Bromance II

Um conto erótico de Felipe Meideiros
Categoria: Homossexual
Contém 2427 palavras
Data: 27/07/2014 23:27:45

Durante o dia inteiro eu belisquei o bolinho de 5 centímetros quadrados cujo sabor era enjoativo. Pensei em sair e fumar lá fora, mas lembrei de que agora eu tinha secretário e ele me avisaria quando alguém quisesse entrar. Então abri a janela, selecionei o cigarro mais fácil e o acendi nos meus lábios. Era relaxante sugar a fumaça, era uma terapia. A fumaça entra e o vazio do seu peito é preenchido, não por amor mas pela fumaça, entende? É difícil de explicar, mas é totalmente autoexplicativo.

Olhei para o computador, era um daqueles dias de bloqueio criativo. Estava pensando na reunião que teria hoje, e na ideia que eu teria que ter para apresentar nela. Odeio o fato de que o meu chefe ainda estava sendo meu superior. Ele não mandava no prédio, mas mandava no meu departamento. Eu precisava, mais do que nunca fazer com que eu fosse bem visto pelo grande chefão do prédio, o Sr. Hangover. Ele era o tipo de homem que se mantem calado, gravando tudo, e depois de repente manda um de seus capangas te demitir sem nenhuma justificativa cabível.

Agora eu lutava uma batalha invisível, pois só eu sabia oque aquele babaca havia feito, mas ele não sabia que eu sabia. Minha ex prometeu não contar a ele que eu descobri. E assim é melhor.

Alguém abriu a porta, eu arregalei os olhos. Que belo flagra. Eu estava com o cigarro em uma das mãos. Me assustei, mas permaneci com ele nas mãos, pensei que se jogasse pela janela seria um flagra ainda mais bonito de ter-se visto. Era Abel, ele estava lendo algumas folhas em uma das mãos, quando fechou a porta rapidamente ao perceber que eu estava fumando.

– Seu safadinho! Então você fica fumando escondido, Sr. Felipe?

–Você tinha que ter batido na porta antes de entrar.

–Tudo bem, Felipe. Eu não vou contar para ninguém, o seu segredo está bem guardado comigo– Ele levou a mão à boca e fez silêncio.

Andou e se sentou no banco do outro lado da minha pequena mesa. Estava me encarando, seus olhos azuis estavam quase me fazendo mergulhar em seu universo. Ele sorria. Cenho relaxado e lábios semiabertos. Seus cabelos ondulados caiam sobre seu olho direito. Ele soprou a mecha e ela voou para trás de sua orelha, com a ajuda de sua mão.

– E ai? – Arqueou a sobrancelha.

– E ai o quê?

– Por que está tão triste?

– Não estou triste, Abel.

Estava sim.

– Sério? Não adianta mentir para mim, sou seu amigo desde a infância.

–Não, você é meu amigo de infância. Eu tinha 13 anos e você 8, na verdade não éramos amigos. Éramos vizinhos.

–Não precisa ser grosso, Fê.

Algo na forma com que ele falava comigo me dava um aconchego interno, como se sua voz fosse a coisa mais natural do mundo, que parou de repente, tornando minha vida o inferno, e subitamente voltou a falar e tornando o mundo um lugar belo.

– Não estou sendo grosso.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e aproximou o rosto do meu. Ele estava rindo, e disse:

–Você ainda me ama?

Senti meu coração palpitar mais rápido, e quase caí para trás. Parecia que alguém havia empurrado minha cabeça com toda a força possível em direção ao chão. Eu não sabia o que responder, será que um dia eu já o amei?

Bom, lembrei que sim. Costumávamos falar isso quando éramos pequenos, eu 9 e ele 4, mas é totalmente diferente dizer isso quando se é criança. Crianças amam qualquer coisa, mas adultos só amam o que querem para si.

–Sim...

–Mentira.

–Como você poderia saber?

–Você hesitou.

– Porque foi uma surpresa.- tentei me explicar- Eu não esperava que você dissesse isso.

–Por quê?

–Porque... sei lá, você sabe...

–Não, não sei.

– É que somos dois caras grandes, e fica muito estranho falar isso.

–Não, não fica. A não ser que você seja gay. Se for, está tudo bem. Porque eu também sou.

–Você é o quê?

–Eu também sou gay. Quer dizer... eu sou gay, você não. Eu acho. –ele me olhou como se esperasse que eu dissesse que sim.

Eu acho? Como assim eu acho? É claro que eu não sou gay. Aquilo me deixou enfurecido, não sei explicar direito. Nunca senti tanta raiva de alguém, e eu não sou homofóbico.

–Não sou não. Agora pode sair da minha sala? Eu preciso trabalhar, estou sem ideias.

–Eu posso te ajudar.

–Não, não pode. Isso aqui é para adultos, você é só um estagiário.

–Quem te disse que eu sou um estagiário? – Ele franziu a testa enquanto pegava uma caneta e um papel do meu bloco de notas – eu sou jovem aprendiz! Ainda estou no terceiro ano do colegial. Vou embora daqui a pouco, porque tenho aula. – Começou a rabiscar no bloco.

Fiquei puto. Como aqueles imprestáveis da administração me mandam um adolescente babão para ser secretário? Eu já deveria adivinhar, era muito óbvio que a menos que ele não seja um superdotado de inteligência, ele ainda estava no terceiro ano.

A caneta zumbia enquanto ele rabiscava a primeira folha do bloco.

– O que está fazendo?

– Eu ouvi dizer que essa nova campanha de vocês é direcionada ao público gay adolescente, certo? Bom, eu sou gay e adolescente, acho que sou a pessoa perfeita para você usar.

“Acho que sou a pessoa perfeita para você usar”, aquela frase ficou ecoando em um lado pervertido da minha mente, que até agora eu não havia nunca acordado. Era incrivelmente aterrorizante o modo com que ele me fazia tornar um safado.

–Aqui está – Ele disse em dando o bloco – É disse que precisamos – Havia o desenho de um garoto de boné e roupas largas em caricatura. Ele pichava na parede as palavras: “Gays são legais!”.

Não consegui entender, ele pegou o sentido de todo o nosso jogo e colocou naquela frase, mas a verdade é que aquilo estava demasiadamente pequena e sem sentido até agora.

Eu revirei os olhos e falei como se estivesse explicando algo para uma criança:

– É exatamente isso que nós tentamos fazer desde o começo do...

–Espera eu acabar de falar– Ele me interrompeu – estou dizendo que o que devemos fazer é tornar todos os garotos “bacanas” do mundo, apoiadores dos homossexuais. Entende? É como se esse tipo de pessoa fosse um exemplo para os outros, e com suas campanhas você vai disseminar a ideia de que ser homofóbico é o mesmo de ser idiota e não popular. Arqueei as sobrancelhas. Aquela é a ideia mais idiota que eu já ouvi até aquele momento.

– Você arrumou meu PowerPoint? – Perguntei.

Ele revirou os olhos, típico de adolescentes, olhou para mim e fez que sim com a cabeça. Pegou a caneta e escreveu mais algo no bloco, e colocou dentro da minha maleta. Era incrivelmente perigosa a intimidade que ele sentiu comigo, mesmo sendo amigos a longa data, ele não tinha essa intimidade. Nem minha namorada tinha.

–O que você colocou ai dentro?

–O endereço da minha escola, caso você mude de ideia sobre minha campanha. O que eu acho que vai acontecer. E também eu anotei o horário que eu saiu. Se quiser ir lá hoje, pode ir, eu não me importo.

Mas que bobeira, para que precisaria dele novamente? Bobeira!

– Olhe bem, Abel. Eu preciso que você tenha feito essa apresentação exatamente como eu te mandei por E-mail. Eu só vou fazer isso hoje, só a apresentação. Eu não tenho nenhum material para discursar, e meu emprego está dependendo disso!

–Tudo bem, eu sei o que eu faço.

–Ok, que horas você vai para escola?

– Daqui a uma hora eu tenho que estar lá, então já estou saindo. E eu já reservei um lugar para você no seu restaurante preferido, o Youhun, que a propósito fica perto da minha escola. Se você quiser me dar uma carona tudo bem... – Ele me olhou com aqueles olhos de gatinho – Mas se não quiser tudo bem também, eu vou de ônibus.

O que eu poderia falar? Não?

–Tudo bem, eu vou almoçar e te levo.

–Obrigado! – Uma explosão de alegria inundou a sala, e então ele pulou da cadeira, deu a volta na mesa e me abraçou enquanto eu ainda estava sentado. Ele quase sentou no meu colo, era o que parecia. Ele beijou minha bochecha e disse –Vamos logo!

Ele desceu primeiro, já estava pronto. Ficou me esperando na frente do meu carro. Fiquei me perguntando, enquanto o elevador deslizava em direção à garagem. Como ele soube daquilo? Quer dizer, como ele sabia meu restaurante preferido? Será que a Alice, minha ex, deixou um documento no computador explicando minhas preferencias? Ela realmente era um pedaço de merda!

Vi Abel se olhando no vidro do carro. Seu cabelo agora estava totalmente penteado para trás, provavelmente foi penteado pelos dedos. Estava com uma mochila nas costas, e tirava uma camiseta e uma calça dela.

Destravei o carro, e ele se assustou com o barulho da destrava. Eu sentia um enorme prazer em faze-lo se assustar, ou se sentir mal de qualquer modo. Atravessei em frente ao carro, e entrei do outro lado. Ele entrou no banco do carona. Se aconchegou no couro e virou-se para mim, sorrindo.

– Eu tenho tanta coisa para te contar! Minha vida está muito diferente do que era naquela época.

– Mas é claro, já fazem mais de 5 anos que não nos vemos.

–Eu senti muito sua falta.

Saí com o carro. Agora eu tinha que fazer uma missão impossível, prestar atenção na estrada e em Abel ao mesmo tempo. Ele não parava de falar, ficou falando quase o percurso inteiro. Até que o único momento que se calou foi quando tirou a camiseta.

– O que você está fazendo? – Perguntei enquanto ele ainda desabotoava a camiseta social azul marinho, estava nos primeiro botões.

–Vou me trocar, não posso entrar na escola assim. Pode fechar os olhos se quiser– Ele riu, foi uma piadinha devido ao fato de eu estar dirigindo.

–Alguém pode te ver lá fora, o problema não sou eu.

–Ninguém vai ver.

Ele desabotoou a ultima, e tirou o cinto de segurança para conseguir locomover o dorso com mais facilidade diante daquela missão impossível de se trocar em um carro em movimento.

Seu corpo era magro, porém forte. Haviam músculos distribuídos pelo seu abdômen e sua pele era tão branca que chegava a brilhar contra a luz do sol que se infiltrava pelo vidro. Colocou a camiseta branca com o símbolo da escola em azul, do lado direito do peito. Olhou para mim, e me flagrou olhando para o seu corpo. Ele riu.

Por que será que ele riu? Quer dizer, não tem problema nenhum em olhar o amigo se trocar.

Ele agora desabotoava a calça. O meu Deus, ele iria tirar a calça na minha frente? Sim, ele realmente fez isso. Tirou com dificuldade. Sua cueca tinha cor azul, acho que ele gostava bastante do azul. Suas pernas eram fortes, musculosas, igualmente branca.

Eu tive que tomar muito cuidado para que o volume que começou a aparecer nas MINHAS calças não aparecesse e ele percebesse algo. Coloquei a mala sobre o colo. Ela disfarçava meu volume, mas eu ainda me sentia um retardado por ter me sentido daquele jeito, e o pior; foi com por um homem!

Ele colocou a calça de malha azul. E guardou o uniforme dobrado na mochila, dividindo espaço entre os livros.

– Eu te amo – ele disse.

– O quê?

– Sabe, eu perguntei se você me ama, e você respondeu. Mas não perguntou se eu te amava. Enfim, decidi responder.

–Não me importo.

–Ah, cara... – Ele se virou e olhou para a rua, se sentia mal – Eu pensei que fosse importante para você.

–Não é.

–Mas posso ser! – Olhou para mim, e sorriu.

–Não.

–Não foi uma pergunta, não precisava responder.

E então o deixei na escola, ele saiu do carro triste, disse que se precisasse de algum amigo que eu o ligasse. Disse ainda que a antiga secretária é uma imprestável, se isso me ajudasse. Eu fiquei me perguntando durante todo o percurso até o restaurante; como ele sabia daquilo.

E no restaurante, enquanto eu comia o sushi solitário – atividade que antes fazia acompanhado a Alice, mas que agora infelizmente terei que fazer sozinho –, pensava em Abel e em seu poder de persuasão. Quase ele me convenceu de que aquela ideia das pessoas “populares” sendo legais faria o resto de o mundo ser legal também. Pensei nele, nas pernas grossas dele, e no peito sem pelos. Ele tinha uma fisionomia muito feminina. Na reunião, quase fiquei ereto ao me lembrar dos momentos íntimos do carro, mas consegui me conter.

E então, peguei o pendrive que Abel usou para gravar o power point e coloquei. Sentei-me junto aos outros rapazes engravatados que batiam os dedos na mesa, todos entediados com os trabalhos de até agora, até o grande chefe da empresa, o senhor Mauro, estava com um olhar meio perdido.

O vídeo começou a rolar no Datashow, e eu ainda estava pensando em Abel, eu olhava para o papel que ele escreveu o endereço da escola quando algo me surpreendeu. Mauro estava olhando para o vídeo, e sorria. Ele estava gostando! E então, eu me virei para o filme e quando bati os olhos, quase tive um ataque do coração.

O que estava ali não era a minha ideia inicial, era a ideia do Abel.

Que grande filho de uma puta!

Com certeza o Mauro sorria de desgosto, aquela foi a coisa mais ridícula que já foi apresentado, provavelmente. Me levantei atônito, ia desplugar o Pen-Drive, e com certeza eu estaria no olho da rua. Mas Abel também estaria. Eu olhei para o papel em minhas mãos e o amassei, como se aquilo pudesse amenizar meu ódio. O guardei no bolso, porque tive a certeza que me vingaria dele mais tarde. Iria até o colégio dele e esperaria ele sair para bater nele até sua pele branquinha e sensível sangrar.

Agora acabou, andei com tanta velocidade que parecia possível voltar no tempo, mas a sujeira já estava feita. O vídeo foi mostrado para todos. Eu nunca vou conseguir ser chefe do meu chefe, nunca vou conseguir. Minha vida havia acabado. O vídeo já havia acabo quando eu despluguei.

Virei-me para a mesa redonda gigantesca onde todo mundo olhava perplexo. Eu sabia que minha vida começaria a acabar dali. Todo o meu plano de vingança foi por agua a baixo.

Olhei para Mauro que encarava a tela em branco enquanto coçava a mão.

– Você é um gênio! – Disse Mauro.

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Comentários

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NÃO ACHO UMA BOA IDÉIA ESSA APROXIMAÇÃO TÃO INTIMA COM UM FUNCIONÁRIO. NÃO DÁ CERTO. NA EMPRESA VC É O CHEFE DELE MAS PARECE QUE ELE SE ESQUECE E VC PERMITE. COMPLICADO ISSO. PROVAELMENTE OS DOIS GAROTOS ESTÃO COMBINADOS PRA ABEL SABER DE TANTA COISA ASSIM DA EMPRESA LOGO NO PRIMEIRO DIA. POR ISSO CUIDADO DOBRADO.

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Já me cativou. Muito bem escrito e a história foge do padrão. Diferente. Gostei muito mesmo. Já está nos favoritos e por favor só não demore pra postar. 10.

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que perfeito *-* adoro yaoi <3 kk e sua historia tá linda 1000 o/

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Porque tu não quer o Abel ? Ele é tão fodinha !!

Adorei esse capítulo cara, e olha que esse capítulo é só o segundo então ainda vai vir mais coisa boa pela frente... To amando esse conto, o jeito que você narra cara é um dos melhores, porque você detalha e isso (na minha opinião) é ótima para os leitores !! Enfim adorei se pudesse a nota não seria 10 seria mais, mas como só vai até 10, então você tem o meu 10 kkk! Até o próximo conto e não demore.

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O Abel é esperto, isso é um campanha que todo adolescente que ver.

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O enredo do texto esta muito bem amarrado, com entrada e saida dos envolvidos nos momentos certos! Continue nos dando o prazer de curtir a leitura e imaginano sempre o que esta por vir...

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