Apaixonado Por Um Espírito - Conto Kadercista - Capítulo I

Um conto erótico de Passarinho
Categoria: Homossexual
Contém 7058 palavras
Data: 26/03/2014 17:37:47
Assuntos: Gay, Homossexual

Era a terceira vez que Molly parava o carro para Tommy vomitar. Os médicos sempre lhe asseguravam que estavam a fazer tudo o que era possível e até o que não era. Todo mundo que tem um filho doente sabe qual é a sensação de que o está perdendo aos poucos, de que ele está caindo por um precipício e você está agarrado à mão dele com toda força mas sua mão está suada... Está oleosa, e aos poucos ele vai escorrendo e não te resta nada exceto se desesperar ou esperar que alguém venha em seu encalço ajudá-la a puxá-lo de volta, algo como uma solução mágica vinda do céu... Tipo um milagre. Enquanto essa ajuda miraculosa não chega você exprime força até da sua célula e a transfere para a sua mão. Mas é como se algo o estivesse puxando pra baixo também, para o outro lado.

- Mãe não olha não, eu to legal... Eu to bem. – Tommy falava lá de fora quando tomava ar suficiente para falar.

- Deus não o faça sofrer... Não o leve de mim por favor – Molly colocava as mãos no volante enquanto esperava aflita. Essa era a ladainha que ela recitava à si mesmo constantemente desde que soube da doença de seu filho.

- Você está bem? – Ela perguntou quando ele finalmente entrou no carro respirando aliviada internamente. Queria ver o que acontecia com seu filho, mas ele disse achar extremamente desconfortável que o vissem vomitar e preferia privacidade nesses momentos. Coisas de adolescentes, claro. E contrariando todos os seus instintos protetores ela fazia o que ele queria. Claro, já era ruim demais pro garoto ter câncer apenas com dezessete anos, ela não ia dificultar mais ainda as coisas pra ele.

Há um ano ela descobriu que seu filho Tommy tinha câncer. Durante o período de tratamento descobriram que a quimioterapia teria pouco a fazer por Tommy e o médico sugeriu que o garoto fosse submetido a um estudo inovador. Tommy se qualificou e durante todo esse tempo estava preparando seu corpo para ser submetido ao tratamento. Fazendo exames, verificando se o corpo de Tommy é de fato compatível, tirando amostras e mais amostradas de sangue, tomando antibióticos e agora o médico finalmente o liberou para tentar um tratamento que fazia muitas promessas, mas que envolvia uma concentração de radioatividade em determinadas áreas mais sensíveis do corpo e por isso, era muito perigoso, além de caríssimo, claro. Segundo o médico, tontura, enjoos, sonhos estranhos, irritação na pele, dores nos ossos, no estômago, ardor nos olhos e alguns outros sintomas eram normais durante o período de tratamento. Segundo o médico, o vômito se dava pelo fato de que as células doentes estavam morrendo e sendo substituídas por outras.

Mas se Tommy passasse a ter visões, alucinações, delírios ou ficasse desnorteado bruscamente seria um sinal de que tumores se formavam no cérebro e, portanto, o tratamento deveria ser interrompido imediatamente. Depois que o médico fez Tommy prometer duas mil vezes que ele avisaria se algo dessa natureza acontecesse, eles iniciaram a primeira etapa do processo. De mês em mês Tommy se sujeitaria as sessões. E durante esse período ele seria avaliado. Segundo os médicos, as chances de cura eram boas.

A família de Tommy é composta por cinco componentes. Molly Green é uma juíza muito competente que conheceu Gilbert Kendrick, um promotor, em um tribunal. Amor à primeira vista, logo nasceu Tommy Kendrick, o citado garoto que é protagonista dessa história. Depois de alguns anos nasceu-lhes uma menina, Bianca Kendrick que hoje está com dez anos e por último tiveram Anne Kendrick, a caçula da casa que tem a idade igual ao número de dedos que ela tem na mãozinha.

A família de Tommy era uma família convencional, com seus problemas cotidianos e vida rotineira. De manhã as garotas acordavam para ir à escola, Tommy costumava dormir até as 10:00 AM, pois só tinha aula à tarde, Molly levantava, preparava o café, acordava as crianças e ia deixá-las na escola, quando voltava seu marido já estava acordado, ambos se arrumavam, e iam para o trabalho. Ao meio dia, eles voltavam do trabalho, pegavam as crianças na escola, (Nos dias da semana compravam comida de um restaurante excelente que Gilbert amava), almoçavam, Tommy ia para a escola de 13:00 PM e voltava de 17:30 PM. Era uma família comum. Tinham uma condição financeira bem estável. Economicamente falando, estavam quase saltando da classe média para classe média alta quando a triste notícia da doença do primogênito do casal os fez usar todas as economias e dinheiro que tinham investido na Bolsa no tratamento do garoto. Utilizando o que há de mais moderno na ciência contemporânea, tiveram logo que hipotecar a casa e agora estavam se mudando pra uma casa bem mais modesta, em um bairro não tão reconhecido.

Apesar disso, Molly tentava reconfortar Tommy e assegurava-lhe todo o tempo que a culpa não era sua, que podia ter sido qualquer um dos cinco. E que eram uma família e o problema de um, afetava diretamente a todos. Isso não convencia Tommy que ficava cada vez mais amuado com tudo isso... Ainda não falamos muito de Tommy aqui. Tommy nunca teve muitos amigos, era um típico nerd... Adorava passar horas fuçando na internet, ler gibis e mangás, mergulhar no delicioso mundo dos livros, assistir filmes, estudar, curtia Rock, música clássica, MPB, Blues, Jazz. Era um menino muito retraído, porém era inteligente. Apesar de sua vida social estar constantemente em coma Tommy nunca foi feio... Tinha o cabelo loiro que corria-lhe pela testa como numa franja que lhe caía muito bem, lábios carnudos que deixavam sua boca apetitosa, sua camisa ficava apertadinha no seu uniforme escolar, apesar de nunca frequentar academia. Na verdade, a solidão de Tommy se dava mais por auto exclusão do que por outra coisa qualquer... Acontece que Tommy odiava pessoas superficiais e todos que ele conhecia na escola eram assim, superficiais. Não... Tommy gostava muito mais de se perder em seu próprio mundo paralelo a ter que dividir uma realidade rasteira com idiotas.

- Estou melhor mãe... Acho que o balanço do carro que me deixou assim.

- Evite falar muito então. – Falou Molly de forma benevolente olhando pelo espelho retrovisor o garoto que esfregava a barriga tanquinho por cima da camisa.

- Onde fica essa casa nova? Nunca andei pra esse lado da cidade antes – Perguntou o garoto que terminou a frase com um pequeno gemido, lamentando-se mentalmente por não ter conseguido guardar sua curiosidade.

- Estamos perto – Falou. Após encarar o olhar acusador de Tommy sua mãe rapidamente emendou. – Ahh nem vem! Esse bairro nem é tão desvalorizado assim. A casa é simplesmente enorme e tem pelo menos um século. É quase um artefato histórico.

- Quanto tempo será que essa sensação de que tem alguém puxando minhas entranhas vai durar? – Tommy perguntou suplicando com o olhar para a mãe mentir, caso o tempo fosse longo.

- Alguns dias... Mas acho que a sensação de mal estar vai diminuindo com o passar do tempo.... Eu comprei o remédio para enjoo que o médico passou e quando chegarmos você já vai poder tomar... – O pensamento do simples antibiótico para náuseas que Molly teve que comprar e que custou nada menos que trinta e cinco reais cada cápsula quase a fez suspirar. Mas conteve-se a tempo para não desanimar o filho. – Já está sendo difícil demais pra ele passar por isso – Repetia para si mesmo isso como um mantra.

Finalmente entraram no bairro da casa nova. Todas as casas eram antigas e grandes. A rua era espaçosa e no centro entre a via de ir e vir ficavam coqueiros mui grandes. Era uma rua escura e tinha um aspecto meio sinistro por seu pouco movimento e sua quietude inquietante. Pararam em frente a uma casa de muros altos incrustada com pedras brancas. Tommy olhou para seu novo lar pelo vidro do carro e exclamou um UAU. A casa parecia mesmo aquele tipo de casa que se vê nos filmes.

Tinha uma pintura preta, um aspecto antigo, lógico, devia ter uns três andares, no mínimo, e era pintada na cor preta. A casa, ou melhor, o casarão deu um arrepio involuntário a Tommy.

- Éhhh... Chegamos! – Falou Molly que no auge dos seus trinca e cinco anos ainda conservava uma beleza ímpar.

- A senhora não achou ela meios sinistra? – Perguntou Tommy incerto.

- Está com medo – Molly perguntou provocando o garoto.

- Não... Claro que não. – Tommy apressou-se a dizer – É só que ela é meio estranha...

- Estranha??? Estranha como??? – Molly perguntou sabendo exatamente como Tommy se sentia em relação aquela casa, porque ela sentia o mesmo frio na espinha que ele. E embora seus calafrios fossem constantes essa era a melhor casa em conta que ela encontrou. Mas ela não ia dar essa colher de chá pro garoto. Conhecendo ele como ela conhecia admitir isso seria como jogar uma boia pra ele, enquanto ele se afogava. Ele ia se agarrar a essa confissão com toda força.

- Ahh.. Sei lá! – Tommy falou sem saber como exprimir sem sentimentos de uma forma que não parecesse que ele estava com medo. – Quanto tempo faz que ninguém mora aí?

- Acho que uns cinco anos – Disse Molly - Vem... Deixa de coisa. Vamos entrar! Já trouxeram nossas coisas pra cá e eu tenho muito o que arrumar. Daqui a pouco já vai ser hora de seu pai pegar as meninas no colégio e aí já viu. – Molly falou suspirando com o pensamento das crianças correndo pra cima e pra baixo bagunçando o que ainda nem foi arrumado.

Molly e Tommy desceram do carro e foram em direção a casa. Tommy ainda estava enjoado. Molly procurou o molho de chaves perdido na densa dimensão de sua bolsa e quando finalmente encontrou-a, abriu o portão. Ambos adentraram num jardim não muito bem cuidado que devia ter de uns vinte e cinco a trinta e cinco metros de cumprimento. Havia algumas árvores em alguns cantos e a grama estava um pouco acima do nível. Molly observou o lugar lembrando-se mentalmente de contratar os serviços de jardinagem o mais rápido possível. Quatro espreguiçadeiras encontravam-se sob uma tenda ainda no jardim. Nos cantos e ao redor das árvores muitas flores foram plantadas. Mal cuidadas, cresceram em quantidades e formas desnecessárias dando ao lugar um contorno meio selvático. Na frente da casa encontrava-se uma varanda com uma latada e um telhadinho preguiçoso que parecia meio reconfortante. Um banco como um balanço estava lá se movendo monotonamente por conta do vento.

- O que achou? – Perguntou Molly observando de canto de olho, um Tommy incerto.

- Acho que ficará legal, depois de uns tratos.

- Ieahr! Depois de uns tratos. – Falou ela sorrindo e arrancando de Tommy um sorriso também.

- O que foi Brow... Eu to ligado nessas paradas de gírias aear! – Falou ela saltando na frente do garoto e fazendo a mão chifruda – Toca aqui – Ela estendeu a mão sinalizando que Tommy deveria esfregar a sua na dela brevemente, numa imitação torta dos cumprimentos dos jovens. – Embaixo agora – Falou ela e o garoto sorriu e fez – Em cima – De novo, o garoto tocou, suspirando internamente – No meio agora.

- Tá.. Agora já chega! Acho que você tem muito em quê trabalhar hoje – Falou o garoto rindo da mãe. Eles entraram na casa.

- Ohhwnn... Nem me lembre – Falou sua mãe saindo de sua pose de descolada e gemendo com tal pensamento. Ela correu, subiu os quatro degraus que separavam o jardim da área e abriu a porta da casa.

Entraram. O primeiro pensamento de Tommy foiPreciso de um banheiro. Após correr e abrir portas e mais portas finalmente encontrara um banheiro. Trinta minutos depois saía com um aspecto meio doentio. Suspirou. A casa não aparentava estar suja como Tommy imaginava que estaria o que o fez supor que ou o vendedor deve tê-la arrumado antes de entregar as chaves a sua mãe ou sua mãe contratou empregados para dar meio que uma arrumada na casa antes da mudança. Não importa.

Por todo chão haviam caixas e mais caixas com as coisas da antiga casa, que já viera na mudança. Sua mãe já corria pra cima e pra baixo com um canivete na mão rasgando os adesivos das caixas e retirando bugigangas. Molly não fez comentário algum sobre o tempo que Tommy passou no banheiro, o que ele muito agradeceu. Resolveu conhecer um pouco a casa. Em frente à porta da frente da casa havia uma grande escada de madeira marrom que conduzia aos andares superiores. Depois da sala de estar, chegava-se a sala se vídeo, e outra porta na sala de estar levava a sala de jantar que por sua vez tinha uma porta que levava à cozinha. A cozinha era enorme. Tinha um balcão, um fogão e armários embutidos na parede. Na cozinha havia umas três portas. Abriu a primeira e adentrou num pequeno espaço. Uma dispensa. Na outra porta encontrou um outro cômodo. Havia ali uma lavadora, uma secadora, uma pia, uma tábua de passar e vários armários onde certamente se guardavam sabão, amaciante de roupas e esse tipo de coisas. A outra porta conduzia aos fundos da casa. Os fundos eram no mínimo, três vezes maior que o jardim na entrada. Nas laterais da casa, encontravam-se oitões largos suficientes para passar uma moto ou talvez até duas motos de uma vez. Havia um velho carvalho ali cercado de moitas e pequenos arbustos por todo lado. Aqui a grama também estava acima do tamanho ideal. No carvalho havia um balanço sustentado seguramente por cordas atadas firmemente a um dos cecídeos da planta. De alguma forma o lugar pareceu-lhe bem mais sinistro ali. A luz do sol penetrava mais fracamente ainda nos fundos da casa.... Porque será que ele sente-se tão pesado aqui? Com essa sensação tão estranha? Deve ser coisa dos medicamentos...

Encostou sua mão na parede e colocou força para descansar um pouco. Os ossos da perna estavam doendo e sua coluna também... Achava que não muito mais iria suportar e iria logo pedir arrego e procurar um lugar pra deitar um pouco quando algo aconteceu. A parede se rompeu onde colocara força com a mão. Como se tivesse colocado força em uma parede de madeira podre ao invés de uma parede de alvenaria. Após cambalear e recobrar o equilíbrio puxou de forma inata e imediata a sua mão para descobrir que estava suja com o que parecia-lhe ser restos de comida podre e muitos, muitos vermes do tamanho de um dedo mindinho que subiam-lhe pelo braço.

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! – Gritou e tudo aconteceu muito rápido. No tempo que se leva para abrir e fechar os olhos tudo desapareceu. O buraco na parede que sua mão provocara simplesmente sumiu e sua mão estava perfeitamente intacta e limpa como estivera alguns segundos atrás.

- O que houve? – Molly corria-lhe ao seu encontro ofegante e vasculhando com os olhos Tommy de cima abaixo procurando pelo motivo para o seu grito.

- Na..Não foi nada. Eu... Eu... Só escorreguei. – Falou Tommy ainda observando sua mão como se esperasse ver ao menos um verminho andando entre seus dedos.

- É mesmo?? – Perguntou Molly com aquele típico olhar desconfiado. – Tem certeza?

- Sim. Tenho certeza. – Falou Tommy a encarando sem piscar e sem desviar os olhos até que ela o fizesse. Técnica essa que ele aprendeu quando mentia para sua mãe. Não era o melhor mentiroso do mundo, mas também não era o pior.

- Eu... Eu vou procurar um lugar pra dormir. To com muita dor nos ossos.

- Vem... – Eu já preparei seu comprimido e sua água. Estão aqui na cozinha. – Falou ela saindo automaticamente daquela postura de juíza inquiridora e debruçando-se mais uma vez sobre a realidade da vida. – Ela o guiou de volta a cozinha onde um copo com água e um comprimido azul estava numa bandejinha improvisada em cima da mesa. Tommy tomou-o rapidamente e sem mastigar (Recomendações médicas) e em seguida foi novamente ao banheiro. Trancou-se e lavou seu rosto com a água da pia. Encarou o espelho meio embaçado e viu os seus próprios olhos verdes lhe encarando. – Não é possível! – Disse pra si mesmo. – Eu não posso estar alucinando... Isso não pode estar acontecendo. Eu não posso fazer esse tratamento dar em nada. Esse tratamento NÃO VAI dar em nada. Foi ali, no âmago daquela disputa interior que decidiu não contar absolutamente nada do que lhe acontecera a quem quer que seja.

Saiu do banheiro e voltou à sala de estar. No caminho passou por outras duas portas, que ainda não sabia em que cômodo davam, mas se deteve na porta bem menor que uma porta comum sob a escada principal. Abriu-a e encontrou um breu que o cegou momentaneamente. Tateou as paredes em busca de um interruptor e finalmente o encontrou. A fraca luz vinda de uma lâmpada lhe mostrou uma escada que descia para o que parecia ser uma espécie de porão. Desceu até o lugar e encontrou um espaço tão grande quanto à própria sala de estar. Haviam mais caixas e móveis nos cantos das paredes mas pelo menos a limpeza que fizeram recentemente se estendeu até aquele lugar. No fundo, havia um compensado de madeira grossa da mesma cor que a madeira da escada com apenas duas janelinhas do tamanho de um braço com um vidro de um lado só. Entendeu que o compensado servia como uma espécie de parede para dividir aquele cômodo em que se encontrava de um outro cômodo, do outro lado. Na parede, encontrou uma porta e havia uma maçaneta, naturalmente, mas ela não girava. Tommy tentou forçá-la, mas estava emperrada. Desistiu e tentou, inutilmente, dar mais uma olhada no vidro. Sem nada ver, contudo dirigiu sua atenção ao restante do cômodo. Havia uma outra porta ali que dava, para grande surpresa de Tommy, para um banheiro. O banheiro não era tão grande quanto aquele da sala de estar, mas era grande o suficiente. Tinha um Box que dividia o lugar de tomar banho da pia e do vaso sanitário. Não tinha banheira, mas quem ligava? Saiu pra fora e gritou:

- MÃÃÃÃÃÃÃÃE! – Nada. Nenhuma resposta. E olha que a porta acima da escada estava aberta.

- MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃAE! – Gritou mais forte dessa vez e mais uma vez nenhuma resposta. – Sorriu largamente e subiu a escada dois degraus de cada vez, só pra se arrepender ao chegar ao final. Pois suas pernas protestaram lembrando-lhe de que ainda estava com dor nos ossos.

Sua mãe passava nesse momento da porta que ele não sabia que cômodo era para a cozinha com uma caixa nos braços.

- Eih, mãe. Desce aqui.

Ela parecia que ia reclamar dizendo-se ocupada, mas pensou melhor, colocou a caixa no chão e o seguiu. É aqui que vou dormir. Esse vai ser meu quarto.

- De jeito nenhum – Falou sua mãe irredutível, olhando para o espaço meio sombrio. Você não vai ficar aqui embaixo.

- Claro que vou! É perfeito! É simplesmente enorme e tem até um banheiro. E o melhor de tudo... Ninguém vai ouvir quando eu vomitar daqui.

Molly enrijeceu – Você não precisa se esconder de nós.

- E eu odeio quando escutam o barulho de meu vômito, isso faz com que eu me sinta ainda pior – A expressão da sua mãe passou de choque para estático em um segundo. Odiava infligir dor em sua mãe, mas se não usasse esse argumento ela não permitira que ficasse ali.

- Está bem – Ela concordou a contragosto com um muxoxo quase inaudível. Ela olhou o ambiente com outro ar. Um ar técnico, certamente estava pensando no que precisaria mudar, o que precisaria limpar... Ela viu a porta na parede de madeira e tentou abri-la. Ambos encostaram os olhos no vidro tentando ver do outro lado.

- O que você acha que tem lá – Tommy perguntou.

- Eu não tenho ideia – Falou pensativamente.

Ela o ajudou a transportar e montar sua cama de casal ali (onde ela coube mais que confortavelmente) e depois colocou o colchão, pôs um lençol improvisadamente e se foi. Tommy se deitou e não sabe por quanto tempo dormiu, mas acordou com uma ânsia de matar. Saiu correndo para o banheiro e derramou-se lá por algum tempo. Lavou a boca e escovou os dentes com sua escova, que já estava lá. No quarto encontrou móveis, caixas e mais caixas com as coisas de seu antigo quarto, certamente sua mãe já os tinha levado para lá.

Subiu as escadas e adentrou na sala, mas não antes de olhar de esguelha para o vidro e ter uma sensação estranha. Como abrir a geladeira numa madrugada muito fria. Lá fora se deparou com barulho de crianças correndo. Eram suas irmãs correndo e se familiarizando com o ambiente.

- Oi doido – Falou Anne que já quase perdera completamente sua dicção infantil.

- Oi tampinha. – Falou ele.

- Eae campeão, tudo bem? – Perguntou seu pai vindo e dando-lhe um abraço. Seus pais sempre gostaram de contato físico. Isso foi no mínimo triplicado depois que descobriram ter um filho doente. Não que ele não gostasse de abraços, mas sentia que lhe abraçavam como se dissessem ‘essa pode ser a última vez que abraço meu filho’. Espantou automaticamente esse pensamento idiota. Procurava pensar o menos possível na morte. E nunca chegou a cogitar a hipótese de que poderia não sobreviver e morrer muito em breve. Sua vontade de viver sempre foi maior que o medo da morte, em si.

- Oi, pai... Tá tudo bem sim. Só com um pouco de dor de cabeça e dor no corpo. – Sei... Sei. Queria ter estado lá com você, mas você sabe que eu precisei ir trabalhar, não é? – Falou ele com uma voz de ‘meu-filho-me-perdoa’.

- Eu sei pai... Não se preocupe. – Falou Tommy passando o máximo de confiança que podia. Muitos móveis já estavam montados. E grande parte das caixas já haviam sumido.

- Que horas são? – O garoto perguntou e sua mãe que descia as escadas naquele momento anunciou que eram quase nove e o jantar já ia ser servido. Ele dormiu por muito tempo.

Todos foram à mesa da sala de jantar e se sentaram para comer. – Bianca, faça as preces. – Falou o pai de Tommy, Gilbert, dando início a um costume tão antigo na família Kendrick que já era quase que um ritual. Agradecer a Deus pelo alimento. Todos deram as mãos e baixaram a cabeça e então de súbito, aconteceu. Tommy viu como que num flash em sépia uma criança de cabelos negros e lisos correndo. Usava uma espécie de terno antigo e um boné parecido com uma boina na cabeça. Atrás dele corria uma mulher com um vestido branco. Era jovem, bela, com um cabelo amarrado num coque, usava um vestido que era muito rodado da cintura para baixo e claramente era bem antigo também, ela pegou o menino que lhe fugia pela cintura e o girou no ar sorrindo e brincando. No plano de fundo Tommy reconheceu o salgueiro bem mais jovem e seu balanço dos fundos de sua casa. A cena desapareceu com a mesma rapidez com que surgira e Tommy estava em outra cena, nessa o menino chorava ao pé da escada da casa. Aparentava ter crescido uns bons anos entre a transição de uma cena e outra. A escada estava lustrosa e a madeira marrom não era desbotada como o era agora, mas parecia ter sido lustrada naquele instante. Tinha um brilho acetinado e seguramente daria para ver seu reflexo nela. Mais uma vez a cena desapareceu e foi substituída por uma outra. Um grupo com cinco pessoas circulava uma mesa redonda. Todos de mãos dadas e de olhos fechados. Moviam a cabeça de um lado para outro como se estivessem navegando num elevado plano espiritual. Pareciam em transe e suas expressões exalavam concentração. Havia uma velha de cabelos brancos e pele enrugada que devia ter pelo menos sessenta anos, um homem de terno com bigode que devia ter uns 35 anos, a mulher, Tommy reconheceu ser a mesma que brincava com o garoto nos fundos daquela casa, da sua casa. Havia também uma moça que devia ter uns 16 anos, usava uma vestimenta parecidíssima com os trajes da mulher que estivera com a criança, na cabeça, usava um laço de fita que parecia uma tiara ou um diadema. Era bonita. Tommy não gostou de encará-la, sentiu-se muito, muito estranho. Foi como encarar um espelho muito embaçado. Ou uma fotografia de um parente falecido distante que nem mesmo chegamos a conhecer. A moça agarrava a mão de um rapaz com muita força. E Tommy notou com um sobressalto que aquele rapaz era o mesmo garoto das outras duas visões, só que agora estava bem mais crescido. Era um adolescente e pareceu ser da mesma idade que o próprio Tommy, deduziu. Tinha uma massa muscular inferior a de Tommy, mas não era magro, tinha ainda seu cabelo negro e liso, sua boca era carnuda, o garoto era muito bonito. Tommy desejou que abrisse os olhos para que visse a cor deles, usava também o que pareceu a Tommy um terno, como o do homem, mas sem gravata. A expressão do garoto demonstrava intensa concentração, como dos outros, mas ia além disso. Ele sentia dor, muita dor. Derrepente o Garoto gritou e isso sobressaltou Tommy. Não era o grito como o seu, que há poucas horas gritara por sua mãe, chamando-a. Era um grito de grande agonia... Um grito que alguém que estivera sendo queimado vivo preso numa casa durante um incêndio soltaria. Era um grito sufocante, angustiante, de arrepiar o último fio de cabelo de seu corpo. Com o grito do garoto a mesa redonda começou a se mexer sem que nela tocassem, a iluminação do local que provinha de muitas velas começou a vacilar e a tremer, a maioria apagou. Eles nunca soltaram as mãos.

Tommy abriu os olhos e descobriu que ouvia um grito ali também. Mas já não era o grito de agonia do rapaz. Era um outro grito... Um grito de sua irmã pequena. Ela gritava porque Tommy estava apertando a mão dela com muita força. Tudo isso aconteceu em questão de momentos.

- Tommy solte a mão dela – Sua mãe falou boquiaberta. Todos o encaravam espantado. O que estivera fazendo nesses momentos de delírio? Parecendo um lunático, certamente? – Desculpe, Tommy apressou-se a justificar-se. Eu estava concentrado pedindo a Deus que me curasse. – Todos desviaram o olhar imediatamente para seus pratos. Tommy quase nunca fazia esse tipo de comentário constrangedor. Mas o que ele ia dizer? Se contasse o que viu achariam o óbvio, que estava a ter alucinações, que era a verdade e o tratamento seria automaticamente interrompido.

Desde que Tommy descobriu estar doente sua dieta mudou drasticamente. Agora, por exemplo, seu prato estava repleto de beterraba, alface, coentro, arroz, cenoura... Tudo o que qualquer adolescente adoraria comer. :D. Mas dessa vez comeu sem reclamar, sem fazer cara feia, na verdade, nem chegou a sentir o gosto da comida. Seu pensamento estava naquele garoto, naquela mesa... Que lugar era aquele? Quem eram aquelas pessoas? Será que estava ficando louco? Não... Repetia pra si mesmo. Tudo isso são só os efeitos do tratamento. Tenho que entender que nada disso é real. Nada disso.

Terminaram de comer em silêncio e Tommy falou que ia pro seu quarto, dormir. – Espere, filho, falou sua mãe. Você precisa tomar seus remédios. Tommy tomou uns três comprimidos e um grande copo com água e em seguida foi pra cama. Estava um pouco assustado com tudo isso, mas não ia se dar por vencido por causa de umas visagens idiotas. Ele precisava derrotar o câncer. Era sua única chance.

Fez sua higiene noturna e preparou-se para deitar. Pelo menos as náuseas não tinham voltado desde que acordou. Deitou na cama e foi como se apagasse. Sentiu algo o incomodando... Algo gemia... Gemia... Gemia... Gemia. Abriu os olhos e a escuridão do ambiente o cegou. Levou cinco segundos para lembrar-se onde estava. Sentou-se na cama e observou mais o barulho. Era a casa. Ela rangia por ser antiga. Ia demorar a acostumar-se àquilo. Levantou-se e foi ao banheiro urinar, lavou as mãos, pegou um copo com água na escrivaninha e o tomou. Deitou-se e dormiu novamente.

Sonhou que estava num parque. Um lugar muito verde e muito bonito. Não se lembrava de já ter estado ali algum dia. Logo ali perto tinha um laguinho e patinhos brincavam serenamente. Estava deitado sob uma toalha muito grande de piquenique. Na toalha, tinha uma cesta de palha, dessas de piqueniques mesmo, além de tortas, bolo, jarras com sucos, morangos, vasilhas com chocolates, doces e diversas outras frutas.

Mas não era isso o mais estranho. Tommy não estava sozinho. Estava com a cabeça deitada no colo do rapaz da visão. O rapaz sorria-lhe exibindo seus dentes muito brancos, ele colocava na boca de Tommy uvas que ele retirava do cacho. Ambos sorriam como se fossem familiares a uma eternidade. Era estranho, pois no sonho Tommy sentia como se conhecesse o rapaz desde sempre. Eles tratavam-se com uma intimidade muito grande. Tommy não lembrava de já ter tido tal intimidade com alguém. As mãos do rapaz acariciavam o braço de Tommy e onde ele tocava, Tommy arrepiava-se. Tommy por sua vez usava suas mãos para acariciar o braço do rapaz que por sua vez acariciava o seu, Tommy tocava-o o máximo que podia, ambos tocando-se mutuamente. Desejando-se. Mas o que mais chocava disso tudo era a forma como se olhavam. Era como se vissem um no outro a materialização de todos os seus sonhos e desejos. Com a boca, o garoto beijava o cabelo loiro de Tommy. Tommy não se lembrava de ter estado tão feliz assim antes. É uma sorte os tratamentos contra o câncer de Tommy não o terem deixado-o careca. No começo do tratamento perdeu o cabelo, mas logo cresceu de novo. As mulheres era quem tinham mais problemas com isso. O garoto também parecia feliz que o cabelo estivesse ali... Ele gostava de acariciar os cabelos de Tommy. Ele amava isso. O rosto do garoto encostou-se ao cabelo de Tommy e ele inalou o cheiro e depois exalou pela boca como se estivesse embriagado num êxtase ou num torpor. Seus lábios desceram até a orelha de Tommy e onde ele encostava Tommy sentia a pele arder, queimar. Ele passou até a bochecha e Tommy virou o rosto. Eles estavam a milímetros um do outro. Lentamente foram vencendo esse espaço que os dividia, esse inimigo, esse empecilho e suas bocas se roçaram. Tommy Acordou e lágrimas lhe caíam dos olhos.

Lentamente levantou-se e tocou com a ponta dos dedos os lábios. O quarto estava mais claro, já devia ser de manhã. Ok! Tommy concedia, esse deve ter sido o sonho mais estranho que já tivera em toda a sua vida, disputando esse ranking, inclusive os pesadelos bizarros. Não era gay, nem bissexual, nem nada do tipo. Não era um preconceituoso, mas se achava hétero. Afinal, sempre reparava nas meninas e nunca nos meninos. Não era libidinoso, mas até ali se achava normal.

Lá fora sua mãe corria pra cima e pra baixo arrumando coisas. As crianças tinham acabado de sair para a escola. Atarefada como estava Molly nem percebeu um vulto que passou repentinamente atrás dela. Ou a porta que abriu misteriosamente enquanto passava ou o par de olhos castanhos que a observou enquanto carregava um abajur para o quarto das meninas. Desceu as escadas e encontrou Tommy que vinha saindo do seu quarto.

- Oi? Dormiu bem – Falou ela com seu sorriso costumeiro saudando-o.

- Dormi péssimo, essa casa faz muitos barulhos. – Falou Tommy emburrado lembrando que dormiu mal, mas o motivo fora outro.

- A casa é antiga, deve ser o encanamento. – Falou Molly sem parar para observar a expressão de Tommy frente a sua explicação racional.

- É. Eu imaginei. – Falou Tommy se debruçando ante ela e já movendo coisas de lugar, ajudando-a a arrumar aquele caos.

- Contratei o serviço de empregadas para me ajudar a arrumar tudo isso. O caminhão com o restante dos nossos móveis chegará a qualquer momento.

- Que bom – Falou Tommy que estava com muitas saudades de seu notebook.

- Tem frutas, torradas e seu iogurte na mesa. – Falou sua mãe que nunca o olhava mais que duas vezes. Ele suspirou com o pensamento do pavoroso iogurte que tinha que tomar toda santa manhã e foi em direção à mesa. Forçou as torradas com manteiga light a descerem por sua garganta. Mas teve de parar no iogurte. Que coisa medonha.

- Não pode ser tão ruim assim. – Falou sua mãe que passava em direção a cozinha e parava para olhar sua expressão com olhar meio zombeteiro, meio debochado.

- Hmmm.. É mesmo senhora Kendrick? – Tommy levantou-se de um salto, foi em direção à cozinha e voltou com um outro iogurte na mão. Entregou-o a sua mãe que o recebeu com ar descontraído.

- Saúde – Falou ele encostando seu iogurte no dela, num brinde, ela abriu a embalagem e o bebeu divertidamente em seguida o olhou com cara de ‘não-to-nem-aí’ só para dois segundos depois curvar-se teatralmente sobre sua barriga e sorrir colocando a mão na boca.

- Tá! Não é a coisa mais gostosa que eu já provei, Deus do céu. – Falou ela rindo mais.

As empregadas chegaram assim que Tommy terminou de tomar café da manhã. Eram seis delas e dois jardineiros. O caminhão com os demais móveis também não demorou a chegar. Os montadores os colocaram onde a mãe de Tommy ordenava e Durante toda a manhã as empregadas comandadas pela minha mãe ficaram correndo para cima e para baixo ora arrumando coisas, ora abrindo caixas, ora movendo móveis de lugar. Tommy levou tudo o que pertencia ao seu quarto lá pra baixo e preocupava-se muito mais com ele o que com os outros cômodos da casa. O pai de Tommy chegou pelas 10:00 AM com tintas, pinceis e juntos pintaram o quarto de Tommy que estava com uma pintura tristonha para um branco metido a creme que o deixou com ar mais descontraído. A tinta não tinha cheiro e secava rápido. Foram pintar o quarto das meninas lá em cima enquanto o seu não secava. Tommy foi lá fora e viu um jardim bem mais apresentável. O carro de seu pai estava estacionado na vaga e ali perto tinham algumas caixas. Tommy pegou uma delas, era leve, e ia levando quando seu pai o viu e saiu correndo com aquele ar que ele já conhecia bem.

- Eih... Eih... Cuidado... Cuidado... Cuidado com isso aí. – Tommy pôs a caixa no chão e seu pai suspirou aliviado.

- Não vou me machucar levando uma caixa de papelão que não pesa nem cinco quilos. – Gilbert o olhou e concertou automaticamente sua postura. E quem disse que falo por você? Estou mandando ter cuidado para não arranhar meu carro. Disse isso, sorriu e tocou o dedo na ponta do nariz do garoto. Ele ia dizer que o pai era um péssimo mentiroso, mas pensando bem, não queria ouvir uma confissão mesmo e essa desculpa até que foi muito mais engolível do que as outras.

Levou o resto de suas coisas para seu quarto, a tinta já estava seca e os móveis montados. Colocou seus pôsteres de Guns N' Roses, Green Day, Nirvana, Bon Jovi, Aerosmith, Legião Urbana, Cazuza, Beatles e Air Supply pelas paredes. No final, já achava que podia chamar aquilo de ‘seu quarto’. Com uma chave de fendas remontou sua mesinha de computador que estava mole, seus criados-mudos, seu guarda-roupas já estava montado, haviam cômodas e armários diversos por todo o quarto. Colocou sua Tv de plasma no rack e conectou-o ao aparelho de DVD, ao Xbox, ao aparelho de som, guardou seus livros na estante, colocou os abajures nos locais que queria, organizou seus gibis e quando estava tudo no lugar que ele queria duas empregadas foram dar aquele toque de limpeza no quarto e no banheiro. Seu pai trocou a lâmpada das escadas e as duas no quarto por outras mais potentes.

- O lugar é meio escuro, mas acho que dá um bom quarto. Além do mais já fui adolescente também. – Gilbert viu a parede e movido pela curiosidade foi até ela.

– O que tem aqui? – Perguntou.

– Eu não sei – Respondeu Tommy. – Não consegui abrir.

Seu pai tentou, inutilmente, forçar a porta. – Provavelmente é usado como depósito ou algo do tipo.

Quando as meninas chegaram da escola não havia mais caixas soltas e aleatórias pelo chão, a casa estava muito limpa e reluzente e o jardim perfeitamente aparado. É! Parece que a casa não é tão ruim assim... Aquela tarde foi com certeza bem mais fácil para Tommy. Pois não tivera que passar o susto de sua amável mãe que enquanto arrumava o quarto das meninas encontrou uma mala com diversas fotografias que a deixaram chocada. Haviam pessoas com capuzes preto em formato de cone na cabeça no que parecia ser um culto, haviam também muitas fotos de cadáveres, de múmias mas também de animais, pessoas sorrindo e felizes, plantas. Era bizarro. Molly levou tudo aquilo chocada ao lixo e colocou folhagem por cima. Não queria correr o risco que alguma das crianças visse aquilo.

A Internet e a TV por assinatura também foram instaladas aquele dia. As cinco e quinze Tommy saiu do computador e finalmente cedeu aos apelos da sua mãe que já a muito o chamava. Foi tomar os seus remédios. Chegando a cozinha sua mãe estava com um rodo esfregando o chão.

- Estão em cima da mesa – Ela falou distraída, mas Tommy não mais ouvia. Sua atenção estava concentrada no chão. Ao invés de espalhar água o rodo espalhava sangue muito vermelho. Ele ficou chocado. Olhou assustado para sua mãe e apontou para o chão. Ela olhou para sua expressão e em seguida olhava com olhar urgente para onde ele apontava. Mas quando Tommy desviou o olhar dela e olhou novamente o chão não encontrou nada no chão exceto água. Olhou mais atentamente o chão, mas não via nada ali que não devesse ver.

- O que houve filho? – Perguntou Molly aflita.

- Nã... Não é nada. Tem uma sujeira ali. – Falou Tommy virando de costas fingindo buscar algo no armário de parede para sua mãe não ver sua expressão assombrada.

- Hmmmm – Molly disse simplesmente. Observando-o com seu olhar de coruja.

Andou até o armário e viu o copo de vidro que iria pegar para tomar a água. – Não é possível! – Pensou. – Estou ficando louco, só pode! – Olhou de canto de olho para o chão, para sua mãe não notar, mas o chão lhe parecia completamente normal. Voltou sua atenção para o armário, mas o copo que ficara a dois centímetros da sua mãe estendida simplesmente sumira. Ficou atônito. Abriu as portas dos armários procurando o copo. Não é possível! Ele viu!

- O que está procurando filho? – Molly perguntou.

- Não é... Nada é só um copo – Tommy olhou pra ela e ela tinha parado de esfregar o chão e o encarava com uma expressão muito desconfiada. Voltou sua atenção para o armário e o copo estava lá. Exatamente onde estivera antes. Com o susto bateu a mão no copo e ele caiu, espatifando-se em mil pedaços.

- Ai meu Deus! – Falou assustado e se abaixando para pegar os cacos.

Sua mãe correu para ele. – O que foi meu filho? Você está bem? O que aconteceu?

- O copo desapareceu e do nada surgiu de novo... – Falou Tommy com ar confuso.

- O médico disse... – Sua mãe falou, mas ele o cortou prontamente.

- Eu sei o que o médico disse, sei que se ficar vendo coisas ele vai suspender o experimento. Não precisa me lembrar disso. Não foi... Nada. Só o copo que caiu. – Ele tentou atalhar, mas ele próprio ainda estava ofegante. Respirou fundo internamente para passar mais confiança a sua mãe.

- Sabe que deve me contar se algo de estranho estiver acontecendo, não sabe? Sabe que não pode nos esconder nada, não sabe – Perguntou ela colocando as duas mãos em cada um dos lados de Tommy.

- Sim... Eu sei. Não foi nada, foi só minha mão que esbarrou no copo. – Falou ele pegando um outro copo e tomando os remédios o mais rápido possível. Saiu dali onde a presença da sua mãe o afetava... Precisava por as ideias em ordem.

Deixou sua mãe e foi para os fundos da casa. Passou pela churrasqueira elétrica que estava em um canto e foi direto para o balanço na árvore. Parou para observá-la. Era igual ao cenário da sua alucinação, não tinha dúvidas. Sim... Estava alucinando, só pode. Mas... Que lugar era aquele? Quem eram aquelas pessoas? O que faziam ali?O que acontecia com ele? Sentou no balanço perdido em pensamentos quando olhou para a casa e viu na janela de um dos cômodos do último andar a silhueta de alguém andando por trás das cortinas. Sabia que não era sua mãe e não tinha ouvido suas irmãs chegarem do colégio. Sabia que podia ser outra visão e ficou dividido entre a vontade de ir checar e o medo de comprovar que estava tendo mais alucinações. As meninas apareceram correndo de um dos oitões, brincando de pique. Não tinha sido uma delas, então. Deu a volta na casa por fora e entrou pela porta da sala. Subiu as escadas até chegar ao corredor que levava aos quartos. Entrou em um deles que estava vazio. Viu a janela que tinha visto pelo lado de fora, tocou a cortina. Sua atenção foi à porta do closet que estava entreaberta. Dirigiu-se até ela com bastante cautela, ergueu a mão e a levou até a maçaneta. Mas nesse instante um outro vulto passou do outro lado da cômoda. Seus pelos se eriçaram. Olhou os quatro cantos do quarto e quando ia voltar sua atenção para a porta do closetSeu pai entrou no quarto derrepente fazendo-o soltar um grito que logo foi repreendido.

- Eih, o que foi? – Seu pai perguntou preocupado.

- Nada... É que você me assustou. Só isso. – Respondeu Tommy com a mão no peito.

- Seu pai analisou sua reação com olhos preocupados. – Tommy Saiu do quarto e foi em direção ao seu porão.

Onde passou o dia todo lendo livros, mas de vez enquanto olhava assustado para todos os lados. Tinha a nítida impressão de que tinha alguém ali, o olhando. De vez enquanto ia até o vidro de uma face só e ficava olhando-o por algum tempo, tentando ver inutilmente pelo outro lado. Mal sabia Tommy que do outro da parede havia um garoto que também se inclinava para o vidro e ficava observando-o. Idolatrando essa proximidade.

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Comentários

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Fantástico, que conto maravilhoso realmente digno de um filme de suspense. Faço minhas as palavras do Matheus N, e endosso o apelo, não pare de postar!

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como o Matheus disse, realmente um otimo conto, continue o mais rapido possivel! Adorei tudo! abrçs...

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