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Leandro volta para o gol

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Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4765 palavras
Data: 26/06/2026 02:08:46
Assuntos: Gay

André não dormiu bem.

Dormiu em pedaços.

A cada vez que fechava os olhos, uma frase voltava com um peso diferente.

Caio:

Leandro voltou porque sentiu cheiro de sangue.

Rafael:

Eu vou te contar tudo. Sem esconder.

As duas mensagens ficaram abertas no celular por algum tempo, uma sobre a outra, como se disputassem o lugar de última verdade da noite. André não respondeu nenhuma de imediato. Deitou de lado, virou de barriga para cima, levantou para beber água, voltou para a cama, apagou a luz, acendeu de novo.

Não era só ciúme.

Ciúme teria sido mais simples.

O que o incomodava era o padrão. Havia sempre alguém antes. Alguém atravessando. Alguém mal resolvido. Caio já era uma ferida aberta na história de Rafael. Agora Leandro surgia como uma cicatriz mais antiga, talvez mais funda. E André começava a se perguntar se tinha entrado numa história de amor ou numa fila de homens machucados pelo mesmo goleiro.

Mas então lembrava de Rafael na manhã anterior.

Fazendo café.

Dizendo que não estava acostumado com ficar.

Beijando-o na porta sem se esconder.

Ficando na cama quando o celular vibrou.

E a raiva se misturava a uma ternura irritante.

Às 1h13, Rafael mandou outra mensagem.

RAFAEL:

Você está acordado?

André olhou para a tela.

Respondeu:

ANDRÉ:

Estou.

A resposta veio quase imediata.

RAFAEL:

Posso ir aí amanhã cedo?

André pensou no trabalho. Pensou no cansaço. Pensou em dizer não só para sentir que ainda mandava em alguma coisa.

Digitou:

ANDRÉ:

Pode. Mas não aparece com gelo.

Rafael demorou alguns segundos.

RAFAEL:

Sem gelo.

Depois:

RAFAEL:

Só verdade.

André largou o celular no criado-mudo.

Dessa vez, dormiu.

Pouco.

Mas dormiu.

Na manhã seguinte, Rafael chegou às 7h20.

O porteiro interfonou com uma voz que tentava parecer neutra e falhava.

— Seu Rafael está aqui.

Seu Rafael.

André fechou os olhos por um segundo.

— Pode subir.

Abriu a porta antes de Rafael bater. O goleiro estava de jeans, camiseta escura, cabelo ainda úmido, expressão de quem tinha dormido menos que ele. Trazia uma sacola de padaria numa mão.

— Trouxe pão — Rafael disse.

— Isso é tua versão de flores?

— Eu pensei em café, mas achei que você ia reclamar.

— Eu vou reclamar de qualquer jeito.

— Eu sei.

André deu passagem.

Rafael entrou.

Não houve beijo imediato. Isso, curiosamente, tornou tudo mais sério. Os dois foram para a cozinha. Rafael colocou a sacola sobre a mesa. André pegou pratos, café, manteiga. Os movimentos eram domésticos demais para a quantidade de coisa atravessada entre eles.

Sentaram um de frente para o outro.

Por alguns minutos, só comeram.

O pão estava quente.

O café, forte.

O silêncio, pior.

André foi o primeiro a falar.

— Quem é Leandro?

Rafael apoiou o pão no prato.

Não desviou o olhar.

— Ele jogava com a gente antes do Caio entrar.

— Goleiro.

— Sim.

— E teu ex.

Rafael respirou fundo.

— Sim.

A palavra veio limpa. Sem tentar reduzir. Sem “mais ou menos”, sem “foi complicado”, sem fuga.

André percebeu e odiou precisar valorizar aquilo.

— Quanto tempo?

— Quase um ano.

— Escondido?

Rafael mexeu no copo.

— No começo, sim. Depois... todo mundo sabia sem saber.

— Igual você e Caio.

Rafael sentiu.

— Não igual.

— Parece bem igual.

— Com Leandro era pior.

— Porque ele te machucou?

— Porque eu achava que estava escolhendo.

André ficou quieto.

Rafael continuou:

— Leandro era bonito, inteligente, bom de bola, bom de conversa. Entrava num lugar e parecia que já sabia quem precisava de elogio, quem precisava de provocação, quem precisava de segredo. Eu era mais novo. Mais fechado. Mais burro também.

— Você ainda é fechado.

— Mas menos burro.

André levantou uma sobrancelha.

Rafael quase sorriu.

— Um pouco menos.

Depois ficou sério de novo.

— Ele percebeu antes de mim que eu tinha medo de ser visto. E usou isso. No começo, parecia cuidado. Ele dizia: “não precisa contar para ninguém”, “a gente sabe o que é”, “ninguém tem que meter o nariz”. Eu achei bonito. Achei que era proteção.

— E não era.

— Era controle.

André tomou um gole de café.

— Como acabou?

Rafael olhou para a mesa.

— Mal.

— Rafael.

Ele respirou fundo.

— Eu quis terminar. Ou achei que quis. Já não sabia mais o que era vontade minha e o que era reação ao que ele fazia. Quando comecei a me afastar, ele espalhou coisas. Não diretamente. Leandro nunca faz nada diretamente. Ele deixava frase solta, comentário no bar, piada no vestiário. Fazia parecer que eu tinha usado ele. Que eu era ingrato. Que eu fingia ser sério, mas gostava de ser desejado às escondidas.

André sentiu um arrepio.

— E era mentira?

Rafael ergueu os olhos.

A pergunta doeu, mas ele aceitou.

— Não toda.

André ficou em silêncio.

Rafael continuou:

— Essa é a pior parte. Leandro mentia usando pedaços verdadeiros. Eu tinha medo. Eu gostava de ser desejado e não assumia. Eu aceitava o que ele dava e depois me escondia. Mas ele pegou isso e transformou numa história onde só ele era vítima.

— E você?

— Eu calei.

— Claro.

Rafael não se defendeu.

— Calei. Perdi o lugar no grupo. Parei de jogar por uns meses. Quando voltei, Leandro já tinha saído, mas deixou gente contra mim. Marcelo tentou segurar o grupo. Nivaldo ficou do lado de quem pagava melhor.

— Pagava?

Rafael olhou para André.

— Leandro ajudava com dinheiro às vezes. Quando faltava mensalidade, quando alguém atrasava. Ele gostava de ser necessário.

André sentiu a peça encaixar.

— Ontem ele ofereceu pagar o que falta.

— Sim.

— E olhou para Nivaldo.

Rafael levantou o rosto.

— Você viu?

— Vi.

— Eu também.

André encostou-se na cadeira.

— Isso não é só passado amoroso, Rafael.

— Não.

— Tem dinheiro aí.

— Tem.

— E você ia me contar tudo isso quando?

Rafael aceitou a pergunta.

— Antes eu teria esperado virar impossível.

— E agora?

— Agora vim às sete da manhã com pão.

André tentou não rir.

Falhou um pouco.

Rafael viu e respirou melhor.

— Isso não resolve — André disse.

— Eu sei.

— Mas melhora.

— Um pouco?

— Um pouco.

O silêncio seguinte foi menos duro.

André olhou para Rafael e, por um segundo, viu o homem de antes de tudo. Não o goleiro enorme, não o amante da noite anterior, não o ex de Caio, não o ex de Leandro. Só um homem sentado na cozinha, tentando contar a verdade antes que ela virasse arma na mão de outro.

— E Caio? — André perguntou.

Rafael fechou os olhos por um instante.

— Caio entrou depois. Eu já estava quebrado de um jeito que eu fingia que era maturidade. Ele era... Caio.

— Isso explica bastante e nada.

— Ele ria alto, jogava bonito, provocava todo mundo. Não tinha medo de parecer vivo. Isso me atraía e me irritava. Ele vinha para cima. Eu recuava. Quando eu percebia que ele ia desistir, eu puxava de volta.

André desviou o olhar.

— Você sabe o quanto isso é cruel?

— Sei agora.

— Agora.

— Sim.

Rafael não tentou suavizar.

— Eu gostava dele. Mas gostava mais de controlar a distância do que de assumir a presença.

— E comigo?

Rafael ficou imóvel.

André sustentou.

— Você está tentando fazer diferente comigo ou está tentando provar para si mesmo que não é mais aquele cara?

A pergunta era limpa demais.

Rafael demorou.

— Os dois.

André sentiu a resposta atravessar.

Era melhor do que uma mentira.

Pior do que uma garantia.

— Obrigado por não embrulhar.

— Você me pediu verdade.

— Pedi. Não quer dizer que eu vá gostar.

— Eu sei.

André levantou, pegou as canecas e colocou na pia. Rafael permaneceu sentado, esperando. André gostou disso também: ele não o seguiu, não tentou tocar para encerrar a conversa, não usou corpo como desculpa.

Depois André voltou.

Parou ao lado dele.

— Eu não quero ser tua redenção.

Rafael olhou para cima.

— Não quero que seja.

— Nem prova de evolução.

— Não.

— Nem um lugar onde você conserta o que fez com Caio.

— Eu sei.

— Sabe ou está aprendendo?

Rafael respirou.

— Estou aprendendo.

André tocou o rosto dele de leve.

— Então aprende rápido.

Rafael segurou a mão de André, mas não puxou.

— Vou tentar.

— E Leandro?

O rosto de Rafael endureceu.

— Leandro não voltou para jogar.

— Voltou para quê?

— Para ver se ainda consegue entrar.

— Em você?

Rafael demorou.

— No grupo. Em mim. No Caio. Agora talvez em você.

André sorriu sem alegria.

— Ele vai se decepcionar.

— Não subestima.

— Não estou subestimando. Só estou avisando que eu também sei jogar.

Rafael olhou para ele.

Dessa vez, o sorriso foi pequeno e bonito.

— Eu sei.

No trabalho, André produziu pouco.

Abriu planilhas, respondeu mensagens, fez uma reunião inteira com a câmera fechada e a cabeça na quadra. O caso da mensalidade começava a incomodá-lo quase tanto quanto o triângulo. Talvez porque números fossem mais honestos que homens. Quando não fechavam, pelo menos admitiam que havia erro.

Na hora do almoço, mandou mensagem para Marcelo.

ANDRÉ:

Você tem os comprovantes da mensalidade dos últimos meses?

Marcelo respondeu em áudio. André não ouviu. Pediu texto.

MARCELO:

Tenho alguns. Por quê?

ANDRÉ:

Quero olhar.

MARCELO:

Você vai virar contador forense mesmo?

ANDRÉ:

Alguém precisa.

MARCELO:

Eu sou o presidente.

ANDRÉ:

Você é um homem com uma prancheta.

MARCELO:

Respeita a instituição.

Pouco depois, Marcelo mandou prints.

Muitos.

Pix para chaves diferentes. Alguns para o CPF de Nivaldo. Outros para uma chave e-mail que André não reconheceu. Dois comprovantes antigos com o nome de uma empresa pequena de eventos esportivos. Um pagamento feito para Leandro meses atrás, sob a justificativa “quadra”.

André ampliou a tela.

Leandro.

O nome estava ali.

Não como fantasma.

Como dado.

Mandou para Rafael.

ANDRÉ:

Ele já recebia dinheiro da quadra?

Rafael demorou alguns minutos.

RAFAEL:

Sim. Antes. Quando ele organizava parte do grupo.

ANDRÉ:

E depois que saiu?

RAFAEL:

Não deveria.

André enviou o print.

A resposta de Rafael veio seca:

RAFAEL:

Filho da puta.

André quase ouviu a voz.

À tarde, Caio mandou mensagem.

CAIO:

Você está investigando ou tentando se distrair do fato de que dormiu com o goleiro?

André encarou a tela.

ANDRÉ:

As duas coisas.

Caio demorou.

CAIO:

Honesto. Quase irritante.

ANDRÉ:

Você sabia que tinha pagamento caindo para Leandro?

CAIO:

Sabia que tinha podridão. Não sabia o comprovante.

ANDRÉ:

Você não falou por quê?

CAIO:

Porque, até ontem, ninguém queria ouvir nada que saísse da minha boca sem achar que era ciúme.

André não respondeu de imediato.

Caio continuou:

CAIO:

E talvez fosse ciúme também. Leandro foi o primeiro a mostrar para Rafael que desejo podia virar coleira. Depois Rafael aprendeu errado e aplicou em mim com cara de sofrimento.

A frase ficou pesada.

ANDRÉ:

Você está bem?

CAIO:

Não faz pergunta de homem decente no meio do expediente.

ANDRÉ:

Caio.

CAIO:

Estou funcionando. É diferente de estar bem.

ANDRÉ:

Você vai jogar sábado?

CAIO:

Disse que jogava a semifinal.

ANDRÉ:

E depois?

CAIO:

Depois é depois.

André digitou três respostas e apagou.

Caio mandou outra:

CAIO:

Ele te contou de Leandro?

ANDRÉ:

Contou.

CAIO:

Tudo?

ANDRÉ:

Acho que o que conseguiu.

CAIO:

Isso é mais do que eu tive.

André sentiu a frase.

ANDRÉ:

Caio...

CAIO:

Não. Tudo bem. Só doeu. Dor não é novidade.

Depois:

CAIO:

Cuidado com Leandro. Ele não entra arrombando porta. Ele elogia a fechadura.

No sábado, a quadra parecia menor.

A semifinal tinha atraído mais gente do que o normal. Namoradas, amigos, curiosos, jogadores de outros horários, homens encostados no alambrado com latas de cerveja, crianças correndo perto da entrada. Aquele lugar que antes parecia um segredo de homens suados agora parecia palco.

Marcelo estava insuportável.

Usava a braçadeira e a prancheta.

— Hoje é história — ele disse, andando de um lado para o outro. — Hoje é foco. Hoje é raça. Hoje é inteligência emocional.

Caio, alongando perto do banco, respondeu:

— Então perdemos.

Marcelo apontou a prancheta.

— Você, hoje, só fala depois de fazer gol.

— Vou fazer vários para poder conversar.

— Esse é o espírito.

Rafael estava no gol, de camisa preta, luvas novas. André percebeu a diferença na postura. Havia tensão, sim. Mas não era a mesma tensão dos outros jogos. Rafael parecia menos preocupado em controlar tudo e mais disposto a aguentar o que viesse.

Quando André se aproximou, Rafael falou baixo:

— Ele está aqui.

André não precisou perguntar quem.

Leandro estava do outro lado da grade, conversando com Nivaldo e dois jogadores do time adversário. Camisa polo azul, bermuda clara, tênis limpo demais para alguém que pretendia pisar em quadra. Sorria como se estivesse entre amigos.

Caio apareceu ao lado de André.

— Olha ele. O perfume de ameaça.

Rafael não desviou os olhos.

— Não dá palco.

Caio riu.

— Engraçado você falando isso.

André entrou no meio antes que virasse outra coisa.

— Hoje vocês dois vão jogar bola ou autobiografia?

Caio olhou para ele.

Rafael também.

Caio sorriu primeiro.

— Olha o substituto virando técnico.

— Não me chama assim.

Caio levantou as mãos.

— Desculpa.

O pedido saiu leve, mas verdadeiro.

Rafael viu.

André também.

A semifinal começou dura.

O time adversário era mais organizado, mais jovem e mais irritante. Tocavam rápido, pressionavam alto, gritavam muito. Marcelo tentava compensar com raça e instruções contraditórias.

— Fecha o meio! Abre na ponta! Não recua! Volta! Chuta! Não chuta daí, animal!

André corria mais do que queria. A coxa, que já melhorara, ainda dava sinais quando ele forçava. O suor descia pelos olhos. A boca secava. O cheiro da quadra vinha mais forte com tanta gente: grama quente, tênis queimando no atrito, desodorante vencido, cerveja aberta, nervos.

Caio jogava bem.

Muito bem.

A raiva dava velocidade a ele. Ou talvez a dor. Era difícil distinguir. Ele parecia menor sem as piadas, mas maior com a bola. Passava por um, por dois, voltava para marcar, xingava baixo, respirava alto.

Rafael fazia defesas difíceis.

Uma com a mão trocada.

Outra saindo nos pés de um atacante.

Na terceira, caiu de lado e bateu o ombro no chão. André correu instintivamente.

— Está bem?

Rafael se levantou rápido.

— Estou.

Caio chegou logo depois.

— Caiu velho.

Rafael olhou para ele.

— Defendi.

— Mas caiu velho.

Rafael quase sorriu.

Quase.

André viu e, por um segundo, não sentiu ciúme.

Sentiu tristeza.

Porque havia ali uma intimidade que não desaparecia só porque tinha doído. Caio conhecia Rafael de um jeito que André ainda não conhecia. E André conhecia uma versão de Rafael que Caio talvez nunca tivesse recebido. Nenhuma dessas verdades anulava a outra. Esse era o problema.

O primeiro gol veio contra eles.

Um chute desviado.

Rafael pulou, mas a bola mudou de direção e entrou.

Leandro, do lado de fora, bateu palmas devagar.

— Esse canto sempre foi teu problema, Rafa.

Rafael ficou imóvel.

André sentiu o corpo dele endurecer de longe.

Caio virou para a grade.

— Quer entrar e mostrar, Leandro?

Leandro sorriu.

— Se precisarem.

Marcelo gritou:

— Ninguém precisa de nada! Bora jogar!

Mas precisava.

Precisavam de equilíbrio.

De cabeça.

De não cair no jogo de Leandro.

André percebeu que Rafael estava diferente depois da provocação. Não tecnicamente ruim, mas mais preso. Como se o comentário tivesse tocado uma memória muscular. O corpo dele antecipava errado, pesava meio segundo antes, olhava demais para fora da quadra.

No intervalo, Marcelo tentou discurso.

— A gente está perdendo, mas moralmente...

Caio interrompeu:

— Se você disser que estamos ganhando moralmente, eu vou embora.

— Eu ia dizer vivos.

— Também é discutível.

André bebeu água e foi até Rafael, que estava encostado na trave.

— Ele está te puxando.

Rafael não fingiu não entender.

— Eu sei.

— Então solta.

— Fácil.

— Não. Mas necessário.

Rafael olhou para Leandro, depois para André.

— Ele sabe onde eu erro.

— E você sabe?

Rafael ficou quieto.

André continuou:

— Porque se você sabe, ele não tem vantagem. Só memória.

Rafael respirou fundo.

Caio, sentado no banco, ouviu.

— Ele sempre odiou quando alguém falava bonito melhor que ele.

Rafael olhou para Caio.

— Você está ajudando?

— Hoje estou multifuncional.

André olhou para os dois.

— Dá para vocês serem úteis ao mesmo tempo sem fazer disso um evento histórico?

Caio levantou a garrafa.

— Pela semifinal.

Rafael respondeu com um movimento mínimo de cabeça.

Era pouco.

Mas era alguma coisa.

O segundo tempo começou com André mais agressivo.

Não agressivo de bater. De se colocar. Ele parou de esperar a bola limpa, parou de pedir licença, parou de achar que era convidado. Marcou forte, roubou duas bolas, errou um passe e voltou para corrigir. Marcelo gritou tanto seu nome que parecia irmão em formatura.

Aos oito minutos, André roubou no meio e tocou para Caio.

Caio dominou, puxou para dentro e poderia chutar.

Não chutou.

Devolveu para André.

A bola veio forte.

André bateu de primeira.

Para fora.

Muito fora.

Rodrigo gritou:

— Porra!

Marcelo berrou:

— Boa ideia!

Caio passou por André e falou baixo:

— Na próxima, confia no teu pé.

— Meu pé não mereceu confiança.

— Então confia na raiva.

Aos doze, Rafael fez uma defesa absurda.

O atacante entrou sozinho, chutou cruzado. Rafael caiu no canto, esticou o braço e desviou com a ponta dos dedos. A bola bateu na trave e saiu.

A quadra gritou.

Leandro não aplaudiu.

Caio sim.

Um aplauso só, seco.

Rafael ouviu.

André viu.

Havia coisas que ainda doíam, mas naquele momento serviam ao time.

O empate veio de Caio.

Ele recebeu na ponta, deixou o marcador passar com um corte curto e bateu forte. A bola entrou alta, sem chance. O barulho explodiu. Marcelo correu atrás dele. Caio fugiu rindo.

— Agora posso falar! — gritou.

— Só uma frase! — Marcelo respondeu.

Caio apontou para Leandro do lado de fora.

— Essa foi de graça.

Leandro sorriu, mas não gostou.

O jogo ficou 1 a 1 até o fim.

Pênaltis.

Sempre pênaltis.

Marcelo reuniu o time como se fosse liderar uma tropa.

— Todo mundo respira. Ninguém inventa. Quem estiver com medo fala agora.

Rodrigo levantou a mão.

— Eu.

— Você não bate.

— Graças a Deus.

Foram escolhidos: Caio, André, Juninho, Marcelo e, se precisasse, Rafael.

— Eu? — Rafael perguntou.

Marcelo respondeu:

— Goleiro também tem pé.

Caio murmurou:

— Alguns têm até coração, dizem.

Rafael olhou para ele.

Caio desviou.

A disputa começou.

Caio bateu primeiro.

Foi até a marca com uma calma estranha. Rafael estava ao lado, fora do gol agora, observando. O goleiro adversário pulava na linha.

Caio correu curto.

Bateu no canto.

Gol.

Sem comemorar muito, voltou e passou por Rafael.

— É assim que não avisa.

Rafael respondeu:

— Aprendi.

André foi o segundo.

O coração batia no ouvido.

Ele colocou a bola na marca e ouviu Marcelo gritar alguma coisa motivacional que não entendeu. Viu Rafael perto da linha lateral. Viu Caio mais atrás. Viu Leandro observando, com aquele sorriso mínimo.

André respirou.

Confia na raiva.

Correu.

Chutou firme.

Gol.

Dessa vez, comemorou.

Não muito. Só o suficiente para sentir o corpo inteiro voltar para si.

Rafael bateu palmas.

Caio gritou:

— Aí!

André olhou para ele.

Caio sorriu.

Sem veneno.

A disputa seguiu empatada até a última cobrança do adversário.

Se o outro time fizesse, continuava.

Se perdesse, eles venciam.

Rafael foi para o gol.

Leandro aproximou-se da grade.

— Cuidado com o canto direito, Rafa.

Rafael ficou parado no centro.

Leandro continuou:

— Ou esquerdo. Você sempre confunde quando quer provar que mudou.

André sentiu vontade de atravessar a grade.

Caio deu dois passos naquela direção, mas Marcelo segurou.

— Não.

Caio falou entre dentes:

— Ele está fazendo de propósito.

— Eu sei — André disse.

Rafael olhou para eles.

Depois para Leandro.

Depois para a bola.

O adversário correu.

No último segundo, Rafael não antecipou.

Esperou.

O chute veio forte no canto esquerdo.

Rafael voou.

Defendeu.

A quadra explodiu.

Marcelo pulou em cima dele antes que Rafael levantasse. Rodrigo gritou como se tivesse jogado bem. Juninho caiu de joelhos. André correu até o gol, mas parou um pouco antes. Caio chegou primeiro.

Rafael estava no chão, com a bola presa contra o peito.

Caio estendeu a mão.

Por um segundo, Rafael apenas olhou.

Depois aceitou.

Caio puxou.

Rafael levantou.

Não se abraçaram.

Ainda não.

Mas ficaram perto o bastante para que todos os anos mal resolvidos respirassem entre eles.

Caio falou baixo:

— Boa defesa.

Rafael respondeu:

— Boa cobrança.

— Eu sei.

Rafael quase sorriu.

André chegou então.

Rafael olhou para ele.

O olhar dizia coisas demais para um lugar tão cheio.

André tocou o braço dele.

— Você esperou.

Rafael assentiu.

— Esperei.

A palavra tinha outro sentido.

Os três sabiam.

Do lado de fora, Leandro já não sorria.

No vestiário, a vitória transformou o ar.

Era o mesmo lugar: armários escuros, banco de madeira, chão molhado, cheiro de suor e sabonete barato. Mas havia uma euforia animal espalhada pelos corpos. Camisetas eram jogadas, toalhas estalavam, garrafas de água rolavam no chão. Marcelo subiu no banco e começou um discurso.

— Senhores, hoje nós provamos que organização, humildade e planilha...

Caio gritou:

— A planilha nem entrou em campo!

— Entrou moralmente!

— Lá vem ele com moralmente!

A risada foi geral.

André tirou a camiseta devagar, sentindo a pele arder de cansaço. Estava exausto e estranhamente leve. Rafael estava ao lado, também sem camisa, o peito ainda subindo e descendo com força. A cicatriz perto da costela brilhava de suor. André olhou rápido. Rafael percebeu.

— Está tudo bem? — Rafael perguntou.

— Está.

— Mesmo?

André pensou.

— Por enquanto.

Rafael aceitou.

Do outro lado, Caio tirava a chuteira sentado, cabelo molhado de suor, expressão menos pesada do que no começo do dia. Ainda havia dor, sim. Mas havia também orgulho. Talvez jogar bem salvasse alguma coisa nele. Talvez ser necessário ao time o impedisse de se sentir descartável.

Leandro apareceu na porta do vestiário.

A euforia morreu aos poucos.

Marcelo desceu do banco.

— Área restrita aos classificados.

Leandro sorriu.

— Vim dar parabéns.

Caio levantou.

— Deixa na recepção.

Leandro ignorou e olhou para Rafael.

— Bela defesa. Dessa vez você esperou.

Rafael não respondeu.

Leandro entrou um passo.

— Fiquei feliz por você.

André viu antes: o veneno viria embrulhado em afeto.

Leandro continuou:

— É bom ver que finalmente aprendeu alguma coisa comigo.

Caio avançou, mas Rafael levantou a mão.

— Não.

Caio parou.

Rafael deu um passo à frente.

— Você não entra mais aqui.

Leandro inclinou a cabeça.

— Aqui onde? Na quadra? No vestiário? Na tua vida?

Rafael sustentou.

— Em nenhum lugar onde precise machucar alguém para se sentir dono.

O vestiário ficou em silêncio.

Leandro sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Bonito. Foi ele que te ensinou?

Olhou para André.

André respondeu calmo:

— Não. Acho que você ajudou bastante.

Alguns homens murmuraram.

Caio soltou um riso baixo.

Leandro olhou para ele.

— E você, Caio? Agora faz parte da torcida organizada do casal?

A frase atingiu.

André sentiu.

Rafael também.

Caio respirou fundo.

Por um segundo, pareceu que faria piada. Que atacaria. Que usaria o próprio veneno como escudo.

Mas ele apenas disse:

— Não. Eu faço parte do time.

A simplicidade da resposta foi mais forte do que qualquer deboche.

Marcelo bateu palma uma vez.

— Pronto. Lindo. Emocionante. Agora sai, Leandro.

Leandro olhou para Nivaldo, que estava no corredor.

— Vocês ainda vão precisar resolver o horário.

André pegou a mochila e tirou o celular.

— Vamos resolver.

Leandro olhou para ele.

— Vai mesmo?

— Vou.

— Cuidado. Às vezes, quando a gente mexe em número, descobre coisa que preferia deixar quieta.

André sorriu.

— Eu trabalho bem com coisa desconfortável.

Caio murmurou:

— Trabalha mesmo.

Rafael olhou para André com algo parecido com orgulho.

Leandro percebeu também.

E isso pareceu incomodá-lo mais do que a vitória.

— Boa sorte — ele disse.

Saiu.

Mas deixou o clima estragado atrás de si.

Depois do banho, foram para o bar.

A vitória pedia cerveja, pastel e exagero. Marcelo estava radiante. Recontava a defesa de Rafael como se tivesse participado diretamente dela. Rodrigo dizia que sua presença psicológica confundira o adversário. Juninho queria saber se final tinha troféu.

Caio sentou ao lado de André.

Não colado.

Ao lado.

Rafael estava do outro lado da mesa, conversando com Marcelo sobre a final, mas seu olhar vinha e voltava.

Caio percebeu.

— Ele está aprendendo a olhar sem puxar coleira.

André olhou para ele.

— E você?

— Eu estou aprendendo a sentar do lado sem tentar incendiar a mesa.

— Está indo bem.

— Não elogia muito. Posso regredir.

André riu.

Caio ficou sério depois.

— Você gosta dele.

André não desviou.

— Gosto.

Caio assentiu.

Doía, mas não era surpresa.

— Ele gosta de você também.

— Eu sei.

— Não, não sabe. Você acha. Porque ele deseja, porque ele fica, porque ele tenta. Mas gostar... Rafael gosta com medo. É mais difícil de reconhecer.

André observou Rafael do outro lado. Ele estava ouvindo Marcelo, mas, ao mesmo tempo, atento a André. Como se ainda não soubesse descansar dentro do próprio sentimento.

— E você? — André perguntou.

Caio sorriu de leve.

— Eu gosto com raiva.

— Percebi.

— É meu charme.

— É tua tragédia.

Caio olhou para o copo.

— Também.

O silêncio entre eles não foi ruim.

Foi triste.

Mas não ruim.

— Você sabe que eu não posso ser a solução do que ele fez com você — André disse.

— Sei.

— E nem a vingança.

— Também sei.

— E mesmo assim?

Caio olhou para ele.

— Mesmo assim eu ainda penso em você.

André sentiu a frase no corpo.

Não como antes.

Ou também como antes, mas com mais cuidado agora.

Caio continuou:

— Menos do que eu penso nele? Não sei. De um jeito diferente? Sim. Mas penso.

— Caio...

— Calma. Não estou pedindo nada. Hoje não.

— Hoje?

Caio sorriu.

— Eu ainda sou eu.

André balançou a cabeça.

Mas sorriu.

Mais tarde, Rafael levou André para casa.

No carro, o silêncio era outro.

Não leve. Nunca leve. Mas menos armado.

— Você e Caio conversaram — Rafael disse.

— Conversamos.

— Sobre mim?

— Também.

Rafael assentiu.

— Senti ciúme.

André virou para ele.

Rafael continuou olhando para a rua.

— Estou falando antes de virar comportamento idiota.

André sorriu.

— Parabéns. Crescimento.

— Doloroso.

— Geralmente é.

Rafael parou no sinal.

— Eu não quero impedir vocês de conversarem.

— Ótimo.

— Mas quero saber onde eu fico.

— Rafael, você não fica por posicionamento tático.

Ele quase riu.

— Estou tentando.

— Eu sei.

André olhou para a rua molhada de luz amarela.

— Você fica onde conseguir estar inteiro. Não no lugar que você vigia para ninguém tomar.

Rafael absorveu.

— E você?

— Eu fico onde eu escolher.

— E escolheu?

André demorou.

— Estou escolhendo.

Rafael olhou para ele.

Não pareceu satisfeito.

Mas não fugiu.

— Justo.

A picape parou diante do prédio.

André não saiu logo.

— Sobe?

Rafael olhou para ele.

— Você quer?

— Quero.

— Mesmo depois de hoje?

— Principalmente depois de hoje.

Rafael desligou o carro.

Subiram.

No apartamento, não houve pressa.

Talvez porque a urgência já tivesse encontrado lugar no capítulo anterior. Talvez porque aquele dia tivesse sido pesado demais para transformar tudo em incêndio. Rafael entrou, tirou o tênis, lavou as mãos na pia como quem precisava se limpar do jogo e do passado.

André apareceu atrás dele.

— Ele ainda te mexe.

Rafael fechou a torneira.

— Leandro?

— Sim.

— Mexe.

André gostou da honestidade, mesmo doendo.

Rafael virou.

— Mas não me puxa.

— Tem diferença?

— Hoje teve.

André tocou o peito dele.

— E Caio?

Rafael respirou fundo.

— Também mexe.

— E puxa?

Rafael segurou a mão de André.

— De outro jeito.

— Que jeito?

— Culpa. Saudade de uma coisa que nunca foi direito. Vontade de não ser o vilão da história dele.

André assentiu.

— E eu?

Rafael olhou para ele.

A resposta demorou.

— Você me puxa para frente.

André ficou quieto.

Rafael completou:

— E isso assusta mais.

André não soube o que dizer.

Então beijou Rafael.

Foi um beijo menos desesperado, mas não menos intenso. Um beijo de depois da batalha. O corpo dos dois ainda carregava o jogo, a vitória, o cansaço, o vestiário, a cerveja. Mas ali, na cozinha pequena, havia algo mais íntimo que desejo: a tentativa de não mentir.

Rafael ficou naquela noite.

Sem prometer demais.

Sem fugir.

Sem transformar o celular em saída.

Quando uma mensagem chegou, ele olhou para André.

— Pode ver.

André pegou.

Caio.

CAIO:

Final semana que vem. Não deixa ele tremer.

André mostrou a Rafael.

Rafael leu.

A expressão dele mudou. Não culpa. Não ciúme. Uma tristeza mais calma.

Ele pegou o próprio celular e respondeu no grupo da pelada, não no privado:

RAFAEL:

Ninguém treme. A gente ganha junto.

Caio visualizou.

Não respondeu.

Mas alguns segundos depois, mandou no privado para André:

CAIO:

Olha só. O goleiro aprendeu plural.

André riu.

Rafael perguntou:

— O quê?

— Nada.

— Caio?

— Caio.

Rafael respirou fundo, mas não endureceu.

— Tudo bem.

André olhou para ele.

— Está mesmo?

Rafael deitou ao lado dele, ainda com cheiro de banho e cansaço.

— Não totalmente.

— Mas?

— Mas eu fico.

André sorriu no escuro.

A frase, que tinha sido de Caio, agora soava diferente na boca de Rafael.

Não como roubo.

Como aprendizado.

Na manhã seguinte, a planilha de Marcelo chegou com mais comprovantes.

E, entre eles, um nome apareceu de novo.

Leandro.

Duas vezes.

Uma delas em um pagamento recente.

Depois de ele supostamente já estar fora havia meses.

André olhou para Rafael.

Rafael olhou para o celular.

O passado não tinha voltado só para provocar.

Tinha voltado para cobrar.

E talvez para ser desmascarado.

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