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A saga de Otávio 7 – A fome que devora tudo…

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Um conto erótico de Xandão Sá
Categoria: Gay
Contém 5115 palavras
Data: 27/06/2026 00:53:09

A liberdade de Ricardo se tornou um peso insustentável para Otávio. Os anos 1990 trouxeram tempos mais arejados, mas os preconceitos ainda eram evidentes, dando base e sustentação para intolerâncias e violências, das veladas as manifestadas sem filtro, sobretudo nas questões de comportamento. Ricardo era vanguarda com sua sexualidade assumida, em oposição a dubiedade do armário de Otávio. Por isso, os conflitos se tornaram inevitáveis e, depois de mais uma discussão, decidiram dar um ponto final no envolvimento que estavam tendo. O estopim se deu quando Ricardo colocou a mão na coxa de Otávio na plateia do teatro José de Alencar, durante a apresentação de um espetáculo com atores globais em turnê pelo Nordeste e a reação imediata de Otávio removendo a mão do “amigo” e repelindo o toque íntimo. Foi o bastante para Ricardo se levantar e sair no meio do espetáculo. Otávio hesitou por um minuto ou dois, mas se levantou e foi atrás. Alcançou Ricardo na fila de táxi e tentou falar, mas Ricardo cortou a conversa, dizendo com rispidez, enquanto entrava no carro:

- Eu não vou ser o segredo de ninguém.

Otávio ficou parado feito um poste vendo o carro ir embora e levando com ele a esperança de ter uma relação estável com outro homem. Era a sua aposta, que ele e Ricardo teriam um caso, na surdina, no sigilo, até que as condições permitissem ele ter o que ele dizia que queria, mas no tempo dele, o que, definitivamente, não era o tempo de Ricardo, para quem a vida é agora e o direito de ser feliz começa ontem. Nos dias e semanas seguintes, Tavinho tentou, sem sucesso, fazer contato, mas Ricardo se recusava a falar com ele, até que um dia a mãe de Ricardo deu a ele, em mais uma ligação telefônica, o recado seco mandado pelo filho:

- Desista!

E ele foi desistindo, controlando e sufocando a vontade de procurar, de ligar, de ir atrás até que a vontade passou. A certeza se deu quando numa tarde de sábado, passeando com Alice pelo Shopping viu Ricardo ao longe. Seu coração não disparou, não sentiu nada, nem nostalgia ou constrangimento. Escolheu mudar o caminho para evitar o encontro e seguiu em frente, recolhido ao próprio armário e assim foi pelos próximos meses, vivendo sua vida dupla, com sua noiva virgem, com sua família aparentemente satisfeita com sua situação e com seus esforços entre conciliar o desejo de foder com outros homens e esconder isso do resto do mundo, enquanto se permitia ter aventuras com uma ou outra mulher que lhe dava mole, afinal precisava confirmar sua condição de macho perante a sociedade.

Uma condição que ele constatava ser mais comum do que para as outras pessoas, alheias à realidade das ambiguidades, pudessem imaginar. E de tanto frequentar o submundo dos encontros clandestinos e anônimos, passou a reconhecer um ou outro, tantos nos locais do circuito dos “homens que fazem sexo com homens” como viu no cartaz de uma palestra na Faculdade, quanto em outros lugares da vida cotidiana, e, nesses casos, ao invés de entrar em pânico, passou progressivamente a naturalizar esses eventos e ter uma espécie de cordialidade social, um aceno discreto, um meneio de cabeça, uma troca de olhares mais demorada, quando encontrava tais parceiros de putaria em outros locais, foram dos ambientes de caça e pegação. Uma confraria silenciosa…

O ano de 1994 começou trazendo um turbilhão de novidades. Alice se formou no final de 1993 e emendou com uma pós-graduação que, junto com a rotina de plantões, mantinha a convivência deles de forma limitada, o que era muito confortável para Otávio, ainda mais prestes a se formar. Nesse meio tempo surgiu uma novidade que iria impactar sua vida: abriu concurso para a PF e ele, num ato de impulso, resolveu se inscrever. Nunca tinha passado pela sua cabeça se tornar policial, mas algo na esfera da intuição, portanto sem explicação, o fez se arriscar e tentar. Para o cargo de Agente da PF bastava ter qualquer graduação superior, então ele tinha a possibilidade. Remota, mas tinha.

A reação da família e dos amigos foi de espanto. Otávio, terminando Adm, trabalhando numa empresa como Assistente Jr com indícios promissores que seria promovido, resolver jogar tudo para o alto e arriscar uma carreira no serviço público, numa área para a qual nunca havia mostrado interesse. Até Alice manifestou sua incompreensão, mas Otávio não deu maiores explicações a ninguém, se limitou a dizer a verdade: tinha sentido que devia tentar e resolveu seguir seu sentimento. A única pessoa que o apoiou sem questionar foi o pai. Sugeriu que ele se desligasse do emprego para se preparar melhor e ele aceitou dar esse passo para trás, voltar a depender do pai para apostar que isso o levaria a uma conquista maior. Daí em diante, foram meses de muito estudo, cursinho preparatório e treinamento físico pesado, logo ele que mantinha seu corpo com malhação leve e alguma prática de esporte, mas estava longe de ser atleta. O namorado da irmã de Alice, educador físico, se ofereceu para ajudar e ele passou a nadar e a correr todos os dias, para se capacitar para as duas provas físicas que o concurso exigia. Com toda essa correria, Otávio se afastou da pegação, do cinemão, deu um tempo de tudo, nem banheirão frequentou. Não queria perder o foco. Ele tinha certeza que ia passar se mantivesse a dedicação, mas ninguém é de ferro e a sorte sempre pode surpreender.

SÁBADO A TARDE NO SUPERMERCADO…

Um dia, num sábado à tarde, Otávio foi ao supermercado comprar umas coisas que estava faltando em casa, suas irmãs, na correria da faculdade, não tinham tido tempo de providenciar. Então ele vestiu uma bermuda jeans e uma camisa leve, realçando o corpo mais esguio e definido após meses de treinamento intenso, quando se sentiu observado. Entre garrafas de refrigerante e caixas de sucos, notou o homem casado que o encarava na seção de bebidas. Quarenta e poucos anos, aliança grossa no dedo, barba bem aparada. Um aceno de cabeça bastou. Aquele entendimento mudo tão comum entre gays, especialmente os enrustidos. O cara seguiu na direção do banheiro, Otávio foi atrás.

Entraram no reservado do fundo, trancaram a porta. O homem não perdeu tempo. Empurrou Otávio contra a parede do sanitário, abaixou a bermuda dele e caiu de boca. Fez uma expressão de quem adorou ser surpreendido pelo tamanho da chibata do parceiro e caiu de boca. Chupava com fome, gemendo baixo enquanto Otávio segurava sua cabeça. Depois virou Otávio de costas e enfiou a cara no rabo dele. Chupou aquele cu com a expertise de quem já tinha feito aquilo muitas vezes. Otávio, há tantas semanas sem foder com outros homens, estava atordoado com a velocidade com que tudo estava acontecendo, delirando de tesão com aquela língua que girava e dardejava suas pregas como se fosse invadir seu cu. De repente o cara parou, se levantou, tirou uma camisinha da carteira, encapou o pau, comprimento médio e bem grosso, cuspiu na mão, lambuzou o próprio pau, encostou a cabeça da pica nas pregas de Otávio e entrou devagar. O pau abriu caminho, queimando, ardendo. Otávio mordeu o próprio braço para não gemer de dor enquanto o homem metia fundo, segurando seus quadris com força. Cada estocada fazia o corpo dele tremer enquanto batia punheta desfrutando daquela enrabada feroz. Menos de três minutos depois, estocadas mais rápidas, o cara disse, sussurrando entre dentes:´

- Goza, que eu vou gozar!

Quando o homem gozou, Otávio sentiu o pau pulsando dentro dele e gozou logo depois, jorrando porra dentro do vaso sanitário. O cara tirou o pau devagar, recolheu a camisinha, enrolou num pedaço de papel higiênico e descartou na lixeira, enquanto Otávio se limpava. Assim que ajeitaram as roupas, ele olhou para Otávio e falou baixinho:

- Valeu!

Assim, laconicamente, sem verbo e sem esperança de depois. Aquilo acaba ali, como quase todos os encontros sexuais anônimos que Otávio se acostumara a ter. Por gestos, ele indicou que sairia primeiro, Otávio deveria esperar e sair depois. Assim fizeram, deixando naquele banheiro fedendo a mijo e desinfetante, o acréscimo do cheiro de porra ainda no ar. Otávio voltou as compras e não viu mais o cara. Pegou as coisas que precisava sentindo seu rabo arder. Quando chegou em casa, arrumou as compras e foi tomar outro banho. Ao passar os dedos no cuzinho machucado, o tesão pela memória do que tinha rolado fez ele ficar de pau duríssimo e, ali mesmo no banho, se masturbou lembrando da força com que o cara casado meteu pica no seu cu, aquele pau grosso lhe rasgando, a sensação de dominação, os dedos dele cravados em seus quadris lhe prendendo como garras, o ritmo da cravada da rola no cu de Tavinho, tudo aconteceu num tesão alucinante. Otávio chegou a cogitar botar uma roupa e ir ao Centro, caçar putaria nos cinemas de pegação, ir atrás de outra foda mas segurou sua onda e gozou fartamente na punheta.

Alguns dias depois, o destino foi lhe pregou uma peça. Passeando no shopping com Alice, num dos raros dias de folga dela, de mãos dadas, ele viu o mesmo homem empurrando um carrinho ao lado da esposa, saindo do Extra — uma mulher bonita, sorridente, vistosa, segurando o braço do marido. Seus olhares se encontraram por uma fração de segundo e Otávio percebeu o constrangimento dele. O homem desviou o rosto rapidamente. Enquanto Alice falava animada sobre o casamento de uma colega da pós, uma conversa que tinha como subtexto os planos que ela fazia para o casamento dos dois, Otávio sentiu o estômago contrair. Essa poderia ser minha vida, pensou. Casado com ela, fiel por fora, mas fugindo para banheiros e cantos escuros para saciar a mesma fome. A pressão familiar tornava tudo mais sufocante. A culpa queimava, mas não apagava o fogo.

A preparação para o concurso cuidou de recolocar as coisas no trilho que Otávio tinha decidido percorrer. Vieram as provas e poucos meses depois o resultado: aprovado na 1ª etapa. Alívio e certeza de que sua aposta estava certa. Seguiu um pouco menos tenso a preparação para as provas físicas que viriam, mas ainda evitando voltar pro circuito da putaria. Na sua cabeça, sua energia vital tinha que continuar focada na preparação, então seguiu se aliviando apenas nas bronhas diárias. Por outro lado, o namoro com Alice tinha evoluído naturalmente para beijos mais ardentes, ainda que as tentativas dele de tocá-la mais intimamente fossem repelidas, mas pelo menos ela já aceitava que ele encostasse nela de pau duro. Uma vez, quando estavam a sós na varanda da casa dos pais dela, ela timidamente ousou tocá-lo por cima da bermuda, mas o fez brevemente, mas encostou os dedos, tirou rapidamente, como se seu pau duro tivesse dando choque. Isso fazia Otávio pensar em como seria a vida sexual dos dois depois que se casassem, que tipo de lua de mel eles teriam, como Alice reagiria a ele na cama, ao seu toque, às suas carícias, ao tamanho do seu pau, ela sempre tão retraída à intimidade sexual.

Vieram as provas físicas, um pouco antes da Copa do Mundo dos EUA, a seleção desacreditada, o sonho do tetra parecendo uma fantasia descabida, mesmo assim, o clime de Copa deixava todos animados. Ele atingiu os tempos exigidos, tanto de corrida quanto de natação. Quase no limite mas o suficiente para ir para a etapa seguinte.

NO CASTELÃO, O JOGO DA SEDUÇÃO

No meio da dupla empolgação – o concurso e a copa – os amigos insistiram e ele aceitou ir pro jogo do Ceará contra o Fortaleza, o estádio lotado, última partida antes da Copa. Otávio estava perto de uma torcida organizada, espremido na arquibancada, quando um cara mais jovem, não devia ter mais que dezenove anos, camisa do Ceará colada no corpo suado, ao passar pedindo licença para chegar na fileira mais abaixo, roçou nele um segundo a mais do que o necessário. Olhares se cruzaram e a sinergia se estabeleceu instantânea. Eles se entenderam. Sabiam um do outro e do que ambos queriam apenas no olhar. Cada um com sua turma, mas buscando os olhos do outro sempre que dava, ainda mais sabendo que na tensão da partida, ninguém estava prestando muita atenção em ninguém. Veio o intervalo e todos desceram para os bares e banheiros, mas não havia espaço nem oportunidade para tentarem algo. Retornaram para a arquibancada e seguiram se comendo com os olhos, até que uns dez minutos após o início do segundo tempo, o rapaz falou algo com os amigos e desceu na direção das escadas. Otávio foi fisgado pelo olhar que o moço, imaginou rapidamente uma desculpa pra dar e falou pra Guga, irmão de Duda, que estava ao seu lado:

- Vou mijar, cara, tô apertado pra caralho.

Guga parece que nem ter ouvido porque sequer reagiu, tão ligado que estava no jogo, ainda mais que naquele momento rolava uma jogada de ataque do Fortaleza contra seu time. Otávio, desceu da arquibancada para o pavimento onde ficavam os bares e banheiros e buscou o jovem com o olhar, quando o viu indo na direção da escada de emergência. Antes de entrar olhou para trás para se certificar que Otávio o seguia. Dito e feito, desceram dois lances de escada, até chegar a um nível em que não estavam visíveis, mas poderiam ouvir caso alguém se aproximasse. O cimento duro e áspero foi textura e cenário para o beijo furioso que deram assim que se enroscarem. Um bailado de línguas se enrolando, lábios buscando a boca do parceiro com voracidade, dentes se chocando, tudo misto de desejo com desespero, adrenalina do perigo de serem pegos, vontade de foder acima de tudo. O cara gemeu quando apalpou a rola dura de Otávio na bermuda, foi logo se ajoelhando e abrindo a braguilha a procura da piroca que lhe instigava e quando tirou o cacetão de dentro da cueca exclamou:

- puta que pariu, macho, que lapa de jeba é essa?!!!

No mesmo fôlego, abocanhou o que conseguiu engolir e se entregou sôfrego a mamar a rola de Otávio como se dependesse daquela chupada para continuar vivendo. Era tanta ansiedade que os dentes raspavam de vez em quando e isso incomodou Otávio, ao ponto de que puxou o jovem pra cima e trocou de posição com ele. A pica do carinha era pequena, retinha, cheirosa, dava pra abocanhar de uma bocada só e foi isso que Tavinho fez. Mas fez na malícia, já levou as mãos para a bunda do rapaz, abriu o rego e foi a caça de seu cuzinho. Encontrou as preguinhas suadas e levemente peludinhas, que logo começaram a piscar com as carícias que Tavinho fazia.

O local não permitia um desfrute demorado. Otávio o virou contra a parede dura e meteu língua naquele cuzinho convidativo. Chupou aquele rabo, salivou bastante aquelas pregas que em breve ele iria arregaçar, o que fez para atender o pedido suplicante do rapaz:

- Me come, porra, mete esse pauzão no meu cu, me lasca todo!

Otávio não ia fazer desfeita, pegou a camisinha que o tirou da carteira e lhe entregou, encapou a jeba, passou um pouco de cuspe, ajeitou a rola no fiofó do moço e fez força. As pregas resistiram poucos segundos e foram cedendo a invasão do tronco duro, que afundava e arregaçava as carnes do jovem, que não se controlou e começou a gemer alto.

- Geme baixo, porra, se pegam a gente aqui, a gente tá fudido – exclamou Otávio, enquanto, por precaução, tapava a boca do rapaz com uma mão enquanto a outra o prendia pra ele não escapar da enrabada. Excesso de zelo, o moço, apesar da dor, empinava a raba pedindo pica.

Com resistência, as carnes do moço foram cedendo à invasão implacável da rolona de Otávio. O rosto do moço era um misto de prazer e dor, olhos fechados, expressão contraída, lábios apertados, parecia que ele estava a um passo de se arrepender de ter pedido para ser comido. Porém, tão logo a rola entrou toda e ele conferiu, com a mão por baixo do saco, para ter certeza que Otávio tinha enfiado até o talo, respirou fundo como quem suspira de alívio pela obra finalizada. Otávio o surpreendeu com carícias em seu ventre e beijinhos em sua nuca, e o moço pediu cheio de dengo choroso:

- Vai, macho, lasca meu cu, come teu baitolinha, come…

Foi a senha para Otávio começar a socar. Primeiro, devagar, depois ganhando velocidade. Aquele cuzinho apertado estava esmagando seu pau e vencer a resistência daquelas carnes comprimindo sua rola era o centro do tesão naquele momento. Otávio o fodeu de pé, rápido, desesperado, enquanto o barulho da torcida abafava os gemidos. Gozaram quase juntos, Otávio enchendo a camisinha e o esperma do rapaz escorrendo pela parede da escada enquanto um gol era comemorado lá em cima pouco depois de terem gozado.

- Deve ter sido do Ceará… O rapaz falou com uma expressão engraçada enquanto subiu a cueca e o short se recompondo, ao mesmo tempo que Otávio se debatia sobre o que fazer com a camisinha cheia de porra e com rajas de sangue por fora, que ele tinha acabado de tirar. Não viu outro jeito senão largar no chão, tava cheia de gala, não dava pra botar no bolso pra jogar na lixeira do banheiro. Por um breve momento, Otávio imaginou o pessoal da limpeza encontrando a camisinha jogada ali algum tempo depois, o que diriam, que comentários fariam…

- Valeu, cara! – foi o jeito desajeitado que o moço encontrou para se despedir, um quase agradecimento pela rolada que levou, e saiu apressado, algo próximo do arrependimento ou da culpa, Otávio terminou de se ajeitar, esperou a rola abaixar um pouco mais e, ao voltar para a arquibancada, se deu conta de que os amigos nem deram por falta dele, nenhuma pergunta sobre onde ele tinha ido, o que ele estava fazendo. Estavam felizes comemorando o gol, que ele conferiu no placar do Estádio e confirmou: tinha sido do Ceará. Aos poucos, foi baixando a adrenalina ainda que a tensão pela aventura ressoasse dentro dele por um bom tempo. Olhava em volta e sentiu um misto de sentimentos conflituosos: o gozo do fazer escondido, de saber que tinha vivido uma aventura louca a poucos minutos, dado uma bela gozada enfiado no cuzinho apertado daquele boy todo mauricinho, ao mesmo tempo que essa felicidade interna esbarrava no sentimento de que seu prazer era apartado do mundo. Assim, Otávio ia empilhando suas memórias, como quem escreve um diário e o tranca a sete chaves. Uma vida interior lacrada no cofre das aparências. Apesar disso, a alegria de ver o seu time vencer o maior rival por 3 x 1 trouxe alívio momentâneo e dissipou a tensão. Aquele ano seria memorável para o Ceará. O vozão chegaria ao vice-campeonato da Copa do Brasil, perdendo ali mesmo para o Grêmio, mas, antes, daria outra surra no Fortaleza, de 5 x1. Otávio esteve lá todas as vezes, mas naquele ano não viveria ali mais nenhuma aventura como aquela. No Castelão, fazer putaria iria se repetir 20 anos depois, na Copa do Mundo de 2014…

A PRAIA DA SABIAGUABA

A ansiedade pela espera do resultado final do Concurso servia de pretexto para Otávio manter a rotina de atividade física. Ele, que não tinha sido um adepto fervoroso de esportes na adolescência, agora se tornara um jovem atlético, dedicado, que não faltava a academia e se envaidecia pelos olhares de desejo e cobiça que despertava. Até Alice entrou no bonde e começou a se referir a ele como “meu namorado gostosão” mas o namoro continuava morno e essa noção se mantinha como uma interrogação sem respostas na cabeça de Otávio sobre aonde aquela relação iria dar, até porque Alice parecia mais apaixonada por estudar do que por namorar: ela tinha acabado de avisar que ia fazer a seleção do mestrado em Enfermagem.

Com tudo isso na cabeça, correr de manhã cedo era um misto de desculpa e escape. A procura por novos locais fazia parte do espírito aventureiro que passou a fazer parte de Otávio e naquela sexta de manhã a escolha foi pela praia semideserta de Sabiaguaba. Tão perto da Praia do Futuro e ao, mesmo tempo, parecendo outro mundo. Algumas barracas na foz do rio Cocó e uma extensão faixa de areias e pedras sem construção. Otávio viu alguns pescadores solitários aqui e acolá, enquanto se alongava. Reforçou o protetor solar, conferiu a pochete – carteira, chave do carro, de casa, camisinha, afinal, nunca se sabe… – prendeu na cintura e começou a caminhar, até acelerar o passo e passar a correr na areia pesada da praia. Seu treinador, o cunhado de Alice, tinha recomendado esse exercício para fortalecer as pernas e a mais nova vaidade corporal de Otávio era ver as coxas e panturrilhas se desenvolverem.

Num trecho ainda mais deserto viu uma figura masculina correndo na direção contrária. A medida em que se aproximara percebeu as belas formas do homem musculoso, trinta e muitos anos, talvez até 40, corpo bronzeado e definido. Quanto mais perto chegaram, ambos reduziram o pique da corrida enquanto se mediam. Estava claro o interesse de ambos. Nem foi preciso diálogo, falaram o código silencioso de segurarem as próprias picas e o match foi dado. O saradão virou em direção às dunas e Otávio logo o alcançou na areia fofa e quente. Sem diálogo, apenas troca de olhares cúmplices, foram até as pequenas lagoas que se formam entre as dunas isoladas. Ali, protegidos por arbustos retorcidos, os dois se agarraram. Cada um punhetava o pau do outro, já tirado de dentro da sunga. Pela disposição em explorarem o corpo um do outro, sem limites ou barreiras, Otávio sacou que o cara era tão insaciável quanto versátil, como ele.

Os dois se embolaram sobre a manta estendida na areia ainda quente, respiração pesada, tecido úmido de suor, calor. Não havia coreografia bonita. Havia joelho afundando na areia fofa, risada abafada contra a boca do outro, mão escorregando no peito suado, boca encontrando pescoço, barba raspando a pele sensível, os corpos tentando se encaixar no espaço apertado entre a água calma da lagoa e a duna que se erguia atrás deles. O vento morno soprava leve, carregando o som distante das ondas do mar do outro lado das dunas. Um deles praguejou baixinho quando a areia invadiu o espaço entre seus corpos, mas o gemido que veio em seguida engoliu qualquer reclamação. Dedos se cravaram na pele bronzeada, puxando quadris para mais perto. A água da lagoa lambia suavemente os pés entrelaçados, água fresca contrastando com o fogo que queimava entre eles. Não havia pressa de ir embora. Só pele, respiração entrecortada, o som molhado de bocas se devorando e o farfalhar constante da areia cedendo sob o peso dos corpos que se moviam, cada vez mais famintos.

No bailado dos corpos que se seguiu, primeiro, o grandão dominou como um legitimo passivo agressivo. Empurrou Otávio com força suficiente para ele se deitar, sem resistir, na areia úmida da beira da pequena lagoa, chupou seu pau com voracidade, pegou uma camisinha de dentro da sua braçadeira, vestiu a rola de Tavinho e sentou-se nele. Uma sentada determinada, sem dificuldade, o que mostrava que aquele cara tinha costume e gosto em dar o cu. Isso ficou ainda mais claro com o jeito que ele passou a cavalgar o pau de Otávio. Subia e descia pesado, o cu macio engolindo toda a rola enquanto os músculos reluziam de suor. Otávio segurava aquela bunda dura e devolvia a metida para cima, com potência. Depois inverteram. Otávio assumiu o comando, colocou o musculoso de quatro, cuspiu e enfiou fundo, fodendo-o com estocadas longas e brutais. O grandão gemia rouco, empurrando a bunda para trás, pedindo mais. Ficaram na posição alguns minutos até que ele pediu pra parar, desencaixou de Otávio, pegou outra camisinha, encapou seu pau, tamanho normal, meio torto pra esquerda, virou Otávio de quatro e o arrombou de forma selvagem, mão na cabeça, segurando os cabelos, puxando a nuca para trás, socando até gozar. Quando acabou de esporrar, saiu de dentro de Otávio, nem tirou a camisinha, logo se deitou de bruços abrindo a raba, oferecendo o cuzão que Otávio montou, meteu e socou pica até gozar. Sem rodeios nem floreios. Uma foda animal entre dois caras que curtiam uma pegada mais forte.

Saciados e relaxados, entraram na lagoa para lavar o suor, a areia, só então se apresentaram, rindo, trocaram nomes, falaram sobre quem cada um era, de onde vinha, o que fazia etc. Quando saíram da lagoa para vestir as sungas, chamou a atenção de Otávio o cuidado do musculoso em recolher as duas camisinhas, cavar um buraco com as mãos e enterrar na areia. Uma responsabilidade rara em quem faz pegação. Normalmente, depois que a maioria dos caras goza, parecem querer fugir, se afastar o mais rápido possível do que acabaram de fazer. Culpa…? Bem provável. O jeito do cara fez Otávio se sentir confortável e desejar conhecer mais do parceiro de putaria. Voltaram para a trilha juntos e foram conversando e caminhando, lado a lado, como velhos amigos, até chegar ao estacionamento atrás da barraca de praia da foz do Rio Cocó.

No trajeto, Otávio soube que ele, Alberto, era economista, trabalhava num banco estatal, divorciado, sempre soube que gostava de homens, começou cedo mas escondido na putaria, primos, vizinhos, colegas, mas, levando uma vida dupla, casou por conveniência, a relação não demorou a apresentar sinais de desgaste e estresse, ambos frustrados até que a mulher pediu a separação. Desde então, enfrentou o mundo, decidiu se assumir, passou a se relacionar com homens, sofreu preconceitos familiares e sociais, mas manteve uma postura que não dava espaço pra se intrometerem na vida dele. A independência econômica e financeira era o aval da liberdade. Então, Otávio falou de seus medos, da namorada quase noiva, da família tradicional do interior, das mudanças que viriam ingressando na PF… Alberto ouviu atento e, mesmo vendo a reedição dos erros do seu passado, ao contrário do que se poderia esperar, não deu conselhos. Escolheu não se envolver, limitou-se a repetir um ditado popular antigo:

- Pois é, Otávio, é tempo de Murici, cada um sabe de si…

Trocaram telefones e se despediram com um abraço demorado que só não evoluiu para beijo por estarem num local público. Na volta pra casa, foi inevitável pensar na vida que levava, nas escolhas que fazia, e nas prováveis situações que estavam reservados para ele.

VIVER (N)A MENTIRA É UMA ESPIRAL DE FUGA SEM FIM

Ao chegar em casa, encontrou Alice que estava à sua espera, conversando com suas irmãs. A visão da namorada, dócil e, de certa forma, ingênua, gerou uma sensação adicional de culpa em Otávio. Quanto mais ela o abraçava, falava do futuro, do casamento, Otávio sentia o peito apertar, o estômago revirar, apesar de que ele a amava. Não tinha dúvida disso, se excitava com seu cheiro, sua pele macia, seus cabelos sedosos, seu jeitinho doce. Queria construir uma vida com ela. Chegar o dia em que poderia ter ela na cama. Possuir Alice, ser o homem dela. E tinha a esperança que, uma vez chegando a esse nível de intimidade com ela, pudesse se afastar do outro lado…

Mas toda vez que o desejo vinha — e vinha quase todos os dias e era quase sempre por outros homens —, ele cedia. O corpo pedia. A boca, o cu, as mãos de outro homem. Ele queria ser o macho de outro homem, que outro homem fosse seu macho. Desejava de um jeito quase alucinante estar em comunhão carnal com outro homem. Era um tipo de prazer que levava a um gozo explosivo, absoluto. Um estado de paroxismo, mas… depois vinha a culpa, o vazio, a promessa de que seria a última vez.

Mas o conflito não era só esse, o que estava por trás era maior: o que ele de fato queria da vida? Quem ele era de fato? O que ele podia chamar de Esse cara sou eu!? Quais eram as respostas que ele desejava encontrar na opacidade do seu tumulto interno? Otávio não sabia ou não tinha coragem de se responder. Seguia quase que no automático, reagindo a cada decisão impulsiva, se guiando pelo momento.

E foi assim até que saiu o resultado do concurso. Ele tinha sido aprovado, estava dentro das vagas, em algum momento das próximas semanas iria ser chamado para o curso de formação em Brasília, última etapa da seleção. E como foi que ele decidiu celebrar o resultado? Pedindo Alice em casamento, a data, a ser marcada, seria após o curso em Brasília. Teriam tempo para organizar tudo. Alice ficou radiante. Tudo se encaminhava para realizar o sonho dela.

E o sonho dele? Talvez fosse esse…viver uma vida dissimulada, cheia de subterfúgios, sustentando uma imagem pública que espelhava a parte “possível” de sua vida privada, aquela em que era o que todos esperavam dele. Por baixo disso, as aventuras, escapadas, transas furtivas, segredos, o escondido… Assim, o noivado, mais que um passo natural, era a reafirmação de uma escolha em que sobrava medo e faltava coragem, alinhavados em um certo gosto pelo círculo vicioso da covardia, o que contradizia em parte sua escolha em ser policial, mas se alinhava com a necessidade de manter essa parte de sua vida confinada em segredo.

As semanas que se seguiram foram atribuladas. Chegou a ligar para Alberto, duas vezes, mas o outro não mostrou entusiasmo em lhe reencontrar. A agenda cheia cuidou de ajudar a esquecer. Formatura. Diploma. Organizar a documentação para a posse. Resolver com Alice as providências para o casamento daqui a um ano e meio. No meio da correria, o telegrama de convocação chegou. Exames médicos. Documentos. Providências. Termo de compromisso… até que recebeu a passagem. Dia e horário para apresentação na ANP. Brasília. Os pais vieram do interior para a despedida. Tio Zeca sugeriu festa no Pecém, mas Tavinho conseguiu que desistissem da ideia. Tudo que ele não precisava era de mais agitação. Mesmo assim, família, amigos, todos reunidos, feijoada festiva. Vendo tudo e todos, Otávio sentia que sua vida ia passar por grandes mudanças.

A confirmação veio uma semana depois. Aterrizou em Brasília, direto para a Academia. Evento de recepção no auditório. Todos aqueles homens (a maioria) e mulheres reunidos. Duas centenas de corpos perfilados. Rígidos. Tensos. Ansiedade em muitos rostos. Expectativas. Sonhos e desejos entrelaçados como uma teia na qual havia um futuro pela frente. No caso de Otávio, havia também um presente eterno, oculto, a forma como ele olhava e já desejava alguns daqueles corpos, segredo a ser carregado como calor no peito mas, também, como bola de ferro presa aos pés…

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Foto de perfil de Xandão SáXandão SáContos: 56Seguidores: 230Seguindo: 137Mensagem Um cara maduro, de bem com a vida, que gosta muito de literatura erótica e já viu e viveu muita coisa para dividir com o mundo.

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