Gerson foi embora numa manhã de céu limpo. Não houve despedidas grandiosas nem promessas. Houve apenas o ranger da caminhonete antiga sendo ligada, o barulho das malas acomodadas na carroceria e o canto insistente de um bem-te-vi escondido em alguma árvore próxima.
João Carlos permaneceu parado na varanda, com uma xícara de café nas mãos. O coração apertado, os olhos marejados e aquele nó dolorido na garganta. Luís observava tudo alguns passos à frente.
Quando estava pronto, Gerson veio e cumprimentou João primeiro. Os dois trocaram um abraço apertado e demorado demais para ser casual e breve demais para carregar o peso de tudo o que haviam vivido. Nenhum dos dois mencionou o passado. Já haviam dito o suficiente. Quando se aproximou de Luís, o peão demorou alguns segundos antes de falar. Parecia procurar as palavras certas, como se pudesse encontrar, depois de tantos anos, uma maneira elegante de se despedir de alguém que ainda amava.
— Cuida de ocê — disse, por fim.
Luís engoliu em seco.
— Ocê também.
Houve um instante em que ambos pareceram prestes a esquecer todas as circunstâncias e simplesmente se abraçarem diante de João Carlos, dos cachorros do terreiro e do próprio mundo. Mas não o fizeram. Talvez porque ainda fossem filhos do mesmo tempo. Talvez porque certas prudências custem a desaparecer.
Gerson colocou a mão no ombro do rapaz. Apertou levemente. Depois entrou na caminhonete e deu a partida. João Carlos entrou em casa, talvez porque não queria ver seu amor partir, talvez porque não queria que ninguém o visse chorando, talvez quis deixar Luís se expressar da forma como ele nunca pudera... ou talvez tenha sido todos esses motivos.
Assim que João entrou em casa, Gerson saiu da caminhonete e abraçou Luís com força e o beijou com ternura, mas também com muita paixão, a ponto de deixar ambos excitados. Porém, foi também um beijo com gosto salgado de despedida e de saudade antecipada. Quando, enfim, se soltaram, o peão entrou novamente na caminhonete e deu novamente a partida e saiu, olhando Luís pelo para-brisa e depois pelo retrovisor.
Luís permaneceu parado enquanto o veículo desaparecia lentamente pela estrada de terra, levantando uma nuvem avermelhada de poeira sob o sol daquela manhã. E só quando o carro deixou de ser visível é que percebeu que estava chorando.
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Os meses que se seguiram não trouxeram milagres. A convivência entre pai e filho continuou marcada por hesitações. Havia dias bons, e outros ruins. Dias em que João Carlos voltava a ser ríspido sem motivo aparente. Dias em que Luís se fechava dentro do próprio silêncio. Contudo, algo havia mudado. Talvez porque, depois de tantas verdades dolorosas, fingir já parecesse cansativo demais.
João Carlos passou a perguntar como tinha sido a feira. Luís começou a responder com maiores detalhes. Às vezes comentavam sobre a chuva, sobre o preço dos produtos, sobre o vizinho que perdera algumas galinhas para uma raposa. Assuntos pequenos. Mas eram assuntos dos dois.
Numa tarde qualquer, enquanto consertavam uma cerca próxima ao rio, João Carlos apoiou-se no mourão recém-fixado e comentou:
— Seu avô fazia esse serviço melhor do que eu.
Luís sorriu discretamente.
— E ocê fazia melhor que eu.
João Carlos olhou para o filho.
Depois desviou os olhos para o horizonte.
— Não exagera.
Mas havia satisfação em sua voz. Era pouco. Quase nada. E, ainda assim, significava muito.
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A fazenda continuou existindo do mesmo jeito. As vacas precisavam ser ordenhadas. As plantações exigiam cuidado. As chuvas chegavam e partiam conforme a vontade imprevisível do céu mineiro. Entretanto, às vezes, ao atravessar determinado trecho do pasto ou do curral, Luís lembrava-se da chuva daquela tarde distante.
Ao passar pelo rio, recordava-se das conversas despreocupadas sob o calor do verão. Ao olhar para o quartinho onde Gerson tinha ficado, lembrou-se de sua primeira vez e pensava em todas as histórias que jamais conheceria completamente.
E então compreendia que certas pessoas permanecem conosco mesmo depois de partir. Não porque continuem presentes, mas porque modificaram irreversivelmente a maneira como enxergamos o mundo.
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No ano seguinte, numa manhã movimentada de feira, Luís organizava algumas caixas de hortaliças quando percebeu um homem alto atravessando a praça, chapéu de couro protegendo o rosto do sol. Seu coração disparou. Durante alguns segundos, acreditou reconhecer o jeito de andar, a postura, a silhueta.
Abandonou o que estava fazendo e aproximou-se apressadamente, olhando fixamente para o homem. Mas ao chegar bem perto, viu que era um estranho. Um homem qualquer.
Luís permaneceu parado no meio da rua de terra batida. O peito apertado. Um sorriso melancólico. Porque a saudade também possui seus pequenos constrangimentos.
O leitor talvez imagine que a saudade se manifeste através de grandes gestos, cartas guardadas em gavetas ou lágrimas derramadas durante madrugadas silenciosas; contudo, a experiência ensina outra coisa.
A saudade costuma ser mais modesta. Ela se esconde em enganos. Num rosto visto de longe. Numa voz parecida ouvida no mercado. Num chapéu reconhecido à distância...
É assim que os ausentes permanecem entre nós. Não regressam de verdade. Apenas atravessam, de vez em quando, os caminhos da memória. E talvez seja melhor que seja assim. Porque algumas pessoas pertencem mais às lembranças do que ao presente. Não por terem sido esquecidas. Mas precisamente porque jamais serão.
Luís voltou à barraca, terminou o trabalho e depois fez o caminho de volta para casa. Ao chegar ao sítio, encontrou João Carlos sentado na varanda. Havia duas xícaras de café sobre a mesa. O pai ergueu os olhos.
— Como foi a feira?
Luís acomodou-se na cadeira ao lado. Observou os morros recortando o horizonte sob a luz dourada do fim de tarde. Pensou em Mariana. Pensou em Gerson. Pensou no menino triste que fora aos dezoito anos. Depois olhou para o homem sentado ao seu lado. Não o pai severo de suas memórias. Mas alguém igualmente ferido, igualmente imperfeito, igualmente humano.
— Foi boa — respondeu.
João Carlos assentiu. Empurrou uma das xícaras em direção ao filho. Permaneceram em silêncio depois disso. Mas já não era o mesmo silêncio de antes. Alguns silêncios nascem do medo. Outros, da vergonha. Existem aqueles construídos pela mágoa e pela incapacidade de pedir perdão. Entretanto, há silêncios raros, conquistados depois de muita dor, que significam apenas paz.
Se o leitor chegou até este ponto esperando descobrir quem venceu ou perdeu nesta história, receio desapontá-lo. A vida raramente distribui seus resultados de maneira tão organizada.
Gerson partiu. Luís permaneceu. João Carlos envelheceu um pouco mais. Mariana continuou morta. E, ainda assim, nenhum deles saiu exatamente derrotado. Porque existem batalhas cujo prêmio não é a felicidade. É apenas a possibilidade de seguir adiante com menos peso do que antes. O que, convenhamos, já não é pouca coisa.
Enquanto o sol desaparecia atrás das montanhas, Luís pensou em Gerson mais uma vez. Não com raiva. Nem com arrependimento. Mas com gratidão. Porque certos amores não permanecem para sempre, e até duram pouco. Ainda assim, deixam em nós a coragem necessária para viver de maneira diferente. E talvez crescer signifique justamente isso: aprender que o amor não apaga as feridas do passado, mas pode impedir que elas continuem determinando o futuro.
Na varanda daquela casa, cercado pelo cheiro de café recém-passado e pelo canto distante das cigarras, Luís compreendeu, enfim, que a vida raramente oferece finais perfeitos. O máximo que concede são recomeços discretos.
E, às vezes, isso basta.