A poeira da estrada de terra ainda assentava nas canelas quando os dois largaram as mochilas no assoalho barulhento da varanda. A casa do avô cheirava a mofo, café requentado e madeira velha — o mesmo cheiro de quando eram moleques. Para Evandro e Rivaldo, ambos com dezenove anos e os hormônios fervendo na grosseria daquele fim de mundo, o tempo parecia não ter saído do lugar. A rivalidade da infância continuava ali, intacta, no jeito de se medirem com os olhos.
— Duvido tu acertar três seguidas naquele nó de pinho ali, do outro lado — Rivaldo apontou com o queixo, jogando uma pedra lisa para cima e pegando de volta na palma da mão. Aquele mesmo sorriso de canto, provocador, de quem ia aprontar.
Evandro mediu a distância. O riacho corria marrom e rápido lá embaixo.
— Valendo o quê? — Evandro limpou o suor da testa com a manga da camiseta.
— O de sempre. O cu. Igual tu perdeu lá atrás do paiol.
Evandro soltou um sopro de riso, chutando uma moita de capim.
— A gente tá velho pra essas idiotices, Rivaldo. Puta que pariu.
— Vai amarelar na primeira, moleque?
O olhar de Rivaldo pesou. Cutucou o brio que Evandro nunca soube segurar. O sangue subiu quente para as orelhas. Evandro abaixou, pegou três pedras no chão, sentindo a textura áspera arranhando os dedos.
— Vou é te quebrar no meio, seu merda. Olha aí.
A primeira pedra bateu na água, levantando um respingo alto. A segunda passou raspando na casca. A terceira afundou direto no lodo. Rivaldo nem precisou caprichar; o estalo seco da pedra dele batendo três vezes direto no miolo do tronco ecoou pelo mato como três palmas debochadas.
— Tá devendo, primo. Regra é regra — Rivaldo largou as pedras que restavam. Os olhos miúdos desceram direto para o quadril de Evandro.
Evandro não respondeu. Deu as costas e começou a andar pela trilha estreita que levava ao capinzal mais alto, longe da vista da casa. Os passos eram duros, os braços cruzados, a mandíbula tão travada que os músculos do maxilar saltavam. Rivaldo vinha colado, o som dos chinelos estalando nas folhas secas e a respiração já mudando de ritmo no silêncio do mato.
O sol do meio-dia castigava a clareira. O cheiro de terra úmida misturada com o capim-limão pisoteado deixava o ar abafado, pesado. Evandro parou de frente para um tronco grosso de guajuvira. Apoiou as duas mãos na casca áspera, sentindo os nós da madeira cravarem na palma. Não olhou para trás. Fixou os olhos em uma fileira de formigas que subia pelo tronco.
O barulho do zíper da bermuda de Rivaldo abrindo quebrou o silêncio. Logo em seguida, o tecido da roupa de Evandro foi puxado para baixo de uma vez, até os joelhos. O vento súbito bateu frio na pele das nádegas expostas, contrastando com o sol quente que queimava suas costas. Evandro segurou o tronco com mais força, os nós dos dedos ficando brancos. Ficou imóvel, o rosto virado para o lado oposto, os lábios apertados.
Atrás dele, veio o som do cuspe farto batendo na palma da mão. Um barulho úmido, pesado. Rivaldo deu um passo à frente, colando o peito suado nas costas de Evandro. Os dedos grossos e melados de saliva tocaram a pele arrepiada, forçando a entrada de uma vez para abrir caminho. Evandro soltou o ar pelo nariz de forma ruidosa, mas não saiu do lugar. O corpo tencionou, as coxas rígidas como pedra, resistindo aos dedos que cutucavam ali dentro.
— Relaxa essa porra, Evandro… — a voz de Rivaldo saiu rouca, colada na sua orelha, quente.
Mais cuspe. Rivaldo empurrou o quadril e o pau ereto, grosso, tocou a carne tensa. Sem esperar, ele jogou o peso do corpo.
Evandro fechou os olhos com força, cravando as unhas na casca da árvore. A sensação foi de um rasgo quente, o ardor da pele esticando ao limite enquanto o pau entrava devagar, vencendo a resistência da musculatura travada. O pau de Rivaldo preenchia tudo, latejando lá dentro. Um gemido seco, preso no fundo da garganta, quase saiu, mas Evandro mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue.
Rivaldo segurou os ossos do quadril de Evandro com as duas mãos, afundando os dedos com força, marcando a pele. Começou a bombear. O ritmo começou lento, pesado, mas logo virou uma sequência de estocadas firmes. O som da carne batendo com força — um estalo úmido e ritmado — preenchia a clareira, abafando o barulho das cigarras.
A cada golpe fundo, o corpo de Evandro era jogado contra a árvore, a casca arranhando o seu peito, mas ele mantinha os pés firmes no chão, sem ceder ao ritmo, sem empurrar de volta. Por dentro, o canal apertado esmagava o membro de forma involuntária, mas o resto do corpo de Evandro era uma estátua.
Rivaldo desceu uma das mãos, tateando entre as coxas suadas de Evandro até achar o pau dele. Estava duro feito pedra Rivaldo apertou, batendo uma de leve, tentando arrancar algum sinal de reação, mas Evandro continuava controlando a respiração, fingindo que não estava gostando nem um pouco de dar o cu. Os olhos cravados nas formigas que seguiam o caminho delas no tronco. Ele ignorava o próprio pau sendo mexido. O prazer ali era fingir que não queria ser enrabado.
— Caralho, primo… tá apertado demais, puta que pariu — Rivaldo grunhiu, o suor do rosto pingando direto nas costas de Evandro.
O ritmo virou selvageria. As estocadas vinham rápidas, curtas, barulhentas. O cheiro de sexo e suor azedo ficou denso no ar da clareira. Rivaldo afundou uma última vez, o pau entrando até o talo, prensando o quadril de Evandro contra o seu. Ele soltou um rugido rouco, jogando a cabeça para trás enquanto descarregava tudo lá dentro. O calor do sêmen inundou o fundo do canal de Evandro, transbordando e escorrendo morno pelas suas coxas.
Rivaldo ficou ali alguns segundos, o peito subindo e descendo contra as costas do primo, a respiração cortada. Depois, puxou para fora devagar. O som do desencaixe foi um estalo úmido.
Com um tapa estalado na bunda de Evandro, Rivaldo deu um passo para trás, rindo curto, ainda ofegante.
— Boa aposta, primo. Puta que pariu.
Evandro esperou o primo se afastar um metro. Só então soltou o tronco da árvore, os dedos dormentes do esforço. Sem pressa, sem olhar para trás e sem nenhuma expressão de choro ou raiva, ele se curvou, pegou a bermuda e a cueca no chão e as puxou para cima. O líquido morno ainda escorria pela parte interna da perna, melando o tecido, mas ele ignorou. Limpou o suor da testa com a manga da camisa.
Olhou nos olhos de Rivaldo, a cara completamente limpa, vazia de qualquer arrependimento ou tesão.
— Tá pago.
Deu as costas e pegou a trilha de volta para a casa velha. Caminhava firme, o corpo dolorido, mas a postura reta. Atrás dele, Rivaldo vinha assobiando baixo, satisfeito. O silêncio do mato voltou, guardando o suor e o sêmen que a terra úmida da clareira logo trataria de sumir com eles.
