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5 - A casa dele

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Um conto erótico de Diego
Categoria: Gay
Contém 2325 palavras
Data: 18/07/2026 01:43:13

Numa noite qualquer de semana, sem que o assunto tenha sido levantado antes, Henrique diz que não faz sentido eu continuar pagando aluguel num apartamento onde passo cada vez menos tempo. Diz isso com a voz de quem está resolvendo uma questão logística, como quem reorganiza uma planilha. Que o quarto de hóspedes da casa dele está vazio, que eu posso usar. Que faz mais sentido.

Não sei se eu esperava ou desejava isso, mas pensei que ele diria que poderia dormir com ele na cama e não no quarto de hóspedes.

- Diego, você sabe que eu sou espaçoso, gosto de ter a cama só pra mim, de vez em quando é claro que você pode dormir comigo mas não vão ser todos os dias.

Na semana seguinte eu já começo a me desfazer de tudo e levar o que importa pra casa dele.

A casa de Henrique é grande. Três quartos, garagem pra dois carros, área de serviço separada, quintal com grama que um jardineiro cuida toda semana. É um bairro silencioso onde os muros são altos e os vizinhos não se veem. Eu morei os últimos dez anos num apartamento de 22 metros, e os primeiros dias naquela casa eu fico com a sensação estranha de que tem espaço demais.

O quarto de hóspedes onde eu fico é menor do que o quarto principal, mas maior do que o meu apartamento inteiro. Eu coloco minhas coisas lá com aquele cuidado de quem ainda não sabe direito se está de passagem ou chegando. Algumas caixas ficam fechadas por semanas.

Henrique está mais carinhoso do que o normal, me beija sempre que chega e até fez o jantar no primeiro dia. Acho que ele finalmente está querendo uma vida a dois de verdade.

A rotina se estabelece sozinha. Eu acordo antes dele, faço café, deixo o café pronto. Enquanto ele está no trabalho, que às vezes é juntô comigo e na maioria dàs vezes em outro local, eu trabalho, cuido da casa. Quando ele chega, o jantar está pronto. Quando ele vai dormir, a cozinha está limpa.

O jardineiro continua vindo toda semana. Eu percebo que sou o único que cuida do que está dentro.

Umas 2 semanas depois que me mudei, estamos na sala, eu estou dobrando roupa que tirei da máquina, ele está no sofá com o celular, e em algum momento ele levanta os olhos e me olha com aquela atenção específica que eu aprendi a identificar.

- Você não tirou - ele diz.

Eu paro o que estou fazendo.

- A sobrancelha.

- Henrique, isso é diferente de pelo no corpo

- Diego, a gente já teve essa conversa.

- A gente nunca teve essa conversa sobre sobrancelha especificamente, você disse que

- Eu disse tudo. - A voz começa a subir novamente, o tom cada vez mais irritado. - Eu disse que não queria ver pelo nenhum. Sobrancelha é pelo.

Eu sei que ele está certo sobre o que disse. Ouvi na época e agora também ouço. Mas tem alguma coisa em tirar sobrancelha que é diferente de braço, de peito, de perna. É no rosto, é o que as pessoas veem primeiro, é o que fica quando você tira.

- Eu não quero fazer isso

Ele larga o celular na mesa, se levanta e vem na minha direção, penso por um momento que vou apanhar de novo.

- Você não quer...

- Henrique, no rosto é diferente, as pessoas vão...

- Cala a boca.

Veio com outro tapa forte na cara. Eu nem reagia mais, aprendi a aguentar isso calado, senão seria pior. Ele sai da sala e eu ouço os passos pesados no corredor, o baque de uma gaveta sendo aberta com força, passos voltando. Quando ele aparece na porta da sala de novo está com um barbeador na mão.

Eu paro de respirar por um segundo.

Ele atravessa a sala na minha direção e eu recuo até encostar na parede atrás de mim, e ali fica essa coisa, a diferença de tamanho entre nós dois, o barbeador na mão dele, a raiva que eu sinto e vejo nitidamente no rosto dele.

- Henrique

Eu tento argumentar, mas baixo e com medo de levar outro tapa.

Ele para a uns trinta centímetros de mim. Me olha de cima, como sempre, mas agora tem outra coisa nesse olhar.

- Senta na cadeira e fica quieto porque eu mesmo vou fazer.

A primeira passada é a mais difícil. O gesto se repete, a lâmina desliza, e eu fico olhando pra ele enquanto ele raspa o último resquício de pelo de mim (tirando o cabelo da cabeça).

Henrique não fala nada. Só faz. Ele raspa as duas sobrancelhas, depois pega uma lâmina de barbear, passa um pouco de espuma nas duas sobrancelhas e passa a lâmina, eliminando qualquer vestígio que um dia ali já existiam duas sobrancelhas.

Vou pro banheiro e fico olhando pro espelho por um tempo que não sei medir. O rosto é o meu e não é. Tem uma estranheza que não passa rápido, um desconforto que não é só visual, que é mais fundo do que isso.

Henrique entra no banheiro, segura meu rosto e fica olhando.

- Agora você está mais bonito. Você ainda não consegue enxergar o que eu enxergo, mas um dia vai e vai me agradecer por isso.

Ele percebe que fiquei meio triste pela mudança então me abraça.

- Vem cá. Para de olhar assim. Você está comigo. É isso que importa.

Ele limpa um pequeno corte que ficou no lugar da sobrancelha, passa um creme hidratante, me dá um beijo e sai.

Ouço a televisão sendo ligada na sala.

Eu lavo o rosto e saio do banheiro.

Naquela noite ele me chamou para dormir com ele em sua cama, coisa que quase nunca acontecia. Fizemos amor normalmente, ele não me bateu e foi muito carinhoso. Eu entendi que apesar de tudo, ele estava cuidando de mim.

Depois da sobrancelha, alguma coisa mudou.

Não sei se foi Henrique que passou a se irritar mais ou se fui eu que comecei a perceber melhor. Ele explodia por coisas pequenas: uma toalha deixada no banheiro, uma camisa que eu demorei para guardar, o café que esfriou enquanto ele atendia uma ligação.

A primeira vez que ele me machucou de um jeito que não dava para esconder aconteceu numa noite de terça-feira.

Eu tinha deixado a comida pronta e estava terminando de lavar uma panela quando ele entrou na cozinha. Henrique abriu a geladeira, olhou por alguns segundos e fechou com força.

- Cadê a cerveja?

Parei de lavar a panela.

- Acabou. Eu não vi que era a última.

Ele ficou me olhando.

- Você ficou o dia inteiro aqui.

- Eu trabalhei também, Henrique. Não tive tempo de ir ao mercado.

Eu soube que tinha falado errado antes mesmo de terminar.

Ele veio na minha direção tão rápido que eu só consegui largar a panela. O primeiro tapa fez meu rosto virar. O segundo acertou perto da boca e me desequilibrou contra a bancada.

Levei a mão aos lábios e, quando afastei os dedos, havia sangue neles.

Henrique ainda estava diante de mim, respirando forte.

- Eu não te pedi uma explicação, fiz uma pergunta.

Fiquei quieto.

Ele olhou para o sangue nos meus dedos. A raiva no rosto dele diminuiu, mas não apareceu arrependimento. Era outra coisa. Irritação com o resultado, talvez, como se eu tivesse me machucado mais do que deveria.

- Vem.

Henrique segurou meu braço e me levou até o banheiro. Mandou que eu me sentasse na tampa do vaso, abriu o armário e pegou uma toalha pequena.

Molhou uma ponta na pia e começou a limpar o sangue da minha boca.

- Fica parado.

O tecido ardeu quando tocou o corte.

Eu recuei sem querer.

- Eu mandei ficar parado.

Obedeci.

Henrique segurou meu queixo com uma das mãos e continuou limpando. Fazia tudo com cuidado, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Quando terminou, abriu outra gaveta, tirou uma bolsa de gelo e enrolou numa toalha.

- Segura aqui.

Coloquei sobre o rosto.

Ele ficou me observando pelo espelho.

- Amanhã isso vai estar inchado.

Eu abaixei os olhos.

- No escritório, diz que bateu o rosto na porta do armário. Não fica inventando história demais porque você não sabe mentir.

Olhei para ele pelo espelho.

- Henrique, você me bateu porque acabou a cerveja.

A expressão dele mudou novamente.

Não para a mesma raiva de antes. Ficou decepcionado, como se eu tivesse acabado de provar que ainda não tinha entendido nada.

- Eu não te bati porque acabou a cerveja. Eu bati porque você errou e ainda quis discutir comigo.

- Mas eu só disse que estava trabalhando.

- Exatamente. - Ele pegou minha mão e pressionou o gelo com mais firmeza contra meu rosto. - Você sempre precisa responder. Sempre precisa transformar uma coisa simples nisso.

Fiquei calado.

Henrique se abaixou na minha frente. Mesmo assim, sentado sobre os próprios calcanhares, ainda parecia grande demais dentro daquele banheiro.

- Olha para mim.

Eu olhei.

- Você sabe que eu não gosto de ver você assim.

Ele passou o polegar com cuidado pelo canto da minha boca, evitando o corte.

- Mas precisa aprender a não me provocar. Eu sou muito maior que você, Diego. Quando eu perco a cabeça, quem acaba machucado é você.

A forma como disse aquilo parecia preocupação.

- Eu não quero precisar fazer isso de novo. Só depende de você.

Concordei com a cabeça.

- Fala.

- Não vai acontecer de novo.

Ele sorriu de leve.

- Bom.

Henrique se levantou, pegou uma caixa pequena no armário e tirou um corretivo da cor aproximada da minha pele.

- Isso era da Gabriela. Amanhã você passa um pouco aqui. Não vai esconder tudo, mas já melhora.

Ele colocou o corretivo na bancada e voltou a olhar meu rosto.

- Levanta.

Eu levantei.

Henrique me puxou para perto e me abraçou. Encostei o rosto no peito dele com cuidado, ainda segurando o gelo contra a boca. Uma das mãos passou devagar pela minha cabeça.

- Ninguém vai cuidar de você como eu cuido.

Naquela noite ele deixou que eu dormisse na cama com ele.

Fiquei abraçado ao seu corpo, sentindo sua mão pesada sobre a minha cintura. Henrique me amava e ainda me queria com ele.

No dia seguinte ele acordou antes de mim, o que foi uma surpresa porque ele nunca acordava antes das 8h. Quando entrei no banheiro, o corretivo, a bolsa de gelo e uma pomada estavam alinhados sobre a pia.

Henrique já tinha saído para trabalhar.

No escritório, quando perguntaram o que havia acontecido com meu rosto, eu disse que tinha batido na porta do armário.

Ninguém pareceu acreditar.

Depois de algum tempo, pararam de perguntar.

Depois disso as agressões começaram a aparecer com muito mais frequência por motivos cada vez menores. Talvez porque eu ainda não tinha aprendido totalmente como Henrique gostava de tudo.

Depois de mais ou menos 4 meses que eu moro na casa dele, uma noite, depois do jantar, enquanto a gente está na sala, ele pega o celular e me mostra uma foto: Um nome escrito em letra cursiva simples, preta, com traço fino.

- Onde você colocaria isso? - ele pergunta.

Eu olho pra foto. Olho pro nome.

É o nome dele.

Eu fico quieto por um momento longo.

- Henrique...

- É uma pergunta. - A voz tranquila. - Onde você colocaria.

Eu processo o que está sendo pedido, ou o que está sendo apresentado como pergunta mas que eu já aprendi que não é pergunta. Processo também o que significa, que é permanente, que é diferente de tudo que veio antes, que sobrancelha cresce de volta mas tatuagem não.

- Não sei se eu quero tatuagem.

Ele coloca o celular no colo. Me olha.

- Não te perguntei se quer. Te perguntei onde colocaria.

Tem uma diferença entre essas duas coisas e ao mesmo tempo não tem, e eu estou cansado demais de encontrar as diferenças. Olho pro meu próprio peito, pro meu braço.

- No peito - eu digo, sem saber direito por que digo.

Ele assente. Olha pro celular de novo.

- Eu conheço um tatuador. A gente vai amanhã.

Não tem mais conversa sobre isso. Ele coloca o celular na mesa e liga a televisão, e eu fico sentado do lado dele olhando pra tela sem ver nada, com a sensação de que acabei de concordar com alguma coisa que vai durar pra sempre.

Henrique me abraça e me beija, talvez tentando me acalmar, mesmo sabendo que não precisa disso, que a esse ponto, eu já faria tudo que ele pedisse.

Pra mim isso é suficiente e eu sinto que ele me ama de verdade.

O tatuador se chama Renato, trabalha num estúdio no centro, e quando a gente chega ele e Henrique se cumprimentam como velhos conhecidos. Eles conversam enquanto eu espero sentado, olhando as fotos nas paredes, e em nenhum momento nessa conversa alguém me pergunta alguma coisa.

Quando Henrique finalmente vira pra mim, diz:

- Tira a camiseta.

Eu tiro.

O Renato olha pro meu peito, passa os dedos marcando a posição, mostra pro Henrique que aprova com a cabeça. Eu sento na cadeira e fico olhando pro teto enquanto o processo começa.

Não é o que eu imaginei que seria. A dor é menor do que eu esperava, mais constante do que intensa, e em algum momento eu paro de pensar no que está acontecendo e começa a acontecer no piloto automático, aquele estado de espera anestesiada.

Quando Renato termina e me entrega um espelho, eu olho.

O nome de Henrique no meu peito, em letra cursiva preta, exatamente como na foto que ele me mostrou.

Henrique está do meu lado. Olha pro espelho, olha pra mim, e coloca a mão no meu ombro por um momento.

- Ficou bom.

É tudo que ele diz.

Eu olho pro espelho um pouco mais. Depois devolvo pro Renato. Henrique paga e vamos embora.

Em casa, Henrique ficava cuidando da minha nova tatuagem. Lavava, passava pomada, verificava todos os dias e pediu para que eu não me mexesse muito. E ainda beijou em volta do nome dele, agora gravado em mim para sempre.

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