Casa dos Contos Eróticos

Meu Devasso: Parte Um: Declaração - Capitulo XXI

Um conto erótico de Otávio/Marcos
Categoria: Homossexual
Data: 09/08/2018 16:08:46
Nota 10.00

Capitulo XXI

MARCOS

Um segundo. É o tempo necessário para que uma manhã perfeita se transforme em uma verdadeira desgraça.

Um cara indefeso em cima de uma poltrona leva apenas um segundo para se transformar em um furacão de proporções cataclísmicas.

Naquele segundo catastrófico, mirando a expressão estarrecida no rosto de Otávio, eu sabia que ele não acreditaria em mim. Sabia que a merda havia sido lançada na porra do ventilador, e ia voar para todos os lados.

Tinha ciência de que minha bolha de felicidade havia acabado de estourar e, embora eu fosse inocente, a culpa era toda minha.

Levantei-me devagar, mal sentindo os ossos do corpo, e fitei seus olhos decepcionados.

— Otávio... — comecei, largando aquilo no chão. — Eu não transei com ele.

Queria que ele percebesse, pelo tom da minha voz, o quanto eu estava desesperado por um voto de confiança. Mas sabia que não merecia um.

— Você é inacreditável, Marcos! Inacreditável! — ele gritou, descendo de cima da poltrona. — Se não transou com aquele pirarucu, pode me explicar o que a sunga nojenta daquele puto estava fazendo debaixo da sua cama? Apareceu aí como? Em um passe de mágica? Eu não acredito que transei com você de novo! Meu Deus, como eu sou estúpido! — Ele começou a sair do quarto.

— Diano deixou isso aqui de propósito, porra! Pra me foder! Eu... Me deixa explicar do início, Otávio — pedi, puxando seu braço.

— Acho que ele te fodeu direitinho, filho da puta!

Me solta, Marcos! — exigiu, puxando o braço.

Soltei, antes que ele se machucasse.

— Otávio, por favor, me deixa explicar! Por favor, eu... Eu me importo com você, primo. Estou dizendo que não transei com ele! Você não pode me crucificar antes de ouvir o que eu tenho a dizer!

— Não posso te crucificar? — Ele deu uma risada. — Você é um devasso assumido! Tenho todo o direito de te crucificar!

— Mas eu não transei com ele! Otávio, eu não transaria com Diano nem se ele fosse o último homem na face da Terra!

— Ah, mas chupar seu pau com aquela boca de puto ele pode! Tudo certo! — Ele levantou as mãos em um gesto irônico de rendição.

— Eu já expliquei essa porra, caralho! Essa desgraça de boquete está acabando com a porra da minha vida! É a raiz dessa discussão dos infernos! Tudo por causa de um boquete em que eu imaginei você o tempo todo! — Levei as mãos à cabeça, deslizando-as até entrelaçá-las na nuca.

— Não era a porra da minha boca, Marcos. Só estou avisando, para o caso de você não ter notado — alfinetou.

— Eu sei, porra! — explodi, liberando os braços. — Eu só estava tentando te esquecer! Mas não consigo, caralho, e isso está me matando! Você está me matando... — falei, aproximando-me dele, encurralando-o na parede e colando nossas testas.

Nossos ombros subiam e desciam com intensidade enquanto ouvíamos nossas próprias respirações alteradas.

— Otávio, eu... — Toquei seu rosto, deixando o polegar passear em seu lábio inferior.

Caralho, meu peito estava em chamas, e as palavras aglutinavam-se em minha garganta, intraduzíveis.

Eu não sabia exatamente o que queria dizer, só precisava me livrar daquele acotovelamento de vocábulos indistintos.

— Eu acho que eu... — continuei, sentindo a textura de seu lábio na ponta do dedo.

Porra, eu não podia acreditar no que estava prestes a dizer.

Eu tinha ficado louco?

Refreei as palavras no último minuto, engolindo-as com força e mandando aquele nó apertado para a puta que pariu.

— Eu acho que eu mereço ser ouvido — falei, por fim, afastando-me para conseguir clarear os pensamentos.

— Tudo bem — ele disse, depois de alguns instantes me fitando em silêncio. — Vamos averiguar as habilidades persuasivas do Doutor Marcos Zimmer. Explica, Doutor, quero ouvir a sua eloquência — farpeou, caminhando alguns passos e sentando-se na poltrona com as pernas cruzadas, mantendo a postura propositalmente ereta e uma expressão desafiadora.

Porra... Eu amava aquele sorriso mordaz, aquela sobrancelha arqueada, o jeito que seu pé balançava com impaciência...

Amava como ele se agigantava, com toda aquela personalidade leonina, mesmo parecendo tão frágil quanto um filhotinho de gato.

Adorava seu senso de humor, seu sarcasmo e sua audácia.

E aquela voz... A acidez de seu tom acariciava meus ouvidos e fazia brotar em meus lábios um sorriso ridículo.

Meu Deus, eu estava mesmo apaixonado por

Otávio!

O termo "apaixonado" soava como um gongo na minha cabeça, anunciando a ocorrência de uma tragédia.

Eu me sentia como um pobre-diabo sendo acompanhado pelo carrasco a caminho da forca ou da guilhotina.

A palavra representava algo esquisito e confuso, mas o sentimento era cristalino. Não sabia precisar o momento exato em que aquela porra acontecera, mas tinha acontecido, e a certeza disso era terrivelmente esmagadora.

— Tá rindo do que, bocetudo? Você vai ou não vai começar seu discursinho mentiroso de advogado? — perguntou e, inevitavelmente, meu sorriso se alargou. — Para de rir e começa logo, porra!

Caralho... Por que ele tinha que ser tão lindo? Tão gostoso e tão boca-suja?

Limpei a garganta, obrigando-me a dizer alguma coisa ante aquele olhar graciosamente ameaçador.

Aquele seria o momento em que eu afrouxaria o nó da gravata, se estivesse de terno.

— Bem, vamos começar do início — falei, organizando mentalmente a ordem dos fatos.

— Parabéns pela genialidade, Doutor! — Otávio começou a bater palmas.

— O Doutor aqui é você, primo — falei, sorrindo maquiavelicamente.

Ele parou de bater palmas na hora e ensimesmou-se.

— Resumidamente — comecei, aproveitando a guarda baixa —, eu me levantei quando você estava tocando e vim para cá. Diano me viu passar e veio atrás, sem qualquer incentivo de minha parte. Ele entrou no quarto e bateu à porta do banheiro, onde eu estava. Foi quando eu tive a ideia de... Bem, você sabe.

— Não, Marcos. Eu não sei. Qual foi a sua ideia? — perguntou calmamente.

Soltei um suspiro cansado.

— Tive a ideia de usá-lo para... Você sabe.

— Não, Marcos, eu não sei — repetiu, com uma pontada de irritação.

— Para tirar você da porra da minha cabeça! Eu já disse, caralho, e não vou repetir essa merda. Foi a última vez — declarei.

Otávio abriu um meio-sorriso.

— Então, eu abri a porta, e ele já estava pelado. A sunga e aquela bermuda estavam no chão, em cima do tapete. Como eu não transo com homem nenhum aqui...

— E eu sou o quê? — ele interrompeu, erguendo uma sobrancelha.

— Diferente — respondi. — Você é... Diferente, Otávio. Eu nunca tinha transado com um cara mais de uma vez, até você aparecer. Nunca tinha transado com ninguém aqui, até ontem. Com você, tudo é diferente.

Ele me encarou com uma expressão impassível. Não consegui identificar se tinha acreditado em mim.

— Bem — limpei a garganta de novo —, então eu saí daqui e fui para o quarto mais próximo, que é o da vidraça. E aí...

— Não preciso dos detalhes — ele disse, seco.

— Quando... Quando terminou, voltamos para cá. Esperei na porta até que ele se vestisse e...

— Se você esperou que ele se vestisse, Marcos, como foi que a sunga daquele vagabundo foi parar debaixo da sua cama?

Parei para pensar nisso. Porra, como eu não percebi que Diano...

— Caralho... — Levei a mão à testa, lembrando-me subitamente.

O telefonema. O encontro que marquei com Breno, o gostoso da academia. Havia me esquecido completamente dessa porra.

Puxei o celular do bolso e confirmei minhas suspeitas. Várias ligações perdidas de "Breno (pretendo comer)". Voltei a guardar o aparelho.

— E então? Já descobriu o momento exato em que, segundo você, aquela coisa asquerosa foi plantada? — Otávio perguntou, fitando a sunga vermelha no tapete.

— Meu telefone tocou. Acho que me distraí durante a conversa. Quando desliguei, Diano já estava usando a bermuda. Então, ele já estava com aquilo e... Como é que eu ia saber que estava sem a parte de baixo?

— Acho que naquela bermuda dá pra perceber quando está sem sunga.. — ele falou, analisando as unhas com uma calma estudada.

— Mas não dava, porra! E... Eu devia saber! Diano saiu do quarto com uma expressão estranha, satisfeita. Eu percebei e ignorei.

— Você pode me explicar o que ele ganharia deixando uma sunga debaixo da sua cama? Na hipótese improvável, é claro, de você estar dizendo a verdade.

— Otávio, eu estou — falei, sustentando os olhos nos dele. — E... Eu não sei! — Dei de ombros. — Ele é obcecado por mim, vive no meu pé.

— Já percebi, "Delícia". — Ele caprichou no desdém.

Prendi os lábios para não rir.

— Qual é a graça, cretino? Eu não estou vendo nenhuma! — ele gritou.

— Você fica ainda mais lindo com ciúme, primo — falei.

— Ciúme de você? Eu não tenho ciúme de você, Marcos! — Ele deu uma gargalhada.

— Não? Então por que estamos tendo essa conversa? — Ergui uma sobrancelha em indagação.

— Só por que você mentiu descaradamente para mim, e eu não suporto mentiras!

— Não suporta mentiras... Interessante. — Abri um sorriso maldoso enquanto via sua expressão se aterrorizar.

Eu sabia tudo sobre Otávio, graças às informações do investigador que contratei. Estava ciente de seus problemas financeiros e de todas as dificuldades que ele havia enfrentado para se virar sozinho.

Quando ele mentiu, dizendo que era médico, não consegui esconder o espanto.

Primeiro, fiquei chocado. Por que ele havia mentido?

Presumi que fosse por algum tipo de vergonha, e isso me irritou. Eu admirava sua força. Sua luta diária para sobreviver sozinho era motivo de orgulho, e o fato de que ele preferiu esconder de mim uma parte tão importante de sua vida me deixou surpreso e simultaneamente puto.

Então, em um ato infantil de vingança, ajudei-o a alimentar a mentira, e tenho feito isso até agora. Comecei só pela diversão em vê-lo se enrolando cada vez mais no que inventou.

Mas continuei porque, além de poder usar isso como uma arma para me proteger de seus argumentos, não consigo contar que já sei. Na verdade, eu queria que ele confessasse, que confiasse em mim o bastante para dizer a verdade.

Obviamente, eu riria pra caralho da confissão. Provavelmente, não valho nada, porque, apesar de essa coisa toda me incomodar, acho tudo isso muito engraçado. E excitante.

— Por que você se levantou quando eu estava tocando? — Otávio indagou de repente, mudando de assunto.

Muito esperto. Sai pela tangente para me colocar na minha sinuca de bico.

— Isso não vem ao caso — respondi.

É óbvio que eu não ia contar. Nem fodendo.

— Eu gostaria muito mesmo de saber o motivo. — Ele descruzou as pernas, cruzando-as novamente devagar, sorrindo maliciosamente para mim.

Deixei um arquejo escapar ante a minha visão favorita.

— Eu conto se você se sentar no meu colo — propus.

Venci a distância entre nós, estaquei diante dele e estendi a mão. Otávio aceitou, e eu me sentei na poltrona, puxando-o para as minhas pernas.

Acariciei suas coxas enquanto depositava beijos em sua pele arrepiada.

Escorreguei uma mão para dentro da bermuda, espalmando-a em seu pau, movimentando-o.

— Meu Deus, primo... Isso não era para ser uma discussão? — perguntei em seu ouvido, massageando seu pau. — Então por que você está tão duro, porra?

Ele rebolou no meu colo, esfregando a bunda no meu cacete duro em resposta.

Sorri em sua orelha, enquanto beijava seu pescoço.

— Marcos... — chamou entre os gemidos.

— Sim, senhor Otávio — respondi entre os beijos, aumentando a intensidade dos movimentos.

— Estou espe... Oh, Deus... — Ele fez uma pausa, gemendo gostoso enquanto rebolava no meu colo. — Esperan... Huuuummmm... Esperando o... Marcos...

— Você está me matando com essa bunda gostosa no meu pau, safado... — falei.

— Filho da... Ai, meu Deus... Gostoso... Seu gostoso... Eu...

Diminuí o ritmo de propósito e tirei a mão devagar.

— Nããããão... — ele resmungou.

— Levante-se — ordenei.

— Não. Não sou a porra do seu... — começou.

Enganchei suas pernas nos braços e me levantei de súbito, com ele no colo.

Então o atirei na poltrona e falei, enquanto tirava a camiseta:

— No meu pau, você é a porra do meu fantoche, caralho.

Joguei a camiseta no chão e fui até o criado. Peguei uma camisinha e, prendendo-a entre os lábios, fiz o caminho de volta, enquanto desabotoava a calça.

Otávio mordeu o lábio e começou a se tocar enquanto eu me despia.

Antes que eu me livrasse de tudo, ele se endireitou na poltrona e alisou minha ereção por cima do tecido, liberando meu cacete em seguida, e deslizando a cueca pelas minhas coxas.

Agarrou meu pau, começando a manejá-lo e, meu Deus, como eu queria que ele me chupasse... Mas, infelizmente, não foi o que ele fez.

Otávio o soltou, levantou-se e tirou o a roupa. Então, puxou o preservativo dos meus lábios e rasgou a embalagem.

Sentou-se e deslizou a camisinha com admirável rapidez na minha extensão.

— Parece que você tem experiência — comentei, já puto.

Ele levantou os olhos para me observar e sorriu com malícia.

— Isso te incomoda, primo? — perguntou, levantando-se e acariciando meu peito.

— Nem um pouco — menti.

— É que pareceu, por um segundo, que você ficou meio puto — disse, enfiando os dedos no meu cabelo e pousando os lábios nos meus.

— Impressão sua, senhor Otávio — falei, apertando sua bunda e entrelaçando nossas línguas de vez.

— Senta — ele ordenou, afastando-se cedo demais. — Não sou a porra do seu... — comecei, irritado.

— Agora você vai ser a porra do meu fantoche, Marcoa. Porque quero e vou rebolar gostoso no seu pau.

— Porra... — balbuciei, sentando-me rapidamente. — Vem. — Puxei sua mão, e ele se acomodou, enchendo o cu com a minha rola.

E, então, começou a se mover, afundando os dedos em meu peito e gemendo alto.

Ajeitei a posição na poltrona e levei a mão à sua nuca, puxando seu cabelo para ter acesso à sua boca e beijando-o desesperadamente.

Desci os lábios para o pescoço, passando pela clavícula e alcançando os mamilos.

Então me afastei, comprimindo sua cintura e fui descendo a mão para apertar sua bunda.

Meus dedos rasgavam sua pele macia, totalmente comandados pelo tesão. Não conseguia parar de beijar e mordiscar seu pescoço, movendo minhas mãos o tempo inteiro, deixando que se deliciassem com a abundância de curvas daquele corpo que me deixava louco.

Porra, era diferente. Eu não me sentia comendo um homem, embora estivesse fazendo exatamente isso. Eu me sentia... Não sei explicar.

Mas era tudo culpa daquela dor no peito, que transformava o tesão em algo distinto de tudo o que eu já havia conhecido.

Gemíamos descontroladamente, descontando a tortura na pele um do outro.

— Marcoa... Oh, Deus... Huuummmm... Marcos...

Juntei nossos lábios e o beijei sofregamente, liberando sua boca no instante exato do gozo, só para observar sua expressão.

Ali, contemplando seu cenho franzido, eu soube que nunca me cansaria daquilo. Jamais me cansaria de Otávio.

Abracei-o, colando nossos corpos, e o beijei lentamente.

Deixei meus braços enlaçarem sua cintura enquanto migrava os lábios para espalhar beijos em seu rosto e pescoço.

Meu Deus, eu queria tê-lo para sempre comigo, queria dormir com Otávio todos os dias da minha vida e beijar sua pele incansavelmente.

Estava morrendo de tesão, ainda dentro dele, mas nada se comparava àquilo; a tê-lo em meus ombros, respirando alteradamente enquanto seus dedos acariciavam meu cabelo e meus lábios varriam sua pele.

Eu ainda estava absorvendo aquela descoberta aterradora quando Otávio se levantou de súbito, pegou a roupa no chão e começou a colocá-la.

Fitei-o, absolutamente estupefato.

— O que você está fazendo?

— Não é óbvio? Vestindo-me e indo embora — ele respondeu, ajustando a peça no corpo.

— Mas nós não terminamos — aleguei.

— Você não terminou, Marcos — corrigiu.

— Não estou entendendo porra nenhuma! Não íamos passar o dia juntos?

— Íamos. Do verbo não vamos mais.

— Eu te contei a história toda! Você não acreditou em mim?

— Acreditei, Marcos — ele disse, sorrindo.

— Então por que quer ir embora, caralho? — indaguei, confuso.

— Acreditei em você tanto quanto acredito que um coelhinho fofo vai me trazer ovos de chocolate que não engordam no próximo domingo de Páscoa ou tanto quanto acredito que o Bom Velhinho vai, finalmente, embrulhar o Stephen Amell em um papel de presente e deixar na minha cama neste Natal.

— Quem é esse Stephen Amell, porra? — perguntei, puto pra caralho.

— Um deus, Marcos. Joga no Google. Agora, se me der licença, vou cuidar da minha vida. Já desperdicei tempo demais com você, cretino — ele disse, encaminhando-se para a porta.

— Então é isso? Você não vai acreditar em mim? Nem depois de toda a explicação? — perguntei indignado.

— Eu tenho cara de idiota, Marcos? Está escrito "otário" na porra da minha testa?

— Mas nós transamos, porra! Eu achei que... — comecei.

— Achou errado — ele me interrompeu.

— Então por que nós transamos, Otávio? — perguntei, sem entender.

— Porque você é gostoso. — Ele deu de ombros.

Encarei-o, atônito.

Pela primeira vez na vida, aquilo não soou como um elogio. Senti o peito reclamar de dor. Ele estava me tratando como um pedaço de carne.

— Dói, não dói? — perguntou retoricamente, fitando minha expressão. — Sei o quanto dói, Marcos. É exatamente como eu me sinto. Usado.

Meu celular começou a tocar no bolso da calça.

Ignorei o som e permaneci em silêncio.

— Não vai atender? — ele perguntou.

— Não, porra! — gritei.

— Aposto que é um dos seus putinhos.

Fiquei calado. Era bastante provável que fosse um cara.

— Vamos fazer um acordo. Se não for um dos seus putos, eu te perdoo, de uma vez por todas. Passamos o dia inteiro juntos. Mas se for, adeus, Marcos. Para sempre.

Engoli em seco, passando a mão na barba. O risco era muito alto.

— Foi o que pensei — ele disse, abaixando-se e pegando meu celular.

Nem tentei reagir. Seria pior.

Otávio encarou o visor e, pela sua expressão, eu soube que estava fodido.

— Tenho certeza de que o Breno que você pretende comer ficará felicíssimo em terminar o que eu comecei. — Ele colocou o celular na minha mão com força, calçou os chinelos, pegou a chave em cima do criado e saiu do quarto.

Vesti a calça e fui atrás, disposto a tentar reverter a situação. Mas, quando cheguei à escada, estaquei.

O que eu estava fazendo? Correndo atrás de um cara?

Pra puta que pariu! Tudo tinha limite na vida! E eu tinha chegado ao meu. Não ia cruzar aquela tênue linha entre ser um homem de verdade e me tornar um pau-mandado.

Se ele estava pensando que me transformaria em um daqueles idiotas amestrados, estava muito enganado! Nem fodendo!

— Espero que esteja certo do que está fazendo, Otávio. Não vou aceitar um pedido de desculpas posterior — avisei, do alto da escada.

Ele parou, virou-se e disse:

— Não espere por um.

Então, terminou de descer os degraus.

Ótimo. Ele queria guerra. Teríamos uma.

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OTÁVIO

Eu não ia chorar.

Se aquele cretino estava achando que me transformaria em um daqueles homens chorões e patéticos, estava redondamente enganado!

Engoli o nódulo dolorido na garganta e enfiei a chave na fechadura do meu portão.

"Não choro por homem. Não choro por homem", repeti o mantra, tentando afastar a ardência nos cantos dos olhos.

A primeira coisa que vi quando entrei foi o tubo de protetor solar todo lambuzado de lama e água de chuva no meio do roseiral.

Fui até lá e, em um acesso de fúria, lancei o vidro com força do outro lado.

Ouvi o barulho da embalagem estilhaçando alguma coisa na casa de Marcos e entrei em pânico.

— Ai, caralho! — exclamei, abrindo a porta da frente às cegas.

Subi as escadas correndo, ignorando os latidos de Lola, e abri a porta de vidro do meu quarto.

— Porra! Ai, meu Deus! Que merda! — As lágrimas começaram a escorrer sem aviso quando percebi que tinha acertado uma das portas francesas da área da piscina.

Boa parte do vidro gigantesco estava estilhaçada no chão.

Marcos veria o tubo de protetor e saberia que a obra era minha! E, então, viria tirar satisfações. E eu teria que pedir desculpas e encarar aquele sorrisinho convencido que eu tinha certeza de que ele daria!

Eu precisava sair de casa!

Ter visto o roseiral de tia Ercília me lembrou do cemitério. Procurei o cartão de seu Francismar e liguei para o taxista do telefone fixo, já que meu celular tinha ficado na casa de Marcos.

Então, voltei para o quarto e tirei a roupa, peguei uma cueca na gaveta, fingindo não ver a regata de Marcos, e vesti.

Abri o guarda-roupa e escolhi uma calça jeans, uma blusa branca e coloquei, depois de passar desodorante.

Penteei o cabelo e calcei tênis.

Conferi minha carteira e a coloquei no bolso junto com meu pendrive, que seria útil na volta. Peguei um guarda-sol.

Desci as escadas, alimentei Lola e Rodolfo e tomei café.

Estava dando a última mordida em um sanduíche de presunto quando me lembrei de que precisava levar flores!

Eu já tinha ligado para o taxista, de modo que não havia tempo para telefonar para uma floricultura.

Teria que comprar alguma coisa no cemitério mesmo. Mas, e se não tivesse floricultura no cemitério ou nas imediações?

Pensando nisso, tive a brilhante ideia de levar algumas rosas do próprio jardim de tia Ercília! Ela ia gostar, não ia?

Corri até a despensa e subi em um tamborete para alcançar a caixa de plástico na última prateleira.

Eu não fazia ideia de como se cortavam rosas, mas não devia ser muito difícil, né? Só picotar com uma daquelas tesouras de jardinagem, que eu tinha visto dentro da caixa aquele dia...

De repente, lembranças daquela noite invadiram minha mente sem permissão.

Fiquei aéreo, em cima do tamborete, pensando em Marcos.

Queria acreditar que ele não tinha transado com Diano, mas eu não podia cair como um pato nas ondas daquele abdome de novo! Não podia permitir que aquela beleza diabólica me cegasse outra vez.

Eu já tinha visto muito da devassidão de Marcos para acreditar cegamente nele. E, além disso, eu já sabia mesmo que não daria certo.

Era melhor acabar com aquilo que havia entre nós — e que eu nem sabia o que era — antes que as coisas se tornassem ainda mais difíceis para mim.

Senti as lágrimas cutucarem meus olhos novamente e engoli o caroço.

— Você não o ama, Otávio. Você ama aquele pau. Essa besteira de amor é coisa da sua cabeça. Lá, lá, lá, lá, lá...

Estava cantarolando quando ouvi o interfone.

Meu coração deu um salto. Era ele!

Mas o cretino tinha a chave (eu precisava me lembrar, assim que o visse de novo, de exigir a devolução da cópia!), então talvez não fosse.

Ai, Deus, podia ser o taxista!

Corri e atendi. Era seu Francismar.

Merda! Eu teria que ir sem flores!

Dei uma última checada em Lola e Rodolfo, fechei a casa e saí, cumprimentando seu Francismar enquanto guardava a chave no bolso.

Estava abrindo a porta do carro quando notei um táxi igualzinho estacionado na calçada de Marcos.

Segundos depois, ele saiu, completamente lindo, usando um terno azul-marinho, camisa branca, gravata fina azul-clara e uma pasta preta na mão.

— Mais tarde eu deixo na sua casa o orçamento do meu vidro, primo — disse, sorrindo torto e abrindo a porta em seguida.

Então, ele entrou no táxi e o motorista deu partida.

— Desgraçado! — gritei, mesmo que ele não fosse ouvir.

Furioso (mas totalmente derretido pela visão daquele homem de terno), entrei no carro e fechei a porta.

— Viu, seu Francismar? Aquele deuso supremo que acabou de sair é o cretino de quem eu falei aquele dia — choraminguei.

Ao longo do percurso, resumi para seu Francismar os últimos acontecimentos da minha vida.

É claro que ele ficou do lado de Marcos. Segundo seu Francismar, se um homem se importa o bastante para se explicar para alguém, é porque esse alguém é "especial".

Achei cafona esse negócio do "especial", mas não falei nada.

No cemitério, paguei a corrida e agradeci ao taxista por ouvir meus lamentos e pelas informações que pedi, sobre vários lugares da cidade, como onde ficava a academia de Beto. Seu Francismar também me disse que havia uma floricultura dentro do cemitério, o que me deixou feliz.

Comprei uma dúzia de rosas cor-de-rosa e fui direto para a quadra que seu Alberto, o moço da banca, tinha indicado como sendo o local.

Encontrei o túmulo com facilidade. Ercília Casagrande Vasconcelos Vetter e Franz Küster Vetter estavam enterrados juntos.

O epitáfio de Franz dizia: "Venerado marido, pai dedicado e avô amoroso". A lápide de tia Ercília já estava pronta: "Esposa idolatrada, devotada amiga e adorada avó".

Caí em um choro convulsivo lendo aquilo, enquanto colocava as rosas em cima da grama bem aparada.

Porra, o que estava acontecendo comigo?

— Oi, tia Ercília. Oi, avô do devasso — cumprimentei, chorando. — Gente, vocês precisam me ajudar... Aquele filho da puta está me matando! A senhora avisou, tia Ercília, eu sei. Mas a senhora foi bastante eufemística quando disse que Marcos era "homenrengo". Ele é um devasso incorrigível! Acho que a senhora não tinha noção do quanto. E eu, veja só, tia Ercília, acabei me apaixonando por aquele babaca. Não é hilário? — Dei uma risada chorosa. — Não vejo nada de extraordinário naquele cretino, a não ser a beleza despudorada e o tamanho do pau. Tirando isso, tia Ercília, não sobra nada! Homem extraordinário... A senhora é doida! Ele é um convencido da porra, isso sim. A senhora disse que amolecer o coração do devasso seria uma tarefa hercúlea, né? Pois tente "impossível"! O filho da puta é um comedor insaciável, tia Ercília. E eu estou tão, tão fodido por amá-lo... Quero dizer, ainda acho que pode ser só uma paixão, sabe? Coisa passageira. Só porque ele é gostoso pra caralho. Tia, a senhora não faz ideia do quanto ele é gostoso e do que ele faz com aquela arma diabólica que ele chama de pau. Se bem que, talvez, a senhora tenha alguma noção. Tia do céu, que gato que era o seu marido, hein? Boba a senhora não era! Seu Franz, muito obrigado por essa genética ariana abençoada! E por ter feito o seu filho, que, por sua vez, fez o Marcos. Vocês são a Tríade da Perfeição Masculina! Eu beijaria o senhor agora! Com todo respeito, tia. Aliás, seu Franz, talvez o senhor tenha sido tão cretino quanto o seu neto! Talvez, Marcos tenha herdado os genes devassos do senhor! É claro que eu adoro aquela devassidão toda, mas, infelizmente, a comunidade gay inteira também pira num devasso. E o senhor sabe o que isso que dizer, né? Que o desgraçado nada de braçadas no meio das pocs! Falando em nadar de braçadas, tia de Deus, a senhora já viu como ele nada? Senhor...

Fiquei mais de meia hora falando daquele filho da puta. Contei várias coisas sobre os meus primeiros dias na cidade, e até detalhei o passeio no shopping (a caça ao palhaço).

De repente, começou a chover, mas eu não podia ir embora sem agradecer a tia Ercília por tudo. Então, abri o guarda-sol e fiz meus agradecimentos. Assegurei a ela de que Rodolfo e Lola estavam muito bem. Também falei que Suze, Plínio, Thomas e Sofia estavam ótimos.

Chorei mais um pouco na despedida e, lançando um último olhar às rosas golpeadas pela força da chuva, fui embora.

Saí do cemitério me sentindo tão desamparado quanto as pétalas destroçadas.

Pedi informação a um dos coveiros e segui em direção a um ponto de ônibus (estava chovendo, mas, se eu continuasse andando de táxi para cima e para baixo, logo estaria pedindo esmolas para sobreviver).

O maldito do ônibus demorou quase quarenta minutos para passar e, para piorar a situação, desci no ponto errado (graças à sonsura do cobrador, que me informou igual ao nariz dele). Por isso, precisei caminhar uns bons metros para chegar à lan house mais próxima da minha casa.

Meu estômago já estava roncando, mas eu precisava resolver aquilo.

Fiz uma pesquisa sobre vagas na cidade e encontrei algumas oportunidades de emprego.

Atualizei meu currículo e enviei para alguns empregadores. Imprimi algumas cópias, comprei uma pasta na papelaria da lan house e as guardei lá dentro. Também imprimi uma lista com nomes e endereços de locais que estavam aceitando currículos impressos.

Quando terminei tudo, faltavam quinze minutos para o término do meu horário. Matei o tempo ouvindo covers no YouTube.

Depois disso, caminhei uns bons quarteirões para chegar à minha casa. Tinha parado de chover, graças a Deus.

Quando cheguei, troquei de roupa e fui para a cozinha fazer meu almoço, que consistiu de: macarrão instantâneo com queijo!

Eu sei, estava me alimentando mal pra caralho e precisava voltar aos meus hábitos saudáveis.

Mas, veja que maravilha, logo mais eu começaria a academia! Como despedida, eu merecia uma panelada de macarrão com bastante muçarela.

Comi tudo vendo Arrow na TV a cabo de tia Ercília. Quando a assinatura fosse cancelada, seria trágico.

Como eu viveria sem Marcos e, ainda por cima, sem Stephen Amell?

Depois do almoço, fui me arrumar para ir ao centro distribuir currículos. Estava muito tentado a ficar debaixo das cobertas, curtindo minha tristeza em paz, mas precisava dar um jeito na minha vida.

Fiquei a tarde inteira fora. Cheguei por volta das 17h, atrasadíssimo para a avaliação na academia.

Tomei banho voando e já saí do banheiro fuçando minhas roupas à procura de algo para vestir.

Coloquei um short de malha preto e uma camiseta rosa. Calcei meus tênis e amarrei o cabelo em uma rabo-de-cavalo baixo. Comi uma banana, enchi uma squeeze de água, peguei a carteira e saí.

Graças a Deus, a academia não ficava muito longe (seu Franscismar tinha me explicado direitinho como chegar). Dava para ir à pé. Apressei o passo para não me atrasar demais.

A academia era um espetáculo. Coisa de gente rica. Assim que falei meu nome, uma das moças da recepção disse que eu tinha direito a maravilhosos 50% de desconto.

Às 18h, eu já tinha feito meu cadastro e caminhava rumo à sala de Beto, indicada pela recepcionista.

Estava distraído, observando aquele tanto de gente, quando Piolho se aproximou, beijando minhas bochechas.

— E aí, gato! Aprovei essa roupinha, viu... Tá gostoso pra carai! A anaconda aqui já acordou! — Ele se afastou para indicar o volume em seu short azul.

Meu Deus, como ele era descarado!

— Oi, Lucas. — Dei uma risada.

— Quenga, sua linda! — ele falou para que alguém que se aproximava, às minhas costas. — Mano, valeu por trazer essa beldade pro Piolhão, véi!

— Tá fazendo o que aqui, Otávio?

Eu não precisava me virar para saber que Marcos estava de pé a centímetros de distância.

Porra... Eu devia saber que ele frequentava a academia de Beto! Que porra! Adeus, 50% de desconto! Eu teria que procurar outro lugar para malhar!

“Adeus” o caralho! Nem fodendo eu ia perder meu desconto por causa daquele filho da mãe!

Virei o corpo e o encarei.

O desgraçado estava lindo, usando uma camiseta dry fit cinza-escura e um short preto.

— Que caralho de roupa é essa? — Ele ofegou, varrendo-me com os olhos.

— Estou fazendo o que se faz em uma academia, Marcos. E usando uma roupa adequada para tanto. Foi um prazer revê-lo, Lucas. Estou atrasado para a minha avaliação. A gente se vê, garotos — falei, afastando-me dos dois.

— Vou te colocar no seu lugar daqui a pouco, filho da puta. — Eu o ouvi dizer a Piolho em um tom ameaçador, e, então, escutei seus passos ao meu lado.

— Vou com você, primo.

— Pra quê? — perguntei, dando de ombros.

— Pra fiscalizar — ele respondeu. — Viu o pacote que deixei hoje à tarde no balcão da sua cozinha?

— Pacote? Não vi. E você não tem o direito de entrar na minha casa, Marcos. Quero que me entregue a chave que você tem.

— Entrego se eu quiser — ele respondeu.

— Que resposta infantil... — comentei, tentando não rir do tom que ele usou.

— Marcos! — Ouvi uma voz masculina chamá-lo, e meu "alerta puto" apitou.

Ele se virou, e eu resisti ao ímpeto de me virar também. Continuei andando, como se não tivesse ouvido nada, embora estivesse morto de curiosidade para saber se o desgraçado era bonito. Mas é claro que era.

— Daqui a pouco a gente se fala, Breno! — ele falou de volta e, ao ouvir aquele nome, eu precisei me virar.

O tal do Breno poderia ser o próximo Mister Brasil. Meu coração chorou de tristeza quando vi aquele corpo. Ele era praticamente uma mistura de Cris Evans e Alok, e estava usando um short super colado.

Virei o rosto novamente e recomecei a andar, espumando de ódio. Poderia cuspir fogo a qualquer momento.

Respirei fundo várias vezes, tentando me acalmar.

Não adiantou.

Marcos me alcançou, e minha raiva atingiu o pico.

— Suma de perto de mim, Marcos! Desapareça! — berrei.

Várias pessoas viraram os rostos em minha direção, e eu tive vontade de mandá-las à puta que pariu, mas refreei minha ira.

— Vá logo conversar com aquele puto e me deixa em paz! — falei, maneirando no volume.

— Nem fodendo eu vou te deixar sozinho numa sala com Beto. Você está seminu, Otávio!

— Seminu? Eu? E aquilo ali é o quê? — perguntei, indicando o vagabundo, que tinha ido se sentar, com o rabinho entre as pernas, em cima de uma bicicleta ergométrica.

- Você veio de quê? Veio na rua assim? — perguntou, alarmado.

Dei uma risada e saí andando. Ele continuou em meu encalço.

— Marcos, sai do meu pé, caralho! — explodi.

As pessoas mais próximas estavam estupefatas.

Ele me fitou por alguns segundos com os olhos amargurados e os músculos do maxilar retesados.

— Chega dessa porra! — disse e saiu.

Respirei fundo, sentindo o peito doer, e bati à porta da sala, ignorando a dor.

Beto procedeu à adipometria e à perimetria com bastante profissionalismo. Foi educado e não flertou. Quero dizer, não descaradamente.

Quando saí de sua sala, procurei Marcos com uma olhada pelo local e, a princípio, não o encontrei.

Comecei a me desesperar, mas senti certo alívio quando avistei o tal do Breno em cima da esteira.

Continuei procurando por Marcos e o vi levantando halteres de frente ao espelho. Respirei aliviado.

Beto e eu começamos com algumas séries leves, para testar meu condicionamento.

Ao final de cada exercício, eu dava uma checada em Marcos, mas acabei perdendo-o de vista em determinado momento.

Procurei pelo vadio na esteira, mas ele não estava mais lá. E em nenhum lugar em meu campo de visão.

Falei para mim mesmo que tudo bem se ele estivesse comendo Breno, ou qualquer outro, ou um grupo de caras no estacionamento ou no vestiário.

Eu também precisava seguir em frente, ficar com outros caras. Precisava esquecer aquela paixão ridícula.

Pronto, logo a vida voltaria ao normal e tudo aquilo seria passado.

Meu Deus, como eu queria voltar a ser quem eu era! Aquele Otávio que, desde que perdeu a virgindade com Juliano (ou Júlio), dormia com quem desse na telha.

Beto, por exemplo. Eu transaria fácil com Beto. Ele era um personal trainer, pelo amor de Deus! Além de ter um corpo supergostoso, o amigo de Marcos era a cara do Marcos Pitombo, cheiroso pra caralho e tinha hálito de menta.

No final, depois de fazer todas as séries, ele me perguntou se eu estava solteiro.

Respondi na hora que sim. Então, ele me convidou para jantar. E isso acendeu uma luzinha na minha cabeça.

O jantar com Suze e Plínio!

— Eu adoraria, Beto — respondi. — Mas hoje vou jantar com Plínio e Suze. Se você puder, podemos sair amanhã.

Ele sorriu. Beto tinha um sorriso lindo, apesar de não fazer meu coração disparar.

O que era ótimo, claro! Seria só sexo. Coisa simples e casual. Aquela porra de coração disparado era uma coisa patética. Eu não queria nada daquilo.

Não queria Marcos e batimentos acelerados.

Queria Beto e nada de palpitações.

Depois de me despedir do meu novo personal, fui dar tchau a Piolho.

— Você viu o Marcos? — Foi a primeira coisa que perguntei.

— Ih, gato, Alemão já foi — ele respondeu. — Mas fica tranquilo, que o Piolhão tá aqui pra te dar uma carona. Seguinte, Putão me deu uma comida de rabo, veio com um papo mó paia de que eu não posso te comer, saca? O cara tá pirado, mano. Levando a sério demais essa coisa de "primos". Eu tenho amor à vida, por isso falei pra ele que vou recuar. Mas também tenho um pau que fica louco com essa sua bunda empinadinha, gato. Então, se cê prometer que não vai bater nada praquela quenga, pode rolar um motelzinho. Nós dois no bem bom. Que que cê me diz? — perguntou, enlaçando minha cintura.

Meu Deus, ele era lindo, mas tão sem noção!

— Sabe o que é, Lucas? Eu já marquei um encontro com Beto — falei.

— Ih, gato, sou ciumento, não. Não sei se Betona topa ménage, mas vou lá perguntar. Espera aqui, bem lindinho — ele falou, beijando minha bochecha, e saiu.

Caralho! Piolho era insano! Mas, sendo sincero, a ideia não era ruim.

Ele voltou antes mesmo que eu me movesse.

— A quenga do Beto é uma puta egoísta, véi. Topa, não. Mas eu espero, gato. Fiquei magoado, porque queria ser o primeiro. Mas sem ressentimentos. Só não me tira do segundo lugar da fila, príncipe!

— Pode deixar. A gente se vê — falei, prendendo o riso enquanto me despedia.

— Tá chovendo, gatk. Vou te levar pra casa. Espera só eu fazer minha última série. O Piolhão precisa manter o shape, saca? Cê entende, né?

Soltei a risada de vez.

— Entendo perfeitamente. Aceito sua carona, Lucas. Vou ao banheiro enquanto você termina — falei, louco para fazer xixi.

— Vai lá, gato. — Ele deu uma piscada, deitando-

se no aparelho.

O vestiário era tão chique quanto o restante da academia. Estava limpíssimo e vazio.

Entrei em uma das cabines e fiz meu xixi. Tinha acabado de me vestir quando ouvi aquela voz. A voz daquelezinho:

— Pois é, Leo, pode acreditar! Deixei a sunga lá! Tô te falando!

O quê?

Agucei os ouvidos.

— Li num site. É uma simpatia. É só deixar uma sunga ou cueca vermelha enrolada debaixo da cama do bofe que você quer laçar. Precisa ficar lá por sete dias. Tenho certeza de que o Delícia nem vai notar. Daqui a uma semana, ele é meu. Vai dar certo. Li depoimentos na Internet, é infalível.

Meu Deus... Marcos estava falando a verdade!

Senti meu estômago embrulhar.

— Caramba, Diano, você tá mais surtado que o normal. — Leonardo caiu na risada.

— Marcos precisa ser meu, Leo! Eu já estava louco antes de ver aquele pau. Você não faz ideia do que é aquele pau! Meu Deus, é uma coisa que... Nossa Senhora, nem consigo dizer. É grande e grosso, e ele tem umas bolas que meu Deus do céu... Você nunca o viu pelado, não faz ideia do que é aquilo.

Eu já estava com a mão no trinco, pronto para sair e dar na cara daquele urubu, quando Leonardo disse: — Sei que Marcos e Tito não são irmãos de verdade, mas, pelo que você está dizendo, poderiam. — Ele deu uma risadinha.

— Ai, meu Deus! Você dormiu mesmo com o Titinho, sua vaca? Achei que, sendo fofo daquele jeito, ele só te convidaria pra jantar. Quero detalhes!

Agora!

Porra, eu também! Conta, Leonardo!

— Só o que vou dizer é que aquela carinha fofa é um puta disfarce. Meu Deus, ele é incansável! Tem um pau lindo de morrer, é lindo de morrer e, por incrível que pareça, ele é bastante devasso. A gente transou até no elevador do prédio!

Devasso? Thomas? Eu estava chocado! Mas, sobre o pau, eu já suspeitava! Senti aquele volume, nunca me engano a respeito de um volume!

— Ai, Leo, eu sou doido pra ficar com o Tito também! Ele nunca quis, por causa de Carlos, o ex dele. Agora ele finalmente tá solteiro, e eu não acredito que você passou na minha frente! Você é outro, só tem essa cara de sonso!

— Pois só lamento. Agora ele é meu. Se você chegar perto dele, Diano, vou arrancar essas suas unhas com os dentes e cuspi-las na sua cara! — ameaçou.

Leonardo era mesmo dos meus!

— Pode engolir o Tito! Não vou desistir do Marcos, apesar dos pesares. Você acredita que ele chamou o nome daquelezinho enquanto gozava na minha boca?

Um filho da puta!

Oh, Deus, isso também era verdade...

Senti o remorso se revolver em minhas entranhas.

— Horroroso aquele bezerro, né? Acha que canta... Morro de dó.

— Tavinho? Ele é lindo, Diano. E canta à perfeição. Deixa de recalque. Anda, termina logo de trocar essa roupa. Não tenho a noite toda pra malhar. Vou sair com Tito hoje.

Era oficial. Eu amava Leonardo. Thomas estava em boas mãos.

— Ai, meu Deus! Por favor, Leonardo, não vai cair na besteira de ficar repetindo cardápio! — Adriano bufou.

— Você não provou daquele banquete, Adriano. Eu comeria aquilo pelo resto da vida. — Leonardo deu um suspiro.

Uau, Thomas estava arrasando corações!

— Meu Deus, se o Tito é isso tudo, imagino o Marcos! Senhor! — o puto exclamou.

— Tito acha que os dois estão apaixonados. Marcos e Otávio — disse Leonardo.

O puto-mor caiu na risada.

— Aquele nanico deve estar de quatro por ele, obviamente. Quem não estaria? Mas Marcos Zimmer apaixonado? Jamé! Morro de pena! Aquele anão indiano não é páreo pra mim, Leo.

Meu sangue ferveu. Abri a porta com um estrondo e encarei o reflexo do cachorro no espelho.

— Agora eu vou te mostrar quem é o anão indiano, vagabundo! — falei, voando naquele cabelo.

Adriano estava tão surpreso com a minha presença que a princípio nem reagiu. Aproveitei e bati na cara dele, trazendo mechas de seu cabelo para frente.

— Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! — Leonardo gritava.

Então, ouvi seus passos saindo do banheiro. Devia ter ido buscar algum fortão. Eu precisava aproveitar enquanto podia.

— Ele é meu, seu puto! — Dei um tapa na cara do embuste. — Isso é pelo boquete! — Dei outro tapa, do outro lado. — E isso é por deixar aquela sunga asquerosa debaixo da cama do meu homem!

Eu estava possuído. Era como se tivesse ganhado vários centímetros de altura e adquirido, milagrosamente, uma força que não me pertencia.

— Carai, mano! — ouvi a voz de Piolho irromper no banheiro e, no segundo seguinte, ele já tinha me afastado de Adriano.

O desgraçado estava chorando feito um cão enxotado, alisando o rosto ardido.

— Da próxima vez que você se aproximar dele, vou te deixar deformado, seu putinho de merda! — gritei, sacudindo-me nos braços de Piolho.

— Leonardo, ajuda Diano. Vou levar Otávio daqui — Piolho disse, sério, me erguendo e me jogando em seus ombros.

— Me solta! — ordenei. — Me coloca no chão, porra!

Ele me desceu assim que saímos do banheiro. Então me encarou e disse:

— Já saquei que cês tavam brigando por causa de Putão. Mano, ele deixa claro pra todo mundo que só quer foder e que só fode uma vez, e cês ficam brigando por um repeteco quando tem tanto macho por aí, que fode bem e fode duas, três, quatro, se a foda for boa! Gato, não perde seu tempo com aquela quenga. Ele é irredutível. Diano tenta há anos, e nunca conseguiu fazer Putão quebrar o carai da regra! Já falei pra ele desistir, mas não tem jeito. É burro. Seja mais esperto que isso, Otávio.

Fiquei fitando seus olhos, sem saber o que dizer.

Então, ele completou, meneando a cabeça:

— Vem, vou te levar pra casa.

Piolho tentou puxar assunto durante o trajeto, mas eu disse que minha cabeça estava explodindo e que eu preferia ficar em silêncio.

— Posso ligar o som, gato? — pediu. — Não consigo dirigir sem um som, véi.

Assenti. Ele apertou o botão, e The End, de Kings of Leon, invadiu meus ouvidos.

Enquanto ouvia Caleb Followill cantar, eu me afogava em remorso.

Marcos não tinha mentido, e eu era orgulhoso demais para voltar atrás e pedir desculpas. Jamais admitiria que eu estava errado.

Era o fim de algo que sequer havia começado.

Comentários

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14/08/2018 16:21:23
Excelente.
09/08/2018 23:25:17
BOM, AGORA O BURRO É OTÁVIO. TEM QUE SE DESCULPAR SIM COM MARCOS. SE BEM QUE SÓ DEVE TRANSAR DE NOVO QUANDO MARCOS DECLARAR QUE ESTÁ APAIXONADO. CASO CONTRÁRIO, REALMENTE É O FIM.
09/08/2018 21:36:50
Gostei da atitude do Otávio, dando uns tapa no Diano.......qual será a reação do Marcos ao saber disso...
09/08/2018 19:59:09
Qual será a reação de Marcos quando souber da pisa que Otávio deu no Diano aquele poc invejosa?
09/08/2018 19:55:02
Nota
09/08/2018 19:54:28
Começa logo por favor,você está melhor de qualquer programa global....
09/08/2018 19:53:10
O tempo é o senhor da razão enquanto destino é o senhor dos encontros e o amor é o soberano da vida.
09/08/2018 19:51:47
Otávio lacrou quando defendeu sua honra mas pecou quando nega seu amor pelo Marcos. E o Marcos negando seu amor pelo Otávio vai acabar sozinho,ambos sentiram na pele a dor da perda e da solidão.
09/08/2018 19:14:34
O amor é uma brisa que vem suave e enche seu peito de alegria.
09/08/2018 19:13:36
Quando é que eles vão assumir que o amor é um sentimento bom que trás mais beneficio que maleficio?
09/08/2018 19:12:20
O conto é o melhor da temporada parabéns.
09/08/2018 19:11:57
O amor é melhor do que medo. Quem muito vive de orgulho acaba ficando só. O amor vale a pena quando ele é forte e ao mesmo tempo um porto seguro. Quem nunca amou na vida nunca souber o que é amar.
09/08/2018 19:05:54
gente sério por q tu fez isso Otávio aff maior burrada se rebaixo muito na e deixa de besteira e vai logo se resolver com o marcos q vai ser melhor pra tu do q ficar nessa besteira ai. to amando o conto Esperado o próximo capítulo bjs.
09/08/2018 17:29:39
chegou ao ponto de bringar pelo marcos, o otavio se cai a cada dia
09/08/2018 17:04:51
Gnt do céu, o diano mereceu umas porradas. Ansioso pelo próximo capítulo.