro! Não vou te deixar em paz, primo. E vou querer nudes. Especialmente quando eu estiver entediado no Fórum.

P. S.: Como sei que você vai ignorar a recomendação de não tentar me devolver o aparelho, estarei preparado para agir da pior forma possível. Depois, não diga que eu não avisei.

P.P.S.: Não pense que me esqueci do vidro. A nota do orçamento está colada no espelho do seu quarto. E obrigado por me devolver o protetor solar. Foi muito atencioso de sua parte. Você é, certamente, um poço de gentileza e benevolência, senhor Otávio.

Um beijo no pescoço.

Seu primo favorito.

Filho da puta! Eu podia ver aquele sorrisinho insolente!

Porra, como o devasso conseguia me deixar tão irritado e, ao mesmo tempo, tão excitado com um maldito bilhete?

Apertei o botão central do celular, louco para descobrir que toque ele tinha escolhido para si mesmo, mas, no momento exato em que o fiz, Bruno Mars começou a cantar.

Era Suze! Ai, meu Deus, eu devia estar muito, muito atrasado!

O que eu podia fazer? Tive que atender.

— Oi, Suze! Estou atrasado, mas fico pronto em um minuto! — falei, atabalhoado.

Ela deu risada do meu desespero.

— Fica tranquilo, Otávio! Ainda é cedo.Temos reserva no Flörsheim, às 21h. Espero que você goste da culinária germânica. Particularmente, acho impossível não gostar! Quem não gosta de linguiças, batatas, carne de porco e salsichas? — Ela começou a rir, mas a risada morreu de repente. — Ai, meu Deus! Você é vegetariano?

Senhor, com o corpo que ela tinha, fiquei surpresa em saber que ela não era vegetariana.

— Ah, não... Já tentei me tornar uma vez, por amor aos animais, mas não consegui ir adiante.

Infelizmente, tenho um fraco imenso para linguiças, salsichas e tudo o mais!

— Ai, que bom! — Suze soltou um suspiro aliviado. — Plínio é oncologista e vive nos alertando de que há estudos que dizem que carne vermelha provoca câncer, que bacon, linguiça e salsicha são alimentos cancerígenos e blá-blá-blá. Mas não tem jeito, a vida não teria graça se não comêssemos essas coisas de vez em quando! Ou de vez em sempre! — Ela deu uma risada.

— Concordo plenamente! — exclamei.

— Não é? Então, Otávio... Estou ligando para pedir que você pegue carona com Marcos. Infelizmente, Plínio e eu precisaremos esperar a babá. Ela teve um problema em casa e vai se atrasar. Por isso, precisamos que você e Marcos estejam lá no Flörsheim às 21h, ou perderemos a reserva.

— Claro! Tudo bem, Suze! — exclamei, embora tivesse a intenção de ligar para seu Francismar.

— Ótimo. Então nos vemos mais tarde! — ela se despediu.

— Então até logo! — Desliguei o celular e corri para o quarto.

Antes de pensar em ligar para um táxi, eu precisava saber quanto a minha brincadeira com o frasco de protetor solar ia me custar. Talvez eu ficasse zerado depois de pagar o vidro.

A primeira coisa que notei quando entrei foi o ukulele em cima da cama.

Aproximei-me e peguei o instrumento, percebendo que debaixo dele havia outro bilhete:

Senhor Otávio,

Acho que, agora que as cordas experimentaram a maciez de seus dedos, não ficarão satisfeitas com a textura dos meus.

Por favor, fique com ele.

E lembre-se de mim quando estiver tocando.

P.S.: Vou me sentir muito ofendido se tentar me devolver.

Com tesão, seu primo pauzudo.

Ai, meu Deus...

Que filho da puta gostoso...

Ai, Marcos...

Acabei me deitando na cama, e fiquei lá, relendo o bilhete infinitas vezes e suspirando feito um idiota.

De repente, notei a superfície macia sobre a qual eu estava deitado. Sentei-me depressa e busquei com o olhar o canto da parede, onde o edredom gozado deveria estar todo embolado.

Não estava mais lá, simplesmente porque eu estava deitado nele! E estava visivelmente limpo e cheiroso.

Puta que pariu, ele tinha mandado lavar meu edredom?

Mal tive tempo de pensar nisso, porque me lembrei da nota do orçamento do vidro.

Levantei-me depressa e fui até o espelho. Estava lá, pregada com um pedaço de durex. Puxei o papel e comecei a ler.

Mas tinha alguma coisa errada, porque o cabeçalho dizia "Sec Fast Lavanderia", e era um recibo de entrega.

Ai, Deus, ele tinha mesmo mandado lavar meu edredom. Que merda!

Não, Marcos. Não. Não. Não!

Não, desgraçado, você não pode fazer coisas fofas. Você não pode fazer coisas fofas, cretino! Eu te proíbo!

Porra, eu estava mais derretido que nunca. Meus miolos também estavam derretidos, tudo estava derretido. Eu estava completamente derretido no chão do quarto. E eu sei que estou repetindo muito a palavra "derretido", mas não há outra. Eu estava tão derretido que me sentei na cama, peguei o ukulele e comecei a tocar I'm Yours, do Jason Mraz. É preciso estar muito, muito derretido mesmo para desejar cantar essa música.

Comecei o intro, e logo estava entoando os primeiros versos:

Well you done done me and you bet I felt it

(Bem, você fez bonito comigo e pode apostar que eu senti)

I tried to be chill but you're so hot that I melted

(Eu tentei ficar indiferente, mas você é tão gostoso que me derreteu)

I fell right through the cracks, now I'm trying to get back

(Eu caí direitinho, mas agora estou tentando voltar)

Terminei de tocar a música e fui tomar banho. Estava suado, não podia aparecer na porta de Marcos daquele jeito.

Sequei o cabelo em tempo recorde e voltei para o quarto.

Decidi me arrumar logo para o jantar. Escolhi uma camisa azul-turquesa (uma das favoritas), uma calça preta e sapatênis para a ocasião. Meu cabelo era um pouco ondulado, mas resolvi alisar ele. Passei perfume. Guardei a carteira no bolso e desci.

Alimentei meus bichinhos, peguei o iPhone e saí para a casa de Marcos.

Toquei o interfone três vezes. O carro estava na garagem, mas ele não atendia. Com a euforia dos bilhetes e tudo o mais, eu tinha me esquecido completamente de que era possível que ele estivesse com Breno

Meu estômago se revirou, e senti vontade de vomitar. Estava prestes a voltar para casa quando ouvi sua voz mal humorada:

— Quem é?

— Quem está falando? — brinquei, tentando quebrar o gelo.

— Se veio me devolver alguma coisa, está perdendo seu tempo. Não quero nada disso. Pode jogar fora. Ou venda no eBay. Ou dê para alguém — ele disse, depois de alguns segundos em silêncio.

Seu tom estava ríspido, seco. Totalmente diferente do tom dos bilhetes.

Eu sabia que a culpa era minha. Sabia que ele tinha feito tudo aquilo antes do episódio da academia.

Sabia que devia me desculpar. Por muitas coisas.

— Preciso falar com você.

— Diga.

— Pessoalmente, Marcos. Você vai mesmo me deixar falando com um interfone?

— Não está falando com um interfone, está falando comigo, por intermédio do interfone.

— Dá na mesma. Quero pedir desculpa, preciso te ver.

— Pedir desculpa pelo quê?

— Muitas coisas.

— Espero que, dentre essas coisas, não esteja a sua falsa acusação de hoje de manhã, Otávio. Falei que, sobre isso, não aceitaria um pedido de desculpas posterior. Tenho palavra.

Engoli em seco.

Ai, meu Deus, que remorso... E agora? Eu deveria tentar pedir desculpas assim mesmo? Ou deixava essa história pra lá?

Talvez ele se esquecesse disso com o passar do tempo...

Porra! Tudo culpa daquele desgraçado!

— É sobre a academia — falei, por fim.

— Entra. — Ele abriu o portão eletrônico.

Marcos estava de pé na sala quando entrei. Não parecia que ia sair. O cabelo molhado estava penteado, mas ele estava usando camiseta e short.

Meu vizinho me olhou de cima a baixo.

— Você está indo jantar com essa roupa?

— Sim... Por quê? — perguntei, totalmente inseguro, analisando o vestido em meu corpo.

— Otávio, essa calça colada demais. E...

Ele estava ficando louco! Colada demais? Nem estava tanto! Juro por Deus, era uma das mais folgadas!

— Estou decentemente vestido — argumentei.

— Nem aqui, nem na China! — Ele se aproximou, dando uma volta em torno de mim. — E essa bunda, caralho? Não, não, não. Essa calça não é uma boa ideia, Otávio.

Caí na risada.

— Vá se foder, Marcos! Vamos ao que interessa. Eu... Como você tem aquela letra? Você fez curso ou algo assim? — perguntei, sem saber exatamente como começar a me desculpar.

— É claro que não! Sei lá, é a minha letra, porra. Não posso fazer nada para mudá-la.

— É claro que até a sua letra tinha que ser bonita... — comentei, impressionado com o perfeccionismo do diabo, o criador de Marcos.

Ele abriu um meio-sorriso.

— Bem, quero dizer que vou aceitar o ukulele, porque eu teria que me matar se não o aceitasse. O meu quebrou pouco antes de os meus pais morrerem, e eu nunca comprei outro. Então... Muito obrigado.

Meu Deus, o clima estava tão esquisito que era como se nós tivéssemos acabado de nos conhecer.

— Ouvi você tocando agora há pouco — ele disse.

Ai, meu Deus, que constrangedor...

— Foi... Perfeito. Mas queria ter visto, e não apenas ouvido.

Não consegui evitar um sorriso.

Ficamos nos fitando por um tempo, até que quebrei o silêncio:

— Mas não posso ficar com o iPhone, Marcos. Eu estava brincando sobre isso, porra! Pelo amor de Deus, é claro que falei que você podia me dar um iPhone na brincadeira! Agradeço pelo gesto, mas não posso aceitar. Por isso, gostaria que você me devolvesse meu celular antigo, para trocarmos o chip novamente.

— Isso não vai ser possível, primo — ele falou.

— Como assim? Por quê?

Ele enfiou a mão no bolso e tirou meu celularzinho de teclas de dentro. Então, jogou o aparelho no chão e pisou em cima.

Fiquei com os olhos arregalados diante da cena.

— Você quebrou meu celular, porra! — gritei.

— E você quebrou meu vidro. Estamos quites. Quebrei seu celular e te dei outro. Você quebrou meu vidro, e eu já paguei por um novo, que será colocado amanhã. Portanto, aceito reembolso, senhor Otávio. Mas não do tipo pecuniário. — Ele abriu um sorriso malicioso.

— Não sou sua prostituto, Zimmer! — exclamei. — E vou restituí-lo monetariamente pelo vidro. E não vou ficar com o iPhone. — Estendi a caixa para ele.

— Estou esperando seu pedido de desculpas — ele desconversou.

Respirei fundo e soltei o ar.

— Desculpa, Marcos, pelo episódio da academia. Eu estava um pouco... Nervoso. E... Obrigado, pelo edredom. E... Sobre hoje de manhã, eu também gostaria de me desculpar. Eu...

— Sobre o edredom — ele interrompeu —, era o mínimo que eu podia fazer. Sobre o episódio da academia, está desculpado. Mas sobre hoje de manhã eu não quero falar.

— Mas quero pedir...

— Não. Se vai pedir desculpa, a resposta é não. Eu avisei, Otávio. — Ele ergueu uma sobrancelha.

Porra, se não ia desculpar, ele podia pelo menos ter a decência de não parecer tão bonito enquanto negava!

Qual era a necessidade daquela sobrancelha? E daqueles lábios tensos, cuja tensão eu poderia desmanchar em segundos com um beijo?

— Vou trocar de roupa — ele anunciou de repente. — Pode esperar aqui? Volto em cinco minutos e saímos.

O quê? Nada de tentar uma rapidinha antes de sair? Nada de beijos e agarramentos? Nada de me convidar para o quarto?

— Tudo bem — falei e me sentei, tentando esconder meu desapontamento.

Então, Marcos se afastou.

Ouvi seus passos ecoando pelas escadas enquanto o buraco em meu peito ficava cada vez maior.

Comentários

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14/08/2018 16:21:49
Excelente.
10/08/2018 07:28:35
o marcos sendo idiota como sempre n quer ouvir o q o Otávio tem a dizer triste isso kk...... todo mundo ja percebeu q eles tão apaixonado um pelo outro so os idiota q n assumi isso q coisa. quero ver o q vai acontecer nesse jantar. kkk Esperado o próximo.
10/08/2018 00:05:12
Os dois teimosos assumam que se amam poxa vida
09/08/2018 23:49:59
MARCOS FOI MAIS UMA VEZ IDIOTA. PRIMEIRO MANDOU INVESTIGAR A VIDA DE MARCOS. SABE BEM DA SITUAÇÃO DELE. SABE QUE NÃO É MÉDICO. OTÁVIO NÃO VAI PERDOAR ISSO. E MARCOS NÃO PODE USAR ISSO COMO CHANTAGEM PARA ALGO MAIS TARDE. MARCOS PRECISA SIM OUVIR O PEDIDO DE DESCULPAS DE OTÁVIO. E OTÁVIO TEM QUE FALAR O QUE OCORREU NA ACADEMIA COM DIANO. DIÁLOGO É SEMPRE A MELHOR SAÍDA. SUZE NÃO É BESTA NEM NADA PERCEBEU QUE O IRMÃO ESTÁ PERDIDAMENTE APAIXONADO POR OTÁVIO. ATÉ SOUF PERCEBEU ISSO. SÓ OS DOIS IDIOTAS NÃO SE DÃO CONTA DISSO.
09/08/2018 23:39:37
Aí meu Deus quando vcs vão realmente dizer um pro outros que se amam.
09/08/2018 23:38:23
O medo vencerá