A gota de sangue escorreu devagar pela lateral do copo.
Não caiu de imediato. Primeiro surgiu pequena, redonda, quase delicada, nascida da rachadura fina que cortava o vidro antigo. Depois engrossou, ganhou peso, deslizou até a base e parou ali, vermelha demais para parecer truque de luz.
Tomás e Dante ficaram imóveis.
A cidade continuava viva do lado de fora. Um ônibus freou na Avenida Ipiranga. Uma moto passou estourando o silêncio da madrugada. Em algum apartamento, uma descarga foi acionada. Alguém tossiu no corredor. O mundo seguia com sua vulgaridade cotidiana, como se não houvesse um copo recém-chegado de 1979 sangrando sobre a mesa do 1307.
Tomás ainda sentia o beijo no corpo.
Isso o perturbava quase tanto quanto o sangue.
A boca de Dante havia deixado nele uma memória quente, teimosa, instalada não apenas nos lábios, mas na nuca, no peito, nos dedos. Era absurdo, indevido, inconveniente. Tinham acabado de atravessar uma festa presa no tempo, visto Raul Montenegro desaparecer num elevador impossível, recebido uma mensagem de uma entidade que parecia interessada nele, e ainda assim parte de Tomás continuava voltando ao instante dentro da cabine: Dante segurando seu rosto, a respiração presa, a urgência triste daquele beijo.
O medo fazia uma coisa estranha com o desejo.
Em vez de apagá-lo, parecia dar contorno.
Dante se aproximou da mesa e pegou o copo com cuidado. A marca de batom vermelho na borda estava intacta. Uma meia-lua precisa, feminina, deixada por uma boca que talvez já tivesse rugas no presente, mas que naquela noite ainda era jovem.
— Não toca no sangue — Tomás disse.
Dante olhou para ele.
— Você acha que eu ia lamber?
— Com este prédio, eu não descarto nenhuma estupidez.
Apesar de tudo, Dante sorriu.
Foi um sorriso curto, mas suficiente para devolver a Tomás a sensação perigosa de que havia um homem ali, não apenas um guia de fantasmas. Um homem bonito, cansado, irônico, assustado. Um homem que beijava como quem tem medo de perder tempo.
Dante colocou o copo sobre um pano de prato.
— Isto veio da festa.
— Da Lúcia.
— A marca de batom?
— Você viu o batom dela.
Dante encarou o copo.
— Ela estava lá.
— Você duvidava?
— Eu esperava estar errado.
Tomás pegou o bilhete sobre a mesa e leu de novo.
Vocês viram a festa.
Agora descubram quem convidou o homem errado.
A letra de Raul parecia mais viva no papel do que muitas vozes no mundo real. Havia pressa nos traços, mas também uma elegância insolente. Como se até pedir socorro fosse uma forma de provocação.
— Quem era o homem errado? — Tomás perguntou.
Dante não respondeu.
Estava olhando para a janela.
A cortina se movia levemente, embora a janela estivesse fechada. Atrás dela, a cidade brilhava em fragmentos. Tomás seguiu seu olhar.
Do outro lado do vidro, nos brises da fachada, havia uma sombra.
Não uma sombra comum. Não o reflexo dos móveis, nem o desenho da cortina. Era a silhueta de um homem, muito fina, alongada pelos filetes horizontais da fachada. Parecia estar do lado de fora do edifício, parado onde não havia varanda, apoiado no concreto como se a altura não significasse nada.
Tomás sentiu o ar sumir.
— Dante.
— Eu estou vendo.
A sombra não se movia.
Apenas observava.
Então inclinou a cabeça.
Como se sorrisse.
As luzes da sala piscaram uma vez, e a sombra desapareceu.
Tomás se afastou da janela.
— Eu odeio esse prédio.
Dante ainda olhava para os brises.
— Não odeia.
— Odeio sim.
— Você está apavorado, excitado e curioso. É diferente.
Tomás virou-se para ele.
— Você está me analisando ou se descrevendo?
Dante não desviou o olhar.
A pergunta ficou entre os dois como uma terceira presença.
Por um instante, o apartamento pareceu esquecer o sangue, Raul, Lúcia, a entidade, tudo. Restou apenas a luz fraca da sala, a madrugada dobrada ao redor deles e aquela proximidade que já não precisava de desculpa. Dante estava a poucos passos. A camisa ligeiramente amassada pelo que haviam vivido, o cabelo desalinhado, a barba baixa escurecendo o rosto. Havia nele uma exaustão bonita. Uma vulnerabilidade que Tomás não tinha visto antes.
— Eu não devia ter te beijado no elevador — Dante disse.
Tomás sentiu a frase como um toque frio.
— Não?
— Não naquele momento.
— Ah. Então o problema foi o horário?
— O problema foi eu querer.
A honestidade veio baixa, quase áspera.
Tomás demorou a responder.
— Querer não é crime.
Dante riu sem alegria.
— Você fala como alguém que nasceu depois de certas portas terem sido arrombadas por outros.
A frase tocou Raul. Daniel. A festa. Todos aqueles homens dançando com medo no 1307.
Tomás se aproximou devagar.
— Eu sei que não é simples.
— Não sabe.
— Então me explica.
Dante olhou para a boca dele por um segundo. Depois para os olhos.
— Meu tio-avô desapareceu por amar um homem dentro deste prédio. Minha família apagou o nome dele com a eficiência de quem passa pano em mesa depois do jantar. Eu cresci ouvindo que havia assuntos feios, parentes estranhos, histórias que não se repetiam. Passei anos tentando montar o rosto de Daniel a partir de silêncios. E agora eu vejo o homem na minha frente, vejo ele perder Raul, volto para cá, beijo você num elevador assombrado e percebo que talvez eu seja só mais um Nogueira repetindo o mesmo erro em outro andar.
Tomás ficou quieto.
Havia momentos em que ironia era falta de educação.
— E eu sou o erro?
Dante sustentou seu olhar.
— Você é a parte que dá vontade.
A frase entrou em Tomás devagar.
Não era declaração. Não era sedução. Era quase uma confissão dita contra a própria vontade.
O apartamento ficou muito silencioso.
Tomás deu mais um passo. Agora estavam próximos o bastante para que ele percebesse a respiração de Dante mudar. Não se tocaram. Ainda não. O desejo entre os dois tinha aprendido a se formar antes do gesto, como umidade antes da chuva. Estava na atenção, na distância calculada, no modo como Dante mantinha as mãos imóveis para não usá-las.
— Eu não quero ser só repetição — Tomás disse.
— Nem eu.
— Então talvez a gente precise descobrir onde a história mudou.
Dante olhou para o copo sobre a mesa.
— Lúcia.
Tomás assentiu.
— Lúcia.
Mas nenhum dos dois se moveu.
Era tarde demais para bater à porta dela. Ou cedo demais. A madrugada tinha uma qualidade viscosa, suspensa. Tomás sentiu o corpo pesar. O dia anterior parecia ter durado anos.
— Você devia dormir — Dante disse.
— Dormir onde? No quarto da parede viva?
— Na sala.
— E você?
Dante pegou a jaqueta.
— Vou para o meu apartamento.
Tomás respondeu antes de pensar:
— Fica.
A palavra saiu simples.
Mas simples não queria dizer pequena.
Dante parou.
Tomás sentiu o próprio rosto aquecer, irritado consigo mesmo.
— Só até amanhecer — acrescentou. — Caso o copo resolva sangrar de novo, a sombra volte a passear do lado de fora, ou meu armário decida abrir uma filial do inferno.
Dante olhou para ele por um tempo.
— Só por segurança?
Tomás poderia ter mentido.
Escolheu não mentir.
— Não só.
Dante tirou a jaqueta devagar e colocou sobre o encosto da cadeira.
Nenhum dos dois falou mais sobre aquilo.
Tomás pegou um cobertor. Dante ficou no sofá; Tomás se acomodou no colchão improvisado no chão da sala. A janela permaneceu fechada. O copo foi deixado sobre a mesa, coberto com o pano. A chave do quarto ficou dentro de uma xícara. O bilhete de Raul, sob o caderno preto.
Apagaram a luz.
A sala mergulhou numa penumbra azulada, iluminada apenas pela cidade.
Tomás ficou deitado, olhando o teto. Sabia que Dante estava acordado. Ouvia sua respiração no sofá, mais controlada do que a de alguém dormindo. Por alguns minutos, nenhum dos dois se mexeu. Depois, Dante falou no escuro:
— Você está com medo?
Tomás sorriu sem humor.
— Muito.
— Eu também.
A confissão fez o quarto parecer menos hostil.
— Dante?
— Hm?
— Aquele beijo foi só medo?
Silêncio.
Por um instante, Tomás se arrependeu da pergunta. Depois ouviu Dante se mover no sofá. A madeira rangeu. Uma sombra se inclinou no escuro.
— Não.
Tomás fechou os olhos.
A resposta era curta demais para satisfazer, mas suficiente para impedir o sono.
Não soube quanto tempo ficou acordado depois disso. Talvez minutos. Talvez horas. Em algum momento, a exaustão venceu. Sonhou com brises. As linhas horizontais da fachada se abriam como persianas, revelando olhos atrás de cada uma. Olhos de Raul, de Daniel, de Lúcia jovem, de André, de homens sem nome. Todos observando. Todos esperando.
Quando acordou, a luz da manhã entrava pálida pela janela.
Dante dormia no sofá.
Ou fingia muito bem.
Estava deitado de lado, uma mão sob o rosto, a outra caída fora do sofá. A camisa havia subido um pouco na cintura, revelando uma faixa de pele. A luz da manhã tocava seu pescoço, a linha da barba, a boca relaxada. Dormindo, Dante parecia mais jovem e menos protegido. Tomás ficou alguns segundos olhando.
Não com pressa.
Com demora.
Aquela demora que ele sentia falta de receber e, sem perceber, agora oferecia.
Dante abriu os olhos.
Tomás desviou tarde demais.
— Bom dia — Dante disse, voz rouca.
— Eu estava vendo se você respirava.
— Com os olhos na minha cintura?
— É uma técnica avançada.
Dante sorriu de verdade.
Foi rápido, mas transformou seu rosto.
Tomás levantou antes que o sorriso o alcançasse demais.
Na mesa, o copo continuava coberto. Quando retirou o pano, viu que a gota de sangue havia secado. A rachadura, porém, aumentara. Agora desenhava no vidro uma linha parecida com a curva do Copan.
Ao lado do copo, no caderno preto, havia uma frase que Tomás não escrevera.
A tinta ainda parecia úmida.
Pergunte a ela pelo fotógrafo.
Tomás chamou Dante.
Ele veio, leu e franziu a testa.
— Fotógrafo?
— O homem errado?
— Talvez.
— Vamos acordar Lúcia?
— Ela já deve estar acordada desde antes da gente nascer.
Foram ao 1310.
Lúcia abriu a porta usando um robe lilás e batom vermelho impecável, como se recebesse fantasmas antes do café. Olhou primeiro para Tomás, depois para Dante, depois para a pequena distância entre os dois.
— Dormiram juntos?
Tomás engasgou.
— Bom dia para a senhora também.
— Dormiram?
Dante respondeu:
— Na sala.
Lúcia ergueu uma sobrancelha.
— A juventude está muito burocrática.
Tomás tirou o copo de dentro de uma sacola de pano.
O rosto dela mudou.
Dessa vez, não foi um susto pequeno. Foi uma fissura. A senhora desapareceu por um segundo, e em seu lugar surgiu a moça que estivera na festa. A moça que bebera daquele copo. Que usara aquele batom. Que vira Raul sair pelo corredor.
— De onde vocês tiraram isso?
— Estava no meu apartamento quando voltamos — Tomás disse. — Depois da festa.
Lúcia segurou o batente da porta.
— Vocês viram?
Dante respondeu:
— Vimos.
Ela olhou para ele com dor.
— Daniel?
— Também.
Lúcia levou a mão à boca, mas não chorou. Seus olhos ficaram úmidos, não de surpresa, e sim de uma tristeza antiga que, de repente, recebia visita.
— Ele estava bonito? — perguntou.
Dante demorou.
— Estava vivo.
Lúcia assentiu devagar.
— Era quando ele ficava mais bonito.
Deixou os dois entrarem.
O apartamento cheirava a café, talco e alho refogado, como no dia anterior, mas agora havia outra camada: memória exposta. Lúcia não fingiu normalidade. Sentou-se à mesa, pegou o copo com cuidado e passou o polegar perto da marca de batom sem tocá-la.
— Esse copo era meu.
— A senhora estava na festa — Tomás disse.
— Estava.
— Por que não contou?
Lúcia riu baixo.
— Porque jovens sempre acham que contar é abrir uma torneira. A gente escolhe quando a água merece sair.
— Raul mandou perguntar pelo fotógrafo.
Lúcia ficou imóvel.
Dante se inclinou.
— Quem era ele?
Ela colocou o copo sobre a mesa.
— César.
— César o quê?
— César Aranha. Pelo menos era o nome que usava.
Tomás anotou mentalmente.
— Fotógrafo?
— Dizia ser. Apareceu algumas semanas antes. Jovem, charmoso, educado. Tinha uma câmera sempre pendurada no pescoço, dessas que fazem as pessoas acreditarem que estão sendo eternizadas, não vigiadas.
— Ele fotografava as festas?
— No começo, não. Raul não deixava. Depois deixou.
— Por quê?
Lúcia olhou para a janela.
— Porque César sabia elogiar um homem bonito de um jeito que parecia compreensão.
Tomás entendeu.
— Raul se envolveu com ele?
— Raul se envolvia com a vida. Às vezes a vida vinha com rosto errado.
Dante perguntou:
— E Daniel?
— Odiava César.
— Por ciúme?
— Também.
— E pelo quê mais?
Lúcia levantou-se e foi até a velha caixa de metal que Tomás vira no dia anterior. Trouxe uma fotografia e colocou sobre a mesa.
Na imagem, a festa de 1979 aparecia em outro ângulo. Raul estava perto da vitrola, sorrindo. Daniel, ao fundo, olhava para ele. Entre os dois, um homem segurava uma câmera.
César Aranha.
Era bonito de um modo mais frio que Raul. Cabelo bem penteado, bigode discreto, camisa clara, calça elegante. O sorriso parecia treinado. Uma beleza sem abandono. Diferente dos outros convidados, ele não parecia entregue à festa. Parecia registrá-la.
— Ele é o homem errado? — Tomás perguntou.
— Foi o convidado errado — Lúcia disse. — Mas não sei se era o homem errado.
— Qual a diferença?
Ela apontou para a foto.
— César entrou porque alguém abriu a porta. Mas o mal que levou Raul já estava no prédio antes dele.
Dante pegou a fotografia e observou melhor.
— Ele trabalhava para alguém?
Lúcia suspirou.
— Naquela época, meu filho, todo mundo podia estar trabalhando para alguém. Polícia, família, marido, jornal, pecado, medo. A gente vivia cercado de olhos.
— Ele ameaçou Raul?
— Não diretamente. Mas depois que começou a fotografar, algumas pessoas receberam bilhetes. Pedidos de dinheiro. Recados para abandonar as festas. Um homem casado sumiu por meses. Outro apareceu com o rosto quebrado perto da Praça Roosevelt. Uma moça perdeu o emprego. Ninguém dizia o nome de César em voz alta, mas todo mundo sabia.
Tomás sentiu raiva.
— Chantagem.
— Sim.
— Raul descobriu?
— Raul descobriu tudo tarde demais.
Dante olhou para a fotografia.
— Daniel tentou impedir?
— Daniel queria matar César.
— E matou?
Lúcia não respondeu.
O silêncio dela era quase uma resposta.
Tomás insistiu:
— O que aconteceu na noite da festa?
Lúcia passou as mãos pelo rosto.
Por alguns segundos, pareceu muito velha.
— César chegou sem ser convidado. Essa é a primeira coisa. Ninguém admitiu ter chamado. Ele apareceu com a câmera e um envelope. Disse que Raul precisava conversar. Raul ficou branco, mas fez piada, claro. Ele sempre fazia piada quando estava apavorado.
— O envelope tinha o quê?
— Fotografias.
— De Raul e Daniel?
— De todos nós. Mas principalmente deles. Beijando-se no terraço. Entrando no 1307. Saindo de madrugada. Coisas que hoje talvez virassem lembrança. Na época, viravam sentença.
Dante fechou a mão.
— E o homem da casa de máquinas?
Lúcia olhou para ele com dureza.
— Eu disse para não chamar assim.
— Raul chamou.
— Raul chamava perigo de apelido para fingir que mandava nele.
Tomás apoiou os braços na mesa.
— Lúcia, ele falou comigo no elevador.
O rosto dela mudou de novo.
— O quê?
— Disse que também gostou de mim.
Lúcia olhou para Dante.
Depois para Tomás.
— Então piorou.
Dante aproximou-se.
— O que ele quer com Tomás?
— O mesmo que sempre quis com homens que chegam vazios demais.
A frase lembrou Dante da noite anterior. Tomás percebeu.
— O quê?
Lúcia respondeu baixo:
— Entrada.
O apartamento pareceu esfriar.
— Entrada para onde?
— Para fora.
— Ele está preso?
— Não como Raul. Não como Daniel. Não como os outros.
— Então como?
Lúcia ficou muito séria.
— O Copan guarda coisas. Mas nem tudo que ele guarda nasceu humano.
Tomás sentiu um arrepio subir pelos braços.
— A senhora está dizendo que o homem da casa de máquinas não era uma pessoa?
— Estou dizendo que César Aranha talvez tenha sido o primeiro a fotografar uma coisa que não aparecia no espelho.
Dante endireitou o corpo.
— Fotografar?
Lúcia pegou outra imagem da caixa.
— Achei isso anos depois. No lixo do 1307.
Colocou sobre a mesa.
A fotografia estava manchada, quase queimada nas bordas. Mostrava a casa de máquinas, ou algum espaço parecido: concreto bruto, engrenagens, cabos, sombras. No centro, havia um borrão escuro com forma humana. Alto. Muito magro. O rosto não aparecia. Ou aparecia demais, como se vários rostos se sobrepusessem no mesmo lugar.
Tomás sentiu náusea.
— Foi César que tirou?
— Sim.
— E depois?
— Depois ele mudou.
— Como?
Lúcia olhou para o copo trincado.
— Antes, César vigiava por dinheiro. Depois, parecia vigiar por devoção. Começou a falar de um homem que morava nos ruídos do prédio. Um homem que sabia o desejo de cada um. Que podia abrir portas. Que podia apagar nomes. Que podia fazer alguém desaparecer antes que o mundo o destruísse.
— Ele apresentou isso a Raul — Dante disse.
— Sim.
— Como saída.
— Como salvação.
Tomás lembrou-se da voz de Raul na fita.
O homem da casa de máquinas me prometeu uma saída.
Mas no Copan toda saída cobra aluguel.
— E Raul aceitou.
Lúcia baixou os olhos.
— Raul estava com medo. Mais por Daniel do que por ele.
— Medo das fotos.
— Medo do que as fotos fariam.
Dante olhou para a própria mão sobre a mesa.
— Daniel disse que ia fugir com ele naquela noite.
Lúcia fechou os olhos.
— Tarde demais.
Aquelas duas palavras pareciam resumir o edifício inteiro.
Tomás pegou a foto de César.
— Ele morreu?
— Ninguém sabe.
— Também desapareceu?
— César foi visto pela última vez uma semana depois, entrando no elevador de serviço com a própria câmera no pescoço. Quando a porta abriu no térreo, só a câmera saiu.
— Sozinha?
— Pendurada no ar — Lúcia disse. — Pelo menos foi o que contaram os porteiros. Eu nunca soube se acreditava nessa parte.
— E a câmera?
Ela levantou os olhos para Dante.
— Daniel pegou.
Dante ficou rígido.
— Daniel?
— Antes de desaparecer. Ele dizia que, se encontrasse o último filme, entenderia como trazer Raul de volta.
— Onde está a câmera agora?
Lúcia apontou para baixo.
— Se ainda existir, não está em cima.
Tomás tocou o botão antigo com a letra S, que carregava no bolso desde a festa.
— Fica no lugar onde o prédio guarda aquilo que caiu.
Lúcia encarou o objeto.
— Quem te deu isso?
— Daniel.
Ela ficou em silêncio por um tempo longo.
— Então ele quer que vocês desçam.
— Ele ou o prédio?
— Aqui, às vezes, a diferença é só a mão que empurra.
O telefone fixo de Lúcia tocou.
O som atravessou todos como um susto.
Ela olhou para o aparelho, imóvel.
Tocou de novo.
— Atende — Tomás disse.
— Eu não tenho linha nesse telefone há quinze anos.
O telefone tocou pela terceira vez.
Dante foi até ele antes que Lúcia pudesse impedir. Pegou o fone e colocou no ouvido.
— Alô?
Tomás viu o rosto dele mudar.
A voz que saía do aparelho era baixa o bastante para não ser compreendida, mas alta o suficiente para parecer masculina.
Dante não disse nada.
Apenas ouviu.
Depois desligou.
— O que foi? — Tomás perguntou.
Dante olhou para ele.
— Era Daniel.
Lúcia levou a mão ao peito.
— O que ele disse?
Dante parecia ter dificuldade de repetir.
— Disse para olharmos os brises ao pôr do sol.
Tomás franziu a testa.
— Só isso?
— Não.
— O que mais?
Dante olhou para Lúcia.
— Disse que César nunca foi embora.
A tarde caiu lenta sobre o Copan.
Tomás tentou voltar ao próprio apartamento, mas era impossível fingir qualquer rotina. Dante foi com ele. Os dois passaram horas espalhando fotografias, bilhetes e anotações sobre a mesa do 1307. A fita cassete. O copo trincado. A chave do quarto. O botão com a letra S. A fotografia de César Aranha. A imagem da casa de máquinas com o borrão humano.
A investigação tinha a forma de um quebra-cabeça molhado. Quanto mais tentavam juntar, mais as peças pareciam mudar de lugar.
Tomás anotou no caderno:
Raul — desaparece no elevador,Daniel — tenta trazê-lo de volta, desaparece depois.
César Aranha — fotógrafo, chantagista, possível intermediário.
Entidade — casa de máquinas, espelhos, elevador, deseja “entrada”.
Lúcia — testemunha, copo, festa.
Brises — olhar ao pôr do sol.
Dante, sentado à mesa, observava a fotografia de Daniel e Raul no terraço.
— Ele disse “meu amor” — Dante falou de repente.
Tomás ergueu os olhos.
— Daniel?
— Raul. Na porta. Antes de entrar no elevador.
— Disse.
Dante passou os dedos pela borda da foto.
— Minha família passou décadas tratando Daniel como uma vergonha sem nome. E a coisa mais verdadeira que eu sei dele agora é que alguém o chamou de meu amor na frente de uma sala inteira.
Tomás ficou quieto.
Dante continuou:
— Isso muda uma pessoa morta.
— Talvez devolva.
— Talvez cobre.
Tomás se levantou e foi até a janela. O céu começava a ganhar tons de ferrugem entre os prédios. A fachada do Copan, vista por dentro, era feita de linhas. Os brises cortavam a paisagem em faixas horizontais, como se São Paulo fosse um filme antigo passando quadro a quadro.
— Está quase na hora — disse.
Dante veio para perto.
Ficaram lado a lado diante da janela.
A luz do pôr do sol entrou inclinada, atravessando os brises e projetando sombras na parede da sala. Primeiro, eram apenas linhas. Depois começaram a mudar. As faixas de sombra se adensaram, tremeram, ganharam profundidade. Tomás sentiu a pele do braço arrepiar.
Na parede branca, as sombras formaram figuras.
Homens dançando.
Não com nitidez completa, mas com a precisão emocional dos sonhos. Corpos próximos, mãos hesitando antes de pousar, cabeças inclinadas, bocas quase se tocando. A festa retornava não como visão inteira, mas como negativo de luz e sombra.
Dante prendeu a respiração.
No meio das formas, Raul apareceu.
A sombra dele era reconhecível pelo gesto: o braço erguido, o copo, a cabeça inclinada como quem ri.
Daniel estava diante dele.
Os dois se aproximaram.
Mas antes que se beijassem, uma terceira sombra entrou entre eles.
Um homem com uma câmera.
César.
Tomás deu um passo para a parede.
A sombra do fotógrafo ergueu a câmera.
O flash não fez luz.
Fez escuro.
Por um segundo, toda a sala mergulhou numa sombra densa. Quando a imagem voltou, Raul estava sozinho. Daniel, no chão. César, perto da janela. E atrás de César, algo mais alto que um homem, quase tocando o teto.
A entidade.
Tomás sentiu Dante buscar sua mão.
Desta vez, entrelaçaram os dedos sem olhar um para o outro.
As sombras mudaram de novo.
César parecia discutir com a forma escura. Raul entrou no quadro. Daniel se levantou. Houve movimento rápido, fragmentado. Um braço. Uma queda. A câmera no chão. Alguém sendo empurrado contra a parede. Depois, uma sequência de sombras que Tomás não conseguiu entender: Raul diante do elevador, César atrás dele, Daniel correndo, a entidade abrindo-se como uma porta.
Na parede, a sombra de César virou o rosto.
Não para Raul.
Não para Daniel.
Para Tomás.
Mesmo sendo sombra, ele soube.
O fotógrafo apontou a câmera para a janela.
Para o presente.
O flash estourou.
A lâmpada da sala explodiu.
Tomás recuou com um grito. Dante o puxou contra si, protegendo-o dos estilhaços. O apartamento ficou escuro, iluminado apenas pelo fim do sol e pela cidade começando a acender.
Tomás sentiu o corpo de Dante colado ao seu. Os braços dele ao redor. O peito firme atrás de suas costas. Por alguns segundos, não havia como se afastar. O susto ainda batia nos dois. Dante segurava Tomás com força, e Tomás permitiu-se ficar ali um instante a mais do que o necessário.
A respiração de Dante tocou sua nuca.
— Você se cortou?
— Não sei.
Dante virou Tomás de frente para ele e examinou seu rosto. A luz baixa atravessava a sala em faixas, marcando os dois com sombras horizontais. Os dedos de Dante tocaram a testa de Tomás, depois a maçã do rosto, depois o queixo. Não havia corte. Ainda assim, ele não retirou a mão de imediato.
Tomás olhou para ele.
— Estou inteiro.
— Eu sei.
— Então por que ainda está me segurando?
Dante pareceu perceber só então.
Mas não soltou.
O desejo voltou diferente. Não como febre repentina, mas como maré. Subiu devagar, inevitável. Os brises riscavam o rosto de Dante com luz e sombra. Tomás pensou que talvez todo homem fosse assim quando visto de perto: partes claras, partes escuras, uma geometria impossível de possuir por completo.
Dante aproximou-se.
Desta vez, não havia parede respirando, elevador despencando, Raul no espelho. Havia apenas o apartamento, o fim do dia e a escolha.
O beijo veio baixo, quase silencioso.
Mais lento que os anteriores.
Dante tocou a boca de Tomás como se quisesse confirmar que ele estava ali, no presente, vivo. Tomás respondeu sem a urgência do elevador, mas com uma entrega mais funda. Sua mão subiu até o peito de Dante, sentiu o coração acelerado sob o tecido. Dante o trouxe para mais perto pela cintura. Não havia pressa. O desejo parecia aprender o caminho pela demora: a boca que se abria aos poucos, o ar dividido, o rosto inclinando, a mão firme na lombar, o corpo reconhecendo outro corpo sem precisar nomear tudo.
Tomás sentiu a parede às suas costas.
Não a do quarto.
A da sala.
Mesmo assim, por um instante, todo o apartamento pareceu respirar com eles.
Dante afastou-se só o bastante para falar.
— Eu não quero repetir Daniel.
Tomás respondeu com a boca ainda perto da dele:
— Então não desaparece.
Dante fechou os olhos.
A frase o tocou em algum lugar antigo.
Antes que se beijassem de novo, um ruído veio da parede onde as sombras haviam se formado.
Um risco.
Como unha no concreto.
Dante se afastou primeiro.
Tomás virou-se.
As sombras dos brises ainda marcavam a parede, mas agora havia algo escrito entre elas. Não com tinta. As letras pareciam surgir no próprio reboco, escurecendo a superfície.
SÉRGIO NÃO ERA O HOMEM ERRADO.
Tomás leu em voz alta.
— Sérgio?
Dante franziu a testa.
As letras continuaram aparecendo.
CÉSAR TROUXE A CÂMERA.
SÉRGIO TROUXE A FOME.
EU ABRI A PORTA.
A última linha demorou mais.
Foi se formando devagar, como se a parede hesitasse.
D.
Dante ficou paralisado.
— Daniel — Tomás disse.
O apartamento estalou.
No quarto, a porta do armário abriu sozinha.
Os dois foram até lá.
O fundo falso estava escancarado, embora Tomás tivesse fechado. Dentro do vão, onde antes estavam cartas e fotografias, havia agora um objeto novo.
Uma lista.
Papel grosso, amarelado, dobrado em quatro.
Tomás abriu sobre a cama.
Era uma lista de nomes. Talvez convidados. Talvez moradores. Alguns estavam riscados. Outros tinham apelidos ao lado. Muitos não pareciam nomes verdadeiros.
André — hoje.
Lúcia — batom vermelho.
Daniel — não deixar beber.
Raul — dono da noite.
César Aranha — NÃO ENTRAR.
Sérgio Valença — convidado de D.
Tomás olhou para Dante.
— Sérgio Valença.
Dante estava pálido.
— Daniel convidou Sérgio.
— Quem era?
Dante passou a mão pelo rosto.
— Eu não sei.
Na parte inferior da lista, havia outra anotação.
Se Sérgio bater, não abram.
Se Daniel pedir, não acreditem.
Se Raul sorrir, já é tarde.
Tomás sentiu um frio lento.
— Daniel abriu a porta para o homem errado.
— Ou achou que estava abrindo para outra coisa.
A parede do quarto respirou.
Os dois se viraram.
Desta vez, a respiração não vinha atrás da cama. Vinha do armário aberto.
Lá de dentro, uma voz masculina sussurrou:
— Dante.
Não era Raul.
Não era a entidade do elevador.
Dante deu um passo à frente.
Tomás segurou seu braço.
— Não.
A voz veio de novo.
— Dante.
Dante parecia hipnotizado.
— Daniel?
O armário estalou.
De dentro do escuro, caiu uma fotografia.
Tomás pegou antes que Dante pudesse.
A imagem mostrava Daniel no corredor do décimo terceiro andar, em 1979. Ele estava diante da porta do 1307, segurando a maçaneta. Do outro lado, no corredor, havia um homem que Tomás ainda não conhecia.
Sérgio Valença.
Alto, elegante, de terno claro, cabelo penteado para trás, olhos fundos. Não tinha câmera. Não parecia fotógrafo. Parecia um homem acostumado a ser obedecido.
No verso da foto, uma frase:
Foi Daniel quem abriu.
Mas foi Raul quem convidou primeiro.
Tomás leu duas vezes.
— Não faz sentido.
Dante pegou a foto de sua mão.
— Raul convidou Sérgio?
— Ou a entidade está mentindo.
— Ou todo mundo mentiu.
O apartamento ficou escuro de repente.
Não por falta de energia.
A luz da cidade ainda entrava pela janela. Mas o interior do 1307 escureceu como se uma sombra tivesse sido derramada no teto e descesse pelas paredes.
Do corredor, veio uma batida.
Uma.
Duas.
Três.
Espaçadas.
Educadas.
Tomás e Dante se olharam.
A porta do apartamento estava fechada.
A batida veio de novo.
Dante caminhou até a sala. Tomás foi atrás. Pelo olho mágico, o corredor parecia vazio.
— Não abre — Tomás sussurrou.
Dante não abriu.
A voz veio do outro lado da porta.
Baixa.
Masculina.
Elegante.
— Daniel me convidou.
Dante ficou imóvel.
Tomás sentiu o sangue gelar.
— Quem é você? — Dante perguntou.
Do outro lado, a voz riu suavemente.
— Hoje? Sérgio.
A fechadura girou sozinha.
Tomás recuou.
Dante segurou a maçaneta, tentando impedir.
Mas a porta não abriu.
Apenas uma fotografia passou por baixo dela.
Depois, os passos se afastaram pelo corredor.
Dante esperou alguns segundos antes de pegar a foto.
A imagem era recente.
Não de 1979.
Recente.
Mostrava Tomás e Dante na sala do 1307, minutos antes, beijando-se diante das sombras dos brises.
A fotografia tinha sido tirada de dentro do apartamento.
Tomás sentiu o estômago afundar.
No verso, escrito com letra desconhecida:
Todo desejo abre uma porta.
A porta do quarto bateu sozinha.
Com força.
E, atrás dela, a parede começou a rir.