A manhã seguinte trouxe uma sensação insuportável de sufoco. Olhar para Carlos durante o café da manhã, percebendo o silêncio distante e os olhares desconfiados do marido, fez Helena entender que não podia continuar rendida. A mudança drástica em seu comportamento na noite anterior havia deixado marcas, e o tempo para agir estava se esgotando.
Desesperada por uma saída racional, agendou uma reunião de emergência com a Dra. Márcia, uma advogada criminalista de renome, conhecida pela discrição absoluta.
No escritório da defensora, Helena desabafou. Com o rosto entre as mãos, contou a história de chantagem, os vídeos e a invasão de Humberto em sua vida.
Dra. Márcia ouviu tudo em silêncio antes de encarar Helena com uma postura profissional e objetiva:
— Helena, juridicamente podemos enquadrar essa conduta como extorsão e invasão de dispositivo. Porém, a justiça é lenta. Entrar com uma medida judicial agora não impede que os arquivos vazem em questão de segundos na internet.
A advogada inclinou-se sobre a mesa, traçando um plano de ação em duas frentes:
— Para nos protegermos de verdade, você precisa de inteligência de campo e neutralização técnica. Contrate um investigador particular para levantar a vida do Humberto e encontrar pontos fracos dele. Ao mesmo tempo, consiga alguém de extrema confiança que entenda de invasão de sistemas para rastrear e apagar esses servidores na nuvem.
Seguindo a recomendação, a primeira parada de Helena foi o escritório de um detetive particular discreto. A conversa foi extremamente desconfortável. As únicas evidências visuais que Helena possuía eram as fotos capturadas na garagem e no motel — imagens onde ela aparecia exposta ao lado dos chantageadores.
Engolindo a vergonha, ela entregou os arquivos ao investigador.
— Com o rosto desses homens e os locais das fotos, consigo levantar o histórico completo deles em pouco tempo — garantiu o detetive, guardando o material no cofre.
Faltava a parte técnica. Helena lembrou-se imediatamente de Marcos, técnico do setor de TI da sua empresa. Ela sabia que, por trás da postura reservada, ele possuía conhecimento avançado em segurança da informação e histórico de ethical hacking.
Ela o chamou para uma conversa discreta e forneceu um endereço de IP mascarado, pedindo para ele investigar a origem do vazamento.
A armadilha, no entanto, fechou-se contra ela.
Horas mais tarde, enquanto Helena tentava despachar documentos em sua sala na diretoria, a porta foi aberta sem anúncio. Era Marcos, girando um pen drive metálico entre os dedos e ostentando um sorriso audacioso.
— Encontrei o servidor na nuvem, Helena... e baixei uma cópia inteira do acervo — disse ele, jogando a ameaça abertamente. — Me procura na sala do TI no final do expediente para conversarmos sobre o preço do meu silêncio.
Antes que ela pudesse reagir, ele saiu, deixando a promessa de uma nova chantagem no ar.
Pouco antes de descer ao subsolo, o celular de Helena vibrou. Era a ligação do detetive.
— Helena? Descobri quem é o Humberto — revelou o investigador. — E a situação é bem mais grave. Ele é um dos principais investidores do projeto que o seu marido lidera e tem ligações de negócios antigas com a família do Carlos. Se o Humberto cair num escândalo, a carreira e o patrimônio do seu marido vão junto.
A revelação caiu como uma bomba. A chantagem não ameaçava apenas a sua imagem, mas toda a estrutura da sua família. A certeza de que precisaria contar tudo a Carlos em algum momento tornou-se inevitável.
Buscando algum alívio momentâneo, Helena tentou se acalmar após desligar o telefone, mas a dúvida continuava a atormentá-la: o que mais aquele detetive iria descobrir? Sem tempo para absorver o choque, ela precisava resolver o problema imediato no subsolo.
Durante a caminhada até o elevador, sua mente disparava em hipóteses sobre o que Marcos pediria. Dinheiro? Uma promoção? Uma transferência? Ou a chance de se aproveitar da vulnerabilidade dela?
Ao entrar na sala de TI, o ambiente era frio e isolado pelo zumbido constante dos servidores. Marcos a recebeu com uma conversa estritamente técnica, mostrando as linhas de código no monitor.
— Olhe aqui, Helena — explicou ele. — Eu não posso simplesmente deletar esses arquivos daqui da empresa. O sistema de auditoria do nosso firewall registra cada comando. Se eu tentar apagar isso usando a rede interna, os logs travam a operação e acendem um alerta geral.
— E como resolver isso? — perguntou ela.
— Exige um acesso externo, fora da rede da empresa, mascarando os rastros. É algo complexo.
Helena tentou manter o tom profissional:
— Quanto você cobra para fazer esse serviço por fora?
Marcos recostou-se na cadeira com um sorriso calmo.
— O valor em dinheiro a gente acerta. Mas existe algo a mais.
— Que algo a mais, Marcos?
Ele levantou-se e pegou uma pequena caixa aveludada sobre a mesa, tirando de lá uma gargantilha de couro negro com fecho metálico — um colar de BDSM, símbolo inequívoco de submissão.
— Você vai pagar uma noite em um motel de alto padrão, nada de lugar de ralé. Vai me esperar lá usando lingerie preta, espartilho, meia 7/8 com cinta-liga, salto alto e este colar. É a condição para deixar claro quem manda naquela suíte.
Helena encarou o colar, sentindo o ar fugir dos pulmões. O impacto daquelas exigências fez sua mente oscilar por um instante, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto.
Quase por reflexo, Helena ativou o modo gestora. Anos lidando com crises corporativas no RH a treinaram para desligar a emoção e assumir o controle analítico.
Ela respirou fundo, ajustou a postura e encarou Marcos com um olhar frio:
— Dinheiro, Marcos. Eu posso te transferir uma quantia expressiva agora mesmo. Nomeie o seu preço.
— Não é sobre dinheiro, Helena. Esquece — rebateu ele, irredutível. — Minha proposta é exatamente o que eu disse.
Percebendo que a via financeira estava encerrada, Helena começou a impor seus termos para conter os danos e fechar as brechas.
— Tudo bem. Se vamos fazer isso, faremos sob regras claras de segurança — declarou ela, apontando para a mesa. — Primeira exigência: nada de gravações. Nenhuma câmera oculta, nenhum celular gravando. Eu vou fazer uma varredura no ambiente antes de qualquer coisa. Se eu encontrar um único dispositivo ligado, o acordo acaba no mesmo segundo.
Marcos continuou em silêncio, ouvindo atento.
— Segunda exigência — continuou ela. — Eu olhei para este colar e entendi o recado. Vou ter que te chamar de 'senhor' ou de 'mestre' lá dentro?
— Sim — confirmou Marcos. — Do momento em que você fechar a porta até a hora de ir embora, lá sou eu quem manda.
— Então está combinado. Eu vou te satisfazer em absolutamente tudo lá dentro, sem resistência. Porém, a regra seguinte é inegociável: eu saio daquela suíte com o envelope pardo na minha mão e com a confirmação de que os arquivos foram limpos do servidor.
Antes que ele respondesse, Helena ergueu a mão, impondo a condição logística final:
— E tem mais uma coisa, Marcos. Não vai ser à noite. Se eu inventar uma saída à noite, meu marido vai desconfiar na hora. E eu sei muito bem que você também é casado. Sua esposa vai acender um sinal de alerta se você sumir fora do horário de rotina.
— O encontro tem que acontecer durante o horário de expediente — concluiu a diretora. — Um compromisso externo da diretoria não levanta suspeitas para ninguém. Eu vou escolher o dia, entre amanhã e depois, vou selecionar a suíte, definir o horário comercial e te aviso.
Marcos encarou Helena por alguns segundos, surpreso com a precisão do raciocínio dela. Ele pegou a caixa e o envelope, guardou-os na gaveta e estendeu a mão:
— Negócio fechado, diretora. Durante o expediente. Fico no aguardo da sua mensagem com o endereço e o horário.
As portas do elevador se fecharam, isolando Helena no silêncio metálico do cabine que subia devagar. Encostada no espelho, a respiração finalmente saiu compassada, embora a cabeça fervilhasse.
Ela olhou para as próprias mãos trêmulas. O preço a pagar parecia cada vez mais alto. Para fazer aquilo dar certo, para garantir que o Marcos entregasse o envelope e apagasse os servidores, ela não poderia demonstrar hesitação.
teria que encenar a entrega perfeita. Teria que fazer parecer real, mostrar que estava gostando e satisfazê-lo por completo para que ele não desconfiasse de nada. Era um mergulho ainda mais fundo no lamaçal, mas, a essa altura, a determinação de derrubar o Humberto e salvar sua família falava mais alto que qualquer pudor.
O sinal sonoro do elevador avisou a chegada ao andar da diretoria.
Antes de pisar no corredor iluminado, Helena abriu a bolsa com calma. Deslizou a mão até o fundo do compartimento e tirou o celular. Com dois toques ágeis na tela, interrompeu a aplicação que rodava em segundo plano e salvou o arquivo de áudio.
Ela encarou a barra de tempo do gravador, que marcava quase vinte minutos de áudio cristalino com todas as exigências, chantagens e ameaças ditadas por Marcos.
Um sorriso frio e sutil surgiu no canto dos seus lábios.
— Ainda bem que gravei tudo... — murmurou para si mesma, guardando o aparelho no bolso do casaco.
Como você pretende usar essa gravação no Capítulo 7: a Helena vai guardar essa carta na manga para usar só depois de pegar o envelope do Marcos, ou ela vai repassar o áudio imediatamente para o detetive e para a advogada?