A cidade tinha um jeito curioso de transformar coincidências em rotina. Na primeira vez, Cristiano apareceu lá em casa porque eu havia esquecido um livro da escola no galpão e ele se ofereceu para levar até mim depois do expediente. Disse aquilo como quem comentava a previsão do tempo.
— Passo lá rapidinho.
Só isso. Nem eu soube explicar por que fiquei olhando pela janela durante quase meia hora antes do horário combinado. Nossa rua era tranquila, as casas tinham muros baixos, árvores antigas e cachorros que latiam para qualquer bicicleta. Quando vi a velha motocicleta de Cristiano dobrando a esquina, senti um aperto estranho no peito. Não era ansiedade, também não era felicidade. Era uma sensação muito pior, parecia familiaridade.
Ele estacionou em frente ao portão, desligou o motor e tirou o capacete, bagunçando os cabelos claros com a mão. Estava usando a mesma camiseta surrada do trabalho, ainda marcada por poeira e pequenas manchas de graxa. Meu pai apareceu na garagem exatamente naquele momento, tentando erguer sozinho um armário antigo que resolvera mudar de lugar sem consultar ninguém.
— Ô, rapaz... — disse ele para Cristiano — Me dá uma força aqui?
Cristiano nem olhou para mim, largou o capacete no chão.
— Bora.
Os dois seguraram o móvel pelas extremidades. Meu pai explicava, gesticulava, reclamava do peso e da idade do armário. Cristiano apenas escutava, respondendo com um "é", "pois é", "vamos virar aqui", enquanto os músculos dos braços faziam parecer simples um trabalho que exigia esforço de verdade. Fiquei parado na porta, inútil, como quase sempre acontecia quando havia qualquer atividade prática envolvida. Meu pai riu.
— Meu filho ajuda mais não atrapalhando.
— Eu ouvi isso — respondi.
Cristiano olhou para mim por cima do ombro. Sorriu de lado.
— Dessa vez ele falou a verdade.
— Vocês combinaram?
— Não precisava combinar.
Minha mãe apareceu logo depois, enxugando as mãos no pano de prato.
— Cristiano! Você já jantou?
Ele pareceu até desconcertado.
— Ainda não, dona.
— Então entra.
— Não precisa...
— Eu falei entra.
Ela dizia essas coisas como quem não aceitava negociação. Poucos minutos depois, Cristiano já estava sentado à mesa tomando suco de fruta e comendo a janta ainda quente. Meu pai falava sobre futebol, minha mãe perguntava da Sandra, dona do galpão onde trabalhávamos. Cristiano respondia com educação desajeitada, sem inventar uma versão mais bonita de si mesmo.
— Moro sozinho faz uns meses.
— E dá conta? — perguntou minha mãe.
Ele deu de ombros.
— Dá porque tem que dar.
A frase ficou suspensa sobre a mesa. Sem drama, sem autopiedade, como uma verdade antiga demais para merecer explicação. Observei minha mãe diminuir discretamente a quantidade de comida ao servir no prato para sobrar mais para ele. Ela fazia isso com todo mundo de quem gostava e, de repente, também fazia com Cristiano.
Os dias seguintes repetiram pequenas coincidências, ou talvez nenhum de nós tivesse coragem de admitir que elas já não eram coincidências. Às vezes ele aparecia dizendo que estava passando por perto, outras vezes precisava devolver alguma ferramenta que meu pai havia emprestado. Num sábado de manhã surgiu carregando uma torneira nova.
— A Sandra comentou que a de vocês tava vazando.
Meu pai riu.
— Rapaz... você entende disso também?
— Um pouco de tudo.
Passei quase uma hora observando Cristiano deitado no chão frio da cozinha, braços enfiados debaixo da pia, conversando com meu pai sobre ferramentas que eu sequer sabia nomear. O rádio antigo tocava um sertanejo baixo, minha mãe preparava almoço. Nosso cachorro resolveu se deitar exatamente ao lado de Cristiano, como se o conhecesse havia anos. Quando ele terminou o serviço, abriu a torneira. Nenhuma gota vazando. Meu pai bateu em seu ombro.
— Você leva jeito.
Cristiano respondeu com um sorriso pequeno, daqueles que aparecem mais nos olhos do que na boca. Naquele instante compreendi uma coisa que me deixou profundamente desconfortável. Eu conseguia imaginar Cristiano naquela casa. Conseguia o imaginar chegando sem bater, mexendo na geladeira, reclamando do calor, dormindo no sofá depois do almoço. Aquilo era infinitamente mais íntimo do que qualquer lembrança que eu tinha do seu barraco e, justamente por isso, me assustava.
Na segunda-feira, voltamos ao galpão. O cheiro de óleo queimado parecia mais forte que o habitual, as chapas metálicas refletiam o calor como se o prédio inteiro respirasse ferrugem. Luquinhas me encontrou organizando algumas notas fiscais, encostou discretamente na mesa.
— Cê tá diferente.
Continuei escrevendo.
— Diferente como?
— Com cara de quem tá sorrindo sozinho.
Levantei os olhos. Ele sorria daquele jeito tranquilo, quase preguiçoso, como quem enxergava as pessoas antes mesmo de elas abrirem a boca.
— Você tá viajando.
— Tô?
Aproximou-se apenas o suficiente para falar baixo.
— Cristiano também tá.
Meu estômago endureceu.
— Não sei do que você tá falando.
— Claro que sabe.
Silêncio. Luquinhas tamborilou os dedos na bancada.
— Relaxa. Já te falei que não vou contar nada pra ninguém.
Respirei devagar, ele continuou.
— Só toma cuidado.
— Com o quê?
— Com vocês dois acharem que ninguém percebe quando duas pessoas começam a procurar desculpa pra ficar perto uma da outra.
Antes que eu respondesse, um caminhão entrou no galpão fazendo o piso inteiro tremer. Quando voltei a olhar, Luquinhas já caminhava para o outro lado do depósito.
Naquela noite, Cristiano apareceu novamente. Sem avisar, sem motivo convincente. Se sentou comigo na varanda. O céu do interior tinha estrelas demais para alguém da cidade acreditar. Ficamos vários minutos ouvindo apenas o rádio antigo do meu pai tocar baixinho lá dentro, nenhum de nós parecia com pressa de preencher o silêncio.
— Sua mãe é gente boa — disse ele.
— Ela gostou de você.
Ele soltou uma risada curta.
— Acho que ela ficou com pena.
— Ela não sente pena de ninguém.
— Então pior.
Olhei para ele.
— Pior?
— Significa que ela me enxergou.
Aquilo me pegou desprevenido. Cristiano dizia as frases mais importantes olhando para a rua, nunca para mim, como se falar de sentimentos exigisse um ponto fixo qualquer no horizonte. Depois de um longo silêncio, perguntou:
— Você já percebeu que eu invento desculpa pra vir aqui?
Meu coração errou um compasso.
— Já.
— E por que você nunca falou nada?
Sorri.
— Porque eu também inventava desculpa pra você continuar vindo.
Ele baixou a cabeça e riu sozinho, quase envergonhado. Foi um riso pequeno, desarmado. Muito diferente do rapaz que semanas antes me chamava de "dona bicha" no galpão.
Nesse momento, ouvi o ronco distante de outra motocicleta parando em frente ao portão. As vozes de dois homens atravessaram o muro, uma delas me pareceu imediatamente conhecida, algum colega de trabalho do galpão. Cristiano também reconheceu, seu sorriso desapareceu.
— Droga... — murmurou, se levantando de um salto.
Pela primeira vez desde que tudo começara, o mundo do lado de fora parecia disposto a entrar na nossa varanda. O ronco da motocicleta morreu diante do portão. Cristiano não precisou olhar duas vezes, o corpo inteiro endureceu antes mesmo de qualquer palavra ser dita. Havia um tipo de medo que não nascia do perigo imediato, mas da memória. Era o medo aprendido, aquele que sobrevivia mesmo quando nada, objetivamente, estava acontecendo.
— Entra — sussurrei, já me levantando.
Ele segurou meu pulso, os dedos estavam frios.
— Não.
Olhei para ele sem entender.
— Não corre.
— Como assim?
— Se você correr pra dentro de casa, vai parecer que a gente tá escondendo alguma coisa.
Aquilo me desmontou, porque eu faria exatamente isso. Cristiano respirou fundo, como quem tentava convencer primeiro a si mesmo.
— Fica aqui comigo.
A voz dele saiu baixa, mas firme.
— Só fica.
Do outro lado do muro, as duas vozes conversavam. Eram homens que procuravam a casa de um vizinho. Um deles, a voz conhecida, ria alto, o outro insistia que haviam errado a rua. Depois de alguns minutos, o motor voltou a roncar. A motocicleta arrancou e desapareceu lentamente na descida. O silêncio que ficou parecia maior que a rua inteira. Eu soltei o ar devagar, Cristiano também.
— Viu? — disse ele, tentando rir — A gente quase morreu... de imaginação.
Sorri sem vontade.
— Você assustou.
— Eu sei.
Nos sentamos outra vez. A varanda voltou a ser apenas uma varanda, o rádio continuava tocando baixinho lá dentro. Minha mãe ria de alguma coisa que meu pai dizia na cozinha, o cachorro levantou a cabeça, olhou para nós e voltou a dormir como se o mundo jamais tivesse conhecido tragédias. Cristiano acompanhou a cena com os olhos.
— Engraçado...
— O quê?
Ele demorou a responder.
— Eu gosto de ficar aqui.
Olhei para ele de lado.
— Eu percebi.
— Não... você não entendeu.
A mão dele passeava distraidamente pela madeira gasta do banco.
— Eu gosto... daqui.
Fez um gesto pequeno, abrangendo a casa, a varanda, o quintal, o pé de jabuticaba no fundo.
— Da sua casa.
Não havia vergonha na voz dele, havia espanto. Como se estivesse confessando algo que só descobrira naquele instante.
— Lá em casa... — começou, parando no meio da frase.
Depois sorriu de um jeito triste.
— Melhor. Não importa.
— Importa, sim.
Ele balançou a cabeça.
— Você já reparou que sua mãe sempre pergunta se eu comi?
Assenti.
— Seu pai vive inventando alguma coisa pra eu ajudar.
Outro silêncio.
— O cachorro até abana o rabo quando eu chego.
Eu ri.
— Isso realmente é um bom sinal.
Ele riu também, mas apenas por um segundo. Logo o sorriso desapareceu.
— Ninguém nunca ficou feliz porque eu apareci em lugar nenhum.
A frase caiu entre nós com uma delicadeza insuportável. Não foi dramática, não veio acompanhada de lágrimas. Justamente por isso doeu. Fiquei olhando para o piso de ardósia da varanda, a cera antiga desenhava pequenas rachaduras que eu nunca havia notado. Talvez porque algumas coisas só aparecessem quando alguém colocava palavras sobre elas. Cristiano apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu fico inventando desculpa pra vir aqui.
Sorriu sem humor.
— Achava que era por sua causa.
Virou o rosto para mim.
— Ainda é.
Fez outra pausa.
— Mas acho que não é só.
Aquilo me atravessou de um jeito inesperado. Pela primeira vez desde que o conheci, Cristiano parecia menor do que realmente era. Continuava alto, bonito, largo de ombros. Mas havia alguma coisa infantil naquele rapaz de dezenove anos que saíra cedo demais da casa dos pais e aprendera a sobreviver antes de aprender a descansar.
Ele não estava apenas procurando um amante, talvez estivesse procurando um lugar onde pudesse baixar a guarda. E isso me assustou mais do que qualquer desejo. Porque desejo termina, mas carência costuma criar raízes. Passei alguns segundos procurando as palavras certas, não encontrei nenhuma.
— Você pode continuar vindo.
Foi tudo o que consegui dizer. Ele sorriu daquele jeito torto que começava sempre pelo canto esquerdo da boca.
— Eu tava torcendo pra você falar isso.
Ficamos em silêncio outra vez. Era curioso como os nossos silêncios já não pareciam vazios. Havia gente que conversava durante horas sem realmente dizer nada, nós conseguíamos dividir alguns minutos olhando para a rua e, mesmo assim, parecia que muita coisa estava acontecendo. Talvez intimidade fosse exatamente isso, não o excesso de palavras, mas a ausência da necessidade delas.
Enquanto ele falava sobre um caminhão que havia quebrado no galpão naquela manhã, eu parei de o ouvir por alguns instantes. Não porque estivesse distraído, mas porque comecei a o observar. A luz amarelada da varanda desenhava o contorno do seu rosto.
Havia uma pequena cicatriz perto da sobrancelha esquerda que eu nunca tinha reparado. Alguns fios loiros caíam sobre a testa. Ele gesticulava muito quando contava histórias. Era bonito, muito bonito. Bonito de um jeito que parecia não perceber. E foi justamente aí que meu velho hábito de pensar demais resolveu aparecer.
"Isso não faz sentido."
A frase veio pronta. Nós tínhamos uma diferença de idade de três anos. Eu ainda estava no ensino médio, ele trabalhava o dia inteiro para pagar aluguel. Eu sonhava com faculdade, ele sonhava com uma pequena estabilidade. Eu vinha de uma casa onde nunca faltara colo, ele parecia ter aprendido cedo demais que carinho era artigo de luxo. Como aquilo poderia dar certo?
E havia outra coisa, olhei para ele outra vez. Cristiano era, objetivamente, muito mais bonito do que eu, sempre achei isso. Não que eu fosse feio, mas é que, comparado a ele, eu ficava ofuscado. Magro, pequeno, cabelos e olhos castanhos comuns, ainda com algumas espinhas no rosto, no meio da adolescência. Cristiano era muito mais alto, muito mais chamativo, muito mais... interrompi meu próprio pensamento.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode.
— Você nunca pensou que podia... sei lá... arrumar alguém mais bonito?
Ele franziu a testa.
— Mais bonito que quem?
— Que eu.
Ele me encarou por alguns segundos, depois soltou uma risada tão espontânea que quase fiquei ofendido.
— Você tá falando sério?
— Tô.
Cristiano coçou a barba rala, pensando como responder. Quando falou, foi com a sinceridade brutal de quem ainda não aprendeu a enfeitar as frases.
— Você não é uma beldade.
Fez uma pausa.
— Mas, ei...
Sorriu.
— Você é legal.
Meu silêncio deve o ter preocupado, porque ele continuou imediatamente.
— Ah... e isso tá ótimo pra mim.
Acabei rindo.
— Essa foi a pior declaração que alguém já me fez.
— Foi sincera.
— Demais.
Ele deu de ombros.
— Eu não sei mentir bonito igual você.
Ficamos rindo por alguns instantes e percebi uma coisa curiosa. Se aquela conversa tivesse acontecido alguns meses antes, eu teria me sentido diminuído, naquela noite, não. Porque havia algo estranhamente reconfortante na honestidade dele. Cristiano não me colocava num pedestal, ele simplesmente... me escolhia.
Quando ele foi embora, já era quase meia-noite. Fiquei parado no portão observando a lanterna vermelha da motocicleta desaparecer na curva da rua, só entrei quando ela sumiu completamente. Antes de dormir, fiquei encarando o teto escuro do meu quarto.
Talvez eu fosse racional demais, talvez estivesse tentando calcular um sentimento que não aceitava fórmulas. Pela primeira vez desde que conheci Cristiano, me ocorreu que algumas histórias não pedem garantias, pedem coragem. E talvez, apenas talvez, um pouco de fé na magia das noites que ainda estavam por vir.
