Casa dos Contos Eróticos

O Rei das Nuvens

A volta da viagem ao lado de Luíza não poderia ter sido pior. Ela veio chorando e reclamando o caminho todo, obviamente que com razão, já que não tive como dar qualquer desculpa sobre a visão que a coitada teve ao me ver nu ao lado do próprio primo dentro daquela gruta. Eu nem tentei argumentar e talvez tenha sido isso que a deixou ainda mais puta, meu silêncio e aceitação por toda a reclamação que era feita. De repente ela queria me ver ao menos tentando, mas na minha mente não havia escapatória. Eu a traí, eu fui pego, eu era o culpado e ponto. Por conseguinte, ninguém mais apto a receber toda a culpa por tudo que se desenrolou até então.

- Como você nunca me contou isso, Luís? Como vou confiar em você a partir de hoje?

Nem eu sabia responder a minha namorada, de tão novas eram aquelas preocupações na mente. Eu sequer soube quando comecei a sentir a atração por caras. Aliás, caras não, apenas pelo Leão, primo dela. O surfista bronzeado e peludo que estava sempre envolto em nuvens de maconha e espuma do mar.

- O que a gente faz agora, Luís? Me dá essa resposta, pelo menos!

Qual a solução ideal na mente de uma pessoa culpada? Carregar o peso daquilo e aceitar as consequências.

- Eu acho que você merece alguém melhor que eu, Luíza! É a única coisa que sei te dizer, não consigo nem pedir desculpa depois do que te fiz..

Ela nem falou mais nada, só foi deixando o próprio choro cessar e aceitou que eu não era merecedor daquelas lágrimas.

- Você tá certo!. - engoliu a seco. - Ao menos nisso você tá muito certo!

Enxugou o nariz, desceu do carro com as duas malas que levou pra viagem e bateu forte com a porta, talvez descontando toda a raiva acumulada até ali, fazendo no veículo o que queria fazer comigo. Na porta da casa dela, nosso relacionamento de quase 7 meses fora desfeito. Eu sempre soube que era melhor só ficar, em vez de assumir compromisso mais sério, mas nunca realmente pensei que esse pensamento fosse por causa disso e de como as coisas aconteceram.

Os primeiros dias foram os mais inertes. Eu não senti absolutamente nada, só fiquei apático diante de todos os últimos acontecimentos, contrastando tudo com o momento exato em que chegamos na região praiana dias antes, totalmente felizes e de mãos dadas. Mais que isso, eu nunca me questionei sexualmente, porque nunca pensei que fosse necessário. E olha o que aconteceu? Envolvido com um cara, traindo a namorada com o próprio primo dela e sendo pego no flagra pela mesma. Agora tava ali, sem um, sem outro e sem conseguir pensar, estudar ou trabalhar. Precisava de colocar um fim naquilo. Na sexta-feira da mesma semana que voltei de viagem, abasteci o carro e dirigi sozinho por horas até a região praiana. Estava tomado por uma vontade enorme de encontrar novamente com o Leão, contar a ele tudo o que aconteceu e ver qual seria a reação. Não disse nada pra Luíza, nem pra ele e nem pra ninguém, só peguei meu carro e fui, com a mente parecendo um tornado de ideias soltas e muita vontade de tê-lo novamente me beijando. Cheguei lá por volta das 23h, o céu já escuro e a casa da tia de Luíza toda apagada. Bati palmas, mas ninguém atendeu e achei até melhor assim, pra não acabar tendo que dar explicações do porquê estaria ali, ainda mais com a possibilidade da minha ex ter contado algo pra tia dela. Como o portãozinho estava só encostado, entrei devagar pra não fazer barulho e fui andando em direção à sala. Assim que entrei pela porta, a mãe do Leão apareceu no corredor e acendeu a luz, vindo ver do que se tratava.

- Boa noite, querido!

- Oi, tia! - respondi todo sem jeito. - O portão tava aberto e..

- Nah, que nada, rapaz! Não fica se explicando, não! Cê deve tá procurando o Pedro, né? Ele ainda tá na praia!

Não soube o que responder, dei um sorriso e cocei a cabeça.

- Obrigado, tia!

Antes de sair, pedi mais uma coisa.

- Será que a senhora poderia não falar pra ninguém que eu estive aqui?

Ela sorriu tão abertamente quanto o Leão gostava de fazer quando mostrava as presas afiadas.

- Não se preocupa, meu filho! Mas você sabe que pro Pedro eu vou contar, né!?

Entendi a preocupação de mãe e sorri meio tímido, consentindo. Ela, por usa vez, continuou.

- Cê gosta bastante do meu filho, né?

Olhando pra coroa, ri, mas não respondi. Não verbalmente. Uma senhora que não me deu esporro quando apareci de surpresa na casa dela, com certeza estava bem ciente das minhas intenções para com seu filho. A ponto de estar tranquila e segura quanto a isso. Encostei a porta da maneira que encontrei e saí dali satisfeito, mais contente do que quando cheguei minutos atrás e com uma boa sensação crescente dentro de mim, tipo uma coisa morna.

Parei na beira da orla, respirei fundo e desci na areia úmida da praia noturna. Caminhei devagar, observando a maneira bruta como as pegadas felinas viraram passos humanos marcados, como se aquele animal tivesse se transformado novamente num surfista, ou vice-versa. Meus pés não cobriam completamente as marcas, mas ainda pude sentir o calor físico ligeiramente impresso em cada uma delas, mesmo no frio da baixa maré. Andei sentindo o fôlego da noite, com cheiro de maresia misturado ao sereno. O coração deu aquela leve aquecida quando percebi aonde elas levavam. Cheguei na porta da gruta cheio de vontades e desejos. Olhei pro mesmo lugar no qual tivemos nosso primeiro contato íntimo direto e meus olhos travaram, sem fechar. Poucos metros de onde eu tava parado, o Leão e a morena do shopping transavam. Ambos nus, ela deitada de bruços na pedra e ele por trás, em cima, todo aberto sobre corpão dela, saciando os instintos felinos e consumando a foda de uma maneira que não fazíamos: penetrando. Até que levantou a cabeça e demonstrou sem dó tudo que estava sentindo.

- SSSSS! Aaarhhh!

Meu peito gritou ao presenciar o semblante animalesco vibrando e gemendo de prazer, mas a voz não saiu pela boca. À cada estocada sofrida que ele deu no lombo da morena, a cada gemido que ela soltou por conta da força que o surfista usou, a cada segundo tendo aquela visão, só fiz ficar mais aflito e nervoso, como se meu medo não fosse mais o mar próximo banhando seus pés. Em completo silêncio, comecei a me afastar, mas infelizmente ainda sem conseguir não pensar ou rever a cena que acabara de presenciar. Não fiz ruído algum, só virei as costas e saí, mas com o estrago já feito.

O pequeno percurso de volta da gruta até à casa da minha "ex tia de consideração" foi rápido, porém não menos pesado. A maior de todas as ironias foi ter observado que parte das pegadas que deixei cobrindo as do Leão havia sido apagada ou desfigurada pelas ondas do oceano indo e vindo. O céu absolutamente escuro, eu não sentindo tanto medo por andar na areia, mas porque tinha a mente abarrotada dos mais diversos pensamentos. Até que o mais realista deles atravessou o cérebro, me levando numa conclusão tão dolorosa que até faltou fôlego, algo que preferi disfarçar como se fosse apenas a aquafobia agindo. Até semana passada, eu sequer sabia que poderia me atrair por homens, ainda mais se tratando de alguém excêntrico como aquele surfista mulato e felino, que ainda por cima era primo da minha ex namorada. Agora, uma semana depois, estava tomado de ciúmes e triste por vê-lo intimamente ligado a uma mulher, ambos transando no mesmíssimo lugar onde nós tivemos nossa primeira relação, completamente diferente de todas as outras anteriores. Não só minha, dele também. A primeira vez em que nós fizemos algo juntos pela primeira vez em nossas vidas, só que um habitat que não era meu, e sim daquele Leão. Por isso era ali que ele cruzava, ali que procriava e mantinha suas fêmeas e outros machos, talvez. Mas mesmo estando bastante puto com tudo, eu pelo menos consegui estar ciente de que nada daquilo era culpa minha ou dele. Tudo era muito novo pra ambos e, antes mesmo de lembrarmos da relação familiar acima de nós, já estávamos mais envolvidos do que a situação e o momento permitiam, até porque, também haveria a distância, que já não era pouca. Eu fiquei tão imerso na subjetividade de tantos pensamentos que nem percebi quando cheguei na beira das pedras da orla. E só aí me liguei que a água já tava na altura das canelas, morna e acolhedora, parecendo até um abraço da natureza. Era o começo da maré alta. As mesmas ondas que banhavam e deixavam o corpo do Paulo resplandecendo sob luz da lua enquanto transava, agora me alcançavam, talvez numa intenção de dizer que nem tudo precisaria parecer perigoso ou ruim quanto parecia até então. Antes de sair, fiquei uns poucos minutos parado e completamente sozinho e imerso naquele cenário escuro e maresiado, sentindo só os pés apertando na areia comprimida pelo peso do corpo. Aquela era uma sensação quase inédita, considerando que nunca mais entrei no mar depois da morte do meu pai por afogamento. Voltei pra casa tentando não me comparar à Luíza, que nos encontrou no pós sexo, numa situação idêntica à que passara agora. Não teve maior castigo ou então um que parecesse tão mais justo quanto esse, o de sofrer da mesma dor.

Totalmente sozinho, entrei num modo automático de sobrevivência, seguindo do curso pra faculdade e de lá pra casa, não necessariamente nesta ordem, mas sempre preso à estas três opções. Desse jeito, os dias viraram semanas e as semanas se transformaram em meses. Confesso que senti muito a falta Luíza, quanto também do primo dela, por mais que tivesse minhas certezas sobre quem preferia. Ainda assim, os seis meses e meio ao lado dela ajudaram a construir certos costumes e hábitos de convivência que agora estava sentindo falta. A carência bateu até um certo ponto que pensei em ligar, ir até à casa da minha ex, mas acabou que não me senti nesse direito e decidi seguir adiante com a solidão, sem preocupá-la com as condições que eu mesmo havia procurado para mim. O que aconteceu no final do segundo mês de abstinência foi que a própria Luíza me ligou e demonstrou que também não tava 100%. Acabamos batendo um papo até que descontraído, sem ficar ressentindo muito o que rolou entre nós. Ela deixou nítido que ainda estava um pouco puta e que talvez nunca mais confiasse em mim da mesma forma, mas que também sentia um pouco minha falta e que poderíamos nos ver uma vez ou outra, sem muita seriedade e livres para o caso de alguém aparecer em qualquer um dos nossos caminhos. Entre outras palavras, podíamos aproveitar juntos nossa solidão, mas sem muito envolvimento ou comprometimento, algo que soou até que plausível aos ouvidos.

Mas nada que a mente humana consiga controlar tão perfeitamente assim, ainda mais com a passagem do tempo agindo, carência e sentimentos em jogo. O resultado foi positivo no começo da volta do relacionamento, mas os meses acabaram por reatar firmemente o laço, ou seja, acabou virando um namoro de novo, talvez nem tão firme e forte quanto antes, porém ainda dentro do molde de "pós término", como se essa fosse uma marca que eu fosse carregar para sempre. Eu ainda era o cara que traiu a namorada com o primo dela, isso sempre me martelaria no fundo da mente, mas não impediria de tentar outra vez, que foi o que me empenhei em fazer e deu super certo. As semanas logo viraram meses ao lado da Luíza, eu o tempo todo agindo e me comportando como se não precisasse de lembrar de um determinado fato em específico. Aquele pequeno e imperceptível, quase um factóide, mas capaz de desestabilizar um relacionamento e questionar as bases da heterossexualidade. Até que, no final de um período de 21 meses, ela recebeu uma notícia que também chegou ao meu ouvido e confesso que deixou a mente fervendo. A 100 graus, a mente entrou em Ebulição.

- Vai ter a comemoração dos 50 anos de casados dos meus tios. Numa das ilhas da região praiana!

Não respondi, porque não entendi se isso era bom ou ruim. Mas ela completou.

- Acho que dá pra gente ir, se você pedir uns dias na empresa.

A explicação pra calma de Luíza em relação à ideia de voltarmos ao lugar onde tudo aconteceu foi explicada pelo resto da mensagem recebida, na qual a tia não só nos convidara, como também explicara que seria ótimo reunir toda a família, uma vez que Paulo havia se consagrado na carreira de surfista e mudado de casa. Talvez, somente talvez, minha namorada tenha considerado que não teríamos contato de novo. Não sei o que passou na cabeça dela, mas eu mesmo estava mais do que controlado. Afinal de contas, quase 2 anos se passaram desde o último contato com o Leão, que foi quando o observei transando na gruta com a morena. Contrariando todas as leis de ação, reação, causa e consequência, nós fomos à região praiana. Eu, mais que ninguém, tentado a contrariar todas as teorias físicas que falavam sobre atração. Anos e anos de estudos que me destinei a provar serem infundados, baseado na premissa de que não tinha como continuar atraído ao PL, mesmo depois de anos. Como se o tempo me tornasse imune à lei da Gravitação Universal.

Chegamos de manhã, no momento exato em que todo mundo tava na beira da praia por alguma razão. Fiquei de pé da orla, sentindo a brisa leve e única do ambiente, percebendo algo a mais naquele ar meio quente. O céu em tom de cereja cutucou a mente como se fosse a temperatura ideal pra lembrar de alguma coisa importante. O barulho das ondas ao fundo quase me fez fechar os olhos e viajar, sentado no parapeito e ainda sem tocar as areias com os pés. Respirei um fôlego cheio, pulei na praia e senti o tato úmido e fresco do solo arenoso. Andei um pouco à frente pra alcançar Luíza, até que o som ambiente foi atravessado por aquele volume onipotente de voz rugida por entre o ar de pulmões rigorosos, tais quais os de um felino em movimento. Meu corpo travou, sendo trazido lá do final até o começo de dentro pra fora, numa implosão inversa e acelerada de lembranças vívidas e sensações não tão inéditas assim. Talvez relembrar fosse inédito, mas se eram relembranças, então já foram sentidas anteriormente. O mesmo tom de voz impositivo e sempre afirmativo, de quem tem certeza no que diz. Ali estava ele. Lembrei imediatamente do que tentou apagar minha mente. Presente.

- O PRÍNCIPE DAS NUVENS VAI DESCER, EIN!

O peitoral estufado, as veias saltando por sob a pele amulatada de sol e estrategicamente arada e areada de pelos. Nesse momento, eu tive a oportunidade de jurar novamente três coisas: primeiro tive convicção de que, lá de cima, o barbudo mirou os olhos em mim, mas não como se fosse a primeira vez na vida, porque já presenciei suas bravuras antes; segundo, eu com certeza não era hétero, mesmo depois de anos, meses, dias e horas; e por último, se dissessem que aquele era um anjo caindo dos céus, eu não acreditaria. Porque seria muito inacreditável que o Príncipe das Nuvens não pudesse andar sobre elas, a ponto de despencar lá de cima e cair no chão mundano, pisado por homens, meninos e leões. Seu visual era completamente novo, maior e mais desenvolvido. O que senti ao ser invadido por aquela encarada turbulenta foi visceral, um fogo sem igual saindo de dentro da carne, das entranhas, deixando até um mal estar no estômago. Pior do que sentir, foi ressentir. O gosto de não ter feito tudo o que eu quis ou que deveria ter feito. Ou o último tchau do jeito certo, qualquer coisa do tipo, só pra deixar oficializado que tudo foi terminado. Agora já era, eram 2 anos no passado.

- UOHOOOOO!!

Habitante natural do céu, não caiu, voou. Pedro Paulo Leão, um surfista profissional e também primo da minha namorada Luíza, tornou a equilibrar-se na própria prancha e montou na onda com total maestria e profissionalismo, descendo numa velocidade alucinante e parecendo tentar quebrar o próprio recorde. Mesmo de longe, todos viram o rosto de excitação pela manobra, agora nem tão perigosa e tirada de letra. Não tinha como não ficar feliz pelo cara, ainda mais quando era filho da região praiana, atual nome principal no assunto surfe e visita temporária na própria terra, que duraria poucos dias.

- Tô chegando, ein porra!

Veio sentado na prancha, sem nem precisar remar ou nadar pra tomar impulso, apenas sendo carregado pela quantidade enorme de água que já estava acostumado a riscar no céu e quebrar ao meio. Provavelmente no despontar dos 20, 21 anos de idade, o Leão sempre se mostrou diferente da maioria dos caras, em todos os aspectos. Um homem que gostava de aproveitar a vida ao máximo que podia, com emergência, disposição e muito vigor, pressa de viver. O olhar e o semblante desafiador ainda eram intactos no rosto, mostrando que a vontade de adrenalina era a mesma de quando nos conhecemos. Ali estava o maior resultado das promessas de surfe dos últimos tempos na região praiana, visitando sua terra natal, agora como uma figura pública que chamava atenção muito mais que antes, com direito a fã clube e tudo. O corpo visivelmente mais desenvolvido, a juba toda ornamentada em dreadlocks cheios de anéis e argolas, um piercing atravessado no septo e a tatuagem de um leão rugindo bravamente, tomando conta de parte do ombro e do braço dele. Os pelos do corpo mais vívidos que nunca, totalmente banhados e iluminados pela luz do sol. Um pouco mais alto, um pouco mais taludo. Talvez até um pouco mais peludo.

- Tô de volta, família praiana!

Levantou os braços e todo mundo correu pra beira da água, pulando, falando alto, rindo à toa, menos a Luíza. Eu continuei do lado dela, mas confesso que tava me segurando pra não fazer o mesmo que o restante da galera na praia. O Leão tava tão animado com a recepção que pegou um molequinho pequeno e colocou sentado nos ombros. O garotinho não parou de rir e bater na testa dele, todo feliz pela brincadeira. E no meio disso tudo, cumprimentando um a um dos presentes ali, eles chegaram até nós. Aí o PL parou e olhou pra Luíza.

-Ih, qual foi prima? Quanto tempo!

O mesmo tom que usou na primeira vez que nos encontramos todos, algo que nitidamente soou como uma espécie de confirmação de paz e boa vizinhança.

- Tudo bom, Paulão?

Ela respondeu educadamente, mas séria, sem chamá-lo pelo antigo apelido no diminutivo. E aí ele estendeu a mão na minha direção, jogando o par de olhos azuis claros nos meus. Os lábios secaram instantaneamente, como se precisasse urgentemente de beijá-lo e sentir seu gosto ali mesmo, diante de todo mundo. Fiquei preocupado pelo tempo que demorei perdido nesses tipos de pensamento, mas talvez a lentidão tenha sido apenas na mente, não na realidade. Ao fundo do corpo do surfista, o mar batendo contra a areia da praia e aumentando ainda mais a sensação de secura labial. As mãos coçaram pra não agarrá-lo pelos cabelos e enfiar a língua boca a dentro, que nem quando transamos na gruta tempos atrás. O indício do risinho dele só serviu pra confirmar que muito provavelmente o puto também tava pensando a mesma coisa, senão algo parecido.

- E aí, Paulo? Tudo beleza?

- Suave, mano!

O aperto foi firme e não menos intenso que o contato visual. Foi aí que percebi a cara de cu da Luíza e afastei logo a mão, lembrando que estávamos ali por algo maior e mais importante nas nossas atuais situações. Olhei pro garotinho sentado nos ombros do Leão e aí sim a mente travou de vez. De perto, uma forma mais infantil do mesmo rosto do Paulo, com um detalhe ou outro pra fazer diferença. E aí ele começou.

- Quero que vocês conheçam o Paulinho, gente..

Devagar, tirou o menino de cima dos ombros e o pegou no colo, virando em nossa direção. Só aí Luíza começou a sorrir, mas ainda naquela transição da cara de bunda pra de simpática.

- Ooohww! Que coisinha mais fofa, Paulão!

Eu ainda estava preso no momento. Tão perdido com o novo visual mais alto e mais homem do Leão, agora sendo entregue daquela maneira ao fato de que, aos 20 e poucos anos de idade, ele era pai de um moleque. Segundo as poucas contas, não tinha mais que 1 ano e meio, dada a ordem dos fatos e acontecimentos nos relacionamentos. E aí, como se não bastasse, ainda me vem uma mina aleatória e para do lado dele, que nem na vez em que fomos pro shopping e apareceu a morena insuportável. Essa agora era loira e até que educada e calada, mas se apresentou e segurou a mão dele, indicando que provavelmente era algum caso recente. Ficamos um bom tempo na parte seca da areia da praia, eu sentado de um lado quieto e eles do outro, conversando abertamente. Preferi um pouco de distância pra poder ter tempo de me acostumar com todas aquelas novidades, porque confesso que me senti muito mais atraído pelo surfista do que antes, talvez pelo fator saudade envolvido, só que a carga de responsabilidades e empecilhos entre nós nunca esteve tão maior e mais pesada, então eu tinha que aprender o quanto antes a me portar, desde pensar até falar, tanto por mim quanto pela Luíza e nosso relacionamento. Mas uma coisa não pude negar: o Príncipe das Nuvens nunca esteve tão melhor, em todas as formas.

Talvez pelo meu comportamento meio que ignorando os assuntos e a presença deles, o Leão nem me deu muita ideia, sequer ficou olhando. Percebi isso tanto por mim quanto pela cara da minha namorada, que não parou de conversar, como se fosse aquilo que prendesse a atenção dele de me perceber, me notar, me olhar. Aliás, no risinho dela foi que percebi de onde saiu a coragem de retornarmos à região praiana mesmo depois daquela traição. Ela chamou o primo de Paulão, ou seja, já sabia que o filho era Paulinho e, talvez por conta disso, achasse que o surfista havia se definido na vida. Será que ela estava certa? Eu martelei muito isso na mente, colocando toda a certeza no não. Ela não poderia estar certa! Eu não queria que ela estivesse certa, até porque, queria o Paulão, o Leão, o PL, o surfista, o primo da minha namorada, do meu lado. Tava fazendo o máximo pra me controlar, mas a questão é que, se tinha que me controlar, é porque existia um motivo pra essa necessidade. Controlar por que? Porque a vontade ainda era vívida, não haveria outra explicação. Ficamos na praia até o entardecer, eu sempre bem calado e eles colocando a conversa em dia sobre família e mudanças recentes. Na hora de ir embora, quando levantei, o Paulo continuou me ignorando, mas atravessou um pé atrás do meu na hora em que tava andando, quase me jogando na areia da praia. Luíza e a mina dele estavam um pouco mais a frente, felizmente não viram a tempo. O garotinho caiu na risada e até ele deu o risinho de canto de boca, passando na minha frente e me deixando pra trás sem dizer nada. Verbalmente, eu entendi naquele momento que esse era um nítido sinal do Leão em minha direção. Da mesma maneira como quando nos conhecemos, que o safado quase me jogou na água de propósito e depois tudo chegou onde chegou, eu soube que foi um prelúdio pra algo bem maior.

O esquema daquele final de semana na região praiana era que eu e Luíza chegaríamos sexta de manhã, como fizemos, iríamos à cerimônia no dia seguinte à noite, na ilha, e depois meteríamos o pé de madrugada mesmo, pra aproveitar o domingo sozinhos em casa. Assim, o primeiro dia acabou sendo meio caloroso por conta das situações nas quais eu e Leão tínhamos qualquer contato que fosse. Depois que chegamos, ainda nos juntamos à mesa pra tomar café e o pessoal ficou conversando sobre os preparativos da cerimônia. Permaneci quieto, mas observando vez ou outra o Paulão, que sentou numa poltrona do lado oposto ao da muvuca de gente. Até que a tia de Luíza perguntou se poderia aproveitar que eu tava de carro pra dar uma carona a ele, que precisava de ir ao mercado no centro.

- Claro, tia!

Tentei reagir sempre sem levantar suspeitas ou desconfianças da minha namorada, mas era praticamente impossível depois do que ela viu naquela noite da gruta. A cara de dúvida surgiu nítida no rosto. Eu já tinha saído pelo portãozinho e estava entrando no carro, o Leão do meu lado, sem blusa e só de calção de jogar bola. Os dreads presos pra trás, o barbão descendo desde as costeletas e o moreno da pele reluzindo ao sol. O risinho de sempre, entregando o jogo.

- E aí, primo?

O tom de voz baixo.

- E aí?

Entramos no veículo e, assim que ele fechou a porta, ficamos em silêncio e sozinhos, aproveitando todo o infinito espaço sonoro que se abriu entre nós. De alguma forma, mesmo sem usar palavras, tanto eu quanto ele soubemos que eram tantas coisas rolando ali que o carro nem fosse capaz de aguentar tanto peso metafórico, simbólico e amoroso. Ao meu lado, meu Príncipe Leão aguardava tranquilamente pela minha partida no veículo, em sua total graça matinal e felina, o olhar de segurança passando total tranquilidade. Outra vez a boca secou e a mão hesitou sobre dar ignição ou puxar-lhe abruptamente contra mim, contra meus lábios, minha pele, minha roupa. O barulho do mar inundou a mente e os ouvidos, relembrando como o medo era reduzido à nada na presença dele. As poucas nuvens no céu agora pareceram transbordar sob os raios de sol, entrando pelo carro e dominando o ambiente, uma vez que o Príncipe das Nuvens não podia pisar no mesmo chão que o restante. Leis da hierarquia do céu.

- Tá preparado pra dar a partida, primo?

Mas antes deu responder, as nuvens se desfizeram. O sol tornou a brilhar forte, o clima voltou ao de manhã abafada e, num clique de trava das portas do carro, Luíza entrou e sorriu.

- Vou aproveitar pra passar na farmácia!

O PL riu, eu também ri pra disfarçar, mas na realidade fiquei bastante sem graça, tanto por num momento estar andando pelos tapetes vermelhos do castelo do Leão e depois ser trazido à força à realidade, quanto por ter demorado tanto a sair, que foi o que deu tempo dela aparecer. Virei a chave na ignição, dei partida no motor e fomos.

Eu tentando focar na realidade durante a maior parte do percurso, mas qualquer mera olhadela que dava pro Paulo acabava se transformando numa reverência à realeza. Por onde passávamos, inclusive, muita gente parou pra cumprimentá-lo, tirar uma selfie, coisas desse tipo. E ele sempre muito posudo, enquanto Luíza se manteve carrancuda ao meu lado, de mãos dadas o tempo todo. Depois das compras, ela finalmente foi à farmácia e nós dois ficamos na porta esperando, cada um de um lado da lojinha. Até que, naquele jeito saliente e silencioso, o Paulão veio todo felino pra onde eu estava, trazendo consigo aquele calor próprio. Alguns dreads soltos e o olhar azul claro que nem o mar que me assustava às vezes. Pensei que fosse passar direto, mas ele me rodeou igual a um verdadeiro leão que envolve e cerca a presa. Em mim, os olhos de predador. Eu observava a fera que me observava, prestes a dar um salto e me devorar. Isso foi mais do que tentador. Aí ele deu uma afastada e a porta da farmácia abriu.

- Vamos?

- Vamos!

Luíza terminou as compras e nós voltamos pra casa, cada um na sua, do mesmo jeito que fomos. Basicamente, todo o resto do dia foi preenchido por essas pequenas situações de encontros e desencontros entre mim e Paulão. Fosse no corredor da sala, na varanda ou saindo do banheiro, qualquer contexto pareceu mais do que sugestivo para que alguma coisa entre nós acontecesse. Até mesmo depois de jantar, tomar banho e deitar pra dormir, não fiquei sossegado por nada, como se o corpo estivesse completamente ciente de que eu tentava me enganar a qualquer custo, entrando em abstinência afetiva específica. Nem no quarto escuro, escutando a respiração dormente da Luíza deitada do meu lado, a cabeça deu um tempo. Uma e pouca da manhã no celular, que guardei no bolso da bermuda. E com todo o cuidado, fui levantando furtivamente da cama, tentando substituir a presença do meu corpo pelo vazio quente restante. Calcei os chinelos, abri a porta em total silêncio e escapei como se fosse um ladrão ou gatuno oportunista. Era no meio da noite que os gatos costumavam sair, eu sabia disso, incluindo os felinos selvagens, tais quais as onças, pumas e tigres. Ah, e os leões, certamente!

O cheiro de maconha que senti quando cheguei na sala só fez por confirmar o que a mente tanto tentava gritar se pudesse: Paulão estava à espreita. Se bobear, eu até poderia já estar sendo observado. O surfista se encontrava em algum canto da casa, provavelmente fumando um baseado e relaxando a mente, fazendo jus ao título de Príncipe das Nuvens. "Se eu fosse um Leão, onde eu estaria no meio da noite?", pensei comigo mesmo. A resposta soou óbvia. Saí pela porta sem fazer qualquer barulho, dei a volta pelo corredor lateral da casa e fui pro quintal dos fundos, onde havia a piscina de azulejos feita no chão. Não teve erro. Deitado numa bóia estilo colchão inflável, o PL estava completamente nu e todo aberto, virado pra lua, bem despreocupado com quem fosse vê-lo. Mas soube com toda certeza que não estava mais sozinho, sem precisar de me olhar. Soltou a fumaça densa no ar da noite, ao mesmo tempo que segurou e admirou alguns dos dreadlocks que integrava a enorme juba incomparável. Foi quase como se eu tivesse interrompido um Leão que se banhava de luz luna, se amava, lambendo a própria pata antes de ser interrompido. Não somente isso, estava todo envolto em suas nuvens únicas de fumaça, que faziam dele príncipe, rei e deus. Só então virou na minha direção e fechou os olhos claros e pequenos mirados em mim, dando o riso que me incendiou o corpo e trouxe a mesmíssima secura labial que senti nas várias outras situações ao longo do dia. Saudade líquida. A grande ironia era que ele estava boiando, ou seja, havia muita água em baixo, porque a piscina tava cheia até à boca, que nem eu babando de vontade. Para chegar ao Príncipe, eu teria de administrar muito bem alguns medos, como sempre precisei desde que o conheci e percebi que queria servi-lo.

Foi um momento completamente não verbal e quente, até um pouco escorregadio, conforme os segundos gotejaram sobre mim. Eu removi os chinelos bem discretamente, chamando a atenção do surfista. Ele não acreditou, mas nunca duvidou. Inclusive mudou de posição, ficando necessariamente de frente pra onde eu estava, como quem realmente estivesse disposto a ver um súdito ou subalterno se sacrificando por ele. Numa cascata de sobreposições: a coroa de príncipe apoiada na cabeça, a cabeça virada charmosamente de lado e apoiada na mão dobrada, a mão apoiada no cotovelo, e o braço massudo apoiado no plástico inflado, boiando na piscina. Não me fiz de rogado, mesmo com o coração batendo firme, quase que saindo pela boca, removi também a bermuda e fiquei nu que nem ele, pra mostrar que tava mais do que preparado pro nosso ritual de sempre. O sorriso abriu lindamente, até testemunhei as presas sendo afiadas, como se estivesse feliz com o que viu depois de quase 2 anos. Eu dei o primeiro passo na rampa da piscina e senti a água cobrindo os pés devagar, numa temperatura até que convidativa pra noite quente. Ele se manteve observando atentamente e sorrindo cada vez mais, eu bem lento, sentindo a água avançando sobre o corpo. Quando o nível chegou aos joelhos, parei durante alguns segundos pra respirar e me concentrar no resto do percurso. PL sem parar de me olhar um só instante. Até que cheguei ao nível máximo da piscina, no qual a água cobrira só até parte dos ombros. E aí parei de vez pra me adaptar, arrancando dele três palminhas baixas, como em comemoração ao feito. Embora cercado de líquido, a boca mais do que seca pelo excesso de tensão sexual e passional exalando de nós, ainda mais pelas saudades do cheiro, do toque, do afago e da carne. Desci o rosto devagar, o coração batendo louco no peito, e parei só com o nariz sobre a água. Era ali meu limite. E Paulão entendeu isso de forma excelente. Devagar e dentro daquela graça descomunal de quem sabe que está sendo deliciosamente observado e comido com os olhos, ele foi mudando de posição e se preparando para submergir na água, colocando as mãos retas apontadas na superfície e as pernas peludas dobradas para os lados. As costas abertas e a juba mirada na minha direção, como se fosse um felino preparando o impulso para se atirar num rio e caçar a presa. Até que mergulhou e causou aquela agitação na água. Por causa do escuro da noite, não identifiquei de qual parte o surfista emergiria, só senti as ondulações por trás de mim e virei, percebendo o rosto bruto vindo pra perto. Os olhos azuis eram ferozes e decididos, a ponto de outra vez fazerem a boca secar de desejo. O corpo não aguentava mais não sentir o Paulo perto de si, de mim, de nós. A dois, três palmos de nos tocarmos com muita vontade, girando na piscina como se fôssemos puxados por um Buraco Negro ao meio dela, o celular no bolso da bermuda começou a tocar na beira da piscina. Eu até demorei pra entender o que tava acontecendo, de tão imerso estava no clímax da situação. O barulho foi quase uma espada quebrando toda a magia animalesca e sedutora do momento entre nós, a ponto de fazê-lo mergulhar outra vez, nitidamente contrariado pela interrupção. O pior é que foi um toque crescente, ou seja, realmente precisei de checar do que se tratava, indo até à beira.

"LUÍZA ESTÁ LIGANDO!" - no visor.

Só podia ser brincadeira. Ela sempre sabia a hora certa de aparecer e interromper tudo, mesmo ausente, como era possível? Não atendi, mas soube que precisava de retornar ao quarto para não acabar sendo pego pela minha namorada ali, que nem da última vez. Esperei Leão retornar à superfície, mas os pulmões de surfista lhe garantiram tempo extra pra continuar submerso e manter a nossa metáfora felina e gatuna. O que só me fez lembrar do quanto Luíza me tirou daquilo outra vez, que nem na hora de ir ao mercado ou voltando da farmácia. Cancelei a chamada, mas ela foi insistente e ligou outra vez. Me preparei pra sair dali, peguei uma toalha na corda e sequei o corpo ao máximo que pude. Vesti a roupa e só então reparei no Leão outra vez sobre a bóia, porém de costas pra mim, ainda nu, todo aberto e soltando fumaça pro ar. Com certeza descontente, infelizmente. Voltei ao quarto tentando aparentar tranquilidade, sendo que também tava bastante revoltado pela interrupção. Pensei rápido e abri um jogo no celular. Quando virei a maçaneta, ela já tava puta, toda desconfiada e querendo discutir.

- Sai no meio da noite e ignora minha chamada?

- Peraí, eu tô jogando! E tinha que mijar!

- Ah, você tá jogando!? Tá falando sério!?

Não sei se isso a deixou mais puta ou tranquila, mas acho que a segunda opção foi mais certeira, o que não diminuiu a primeira.

- E vale me ignorar por causa de jogo?

- Sabe desde quando eu tento passar dessa fase!?

Disfarcei tão bem que ela fechou a porta e apagou a luz.

- Desliga esse celular e vai dormir, Luís! Anda!

Foi o que fiz. Entrei só pra isso mesmo, era o que precisava de ouvir pra esquecer toda a vontade daquele dia e também da secura na boca e no peito por ter o Leão por perto, mas morrer na admiração. Ou na admiração da admiração, já que vê-lo se observando também contava bastante. Ruim mesmo foi me sentir controlado e vigiado por Luíza.

No dia seguinte, não vi mais o Paulo durante a parte da manhã. Passei o tempo todo fazendo coisas normais, tomando café, ajudando nas bobas tarefas de casa e também nas do evento, isso e aquilo outro, mas nada da presença do surfista, nem pra dar aquele bom dia. Talvez essa fosse a prova real de que eu estava mesmo tão ou mais envolvido do que na outra vez, sendo que foquei em não permitir que acontecesse novamente. Tolo. O tempo demorou a passar, mas a tarde chegou e a hora do evento na ilha foi se aproximando.

- A gente vai dar um pulo lá no castelo antes de começar!

Luíza foi a mais animada. E só aí me dei conta do que realmente estava acontecendo. A comemoração seria num antigo castelo que ficava no centro dessa tal ilha da região praiana, ou seja, não era no mesmo chão que pisávamos. Teria que rolar aquele passeio de barco, algo para o qual eu não estava preparado. Ainda mais depois de ver o estado da embarcação. Ok, não era nada demais, só que o medo de estar em alto mar que nem meu pai esteve era surreal.

- Tem certeza disso?

- É o irmão do Paulão que vai levar a gente, ele é profissional, fica tranquilo!

Eu já havia progredido bastante nos últimos anos em relação ao medo da submersão aquática e tudo mais. Por mais que lembrasse da perda do meu coroa e de como isso aconteceu, envolvendo afogamento e tudo mais, muitas coisas que me deixavam nervoso já pareciam mínimas naquele momento, então poderia fazer um esforço ou outro a mais pra tentar me superar e não deixar de viver essas situações. Fora que a sensação de estar subindo degraus era muito boa.

Disfarcei ao máximo as mãos tremendo, não querendo ter que dar um milhão de explicações à Luíza. Só de olhar pra imensidão do oceano e não ver ilha alguma, já me imaginei por horas cercado de água e tudo dando errado e a gente se afogando e eu morrendo e assim mesmo rápido e intenso e sem vírgulas pra poder tentar passar um pouco da velocidade dos batimentos do coração no peito. Os pés na areia, o céu ligeiramente aberto, uma brisa marítima que me deixou arrepiado. Olhei pra cima e a silhueta saindo da cabine do barco não mentiu.

- Preparadas, crianças?

O Príncipe das Nuvens trocou a coroa por um chapéu de marinheiro, mas nem assim vestiu uma blusa, com o eminente peitoral exposto, e, pela primeira vez na vida, de sunga preta. Acho que até Luíza chegou a olhar e olhar de novo, pra talvez tentar acreditar na visão que teve da mala pesada exposta. Ali estava algo dele que eu conhecia muito bem. Ela não podia negar ou esconder o primo maravilhoso que tinha. Pra tentar disfarçar, aproveitei o gancho e perguntei.

- Falando em criança, por onde anda o Paulinho?

- Paulinho hoje tá com a mãe e vai ficar por algumas semanas. Meu irmão foi fazer um favor pra tia de vocês, o passeio ficou por minha conta. Partiu?

A cara dela foi de negação total, mas eu mesmo já tinha caído pra dentro do barco e fiquei escorado num canto, totalmente preso às bordas de segurança, mas ainda assim tentando não demonstrar muita coisa. Tolo de novo. Antes de dar a partida, o olhos azuis penetrantes do Leão me fitaram de canto de vista. Eu tentei não entregar o jogo, mas não havia sentido em mentir ou fingir o que não era pra alguém que me conhecia tão bem quanto ele. Engoli a seco e ele fechou os olhos, como se pudesse imaginar um pouco do que aquele passeio de barco causaria dentro de mim. Com todo cuidado, foi virando a gente pela costa da praia e deu a volta pela pequena baía, revelando um oceano de pequenas ilhas localizadas na parte de trás da região praiana, sendo este o motivo deu não tê-las visto antes.

- Ualll! - nem Luíza se conteve pela paisagem.

Ele mesmo não se aguentou e sorriu, forçando as mãos no timão do barco de passeio e me deixando perceber todas as veias saltadas pelo corpo. Quando me percebeu olhando, riu exibindo as presas e eu tentei sorrir de volta, mas o nervoso ainda era muito maior. Seus olhos preocupados comigo só me deixaram ainda mais aflito, ainda que seguro pela presença. Sinto até que ele escolheu um percurso mais próximo à costa, numa tentativa de me dar mais segurança, algo que apreciei, porém não menos pressionado.

- Eu tô aqui, lembra?

Os lábios sussurraram bem baixinho. De costas, ela nem percebeu, só eu. O poder que aquele Leão sabia que tinha de minimizar meus medos com sua presença. Mas ainda assim estava dentro de um oceano, não poderia brincar. Devagar, senti as pernas firmando na madeira da embarcação. Mesmo flutuando em um corpo imensurável de água salgada, pude ter certeza da fixação dos pés, ainda que fossemos controlados pela física da Mecânica de Fluídos. O sorriso no rosto dele ao me ver levantar foi lindo, muito sincero e simbólico pra mim. Era o PL quem sabia dos meus medos, ninguém melhor que ele pra me ver lidando bem com um deles. A cara de satisfação foi mais do que inegável. Fiquei apoiado numa das colunas de madeira, até que tomei coragem e caminhei mais à frente, completamente livre de apoio, mas ainda assim meio que suscetível ao Empuxo.

Não tive tempo de ficar feliz. De corajoso por ter levantado e andado, fui atirado bruscamente ao medo infeliz e repentino. A minha namorada veio por trás de mim e decidiu que poderia fazer a brincadeira que fez, de me dar um leve empurrão nas costas pra simular uma queda n'água. Sim. Comigo. Luíza fez isso e eu caí com o corpo pra frente, porém ainda dentro do barco, só que a mente não entendeu isso e sentiu todas as hipóteses ruins antes de realmente perceber qual desfechou se sucedeu. Entre outras palavras, um ataque de pânico e tremedeira começou.

- VOCÊ É LOUCA, GAROTA!?

O rugido do Leão ecoou em pleno alto mar. Eu passei a ser um participante passivo da situação, completamente travado e em choque, apenas ouvindo e vendo o que acontecia, mas ainda sem discernir muito bem das coisas.

- Por que!? Só fiz uma brincadeira com ele!

- Olha o tipo de brincadeira que você fez!

- Ah, corta essa, Paulão! Você também já fez, lembra?

- Nem parece que conhece o namorado que tem!

- E você pelo visto conhece bem, né Pedro Paulo Leão?

Ele parou do meu lado e abaixou, colocando o braço por cima dos ombros e ignorando completamente as respostas afiadas.

- Eu tô aqui contigo, Luís! Respira!

- Ah, eu mereço né!? - ela insistiu.

- Teu namorado tá passando mal, sua maluca! Nem isso você consegue perceber?

- Passando mal? Eu só brinquei com ele, qual é o problema?

Ele levantou e retornou ao timão. Girou tudo pro lado e começou a retornar a embarcação pro lugar de onde viemos. A Luíza percebeu e ficou ainda mais revoltada, abrindo a boca da forma que pôde.

- Dá pra ver que você se importa muito com o meu namorado, né Paulão? Mesmo sendo pai, já sendo velho e morando sozinho, tu não toma jeito!

Ele não se conteve mais. A política de boa vizinhança morreu.

- Vocês voltaram pra isso? Pra ficar de desconfiança? Eu sei que o cara tem um problema, então só imaginei como ele se sentiu. Você se chama de namorada e não consegue nem entender isso por causa de ciúmes. Vai se tratar!

- Eu sou maluca, mas não sou cega! Eu sei muito bem o que vi naquele dia da gruta, seu viado!

- ACORDA, GAROTA! Ninguém tá dizendo que tu não viu! Só tô perguntando se você ainda tá vendo isso ou se tá vendo que o teu namorado tá passando mal, sua burra! Você prefere fazer o que, discutir ou ajudar?

Ela parou de resmungar um pouco, mas não completamente. Chegamos à praia mais rápido do que partimos, o Leão me ajudou a descer e não fez questão de ajudar Luíza. Nesse momento, o irmão dele apareceu, mas isso não a impediu de abrir a boca.

- Pra completar ainda tive que perder meu passeio por causa de vocês. Eu mereço!

Ele virou pra trás. Pensou rápido, a mente estratégica de gatuna trabalhou e a ação foi repentina. Assim que o irmão passou por nós, ele o colocou pra dentro do barco.

- Já que você quer tanto esse passeio, então agora tu vai!

Nem deixou o nó ser preso no arco do portinho, até deu impulso com o pé firme na madeira e os empurrou ao mar.

- Você é louco, seu moleque! Deixa eu descer!

- Bom passeio! - debochou. - Leva ela lá pra ilha, bro!

O irmão dele começou a rir, sem entender o que tava acontecendo e acreditando que era tudo brincadeira, então não botou muita fé na briga. Devagar, ele me conduziu pra dentro de casa e colocou deitado na cama antiga onde dormia, que por sinal tinha todo seu cheiro. Por mais que ainda estivesse consciente, eu ainda não consegui pensar ou interagir muito, então acabei pegando no sono, mas por pouco tempo.

Acordei numa espécie de delírio, meio que entre o sonho e a realidade, mas ciente da vivacidade ao redor. O quarto meio apagado, mas ainda conseguindo distinguir cada detalhe nos móveis de madeira. A sensação de estar sendo observado crescendo firme, até que olhei pra frente e o vi. Imponente, a presença selvagem e o olhar calmo e desafiador, de quem quer dizer à presa "eu vou te pegar, não adianta tentar". Só eu e ele, finalmente. Ergui o corpo pra trás e sentei na cama. O Leão mostrou as presas e esfregou as mãos, sem me tirar da mira da encarada pesada e sedenta, faminta. E pulou no ar, caindo por sobre a metade inferior do meu corpo e agarrando o quadril com as patas rápidas e profundas. Chupou a pele, lambeu, mordeu, subiu até ficar praticamente sentado no meu colo e de frente pra mim. Aí apertou meus mamilos com as mãos e fiz o mesmo por entre o peitoral peludo de surfista gostoso. As bocas, depois de anos, se encontraram e lutaram sua dança única e língua própria. Ou línguas próprias. Lábios movendo, dentes mordendo, mãos explorando corpo e pele roçando uma na outra. Depois de muito matar a saudade e a necessidade física, ele afastou meu rosto e olhou nos olhos.

- Como eu te preciso, Luís! Como a gente ficou tanto tempo assim?

- Cala a boca!

E tornei a beijar. Ele entendeu e cedeu, mas não durou tanto assim.

- Eu espero que você esteja preparado pra continuar do meu lado!

Eu não quis falar, apenas fazer. E ainda assim, tudo que fiz pareceu não ser suficiente, incapaz de preencher e suprir a ausência que o surfista fez na minha vida. Nossos corpos estavam incontroláveis, sarrando um contra o outro e permitindo que a ereção alheia fosse sentida, marcada, nítida. Sentado em meu colo, senti as nádegas comprimindo meu cacete por dentro da bermuda, assim como os dedos não pararam de massagear os mamilos rígidos e a boca de beijar e morder os lábios finalmente molhados. Cada um girando de um lado pro outro com muita pressa e precisão, até que fui deitando e ele caiu completamente com o corpo sobre o meu, de frente pro mim. Foi aí que caralho ficou de frente pra caralho, iniciando o duelo de espadas, numa esgrima excitante e que não tinha dado vencedor. Ele curtia ficar por baixo e sentir a cabeça do pau roçando no meu entre coxas, sarrando de leve na pele do saco e, vez ou outra, indo mais fundo e acirrando a entrada do cuzinho.

- SSSssss! Que saudade da porra, moleque!!

Por cima, minhas bolas eram mexidas pela glande babona dele, deslizando safadamente por cima da rola e sentindo todo o passar do cumprimento, tanto de um lado quanto pro outro. O cheiro pelo excesso de pirocas se tocando subiu firme e forte pelas narinas, até o ponto em que o surfista não conseguiu mais dividir a atenção entre duas coisas e preferiu só investir com o quadril sobre o meu. O equilíbrio de chegar no ponto onde fazê-lo dava prazer a ambos, por mais que não existisse ali uma penetração física e insertiva, dominou.

- Hmmmm! Issssoo!

Quando acontecia de uma das varas escapar, ou ele ou eu entrava por entre as pernas do outro e cumprimentava a portinhola das pregas virgens do rabo, numa intimidade sem igual. Mão apertando nuca, mamilo entre dedos precisos, suor passando de um corpo ao outro, narinas cobertas por pelos de axilas e uma mistura expressiva de sexo entre homens, saudades e paixão. Foi no meio disso tudo que senti o orgasmo vindo, ao mesmo tempo que Leão também foi se abrindo e se permitindo ao extremo do prazer. Aí escapuliu sem querer e acabou enchendo a porta do meu cu de leite quentinho, distribuído em várias bombeadas perigosas que intencionalmente lubrificaram o ambiente, sendo que o safado ainda arriscou mais algumas estocadas e não hesitou em brincar de pincelar a cabeça na porta.

- Devagar aí, rapá!

- HAAHAHAHA!

Ele também caiu na risada, porque sabia que aquele era um pedido praticamente impossível, tanto pra mim quanto para si mesmo. Dois "ativos" apaixonados, se virando como poderiam dentro de uma relação desse tipo. Gozei em jatos que chegaram a molhar meu peitoral e a rola dele. E aí ficamos nesse clima pós foda íntimo, um deitado no ombro do outro e desfrutando do momento juntos, parcialmente saciados depois de anos. Apesar do curto tempo por causa do evento, eu e Paulão ainda ficamos trocando uns beijos e fumamos uma pontinha de um baseado que ele guardou. O tempo todo nus e trocando carícias necessárias com o corpo um do outro, só paramos quando deu a hora de nos arrumarmos pra comemoração, que veio com o fim da tarde.

A Luíza voltou muito puta do passeio, mas entendeu quando expliquei que estava assustado e que por isso não estive tão consciente. Até então, na mente dela, eu tinha feito drama e sido conduzido porque quis, então expliquei que não foi bem assim e ainda contei um pouco sobre o medo de água, mas resumindo aos oceanos, mares e tudo mais.

- Bobeira!

Não quis discutir e nem tinha o que. A gente se arrumou e, com muito custo, preferi tomar o carro pra fazer a maior parte do percurso até à ilha dirigindo, mas ainda assim tive que andar de barco por poucos minutos. Foi rápido, mas não menos tenso, acabei chegando lá mais suado do que esperei. Durante a maior parte do evento, não vi o Leão. Ele só apareceu mesmo pro final, na hora do bolo, e aí foi a primeira vez que o presenciei vestido tão formalmente, de terno e gravata, todo engomadinho e sério. Os dreads presos pra trás, a barba ornamentada de forma igual e devidamente presa. Um verdadeiro príncipe dentro de um castelo. Riu, brincou, dançou, me olhou uma vez ou outra, mas sem dar muita bola na frente dos outros. Nada que pudesse levantar mais suspeitas depois de tanta coisa.

Pouco antes da volta pra casa da tia da Luíza, lembrei que nós chegaríamos e já arrumaríamos as coisas pra ir embora, e isso me deixou triste outra vez, justamente por não saber quando estaria novamente com meu Leão. Sinto que ele também percebeu isso, mas sua forma de encarar as coisas foi bem diferente. Nuns poucos minutos em que minha namorada pareceu entretida no assunto da família, ele parou do meu lado e sussurrou.

- Tenho um convite pra você!

- Pra mim?

- Sim! Vamos pro Caribe comigo, Luís!? Só eu e você, com tudo pago! A gente vai e não conta pra ninguém, eu tenho uma competição lá e vou partir depois de amanhã. Tem uma passagem sobrando, dá pra ir e voltar tranquilamente!

Não acreditei. Pela primeira vez, o Príncipe das Nuvens que me trouxe à realidade dos acontecimentos, desfazendo parte do clima metafórico entre nós. Ou de repente foi justamente ao contrário. O Leão estava querendo elevar as coisas, passando de metáfora à vivência, realidade verdadeira e sincera.

- Se precisar, a gente nem viaja de avião, que é pra você não ficar assustado com a visão do oceano pela janela! A gente vai de carro até lá!

Ele queria viver algo além da praia. Eu sabia disso porque também era meu desejo, também era o que eu queria, além do fato de estar se colocando no meu lugar até pra driblar as possíveis questões que eu levantaria. Mas tudo muito imediato, muita coisa pra pouco tempo. O convite veio na mesma sentença que me pedia pra ser rápido.

- O que? - foi a única coisa que consegui responder.

Ele viu nos meus olhos a incerteza nítida de quem tinha escutado, mas que precisava de pensar duas vezes, três, quatro, talvez infinitas.

- É só você responder que sim! E aí a gente fica junto!

- Paulão, eu..

Os pensamentos a mil. Ao redor, o baile das bodas de ouro terminando, com todos os convivas conversando, bebendo e interagindo. A música baixa e convidativa, tanto quanto o diálogo do meu Rei.

- Eu não sei o que responder. Eu também quero ficar contigo, mas não sei se assim é o jeito certo. O que eu vou falar pra sua prima?

- Manda a real, Luís! O jeito certo é esse. Ela vai sentir a dor, mas sem mentiras, só verdades, e depois vai passar. A verdade é que eu tô gamadão na tua, tu sabe bem disso! Eu não vou sair daqui sem um não, se não eu nem tentava te convencer a ir!

- Mas Paulão..

Ele tinha razão. A última coisa a se fazer era continuar na enganação, tanto pela questão ética, quanto pelo espaço que isso ocupava do meu sentimento por ele. Me envolver com o PL chegara a um ponto que pedia muito mais do que meras olhadas de rabo de olho e coisas do tipo. Eu queria andar de mãos dadas, queria estar com ele dentro e fora da cama, da praia ou do mar. Segundo plano não cabia mais. Só que as coisas não poderiam ser simplesmente feitas com uma viagem marcada em cima da hora, até porque, mesmo aceitando e partindo, o que eu ia fazer da faculdade e do trabalho? Não era só terminar o relacionamento e pronto. Era tempo. Bastante tempo até digerir as coisas como estavam, da mesma forma que requereu tempo até voltar ali e nos reencontrarmos.

- Eu não vou poder ir dessa vez, Paulão! Mas eu te prometo que vou pensar na melhor maneira de acabar logo com tudo isso, e aí sim a gente vai ficar junto! Acho que é o melhor que consigo pensar por agora! - fui sincero.

Ele sorriu, mas aquele sorriso de quem tentou. Abaixou um pouco a cabeça e saiu sem falar absolutamente mais nada. Eu soube que havia o ferido de alguma maneira, mesmo tentei suavizar. E o pior é que realmente queria ficar ao lado do cara, só que ainda assim precisaria de mais tempo até fazê-lo. Voltamos pra casa da tia de Luíza e ela foi fazer as malas, as minhas já estavam prontas. Nesse meio tempo, fui dar uma pensada enquanto andava pela orla, até que o observei se banhando ao luar, bem na beira da praia. Dessa vez, a graça naquele vislumbre não foi tão feliz quanto das outras. Ali, em seu deleite, o Leão admirava a lua de forma fria e triste, como se lamentasse por qualquer coisa importante. A ligação com o mar e com o satélite era tamanha que eu mal pude dizer quem observava quem dentre os três, sendo todos grandes formas da natureza, cada um à sua maneira e própria manifestação. Um era um corpo celeste de massa e importância inimagináveis, capaz de interagir livremente com meninos, homens, deuses e leões, pra não falar das marés. Na maré baixa, que me deixava mais seguro pela pouca água, o efeito da gravidade da lua no oceano era quase nenhum. E justamente na maré alta, que era quando o mar subia e me deixava mais aflito, essa interação era máxima, a ponto de me fazer sentir cercado e tomado por todo ele. O mesmo oceano capaz de me molhar e afundar era o mesmo corpo d'água que banhava o terceiro fenômeno natural presente ali no cenário: o Leão deleitado na beira da praia. Como qualquer felino, ele soube que eu estava ali e me olhou. Percebi no rosto o semblante de decepção e, por alguns segundos, fui tão egoísta na minha visão que me perguntei se não era melhor dar uma de louco e topar a viagem, só pra parar de vê-lo daquela forma, ao mesmo tempo em que não faria aquilo justamente pra continuar apreciando o cenário paradisíaco da região praiana e do meu felino selvagem, rei da selva e do mar, agora em sofreguidão.

Depois que saímos da região praiana, não tive mais contato com o Paulão durante alguns poucos dias. A Luíza ficou mais tranquila com o nosso afastamento, mas acabou que isso não durou muito, ainda que ela não soubesse disso. Lembrando da tal viagem que o surfista comentou que faria, acabou que fiquei acompanhando pelas redes sociais e também notícias que saíam a respeito dele e de como estava lidando com a competição em terras estrangeiras. Naquele patamar de figura pública em ascensão ao estrelato, foi fácil perceber a mudança na índole e no comportamento do Paulão: visivelmente mais desleixado, mais largado e sem se importar muito com os outros. Ele quase foi eliminado da competição por atraso, justamente por estar perdendo a linha na noite caribenha, frequentando festas, conhecendo gente nova e, de certa forma, aproveitando a nova fase da vida e também o status de famosinho. Só que eu sabia bem o porque daquilo tudo. Alguma coisa estava errada. Num domingo em que estava sozinho em casa, arrisquei mandar mensagem via instagram. E só fiz isso depois de vê-lo marcado na foto de um viado famoso daquelas terras, que inclusive já havia sido notícia pelo envolvimento com drogas pesadas.

- "Tá se divertindo bastante, ein!"

Sequer esperei uma resposta, tanto pelo tom que escolhi usar, quanto pela resolução que as coisas tiveram até ali. Mas ela veio e em poucos minutos.

- "Tô sim! :)"

O sorrisinho me deixou desconsertado, identifiquei como deboche. E aí não escondi o incômodo, só que fraquejei e comecei errado.

- "Esse cara na foto contigo é o teu namorado?"

- "Né não. Mas e se fosse? Eu tô solteiro, né? :P"

Cada carinha daquela foi uma facada em mim, sendo que nem poderia reclamar, já que eu mesmo não aceitei estar lá com ele. Porém, o foco era outro. Eu precisava de lembrá-lo da carreira e de como seu futuro era importante pra si e pros outros, começando pelo Paulinho, seu filho.

- "Abre esse olho, Paulão! Muita gente depende e confia em você! Lembra do porquê de você estar aí, meu amigo!"

Ler a resposta era do que eu precisava.

- "Não me enche, Luís! Eu te chamei para estar aqui e você disse não. Se você tá preocupado, por que não veio? Agora vem falar de importância!? Ah, pelamor né!"

A dor foi real. E não parou por aí.

- "Você sabia que eu não escolhi terminar com a mãe do meu filho? Foi ela quem escutou a fofoca da Luíza e terminou comigo, mesmo depois de grávida. Eu acho que nunca te falei isso, mas tô contando só pra deixar ciente que, se fosse necessário, eu voltava e terminava com ela sem arrependimento! Porque naquela época eu já queria ficar contigo!"

Foi só então que parei, li e reli tudo aquilo, meio que recapitulando o primeiro dia em que conheci o surfista e de como chegamos até ali. Mas ele não parou mais de mandar áudio. Tentei responder, porém não consegui.

- Você é tão feliz assim com a Luíza que não pôde aceitar meu convite pra viver comigo, Luís?

- Não é isso, Paulão! É só que são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, eu só te pedi tempo

- Não aguento mais escutar isso! Eu aprendi um monte de coisa sozinho, nunca nem pensei em conhecer um cara que nem você e muito menos achei que fosse ser pai nessa idade. Agora tô aqui no Caribe competindo e nada parece justo, simplesmente porque você e meu filho não tão aqui comigo e eu só tô cercado de gente chata, que não entende nada de surfe! E aí tu ainda vem me questionar?

- Desculpa! - comecei.

Ele parou.

- Desculpa, de verdade!

A voz embargou e só então tive o espaço e tempo necessários.

- Desculpa pela falta de paciência com você e também pelas pressas. Eu só precisava mesmo de tempo pra perceber que queria ficar contigo!

Ele não respondeu mais.

- Eu te amo, Pedro Paulo Leão! Você pra mim é um Rei! Eu só demorei a perceber, mas agora é de verdade!

- Ama mesmo?

- Você ainda tem dúvidas!?

E aí veio o ultimato.

- Então parte logo pra cá! A final é depois de amanhã, dá tempo! Tua passagem tá lá com a minha mãe!

Outra vez aquele imediatismo urgente que gostava de me afogar. Poderia ser repentino, mas eu havia cansado de fugir, por mais que soubesse dos desgastes atrelados ao processo de terminar o relacionamento pra poder ficar realmente livre ao amor leonino. Eu tinha que enlouquecer pra não acabar perdendo a cabeça, já que era o necessário pra provar meu amor ao homem leal que se manteve do meu lado de todas as formas possíveis. Tanto que agora me queria dignamente e oficialmente do seu lado, tal qual merecíamos. Eu não podia tirar sua razão. Ignorei trabalho, ignorei estudos, ignorei até a Luíza e fui à região praiana buscar a tal da passagem. Pra não dizer que deixei minha namorada falando sozinha, gravei um áudio apressado dizendo que precisávamos de conversar, mas que quando eu retornasse de uma viagem que precisei de fazer em cima da hora. Ela lotou o celular de mensagens, aí sim ignorei e segui ansioso até o destino final. Confesso que andar de avião foi tão estressante quanto de barco, porque lá de cima você vê que qualquer problema vai acabar na água, tamanha a imensidão do oceano. Mas a pressa e ausência do Leão fizeram com que tudo passasse muito rápido.

O Caribe não era tão lindo assim, talvez pela saudade apertando no peito e pelo tempo tempestuoso. Muita chuva, muitos trovões no céu, mas aquele tempo ideal pra um surfista desafiador, já que as nuvens trabalhavam a favor do Príncipe. Eu cheguei já no final, totalmente perdido e tentando não focar na revolta marítima, caso contrário não aguentaria permanecer muito tempo. Procurei nervosamente por entre os surfistas em alto mar, mas não avistei o Leão. Até que, lá do alto de uma onda imensuravelmente colossal, ele rugiu.

- EU VOU DESCER, EIN!!

De onde eu tava, ele pareceu um mero ponto diante de toda aquela massa d'água, algo que me tirou completamente o chão, de tão apavorado fiquei. Cruzou pra um lado, cruzou pro outro e fugiu da crista com certa dificuldade. Até que, sem mais nem menos, uma outra onda ainda maior estourou por detrás da que ele tava, jogando o corpo do Leão pra cima feito um pedacinho de carne controlável.

- NÃOOOOOOO!! - meu peito secou.

A chuva fez aquela pancada pesada e o choque de massas fez a multidão gritar junto.

- OOOHh!

A prancha saiu com tudo lá do meio do redemoinho de água, mas sozinha, sem ninguém. Os olhos esbugalharam com a visão, ao mesmo tempo em que comecei a gritar por ajuda, desesperado pelo tempo sem ver o Paulo na água. Aí o corpo dele subiu de bruços, mas não reagiu, completamente sem reação. Tudo parou ao meu redor. Só existíamos eu, ele, o mar e a chuva, além de cada gota caindo no oceano e me dizendo o que fazer por entre os barulhos dos pingos. Qualquer silêncio era recheado de palavras gritando ações. A agitação ao redor foi imediata, mas o meu sentimento foi muito mais imediato que todos. O MEDO DO MAR NÃO FOI ABSOLUTAMENTE NADA! Eu pulei de roupa e tudo, saí mexendo as pernas e braços como pude e com a maior quantidade de ar que consegui puxar pra dentro. Foi inteligente? Não, não foi. Nunca aprendi a nadar e tinha o medo de me afogar, mas talvez houvesse descoberto um medo superior, que seria o de perder meu Leão, justamente agora que estava mais do que preparado pra viver ao lado dele e sendo seu parceiro leal. A corrente me puxou e perdi o toque do pé no chão. Toda a calma que esperei receber foi traduzida em muita porrada e peso de água me jogando de um lado pro outro, até a hora que senti a cabeça pesar e o corpo ceder, descendo de encontro ao escuro absoluto do fundo do mar. Faltou ar, senti a tremedeira e a mente apagou.

Eu não morri. Não eu. Primeiro senti os pingos caindo, mas o corpo já estava todo molhado. Abri os olhos e nem me importei com as gotas batendo sobre o globo ocular. A cabeça zonzou um pouco, mas logo os sentidos retornaram e identifiquei onde estava: deitado na areia da praia, completamente cercado por inúmeras pessoas diferentes me rodeando, olhando pra mim e pra mais alguém, com aquelas caras bobas de expectativa.

- PAULÃO!!!

Levantei num impulso e um cara tentou me segurar pra não acabar me machucando mais, talvez por alguma fratura ou coisa do tipo, mas ignorei completamente e fiquei sentado. Olhei pro lado e vi o corpo do PL estirado na areia, parcialmente enrugado, pálido, completamente imóvel e de olhos fechados, repousando tranquilamente por sobre uma canga, em total ausência do movimento de respiração. O tempo entre perceber o que aconteceu e tomar uma atitude contra os rumos da vida foi quase nulo.

- NÃO! NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO!!

Ao redor, ninguém fazendo nada. Pulei pra cima dele e nem pensei duas vezes. Pela primeira vez na vida, enchi o peito de ar e coloquei a boca na boca de outro cara em público, na intenção de fazer a respiração boca à boca, ainda que sem a menor experiência. De alguma forma, tentei transferir meu oxigênio pra ele e inflar seu aparelho respiratório, trazendo pra fora a água que possivelmente havia ingerido. Não adiantou. Espalmei as mãos sobre a parte do coração, abrindo os dedos entre os pelos do peitoral dele. A temperatura baixa me deixou ainda mais nervoso. Fiz pressão que nem via nos filmes, pra tentar restabelecer os sinais vitais. Nada.

- ACORDA, LEÃO! NÃO FAZ ISSO COMIGO!

Dei até tapas na cara, mas ele só fez girar o rosto com o impacto e não reagiu. Pressionei outra vez a boca na dele, forcei forte o ar pra dentro e puxei de volta. Puxei com tanta força e intensidade, que a água veio firme que nem uma fonte, enchendo minha boca de gosto do mar. Cuspi pro lado e repeti o movimento, mas nada de coração bater ou corpo se mexer, apenas a pressão da minha não aceitação.

- NÃO, NÃO, NÃO!

Forcei outra vez o peito e puxei com tudo a água. Aí o puto tossiu bravo e recuperou todo o fôlego de uma só vez.

- SEU FILHO DA PUTA, ACORDA!! ACORDA LOGO!!

Comecei a chorar feito criança, observando o surfista abrindo os olhinhos de leve e olhando diretamente pra mim.

- COMO TU ME FAZ UMA COISA DESSAS, CARA!?

Mais tosse, mais respiração e mais água saindo dos pulmões de esportista. O sorriso resplandecente, as presas me cumprimentando e a mão subindo nas minhas costas, ainda deitado na areia.

- AEEE! EEEEE! LEÓN, LEÓN, LEÓN!

Ao redor, todo mundo comemorando junto o retorno do nosso Rei.

- Foi..

- Calma, respira! Não fala nada, ainda! - pedi.

- Foi porque você não tava aqui! - riu.

Não aguentei. Na frente de todo mundo, a respiração boca à boca virou um puta de um beijaço muito do preciso e intenso. As línguas se encontraram e nem se importaram com o gosto de água do mar pós quase afogamento, porque a saudade e a vontade cobriram completamente tudo isso. Só então ele me afastou e olhou ao redor, mas a galera ainda tava olhando pra gente completamente incrédula.

- Por que você tá todo molhado?

- Longa história, meu amor!

Outro beijo, mas agora seguido das palmas do pessoal e da devida comemoração. Ainda que tenha despencado lá de cima e batido a cabeça, o Paulão bateu outra vez o próprio recorde com a virada em câmera lenta. Isso lha garantiu a promoção de O Príncipe das Nuvens ao título de O Rei das Nuvens.

- Parabéns, Sua Graça!

- Agora eu sou o seu Rei Leão!

E aí, do meio da galera, surgiu Paulinho correndo.

- PAPAI, PAPAI!

Se jogou no meio da gente e deu um abraço forte no pai. Era tudo que estava faltando ao redor do PL. A gente ainda teve que se consultar num médico pra avaliar qualquer risco possível de saúde.

Depois fomos pra rua comemorar, beber umas, aproveitar o novo tempo que teríamos lado a lado. Não preciso dizer que, em poucas horas, as fotos da gente se salvando e se beijando na praia foram divulgadas em vários pequenos e médios meios de comunicação. A Luíza viu e me mandou mais mensagens, mas eu não quis lê-las, apenas precisei de confirmar que estávamos solteiros e eu desimpedido pra ser livre e feliz da forma como queria. O Paulão respeitou meu tempo de formação e trabalho, decidindo que só moraríamos juntos quando eu tivesse condições de dividir as despesas igualmente, por mais que suas condições fossem obviamente maiores que as minhas. Engatamos um relacionamento que, no primeiro ano, nos permitiu juntar os laços e morar juntos num pequeno apartamento do centro da região praiana. Aos poucos, saímos dali diretamente pra orla e fomos misturando ainda mais as influências e convivências. Terminei o curso de administração e, junto do surfista, abrimos uma pequena empresa de venda de artigos esportivos relacionados à água, tipo pólo aquático, surfe, natação, etc. Seu reconhecimento profissional rendeu inúmeros convites para competições, workshops, aulas, cursos e outras oficinas de surfe, o que nos garantiu várias viagens ao redor do mundo. Dessa forma, acabou que eu e o meu Rei das Nuvens quase não tocamos mais o solo. Era vivendo entre nuvens e água do mar, às vezes doce de rio ou cachoeira, mas nunca no chão, que passou a parecer simples demais pra nós dois. Isso não me deixou menos preocupado, porque em cada subida de crista de onda eu ainda me pegava mordendo as unhas e pedindo pra que a queda fosse sempre segura. Paulinho no meu colo, ambos torcendo pelo Paulão.

- Ele vai vencer, né papai?

- Vai sim, filho! Ele sempre vence e sempre volta pra gente!

Depois de cada vitória, era só eu e Leão comemorando do nosso jeito. O tempo nos tornou ainda mais flexíveis, ao ponto em que conseguimos nos permitir dentro do sexo. A penetração ainda não acontecia, mas as brincadeiras próximas e o diálogo sempre superaram tudo, deixando um despido de corpo e alma diante do outro. Ele curtia sarrar até chegar ao êxtase, depois ficava coladinho até o fôlego voltar ao normal, aí fumávamos um e passávamos o resto do dia brisados, sempre longe do Paulinho. Nunca mais tive qualquer contato com Luíza, acho que nem ele também, e permanecemos juntos pelo restante do tempo em que respiramos lado a lado. A gente se casou 3 anos depois e passou a lua de mel visitando alguns países do continente africano, algo que ele queria muito fazer e pelo qual eu também tinha curiosidade. Em 4 anos, tivemos um casal de filhos adotados e viramos uma família de 5: eu, Paulão, Paulinho, Arthur e Alice. Vivemos da hierarquia do céu, na qual éramos reis e cuidávamos de futuros príncipes e princesa do reino, nossa família. Por mais que existissem as viagens em busca de mais experiências e descobertas, a região praiana foi nosso único ninho, talvez por conta da envolvência que o ambiente teve com toda a história e condição felina do Leão. Foram várias as vezes em que sentamos lado a lado na orla escura, ele acendeu um baseado e, juntos, assistimos o assentar da noite, imersos de corpo e alma na camada entre a praia e o escurecer cor de cereja, acalentado pela brisa marítima do começo da noite. Assim descansava a realeza.

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Foto de capa: https://goo.gl/KHDB9T

Título alternativo: Maré Alta.

Continuação do último conto.

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Comentários

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07/01/2018 03:50:42
Obrigado, Guigo! :)
01/01/2018 18:23:23
Que conto lindo. 😍😍😍😍
08/12/2017 04:49:20
Obrigado, sssul! E eu fiz o ENEM esse ano, sabia? Pela terceira vez na vida! :)
08/12/2017 04:33:44
1000 no Enem. Perfeito. Como esse texto tá bem escrito, muito envolvente e foge daquela vibe da meteção. Uauu👏👏
06/12/2017 08:20:12
Agora que você me explicou seu modo de escrever faz muito mais sentido para mim, obrigado ❤️ Eua amo seus contos
05/12/2017 02:40:06
Olá, Himeros! Vou fazer uma pequena correção: na verdade você acha que o narrador deveria se descrever melhor. Minha explicação é técnica: o protagonista é o Leão, por isso a descrição dele é máxima em relação à do Luís, que é apenas o narrador da história, não protagonista. A história em si é sobre O Rei das Nuvens, só não é contada por ele, por isso deixei de importante só aquilo que interessava sobre o Luís: a aquafobia, o namoro com a Luíza, a faculdade, o trabalho, o fato dele também ser "ativo", se considerar hétero, etc. Eu sempre detalho ao máximo o que penso ser crucial ao enredo, sendo que o não tão crucial assim (ex: características físicas específicas, tipo altura ou tamanho do cabelo) deixo por conta de quem lê, pra aguçar a liberdade de imaginação que a leitura proporciona e não somente prender ao que eu quero que prenda. Isso funciona tanto pros ativos quanto pros passivos narradores e protagonistas. :) Mas entendo seu ponto!
05/12/2017 01:35:55
Ótimo conto, só acho que você deveria descrever um pouco mais o personagem principal, você exalta muito o “ativo” e deixa o protagonista meio que de lado sabe? Mesmo assim amei o conto.
03/12/2017 01:04:21
https://kxcontos.blogspot.com.br/ novo site galera! Visitem! contos e muita putaria
01/12/2017 05:02:04
Obrigado a todos que leram e também tiraram um tempo pra vir comentar. Não vou dar muitos detalhes, mas pretendo reservar um capítulo da CEREJA apenas pra falar de todos esses contos, tanto a parte técnica quanto as curiosidades nos enredos, minhas intenções e tudo mais, lá no wattpad. O que posso dizer é que a tendência é essa em relação às metáforas e simbologias, vou só subindo degraus e preparando vocês para o final, no qual teremos o último e mais importante conto da temporada CEREJA. Ainda temos algumas poucas histórias até lá! :)
29/11/2017 03:03:14
Simplesmente maravilhoso André. Parabéns pela escrita e também pela incrível história. Quando li a primeira parte sabia que você daria continuidade aquilo, e você concluiu com louvor. Ps: sinto algumas familiaridades entre seus contos, pode ser loucura minha, mas, algumas coisas se “passam” de história para história.
28/11/2017 23:04:42
E quem tá reclamando, bom, sei não, ein! Afinal, leu tudo e isto diz tudo! Hahahahaha
28/11/2017 22:39:08
Cara, que história foi essa? Puta merda! Incrível! Particularmente, eu não me sentia atraído com o PL de forma alguma e isso me fazia não curtir a vibe deles, porém tudo foi tão me orquestrado que se apaixonar pelo amor dos dois foi uma fácil consequência! Amei o final da história. Parabéns! Você é um excelente escritor, pois, além da escrita impecável, escreve com amor sobre amor para amor. Dez! Abraço.
28/11/2017 21:38:17
Não gostei desse, na minha opinião essas analogias são chatas. Transformar o cara em um machão irresistível, sem contar a falta de caráter dos dois. Talvez o próximo tenha mais realidade
28/11/2017 21:21:55
BOA SORTE AI PRA LUIZA. ESPERO QUE ELA SEJA FELIZ COM OUTRO. AMEI O CONTO. MAS FOI LONGO DEMAIS. PODERIA SER EM DOIS CAPÍTULOS. GOSTARIA QUE TIVESSE CONTINUAÇÃO.
28/11/2017 11:26:17
Primeiro: fiquei puto com o PL por cobrar ser escroto com ele sendo q o cara pegou ele fodendo na praia com outra enquanto o Luis tava na merda. Segundo: acho que essa volta foi culpa de todo mundo, tava na cara que ia dar merda. Eu senti muitas coisas. Fiquei puto com os personagens mas aí me dei conta que é assim q descobrimos q história é boa kkk. Parabéns mano. Continua postando.