Escrito emAzul - Capítulo 28

Um conto erótico de Gatinha 007
Categoria: Homossexual
Data: 10/04/2018 23:39:21
Nota -

Capitulo 28

(Precipitação)

Existem momentos que são demasiadamente constrangedores e, comumente somos forçados a reagir instantaneamente, porém o maior problema é quando se cria um desenlace a respeito destes momentos. Muitas vezes agimos de forma precipitada, primeiro em nossos pensamentos e depois, em nossos comportamentos. E não conseguindo esperar a ocasião oportuna para resolver tais situações estamos sempre tirando conclusões precipitadas.

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Para Carol a equação era simples. ‘VINHO + TAÇAS MARCADAS + ANNA-LÚ NUA + CAMA BAGUNÇADA + GAROTA PRATICAMENTE DESNUDA NA COZINHA = NOITE DE FARRA!’. Nem se deu ao trabalho de cumprimentar Melissa, tamanha foi a colisão e a velocidade com que chegara a conclusão daquela cena. Deu meia volta e resolveu sair para tentar esclarecer as ideias que a esta altura já se encontravam totalmente dominadas pelo ‘monstro do ciúme’. No automático chegou à garagem, entrou no carro e desabou no banco do motorista tentando acalmar-se, tentando enxergar algo que anulasse ou justificasse o que acabara de ver.

Estava sentindo-se uma estupida por pensar que Anna-Lú deixaria de ser tão cafajeste, “não esperou nem que eu me explicasse e já foi logo arrastando um rabo-de-saia para a cama dela...ai que raiva...burra, burra, burra”, era só o que Carol conseguia pensar. Depois, aos poucos, a raiva começou a esmaecer dando lugar a angústia, sentia seu coração apertar-se no íntimo. Como se nunca antes tivesse amado alguém, como se amar Anna-Lú tivesse apagado todos os outros relacionamentos que tivera. Sentia uma leve sensação de perda. Uma dor ao imaginar Anna-Lú nos braços de outra. Sentia-se traída.

Vinte minutos mais tarde, Carolina ainda inquieta aguardava o elevador no estacionamento, não sabia como havia deixado que sua história com Henning viesse à tona desse jeito ou como Henning a havia encontrado, ou “O que diabos Henning estava fazendo ali?!”, eram perguntas que permeavam seus pensamentos. E como se não bastasse, ainda tinha que lidar com a decepção de ver outra mulher na casa de Anna-Lú, era como se todo o mundo resolvesse desmoronar ao mesmo tempo, ou pelo menos parte dele. Tinha a nítida sensação de já ter visto aquela “fulana”, só não lembrava onde, contudo sua mente não precisou ir muito longe, pois suas lembranças foram parar diretamente em seu primeiro dia na Agência, mais precisamente no final do expediente. “Mas é claro! Aquela era a fulana que estava aos beijos com Anna-Lú no estacionamento, será que ela me engana todo esse tempo?!”, os olhos de Carol se encheram de lágrimas com este pensamento e totalmente sem controle de seus ciúmes, “Que bela idiota apaixonada eu sou!”, “Estupida!” praguejava a si mesma. “Ai, que inferno!” pensava. Afinal a convivência com Anna-Lú voltaria a ser insuportável se tudo aquilo que ela imaginara a esse respeito viesse a se confirmar.

Na Agência os funcionários já caminhavam de um lado para o outro, carregando pastas, papeis, tablets e outras coisas mais, ou seja, um prenúncio de que o dia seria cheio. Caminhou em direção à sala da presidência e por sorte a encontrou vazia, não estava com a menor paciência para as piadinhas de Caio ou os sermões de Miguel. Sem que se desse conta, deu a volta na mesa de Anna-Lú e acariciou a cadeira estofada em que ela senta-se todos os dias, instintivamente fechou os olhos imaginando poder abraça-la. Riu-se de si mesma ao abri-los novamente e contemplar a cadeira vazia, seus olhos marejaram sentindo a falta que Anna-Lú lhe fazia “mas que droga hein Carolina, parece uma boboca adolescente cheia de inseguranças... ninguém merece” pensava Carol enquanto se dirigia a sua própria mesa.

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Melissa reconheceu Carolina com facilidade. Ainda não haviam sido apresentadas oficialmente, mas já a tinha visto em algumas fotos. Olhou-a de relance, surpresa. Foi a única coisa que Melissa teve a chance de fazer, fita-la antes que esta saísse fugida. Sim, seria a palavra mais apropriada, pois que outra explicação haveria para aquele rompante? Este mísero momento deixou apenas que Melissa percebesse o tênue esboço de uma ruga a franzir o cenho de Carol. Depois daquela cena pouco comum para não dizer totalmente estranha, tentou ainda segui-la, mas ao abrir a porta a visitante já havia se desmaterializado através do elevador. Voltou para dentro do apartamento de Anna-Lú pensando no que acabara de acontecer “que mulher maluca!”, refletiu Melissa. Ao passar pela sala de jantar avistou as garrafas e as taças ainda sobre a mesa, então teve um daqueles ‘estalos’ e logo ligou os pontos. “Merda! A Anna-Lú vai ter um treco quando chegar à mesma conclusão”, pensou Melissa dirigindo-se novamente a cozinha.

Depois de uma noite insólita Anna-Lú acordou com o som do despertador, a primeira coisa em que pensou quando abriu os olhos foi em Carolina e teve a nítida sensação de sentir a fragrância de seu perfume tão característico. Aspirou fechando os olhos outra vez, deixando que aquele cheiro invadisse seus sentidos, instintivamente virou-se e olhou para o outro lado, mas cama daquele lado continuava vazia. Sentiu os olhos marejarem e uma súbita tristeza invadiu-lhe o ser. “Como sinto sua falta Carolina”, falou pra si mesma abraçando um dos travesseiros. “A Mari tem razão, preciso ouvi-la”, levantou-se, caminhou até o banheiro disposta a encontrar Carolina de qualquer jeito, se enfiou debaixo do chuveiro tentando lavar a tristeza que lhe corroía, mas não obteve sucesso.

Melissa servia-se do café da manhã já preparado por Rosa e ainda pensando na conclusão em que chegara. Um instante depois ouviu os passos de Anna-Lú para logo em seguida observa-la entrando na cozinha vestida em um roupão e com os cabelos molhados e mesmo assim a cara não era das melhores, já evidenciando que o sono fora agitado.

— Que coisa triste! — Melissa fez uma constatação, alto o bastante para que Anna-Lú pudesse ouvir.

— O quê?! — indagou Anna-Lú já prevendo que a resposta seria relacionada à sua fisionomia.

— Sua cara de ontem, ora o quê?! — respondeu imediatamente enquanto levava uma generosa colherada de iogurte com granola à boca. Anna-Lú revirou os olhos antes de responder.

— Não se preocupe, depois de alguns quilos de maquiagem ficará magnífico com “acabamento natural e cobertura perfeita” — ironizou citando um dos muitos slogans que conhecia.

— Eu sei. Você costumava dizer a mesma coisa todas as vezes que acordávamos de ressaca no meio da semana — afirmou Melissa, mas o tom de voz que usara indicava que alguma coisa ainda a incomodava.

— Tá legal, vamos lá...desembucha. O que é? — perguntou Anna-Lú sem paciência.

— Ok, anuiu. — Queres primeiro a notícia boa ou a notícia ruim? — dramatizou Melissa como de costume.

— Se tivéssemos mais tempo, eu juro que providenciaria até uma plateia, mas eu preciso ir trabalhar ainda, então sem showzinho ok! — respondeu Anna-Lú exasperada enquanto levava uma caneca de café puro e fumegante à boca.

— Nossa! Que humor negro hein. Acordou do lado avesso foi? Não precisas responder — disse zombando e continuou — Certo, a sua ‘loirona’, salve, salve, idolatrada esteve aqui! — soltou sem mais delongas e Anna-Lú arregalou os olhos antes de indagar algo óbvio.

— A Carolina?! — era mais uma afirmação do quê uma pergunta.

— Sim, mas....

— Mas o quê?! — Anna-Lú a cortou-a rapidamente e emendou — O que você fez??

— Como assim o que EU fiz? Por que eu é que tenho que ter feito algo?! — Melissa levantou os braços, resignada.

— Por que eu te conheço Mel e sei o quanto você pode ser... Espirituosa, até mais que o Caio, às vezes — respondeu sem hesitar e dando de ombros.

— Vou tomar isso como um elogio — retrucou.

— E o que ela disse? Deixou algum recado? — empertigou-se Anna-Lú querendo saber mais detalhes e olhando desconfiada para Melissa.

— Nem me olha com essa cara porque eu não fiz nada e nem falei nada, quer dizer, nem tive tempo para qualquer reação ok — defendeu-se Melissa.

— Como assim Mel?! Desenvolve por favor! — quis saber Anna-Lú, já sentindo tanto sua irritação como sua ansiedade aumentarem.

— Bom é que, ela simplesmente entrou na cozinha, olhou pra mim, deu meia volta e tipo...se mandou! Eu juro que nem abri a boca — explicou Melissa.

— Ãh?! Mas que coisa mais absurda! Como assim ela olhou pra você e foi embora?! — pensou Anna-Lú em voz alta.

— Eu tenho uma teoria! Além de ela ser maluca, é claro — falou Melissa sorrindo calmamente enquanto lambuzava uma fatia de pão com requeijão.

— Tenho até medo de perguntar, mas fala aí. Qual a sua teoria? — disse Anna-Lú em expectativa.

— Então, pensa comigo, ela tem as chaves, isso significa que ela foi ao seu quarto primeiro, mas antes passou pela sala, e depois me viu aqui e ASSIM — explanou apontando para si mesma antes de sorver um pouco do suco de laranja em seu copo.

— E isso significa exatamente o quê criatura?! — aborreceu-se Anna-Lú.

— Como assim o quê?! — revirou os olhos como se tudo fosse óbvio demais — Presta atenção ô cabeção! Ela me viu ASSIM! — levantou-se para mostrar seu figurino a Anna-Lú.

— E??? — Anna-Lú ergueu os ombros ainda sem entender.

—Caramba! Pra uma publicitária você está bem ‘lentinha’ hoje hein, vou explicar devagar... — gesticulou — é o seguinte, ela veio ver você, mas não te acordou, porém ela deve ter percebido as garrafas de vinho ainda expostas na sala ao lado de duas taças sujas de batom e quando entra por esta porta dá de cara comigo apenas de camiseta e calcinha... Hello! Não é preciso ser um gênio pra saber o que passou por aquela cabeça loira e ciumenta! — terminou cruzando os braços. Só então Anna-Lú se deu conta do que Melissa tentava explicar.

— PQP! Lascou-se! — exclamou Anna-Lú entendendo o que Melissa quis dizer.

— Elementar “meu caro Watson”! — debochou Melissa.

— Não enche! – retrucou.

— Chata! Toma um antiácido pra ver se melhoras! Tá azeda!! — continuou debochando de Anna-Lú.

— Tudo bem que o meu histórico não ajuda, mas ela devia ao menos ter falado com você antes de sair correndo pensando bobagens — falou Anna-Lú ignorando o último comentário que Melissa fizera.

— Que negócio é esse de histórico? — falou Melissa esperando uma explicação.

— Bem, é que já passamos por uma, digamos que cena parecida, antes de começarmos a namorar é claro. Ela chegou aqui e... Bem, eu estava acompanhada de uma loira e aí você já sabe — Anna-Lú respondeu sentindo um leve aperto em seu coração. Melissa olhava atentamente para Anna-Lú e observou o quanto sua amiga ficara triste. Levantou e foi ao encontro de Anna-Lú oferecendo um abraço fraterno.

— Vai ficar tudo bem Lú, não fica assim, tudo vai se resolver! — Melissa tentava consolar a amiga.

— Um dia e uma noite. Foi todo o tempo que fiquei longe dela e já fiquei assim, eu sinto falta dela como se me faltasse o ar. Não consigo deixar de pensar no que aconteceu ontem e isso está me corroendo por dentro. A minha mente só me leva a ter as piores suposições — lamentava-se Anna-Lú — Mas e se esse cara for mesmo noivo dela? E se não, o que eu vou fazer se ela decidir voltar pra ele? Os dois formam o casal perfeito e a mãe dela com toda certeza aprovaria — os olhos se encheram de lágrimas enquanto Anna-Lú choramingava nos braços de Melissa.

— Olha só Lú — Melissa falou tomando o rosto de Anna-Lú entre suas mãos e limpando delicadamente as pequenas gotas que rolavam por aquele rosto tão marcante. — Eu não sei exatamente do quê você está falando e nem o que aconteceu de verdade, mas consigo ver como você está apaixonada por ela, sim, é claro como água cristalina e não me olhe como se eu estivesse falando grego, eu sei o quanto você deve estar apavorada com isso, eu sinto. E sinto também que é reciproco, eu pude notar no olhar perplexo e de decepção que ela me lançou antes de sair fugida. Então só tenho uma coisa a dizer: Amor. É o que vocês sentem uma pela outra, por isso eu tenho certeza que você dará um jeito de se entender com ela, ok — discursou Melissa transparecendo sinceridade.

— Obrigada Mel — Anna-Lú tentou sorrir – você tem razão.

— Eu sei, eu sempre tenho — rebateu recuperando o ar zombeteiro e tentando afastar o clima triste e pesado — agora levanta esse traseiro lindo que você tem e vai atrás da sua garota meu amor — completou sorrindo. Anna-Lú revirou os olhos antes de se levantar. Depois de alguns minutos voltou e encontrou Melissa maquiada e já vestida em suas próprias roupas preparando-se para sair. Despediu-se de Melissa com um abraço apertado agradecendo pelo apoio, Melissa depositou-lhe um pequeno beijo fraternal no pescoço de Anna-Lú próximo à gola de sua camisa branca e Anna-Lú sentiu-se um pouco mais leve depois desta conversa.

Continua.....

Comentários

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11/04/2018 09:26:11
continua logo, Ansiosa pelo proximo..