Minha mãe sempre dizia que minha distração ainda ia me colocar em apuros. Morria de medo de que eu atravessasse a rua sem olhar e acabasse... aff, não gosto nem de pensar.
E, olha... motivo ela tinha de sobra. Às vezes guardava açúcar na geladeira, volta e meia deixava o arroz queimar, fora que vivia procurando os óculos com eles na minha cara. Dá pra acreditar?
Pois é... ela tinha razão. E por isso estou aqui, pra contar um dos episódios mais inusitados em que essa distração me meteu. Pra evitar uma surpresa parecida com a que eu vivi, antes de continuar, só confere se fechou direitinho a porta do seu quarto... ou da sua casa.
Aquela sexta-feira tinha começado esquisita.
O despertador, que nunca falhava, resolveu me trair justamente no dia de uma reunião importante. Eu era a responsável pela apresentação. Cheguei atrasada, o cliente remarcou tudo e ainda tive que aguentar o discurso do meu chefe sobre comprometimento, pior que bem na frente da equipe toda. Revirei os olhos depois que ele virou as costas. Odeio quando ele faz isso.
No final da tarde estava exausta, os ombros tensos. Na saída do trabalho passei numa padaria que adoro. Comprei salame, pães e umas carolinas. Tudo aquilo ia combinar direitinho com uma garrafa de vinho que eu tinha guardadinha.
Depois fui até a locadora da rua. Gostava de ir lá. O rapaz do balcão sempre me olhava de um jeito que me fazia um bem danado. Só que nunca passou disso. Sorrisos, uma ou outra troca de olhares. Uma pena... até que ele era bonitinho.
Saí de lá com Lendas da Paixão debaixo do braço. A sinopse prometia um romance inesquecível. Eu passaria as próximas duas horas olhando para o Brad Pitt. E, convenhamos... quer jeito melhor de salvar um dia?
Faltava só atravessar a rua para chegar ao meu prédio. Ia tomar um banho, me livrar daquele salto, ficar sem calcinha e esquecer que o mundo parecia estar de implicância comigo.
Mas foi só colocar o pé na rua que uma moto passou zunindo bem do meu lado. Por muito pouco não levou eu e o Brad Pitt numa única tacada.
Levei a mão no peito. Meu coração quase saiu pela boca.
Seu Giuseppe, o zelador, viu a cena. Cheguei à calçada com ele me secando da cabeça aos pés, enquanto varria a calçada.
— Tá muito distraída esses dias, Ana... Cuidado. A rua é tranquila, mas esses motoqueiros costumam aparecer do nada.
Aff... só faltava essa. Levando sermão até do zelador.
Entrei no meu apartamento. Fechei a porta e fiquei alguns segundos encostada ali. Soltei um suspiro enquanto tirava os saltos. Larguei as gordices na cozinha e deixei a sacolinha da locadora em cima do videocassete.
— Fofinho... daqui a pouco você é todinho meu — disse, passando os dedos sobre o sofá.
Alguns minutos depois, saí do banheiro ouvindo uma gritaria danada pelo condomínio.
— Ai... gente, eu só queria um pouco de paz. É pedir muito?
Fui para a sacada usando a minha queridinha camisola azul, estampada de bolinhas. Nossa, como eu amava aquela peça. Era macia, confortável e curtinha na medida certa. E aqui cabe até um segredinho, mesmo que pareça fora de contexto.
Um dia fui até a sacada para tomar um ar. Fazia um calor danado. Vestia essa mesma camisola. Sem calcinha. Meu noivo estava na sala assistindo a um jogo do Corinthians. Quando olhei pra frente, dei de cara com aquele homem na janela do apartamento à frente. Entrei correndo, morrendo de vergonha.
Só que, vou ser sincera... gostei. Nem falei nada pro meu noivo.
Na segunda vez, fui eu quem sorriu primeiro. E assim, quase toda noite, eu aparecia na sacada usando aquela camisola ou outra coisa tão ousada quanto. Ele surgia na janela, trocávamos olhares, um sorriso e cada um seguia com a própria vida.
Mas, naquela noite, ele não estava lá. O apartamento estava todo apagado. Fiquei um pouco decepcionada. Estava com vontade de algo mais safadinho. Bem que ia me ajudar a relaxar.
A confusão lá embaixo comia solta. Pelas vozes, pareciam duas mulheres discutindo. Pelo que consegui entender, o filho de uma tinha feito alguma coisa com o filho da outra. Na sacada, inclinei um pouco o corpo sobre a grade para enxergar melhor, mas não dava pra ver nada.
— Suzana?
Olha, quando ouvi aquela voz ecoar dentro da minha sala, minhas pernas ficaram moles na hora. Virei quase perdendo o equilíbrio. E, gente... havia um homem sentado no meu sofá! E segurando uma arma!
Ah... eu gritei. Gritei como nunca.
— Não... não! Não grita, por favor. Sou policial... olha.
Falando isso, tirou o distintivo do bolso da camisa e me mostrou.
— Fica tranquila.
Estava apavorada.
— O que você está fazendo aqui!?
Ele nem respondeu. Levou as duas mãos ao rosto, respirou fundo e soltou o ar devagar.
— Cacete... não acredito que aconteceu de novo.
Resmungou mais para si do que para mim. Eu continuava tremendo. Então guardou a arma no coldre, olhou nos meus olhos e perguntou:
— Estou em que andar?
O filha da mãe ignorou completamente minha pergunta. Olhava para o corredor, para a sala, parecia tentar entender onde tinha ido parar.
— Oitavo.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Merda... Me desculpa.
Levantou e foi em direção à porta.
— Calma aí. Você surge do nada, armado, na minha sala, e não vai me dar uma boa razão pra isso?
Fui até o telefone, tirei o fone do gancho e comecei a discar.
— Vou ligar pra polícia e eles decidem o que fazer com você.
Ele abriu a porta. Estava quase saindo, mas parou. Ergueu os olhos para o teto, balançou a cabeça de um lado para o outro erguendo as mãos.
— Sabe quando você tem um dia merda? Estava com uma dor de cabeça dos infernos. Só queria chegar em casa e me deitar no meu sofá...
Voltou a olhar para mim.
— ...só que, pelo visto, escolhi o sofá errado.
A voz da atendente já começava do outro lado da linha.
Coloquei a mão sobre o bocal do telefone.
— Continua.
Ele me olhou por um instante.
— É isso. Não tem uma história mirabolante.
— Foi só um idiota que entrou no apartamento errado depois de um dia horrível. Moro no 63. Desci nesse andar, encontrei a porta aberta... entrei.
Olhei bem nos olhos dele.
Suspirei. Depois olhei outra vez pra ele.
Olha... não sei se era porque ele era um gato ou porque sua história me tocou. Mas desliguei o telefone.
Olhando pra ele, reparei em como suas mãos eram... O dorso, coberto por pêlos escuros, passava uma curiosa sensação de firmeza. Bonitas. Muito bonitas.
— Mas você costuma sair abrindo a porta dos outros assim?
Ele deu um sorriso sem graça.
— Já é a segunda vez em menos de um mês.
Não consegui evitar a risada.
— Desculpa... e eu achando que era distraída.
Ele até esboçou um sorriso, mas logo desapareceu.
— Isso é estresse, sabia? Tenho um primo policial. Ele também tem umas coisas esquisitas.
Passou a mão na nuca. Parecia exausto.
— No meu caso é um monte de coisa. Separação, trabalho estressante...
Eba! Solteiro.
Pronto. Meu cérebro resolveu ignorar o resto da frase.
Ana Cristina, Ana Cristina. Ele ainda é um desconhecido dentro da sua casa. Do outro lado da minha cabeça vinha a resposta: "Ele é um tesão. Chama ele pra tomar aquele vinho. Dá pra ele."
Quando voltei pra Terra, ele já estava terminando:
— ...mas não quero ficar despejando meus problemas em você. Melhor eu ir pra casa.
Já estava começando a sair quando falei:
— Também tive um dia péssimo. Cheguei atrasada no trabalho, meu chefe me chamou a atenção na frente da equipe inteira. Fiquei presa no elevador e quase fui atropelada aqui na frente do prédio.
Ele fez uma careta.
— Que merda, hein...
Assenti com a cabeça.
Depois de um segundo, perguntei:
— E quem é Suzana?
— Ah, sim. Minha ex-mulher. Ainda não troquei a fechadura do apartamento e, às vezes, digamos que ela usa métodos um tanto persuasivos pra tentar me fazer voltar.
Sorri.
Houve um silêncio um tanto constrangedor por alguns segundos.
— Caio Montenegro.
— Ana Cristina.
Segurei a mão dele.
— É... parece que, depois de um dia desses, tínhamos mesmo que nos encontrar.
Ele falou, eu sorri.
— Mas bem que poderia ser no saguão, ou numa conversa de elevador... Não assim. Quase enfartei.
Rimos um para o outro.
— Foi um prazer te conhecer, Ana. Espero te ver em situações menos embaraçosas.
— Bom... estava pensando em abrir um vinho.
Ele parou me olhando, sem falar nada.
— Sei que é uma loucura... afinal mal te conheço. Mas por que você não fica? A gente fala um do outro. Conversar sempre ajuda a relaxar um pouco. Também passo por cada situação que você nem acredita.
Ele riu baixinho.
— Gostei da ideia. Mas acho que, antes de qualquer coisa, preciso de um banho.
— Se não se importar, ficaram algumas roupas do imbecil do meu ex. Acho que servem em você.
Meu olhar acabou descendo pelo corpo dele antes que eu percebesse.
— O dia já está tão estranho... acho que faz sentido acabar o dia nas roupas do ex da minha vizinha.
Rimos novamente.
— Então fica... — segurei a mão dele, trazendo-o de volta. Fechei a porta. — Só faz um favor. Deixa a arma naquela gaveta. — Apontei para o móvel perto da porta.
No quarto, de propósito, peguei uma camiseta regata e um short leve do meu ex-noivo. Entreguei as roupas a ele, mostrei o banheiro e ensinei o truque do chuveiro para sair água quente.
Enquanto o chuveiro estava ligado, fui preparando aquela noite. Meu Deus... que loucura. Ri sozinha. Parei um instante olhando para a porta do banheiro. Pensei em desistir. No segundo seguinte, balancei a cabeça.
Também sou filha de Deus. Quero transar!
Arrastei a mesinha de centro para perto do sofá e nela deixei a garrafa de vinho, torradas, salames e as carolinas.
Estava tudo se encaminhando para uma noite daquelas.
Foi quando bateram na porta.
Toc... toc... toc...
— Isso é hora, Seu Giuseppe... — sussurrei pra mim mesma.
Só podia ser aquele velho safado. Sempre vinha entregar as encomendas naquela hora. Nem preciso falar por quê, né? Camisola, às vezes um shortinho e uma blusinha de pijama... Ah, fazia a alegria do velho. Eu nunca reclamava. Enquanto todo mundo tinha que descer até o depósito, eu recebia as minhas na porta de casa.
Mas, quando abri...
Meu rosto queimou na hora.
Parado diante de mim estava ele.
O cara do prédio da frente.
Meu voyeur.
Meu segredinho.
— Boa noite.
Falou me olhando com aquele semblante safado. Eu simplesmente travei.
— Oi... oooi...
Foi o que consegui dizer.
— Comprei esse vinho. Juntei coragem... — sorriu tímido. — Pensei que fosse uma boa...
— Ana! Pode me trazer uma toalha?
A voz veio abafada lá do banheiro.
Ele olhou por cima do meu ombro por um instante. Depois voltou os olhos para mim.
— Me desculpa, moço... Podemos conversar outra hora?
Falei, pousando a mão no braço dele.
Caramba... que chato. Fiquei com pena, sei lá. Era como ser pega no flagrante com um amante. Mas poxa... nem tínhamos nada. E também tinha que aparecer justo naquele dia!
Apenas assentiu com a cabeça e foi embora.
Fechei a porta devagar.
Encostei nela e levei a mão ao peito.
— Meu Deus...
Deixei uma toalha pendurada na porta do banheiro, avisei ele e voltei para a sala. Terminei de arrumar a mesinha.
Aquela situação repentina mexeu tanto comigo que acabei abrindo o vinho antes do bonitão voltar do banho.
Nossa... que dia mais estranho, não?
Quando ouvi a porta do banheiro abrir, estava sentadinha no sofá, pernas cruzadas. Foi aí que lembrei. Tinha esquecido de vestir uma calcinha. Embora ele já tivesse visto, eu não queria parecer oferecida demais. Mas agora já era.
— Seu namorado era um garoto de dezoito anos?
Quando pus os olhos nele, levei a mão à boca no mesmo instante. Comecei a rir.
A regata tinha virado uma baby look. Mas o short... esse ficou perfeito. Exibia de forma tentadora o contorno do seu brinquedo.
E que brinquedo.
— Nossa... ficou horrível! Juro que não foi por maldade. Mas pode ficar sem camiseta. Tá quente.
— Não se importa?
Cachorro.
Nem esperou eu responder e já foi tirando.
— Olha. Comprei essas coisinhas naquela padaria Continental, sabe? Ali na Celso Garcia. Também aluguei Lendas da Paixão. Podemos assistir.
Sentamos no sofá.
— Sem querer ser chato, mas esse filme é ruim, hein. Acho o Brad Pitt um péssimo ator.
— Não fala assim dele! — falei, dando uns tapinhas no braço dele.
Ele deixou, rindo.
— Mas é verdade. Vai dizer que você não alugou só porque ele é bonitão?
Vacilei.
A resposta não saiu.
— Tá vendo. Não disse!
Ele ria. Fiz uma carinha séria e voltei a dar uns tapas, agora mais como desculpa para tocar aquele braço talhado pelos deuses.
— Não é verdade. O Brad é muito bom.
Cruzei as pernas. A camisola subiu. Levei a taça aos lábios e, olhando pra ele, puxei o tecido de volta, fazendo aquele charminho sem querer querendo.
Ele acompanhou o movimento sem o menor pudor e também levou a taça aos lábios.
E a conversa foi fluindo. Quando assustei, já estava rindo de qualquer bobagem que ele falava. Perigoso. Sou do tipo que se apega fácil. E andava tão carente...
— Uhmm... até que o vinho é bom... ganhei da empresa no meu aniversário.
Enquanto falava, subi o olhar pelo abdômen, depois pelo peitoral. Sorte que tinha uma marca ali pra me ajudar a disfarçar.
Passei a ponta dos dedos pela cicatriz antes de perguntar:
— E essa cicatriz? O que foi?
Ele baixou os olhos para minha mão e sorriu de canto.
— Uma briga numa festa de casamento, acredita? Fui ajudar um amigo, mas, do nada, virou uma briga generalizada. Uma bagunça.
— Nossa... coitada da noiva. Acabaram com a festa. E por que brigaram?
— Sei lá. Até hoje ninguém sabe. Todo mundo lembra da festa, mas ninguém lembra do motivo da briga.
— Meu Deus.
— E você... e essa marquinha aí? — perguntou, olhando para minha coxa. — Parece recente.
— Ah, essa? — subi um pouco a camisola. — Nada demais. Resolvi me aventurar numa trilha em Ouro Preto. Logo eu. Mal sei andar na calçada sem tropeçar. Passei debaixo de uma cerca, não subi a perna direito e deu nisso.
Quando assustei, já eram dez horas da noite. Nem vimos o tempo passar.
Estávamos na sacada, brindando nossa última dose de vinho. Zeramos a garrafa. Deixei a taça ali, na bancadinha onde ficam minhas plantinhas.
Ficamos alguns segundos sem dizer nada.
Apoiei as duas mãos na grade e deixei a brisa da noite bater no rosto. Olhei para o apartamento do prédio da frente.
Escuro.
Janelas fechadas.
Coitado. Deve ter ficado puto e saído pra esfriar a cabeça.
Foi ali que revelei meu segredinho. Sobre o tal coroa que inflava meu ego. Só não contei da visita que ele tinha feito naquela noite.
Rimos.
— Nunca pensou em dar pra ele?
Perguntou, aproximando um passo e deslizando a mão pela minha cintura.
— Hoje pensei.
Olhei pra ele de ladinho, sorrindo.
— Safada.
— Ei!
Voltei a lhe dar uns tapas. Ele segurou minha mão por um instante, ainda sorrindo. Depois a outra veio para minha cintura, me trazendo pra perto. Subiu pela minha nuca e segurou meu cabelo daquele jeito. Nossa... só de lembrar me arrepio todinha.
Lembro de ter sorrido antes da boca dele colar na minha. Gemi baixinho dentro da boca dele, apertando seu pau duro por cima do short fino.
Num movimento só, me virou de costas e me prensou contra a grade, mordiscando meu pescoço.
— Abre as pernas um pouco mais — mandou, com a voz rouca de tesão.
Mal terminei de obedecer e dois dedos dele entraram na minha boceta, curvados pra cima, massageando aquele ponto que me faz perder o juízo.
— Você tá molhadinha.
Os dedos aceleraram, entrando e saindo, encontrando aquele ponto sem piedade. Quando eu já estava quase gozando, ele parou.
Ouvi o short dele caindo no chão. O pau duro bateu de leve na minha bunda. Ele se agachou atrás de mim e afundou o rosto entre minhas coxas, me abocanhando.
Puta que pariu!
A língua dele entrava, subia, descia, sugava todo meu prazer. Me chupou como nenhum outro cara tinha feito.
— Não quero gozar assim... me fode, vai.
Supliquei.
Então se levantou, segurou firme na minha cintura, encaixou aquela rola grossa na entrada e meteu tudo de uma vez.
Fundo.
Agarrei a grade com mais força. E foi enquanto eu rebolava pra trás, recebendo tudo, que vi.
A janela daquele apartamento, antes fechada... agora estava parcialmente aberta.
A luz permanecia apagada.
Congelei.
— O que foi?
Sussurrou no meu ouvido, apertando minha cintura.
— Nada... desculpa.
Virei o rosto, beijei a boca dele.
— Vai… Me fode bem forte.
E ele continuou.
Ali da sacada, voltei a olhar para aquela janela... e sorri. Como sempre fazia.
P.S.: Dedicado a Ana Cash. Obrigado pela inspiração.
Vicente Braga
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