O som da televisão no apartamento no coração de San Telmo não era apenas áudio: era uma vibração incômoda, densa, que fazia o vidro das janelas altas tremer contra os caixilhos de madeira antiga. O ar dentro da sala estava espesso, impregnado com a fumaça de um charuto cubano mal tragado. O que salvava era o aroma frutado do vinho Malbec esquecido nas taças e o cheiro metálico, quase elétrico, da tensão sufocante que vinha da rua.
Aliás, das ruas vinha uma mistura insólita de lamento e esperança, que substituíram a vibração que havia até o início da partida. A Argentina era a franca favorita a se sagrar campeã da Copa do Mundo de 2026. Era. Porque ali, hoje, justamente hoje na derradeira partida, ela parecia outra coisa, qualquer coisa, menos uma seleção.
Na tela plana, o cronômetro avançava impiedoso para os 82 minutos do segundo tempo. O placar teimava em ostentar um 0 a 0 indigesto, mas a geometria do campo contava uma história muito mais cruel: a Espanha sufocava a Argentina, tecendo uma teia de passes curtos e hipnóticos, enquanto os hermanos se arrastavam na grama, tentando respirar e tentando não contar com outra anulação de gol dos rivais.
Valentin andava de um lado para o outro sobre o taco de madeira rangente. A camisa albiceleste número 10 estava pesada, colada ao peito por um suor frio. Cada músculo do seu pescoço estava retorcido como um cabo de aço. Do lado de fora, nas sacadas de Buenos Aires, o silêncio da cidade era o prenúncio de uma tempestade reprimida. Era quase possível ouvir o estalar distante de dentes e o rolar de garrafas pelo asfalto:
- ¡Están muertos, Helena... Mirá esto! ¡No pueden dar tres pases seguidos! - Rosnou ele, a voz rasgada pela frustração, cravando os dedos nos próprios cabelos escuros e já bastante bagunçados.
Helena o observava do sofá de veludo desgastado, prendendo uma vontade quase explosiva de gargalhar da desgraça alheia. Ela trajava apenas uma camiseta de algodão folgada que escorregava por um dos ombros, revelando a curva macia da saboneteira. O contraste era magnético: de um lado, a agitação quase agressiva de Valentin, exalando calor e testosterona reprimida; do outro, a calma sensual e indolente da brasileira, cujo olhar escuro bebia cada movimento do argentino:
- Vem cá, mi amor! - Disse ela com uma voz aveludada e baixa, rasgando o ruído frenético do narrador esportivo.
- No puedo, falta poco, el partido está colgado de un hilo...
Helena não argumentou. Levantou-se devagar, deslizando descalça pelo taco frio. Ela não caminhou em direção à TV, mas infiltrou-se no espaço pessoal dele, posicionando-se exatamente entre os olhos vidrados de Valentin, a luz azulada da tela e um narrador que berrava, desacreditado no que narrava. O perfume dela, uma mistura de baunilha, pele quente e o aroma amadeirado do vinho, atropelou o odor de suor dele:
- Você está tenso demais, hombre! O jogo lá tá travado, mas aqui dentro a gente pode relaxar, talvez mudar o ritmo.
- Helena, dale, es la final del Mundial... - Ele tentou protestar, mas a frase morreu em um suspiro engasgado quando as palmas das mãos dela, quentes e macias, pousaram contra o abdômen rígido dele, subindo devagar por baixo da camisa de futebol até encontrar a pele nua e quente.
Os dedos de Helena seguiram a linha de sua cintura e se cravaram levemente nas costas dele, sentindo os músculos das vértebras se contraírem. Ela roçou a ponta do nariz na linha da mandíbula de Valentin, inalando o cheiro salgado do pescoço dele, sentindo o pulsar da sua jugular bater feito um tambor descontrolado:
- Deixa eles resolverem lá. - Sussurrou ela, os lábios roçando a pele sensível logo abaixo da orelha dele, enviando um arrepio visível pelos braços do argentino: - Concentra a sua paixão onde ela realmente importa agora.
Antes que ele pudesse raciocinar, a TV explodiu num clamor estridente do narrador:
- Pero... ¡Pero es imposible! Tarjeta roja para Enzo Fernández. Ese árbitro de pacotilla seguro que fue sobornado por España. ¡Fuera los colonizadores! ¡Aquí no más!
Um urro coletivo de ódio e desespero atravessou as janelas de San Telmo, um eco gutural de milhares de gargantas cortando a noite portenha. A Argentina jogaria a prorrogação com um homem a menos:
- ¡No, la concha de su madre! ¡Nos quedamos con diez! - Praguejou Valentin, os dentes travados, a raiva do desastre iminente subindo-lhe pelos olhos como uma onda de sangue.
Mas ao olhar para baixo, ele não encontrou o desespero do jogo. Encontrou os olhos pretos de Helena, profundos, dilatados de desejo, brilhando à meia-luz. A humilhação esportiva encontrou um atalho violento para a libido. Valentin segurou o rosto dela com as duas mãos grandes e ásperas, sepultando sua boca na dela num beijo cru, urgente, com gosto de vinho e ódio, enquanto o apito final do tempo regulamentar ecoava na TV, anunciando a agonia da prorrogação.
Eles se jogaram sobre o sofá: ela, excitada, querendo um macho que a arregaçasse; ele, entristecido, querendo um colo onde pudesse chorar. Como uma brasileira que não desiste nunca, Helena saltou sua camiseta, exibindo os seios médios e duros de aréolas amarronzadas, herança de sua avó quilombola. Valentim arregalou os olhos por um instante e no seguinte abocanhou com voracidade, fazendo ela gemer alto.
Mas não houve tempo suficiente para nada mais. O cronômetro da transmissão reiniciou. Seriam agora mais trinta minutos de martírio. Helena tentou segurá-lo em si, mas na sala, a narração em espanhol o hipnotizou de imediato. E o efeito foi imediato: ele a segurou pela cintura e a colocou de lado, como se fosse algo de menor valor:
- Mas que argentino mais filho da puta!... – Helena resmungou.
- ¿Cómo, cariño?
- Nada não! Vou ali e já volto.
Ela foi até o quarto e ficou nua diante do espelho. Olhou-se por um breve momento, suas curvas, sua cor, as marcas de seu biquini:
- Viado, ele não é; feia, eu não sou. Então, só pode ser a bosta desse jogo... – Ela concluiu.
Foi então até sua mala, pegando uma calcinha de renda preta e transparente, e meias calça 7/8 pretas com uma renda delicada no topo. Vestiu tudo e ainda colocou um salto alto, pensando: “Se isso não tirá-lo do Messi, eu desisto!”
Ela voltou a sala. Valentim gemia como se estivesse sendo torturado. Aliás, ele só não, toda uma massa de pessoas gemia distante. Ela se posicionou à frente de Valentim que ainda ensaiou um protesto, mas que restou engolido ao ver a púbis depilada e brilhante de excitação da bela morena a sua frente:
- Helena!?
- Ou o Messi, ou eu! Você decide!
Valentim ainda olhou para televisão, mas agora a jogada parecia ser outra. Logo, uma trilha sonora abafada pelo som áspero do tecido sendo puxado pela urgência e pelos suspiros pesados passaram a preencher o espaço.
Com um único movimento firme, Valentin segurou Helena no colo. Seus olhos, antes fixos na bola, agora devoravam cada milímetro do corpo dela: os seios erguidos pela respiração acelerada, a cintura fina marcando a sombra do abajur, a pele brilhando sob o suor fino que começava a despontar. A dor nacional virara combustível puro.
Helena, com as pernas entrelaçadas ao redor do quadril dele, sentia a rigidez do pênis de Valentin pressionado seu corpo. Ele a carregou até a mesa de jantar de madeira maciça, posicionada no centro do apartamento e com um golpe rápido do braço, atirou taças, garrafas e papéis no chão, o som do vidro se partindo misturando-se ao barulho dos carros na rua:
- Sos una provocación, ¿sabías? - Sussurrou ele contra a boca dela, a voz rouca, o sotaque rioplatense arrastado e quente roçando o pescoço de Helena enquanto a deitava sobre a madeira fria: - Me vas a volver loco...
- E você está precisando descontar essa raiva em algum lugar... - Provocou ela, arranhando os ombros largos dele e puxando-o para si: - Já que não dá para bater no Messi, bate seu pau em mim.
Quando os corpos finalmente se uniram, Helena soltou um gemido agudo, um som límpido e rasgado que ecoou pelo teto alto do apartamento, contrastando com os murmúrios sombrios que vinham das sacadas vizinhas. Valentin não tinha espaço para delicadezas, nem queria: seu ritmo era bruto, cadenciado pelo martelar do seu próprio coração acelerado e pela necessidade desesperada de anestesiar a tragédia que acontecia na TV ao lado.
A cada investida, a mesa de madeira rangia em um compasso frenético, um estalar seco que acompanhava o som da pele batendo na pele. Do lado de fora, o vento frio do outono portenho uivava entre os edifícios, ocultando os lamentos de outros Hermanos, mas dentro do apartamento a temperatura beirava o insuportável. Valentin segurava as coxas dela com força, os dedos afundando na carne macia, deixando marcas vermelhas que pareciam troféus.
Helena arqueou a coluna, entregando-se completamente àquela tempestade física. Ela podia sentir o suor do peito dele pingando sobre o seu ventre, o contraste entre o calor abrasador do corpo de Valentin e o toque gélido da madeira abaixo dela. A tensão do 0 a 0 lá fora virara uma ebulição incontrolável ali dentro.
Então, o segundo tempo da prorrogação começou.
A seleção argentina, exausta e com um jogador a menos, já não conseguia conter o avanço espanhol. Aliás, se com onze já era difícil, com dez seria praticamente questão de tempo para o pior acontecer. O esgotamento dos atletas na TV espelhava o cansaço de Valentim, que lutava para manter a concentração no momento, mas sempre olhando de soslaio para a TV ligada. E uma relação improvável se formou num vetor oposto: quanto mais o time definhava na tela, mais arfante, urgente e desesperado se tornava o desempenho de Valentin. Eles buscavam o ápice como quem procura ar antes do afundamento final.
Mas, aos 116 minutos, um tremor tomou conta de Valentin. O áudio da TV subiu num tom grave, quase fúnebre do narrador:
- Goooool de España...
Um silêncio aterrador baixou sobre Buenos Aires, seguido segundos depois por um urro sufocado de dor coletiva que atravessou as persianas de San Telmo. O gol selava o fim do sonho.
Valentin parou no meio de um movimento. A cabeça dele tombou no ombro de Helena, o peito subindo e descendo em espasmos violentos, um murmúrio de derrota pura escapando de sua garganta:
- No me digas... la puta madre... no...
Helena sentiu a fraqueza tentar se instalar, mas recusou-se a deixar o fogo apagar. Segurou a nuca dele com as duas mãos, cravando as unhas no couro cabeludo de Valentin, e forçou-o a olhar para ela. Os olhos dele estavam marejados de frustração. Ela puxou o quadril dele com força brutal contra o seu:
- Olha para mim, cara! - Ordenou ela, a voz grave, trêmula de tesão: - Esquece a porra desse jogo. Esquece o mundo lá fora. Eu estou aqui. E me fode como homem, ou procuro um Yamal na rua que...
Helena nem terminou de falar. O choque da derrota e a ameaça dela agiram como a faísca final em um barril de pólvora. Valentin soltou um rugido baixo e voltou a movê-la com uma paixão cega, avassaladora e sem controle. A dor do futebol virou a catarse do corpo. Ele virou Helena com a barriga para baixo e penetrou seu cu sem prévio aviso. Helena soltou um grito alto, sem se importar se a vizinhança inteira em luto escutaria, arrastando as unhas pela madeira da mesa até encontrar alguma resistência, isso enquanto uma onda avassaladora de prazer elétrico os atingia juntos, fazendo o tempo e o espaço desaparecerem por alguns segundos divinos.
Estocadas firmes começaram a balançar a mesa. O som dos corpos transmitiam a ira de um perdedor inconsolável. Nem mesmo o prazer de enrabar a bela brasileira parecia suficiente para aliviá-lo. Mas ele focou nisso: Argentina fodendo o Brasil... Argentina fodendo o Brasil... Argentina fodendo o Brasil...
O apito final da partida soou na televisão, mas já era apenas um ruído de fundo sem importância. A Espanha se sagrava campeã do mundo. A Argentina chorava na tela, nos bares, nos edifícios e no asfalto.
Mas ali no apartamento, o silêncio era quebrado apenas pelas respirações profundas, arfantes e sincronizadas dos dois. Valentin deu um urro seco e rouco, desabando com todo o seu peso sobre as costas de Helena, a testa oculta na curva da nuca dela, o corpo ainda tremendo suavemente após a descarga emocional devastadora. O suor colava a pele dos dois como uma segunda camada.
Helena se mantinha agarrada a uma toalha da mesa, os dedos apertando o tecido até os nós ficarem brancos. Nas suas costas, sentia o suor de Valentin e quase o ritmo descontrolado de seu coração que agora começava a desacelerar aos poucos.
Na TV, o brilho das luzes do estádio mostrava torcedores com as mãos no rosto, mergulhados em lágrimas, bem como uma confusão qualquer entre os jogadores das duas seleções.
Ela deu um sorriso calmo, satisfeito, e virou o rosto até ver que Valentin já a encarava, prestes a dizer algo, bem próximo, quase tocando a orelha dela. Entretanto, a brasileira, com uma doçura provocante e acolhedora, não poderia deixar passar a oportunidade:
- Não chores por mim, Argentina...
Valentin arregalou os olhos e se posicionou melhor, apenas para ver um sorriso ainda preso nos lábios da brasileira. Então, soltou um riso rouco, fraco, que vibrou contra as costas dela. Ele relaxou os ombros pesados, aprofundando o rosto no perfume do pescoço de Helena enquanto murmurava com a voz falhada:
- Eres increíble, chica... ¡Al menos no lo perdí todo!
Ali, no escuro do apartamento em San Telmo, cercado pelo luto de uma nação inteira, ele havia encontrado uma única e inesquecível vitória. Pelo menos, até a próxima partida...
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